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Não são palavras cruzadas nem xadrez: a melhor atividade para estimular a memória após os 65 anos

Grupo de idosos a jogar dominó numa mesa bem iluminada, sorrindo e interagindo alegremente.

À volta de um conjunto de mesas de plástico, uma dúzia de pessoas na casa dos sessenta e muitos e setenta e poucos inclina-se para a frente, olhos vivos, mãos a fazer gestos pequenos e precisos. Há risos, alguns gemidos em brincadeira e aquele murmúrio baixo que se ouve quando as pessoas estão profundamente concentradas, mas a divertirem-se.

No papel, não parece nada de especial: peças coloridas, uma grelha impressa, uma folha de pontuação preenchida a esferográfica. Mas quase se consegue ver os cérebros a trabalhar. Nomes são lembrados. Regras são adaptadas. Histórias antigas saem do esconderijo, são sacudidas do pó e partilhadas.

Não são grandes mestres de xadrez nem viciados em palavras cruzadas. São algo muito mais comum - e o efeito na memória deles está longe de ser banal. O segredo está escondido à vista de todos.

Nem puzzles, nem xadrez: porque é que os jogos sociais vencem o treino cerebral a solo

Pergunte à maioria das pessoas com mais de 65 anos como estão a “manter o cérebro afiado” e ouvirá a mesma lista: palavras cruzadas, Sudoku, talvez uma app no telemóvel com neurónios brilhantes no logótipo. Essas ferramentas têm o seu lugar, sim, mas observe um grupo semanal de jogos de tabuleiro na comunidade e nota-se algo diferente. Rostos expressivos. Vozes a sobrepor-se. Piadas a voar por cima das cartas.

A melhor atividade para reforçar a memória depois dos 65 não é solitária; é barulhenta. É brincadeira social estruturada: jogos de tabuleiro, jogos de cartas e jogos em grupo que misturam regras, estratégia e conversa. O cérebro não está apenas a procurar a resposta certa. Está a acompanhar de quem é a vez, a lembrar-se de uma história da semana passada, a seguir uma regra nova que alguém acabou de inventar no momento.

Num lar fora de Bristol, a equipa começou uma simples “tarde de jogos” uma vez por semana: Rummikub, dominó, um baralho de cartas em letra grande. Em três meses, uma enfermeira reparou em algo que não estava à espera. Um residente que normalmente se esquecia de que dia era começou a lembrar os outros das pontuações da sessão anterior. Outra mulher, calada e retraída, começou a cumprimentar os colegas pelo nome.

Nenhum deles estava a fazer puzzles elaborados. Estavam a fazer algo muito mais humano: interagir, negociar, picar-se uns aos outros quando alguém falhava uma jogada. Aquele compromisso pequeno e previsível na semana criou uma âncora na memória. O ritual das “quartas-feiras de jogos” tornou-se fácil de recordar e, com ele, vieram fragmentos de conversa, rostos, emoções. De repente, a memória deixou de ser um músculo abstrato para treinar; passou a estar embrulhada em pessoas de quem gostavam.

Os neurologistas têm um termo seco para isto: “atividades de lazer social e cognitivamente exigentes”. Na prática, significa que jogos que misturam pensar e falar ativam mais zonas do cérebro ao mesmo tempo. Trabalha-se a memória de trabalho quando se mantêm as regras na cabeça. Treina-se a atenção quando se acompanha o tabuleiro. Mexe-se na memória emocional quando um jogo faz lembrar jogar às cartas com o avô.

Essa combinação parece ser protetora. Estudos que acompanharam adultos mais velhos durante vários anos sugerem que quem joga regularmente jogos em grupo tem um declínio mais lento das capacidades de raciocínio do que quem se fica por puzzles solitários em papel. O cérebro gosta de variedade. Gosta de surpresas. E gosta, em especial, de outras pessoas.

Como transformar uma simples noite de jogos em verdadeiro treino de memória

A boa notícia: isto não passa por comprar uma subscrição cara de “treino cerebral”. Um baralho de cartas já gasto pode ser uma ferramenta poderosa para a memória, se for bem usado. Comece com jogos fáceis de aprender, mas que exijam acompanhar informação que muda: Rummy, Uno, jogos simples de vazas como o Whist.

Jogue com pelo menos outra pessoa, idealmente duas ou três. Diga as jogadas em voz alta: “Vou descartar um sete vermelho”, “Acabaste de jogar a tua última carta”. Essa camada verbal ajuda o cérebro a codificar a sequência. Vá alternando quem explica as regras todas as semanas, mesmo que todos as conheçam. Ter de explicar uma regra por palavras próprias puxa mais pela memória do que lê-la em silêncio numa página.

Há uma armadilha em que muitos caem: ficar anos no mesmo jogo familiar, em piloto automático mental. Sabe bem, mas o cérebro torna-se preguiçoso. A cada poucas semanas, introduza uma variação. Acrescente uma regra da casa. Mude para outro jogo da mesma família. Se adora Scrabble, experimente Bananagrams. Se jura por palavras cruzadas, experimente uma versão colaborativa em que as pistas são lidas e discutidas em grupo.

Em termos práticos, mantenha as sessões curtas e agradáveis. Quarenta e cinco a sessenta minutos chegam para desafiar sem esgotar. Inclua pausas. Deixe as pessoas passar uma ronda se se sentirem sobrecarregadas. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Duas boas sessões por semana, apreciadas em vez de suportadas, valem mais do que um “exercício cerebral” diário forçado que toda a gente secretamente detesta.

Uma professora reformada em Lyon disse-o de forma simples:

“As palavras cruzadas mantinham-me ocupada. Os jogos com os meus amigos trouxeram as minhas memórias de volta à vida.”

Essa mudança - do esforço silencioso para a brincadeira partilhada - pode alterar a forma como um adulto mais velho se sente em relação à própria mente. Em vez de se testar e notar cada falha, está a rir-se dos erros, a repetir a história, a tentar outra vez.

Para tornar fácil começar, pense em passos pequenos e concretos:

  • Escolha um jogo este mês que misture sorte e estratégia (por exemplo, Rummikub, Uno, dominó).
  • Convide uma ou duas pessoas para uma hora de “café e cartas”, não para uma sessão de “treino cerebral”.
  • Mantenha as regras visíveis, em letra grande, no meio da mesa.
  • Rode papéis: responsável pela pontuação, leitor das regras, baralhador - cada papel dá um empurrãozinho à memória.

Fazer durar: transformar os jogos num ritual semanal para o cérebro

A verdadeira magia não vem de uma tarde heroica de jogos. Vem de transformar esse momento num ritmo. Escolha um dia e uma hora fixos e trate isso como uma marcação: “Terça-feira às 15h, jogos em casa da Joana.” Ao fim de algumas semanas, a própria frase torna-se um gancho de memória.

Muitos maiores de 65 têm mais dificuldade em lembrar-se de se lembrar do que em jogar. Por isso, rodeie o ritual de pistas. Um bilhete no frigorífico. Um alarme no telemóvel com a piada interna do grupo. Um lembrete recorrente no WhatsApp da família: “Hora do jogo para o avô!” Estes pequenos empurrões não são batota; são andaimes.

Outra forma de aprofundar o benefício para a memória é associar pequenas histórias a cada sessão. Tire uma fotografia do grupo sempre que se juntarem e escreva uma legenda de uma frase: “O dia em que a Maria ganhou a todos no Rummikub”, “A tarde em que faltou a luz e jogámos à janela”. Vejam as fotos antes da sessão seguinte e tentem recordar o que aconteceu.

Ao longo de uma estação, não estão apenas a jogar. Estão a construir uma linha do tempo por onde o cérebro consegue voltar, momento a momento. Essa história vivida - a piada recorrente sobre quem perde sempre, a caneca que alguém entornou, o novo vizinho que se juntou na semana passada - dá à memória algo macio e quente a que se agarrar. Numa manhã tranquila, são esses detalhes que surgem inesperadamente e fazem alguém sorrir sozinho na cozinha.

Ponto-chave Detalhes Porque é importante para os leitores
Escolher jogos com regras simples, mas situações que mudam Opte por jogos como Rummy, Uno, dominó ou Rummikub, em que os jogadores têm de acompanhar cartas ou peças ao longo de várias rondas, mas aprendem o básico em 10 minutos. Este nível de desafio mantém a memória e a atenção ativas sem criar stress ou frustração, por isso as pessoas querem voltar.
Jogar em pequenos grupos regulares Procure 2–5 jogadores, uma ou duas vezes por semana, na mesma hora e no mesmo local (por exemplo, “quinta às 16h no café” ou “domingo depois do almoço em casa”). Contacto social regular mais repetição cria marcas de memória mais fortes do que puzzles solitários feitos ao acaso.
Acrescentar conversa e papéis a cada jogo Incentive os jogadores a explicar regras, marcar pontos, anunciar as jogadas e partilhar pequenas histórias ligadas ao jogo ou à semana. Ao juntar fala, emoção e responsabilidade ao jogo, ativam-se mais redes cerebrais e as memórias ganham “ganchos” extra onde se prender.

Numa noite tranquila, com a televisão a resmungar ao fundo e a casa a parecer grande demais, um baralho de cartas pode parecer uma coisa muito pequena. Ainda assim, essa pequena coisa pode ser a diferença entre andar à deriva e envolver-se. Entre mais uma noite perdida a deslizar o dedo no ecrã e uma hora em que o tempo voa e o cérebro acorda.

Todos já vivemos aquele momento em que um detalhe parvo - uma canção, o cheiro do café, uma lembrança de férias - faz subir de repente uma cena inteira. Os jogos em grupo funcionam nessa mesma cablagem escondida. Envolvem nomes, datas e regras em risos, competição e rotina partilhada. A memória deixa de ser um exercício frio e passa a ser algo por que as pessoas realmente anseiam.

Por isso, quando alguém diz: “Se calhar devia fazer mais palavras cruzadas”, há uma pergunta gentil que vale a pena fazer: e se a melhor coisa que podia fazer pela sua memória não fosse mais uma grelha solitária, mas mais uma cadeira à mesa? O tabuleiro, as cartas, as peças são quase uma desculpa. O verdadeiro trabalho é feito pelos olhares que se cruzam por cima da mesa, pelo “É a tua vez”, pelo “Lembras-te da semana passada quando…?” Esses são os momentos que ficam. São eles que, discretamente, treinam o cérebro, muito depois de a última carta ter sido jogada.

FAQ

  • Os jogos em grupo são mesmo melhores para a memória do que as palavras cruzadas? Treinam coisas diferentes. As palavras cruzadas são ótimas para recordar palavras e vocabulário, mas os jogos em grupo acrescentam interação social, alternância de vez e contexto emocional. Essa mistura dá mais trabalho ao cérebro, o que parece apoiar a memória ao longo do tempo.
  • E se alguém no grupo tiver demência em fase inicial? Fique por jogos com poucas regras, visuais claros e rondas curtas. Jogue de forma cooperativa em vez de competitiva quando for preciso e dê mais tempo. O objetivo é envolvimento e prazer, não ganhar.
  • Quanto deve durar uma sessão de jogo para maiores de 65? A maioria das pessoas dá-se bem com 45–60 minutos, incluindo uma pequena pausa. Se a energia estiver baixa, dois jogos de 20 minutos com chá pelo meio podem resultar melhor do que uma partida longa e intensa.
  • Não temos muita gente. Dois jogadores ainda beneficiam? Sim. Mesmo com apenas dois jogadores, há conversa, planeamento e lembrança de regras. Se possível, varie o tipo de jogo para o cérebro não entrar em piloto automático.
  • E se ninguém gostar de jogos de tabuleiro tradicionais? Veja alternativas que continuem a misturar regras e contacto social: noites de quiz simples em casa, dados de histórias, mímica com cartas com imagens ou puzzles colaborativos ao estilo “escape room” pensados para famílias.

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