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Equipas de psicologia identificam três preferências de cor associadas à baixa autoconfiança.

Pessoa a escolher roupa num quarto iluminado, com tecido e bloco de notas sobre a cama.

Her blazer é impecável, o portátil está coberto de autocolantes motivacionais, o batom perfeito. E, no entanto, enquanto espera pelo café, não para de puxar a manga, de verificar o telemóvel, de olhar para a porta como se estivesse à espera que entrasse alguém mais confiante para lhe tomar o lugar.

Tudo nela pertence à mesma família de cores: a mala, a capa do telemóvel, até o caderno. E não é nada subtil. Sente-se o esforço, como um figurino escolhido com cuidado antes de subir ao palco.

Em laboratórios de psicologia e consultórios de terapia, equipas continuam a notar o mesmo padrão: três preferências de cor recorrentes que aparecem, vezes sem conta, quando a autoconfiança está a estalar por baixo de uma superfície polida.

A estranha ligação entre cores favoritas e autoconfiança frágil

Pergunte a alguém, numa festa, qual é a sua cor favorita e a resposta virá com leveza, como se tivesse perguntado o topping preferido na pizza. Em questionários de psicologia, a mesma pergunta cai de outra forma. As respostas são cruzadas com escalas de autoestima, pontuações de imagem corporal ou indicadores de ansiedade.

Com o tempo, os dados começam a sussurrar. Não sobre “vermelho significa paixão” ou “azul significa calma”, como nos posts pirosos do Instagram. Mas sobre grupos. Combinações. Pessoas que continuam a escolher os mesmos tons, repetidamente, quando por dentro não se sentem sólidas.

Um desses grupos é a preferência extrema pelo preto. Não o preto ocasional, mas o preto em tudo: roupa, acessórios, telemóvel, até decoração. Em vários estudos universitários sobre autopresentação, participantes com forte preferência pelo preto tinham maior probabilidade de relatar ansiedade social e medo de avaliação negativa. O preto torna-se um escudo. Uma forma de dizer “não olhem demasiado de perto”, fingindo que é apenas um gosto minimalista.

Outro padrão recorrente: pastéis muito suaves, esbatidos, em pessoas que se descrevem como “demais” ou “demasiado sensíveis”. Terapeutas notam-no em diários, fundos de ecrã, paredes de quarto. Rosas pálidos, azuis bebé, lavandas enevoados. Estes tons apaziguadores não são aleatórios. Muitas vezes surgem quando alguém sente que precisa de encolher a sua presença, suavizar as arestas, evitar ser “chamativo”.

O terceiro grupo de cores que aparece repetidamente na investigação sobre autoestima e autopresentação é o dos neutros hipercontrolados. Bege, greige, pedra, taupe. Guarda-roupas inteiros construídos como um quadro do Pinterest: com bom gosto, seguros, impossíveis de criticar. Pessoas com este padrão admitem muitas vezes em terapia que têm pavor de “errar” à frente dos outros. Os neutros prometem zero drama, zero julgamento, zero risco.

Nada disto significa que roupa preta, estética pastel ou um guarda-roupa neutro equivalham automaticamente a baixa autoconfiança. A vida não é um horóscopo de cores. O que os psicólogos continuam a apontar é a rigidez da escolha. Quando alguém recusa qualquer outro tom, quando todos os objetos têm de caber na mesma paleta, a cor começa a falar mais de medo do que de gosto.

Como estas escolhas de cor nos protegem, discretamente, de nos sentirmos expostos

Num estudo transcultural sobre cor da roupa e autoestima, investigadores pediram aos participantes que escolhessem outfits para uma entrevista de emprego, um primeiro encontro e um dia casual com amigos. Os que tinham níveis mais baixos de confiança optavam repetidamente por paletas mais escuras e seguras, independentemente da situação.

O preto dominava o grupo mais ansioso nos três cenários. Em entrevistas posteriores, muitos diziam coisas como: “O preto emagrece”, “Com preto não há como falhar”, ou “Não chama a atenção”. Não estavam a tentar exprimir uma personalidade arrojada. Estavam a tentar apagar as partes de que se envergonhavam.

Com os pastéis, a dinâmica inverte-se. Pessoas atraídas por tons ultra-suaves relatam frequentemente medo de conflito ou de serem vistas como agressivas. Uma terapeuta descreve pacientes que se vestem da cabeça aos pés em tons claros como alguém que quer sentir-se “intocável, como uma nuvem”. É um sussurro visual: “Não vou incomodar. Sou simpática. Ocupo muito pouco espaço.”

Os neutros contam uma história diferente. Bege e greige são as cores favoritas de quem tem medo de “parecer ridículo”. Em algumas auditorias de psicologia organizacional, equipas notaram que os colaboradores com mais receio de falar em reuniões se vestiam em tons quase idênticos durante toda a semana. A ideia não é brilhar, é nunca ser o motivo de alguém virar a cabeça e ficar a olhar.

Os psicólogos não leem estas escolhas como vaidade. Vêem-nas como estratégias de proteção. Quando a autoconfiança é frágil, destacar-se pode parecer fisicamente ameaçador. A cor torna-se uma negociação inconsciente com o mundo: “Se eu parecer controlado, com bom gosto, ou invisível, talvez não vejas quão inseguro me sinto por dentro.”

Transformar os seus hábitos de cor num reset discreto de confiança

O passo mais útil não é deitar fora o guarda-roupa e pintar a sala de um dia para o outro. É ficar curioso. Comece por reparar: que cor escolhe automaticamente nos dias em que se sente pequeno, ansioso, ou exposto? Normalmente, é aí que está o sinal.

Escolha um pequeno objeto ligado a essa “cor de segurança” e mude-o. Se é sempre preto, compre uma T-shirt verde-escuro ou azul-marinho. Se é pastel, experimente um tom mais quente ou mais vivo na mesma família. Se é neutro, acrescente um lenço ou um caderno com uma cor rica. Pequenas experiências são mais fáceis de aceitar para o sistema nervoso do que transformações dramáticas.

Depois observe o que acontece na primeira vez que o usa em público. Para onde vão os seus olhos? Como reage o seu corpo? Não está a tentar tornar-se um arco-íris. Está a testar se os seus piores medos sobre ser visto são mesmo verdade.

Aqui é onde muita gente tropeça: tenta “fingir confiança” com um vestido vermelho chocante ou sapatilhas néon, sente-se horrivelmente exposta e nunca mais tenta. A distância entre o que sente por dentro e o que mostra por fora é grande demais.

Uma forma mais suave é deslizar. Imagine uma escala de 1 (invisível) a 10 (centro das atenções). Se as suas escolhas habituais estão no 2 com preto ou bege, salte para o 3 ou 4, não para o 9. Azuis mais profundos, verdes floresta, terracotas terrosos. Cores que continuam a parecer “você”, só um pouco mais vivas.

E aceite que o desconforto vai aparecer. Não é prova de que está a fazer mal. É prova de que está a sair do figurino onde se escondeu durante anos.

“A cor é muitas vezes a primeira história que contamos sobre nós sem palavras”, explica um psicólogo clínico que estuda autopresentação. “Quando a história nunca muda, normalmente significa que há algo dentro de nós com medo de se mexer.”

Para tornar esta exploração menos abstrata, muitos terapeutas sugerem um exercício simples:

  • Disponha três conjuntos (roupas ou objetos): a sua escolha “segura” habitual, uma versão ligeiramente mais arrojada e uma que o atrai secretamente mas o assusta.
  • Use cada um em dias diferentes e escreva num diário como se sente, minuto a minuto.
  • Repare quando a sua mente entra em pânico versus quando se sente inesperadamente poderoso.
  • Fique com a versão que o apoia, não com a que o castiga.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ainda assim, fazer uma ou duas vezes já pode abrir uma fenda. Começa a ver que cores o travam e quais dizem, baixinho: “Tens direito a estar aqui.”

Quando as cores deixam de o esconder e começam a reflecti-lo

A mulher no café acaba por se levantar. Ao sair, repara num detalhe minúsculo de que ela provavelmente já se esqueceu: um anel turquesa vivo, lascado, no dedo indicador. Não combina com o blazer preto, a capa de telemóvel discreta, nem com a maquilhagem cuidadosa. Parece uma parte dela que passou pelo controlo de segurança.

É muitas vezes assim que a mudança começa. Não com um rebranding total, mas com uma cor teimosa que se recusa a ficar calada. A caneca de que gosta, demasiado brilhante para a sua “estética”. A camisola com capuz de um concerto que não encaixa na sua grelha neutra. O tom de batom que só usa sozinho na casa de banho, só para ver.

Quando equipas de psicologia falam daqueles três grupos de cores ligados a autoconfiança frágil, não estão a tentar diagnosticar o seu guarda-roupa. Estão a convidá-lo a perguntar, com gentileza: estou a escolher isto, ou estou a esconder-me aqui? O preto faz-me sentir poderoso, ou convenientemente apagado? Os pastéis acalmam-me, ou fazem-me desaparecer? Os neutros tranquilizam a minha mente, ou impedem-me de alguma vez me destacar?

Todos já tivemos aquele momento em que olhamos para o nosso reflexo e pensamos: “Eu não pareço eu.” A cor faz parte desse choque. Mudá-la não vai curar magicamente feridas de infância nem resolver políticas de escritório. Mas pode ser um começo surpreendentemente honesto. Uma forma de negociar com o espelho e dizer: Hoje, estou disposto a ser visto só um pouco mais do que ontem.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Três famílias de cores recorrentes Preto extremo, pastéis muito suaves, neutros rígidos surgem frequentemente em pessoas com confiança frágil Ajuda a perceber se as suas escolhas vêm de estilo ou de um mecanismo de proteção
A rigidez, não a cor em si É a incapacidade de sair de uma paleta que sinaliza medo de ser visto ou julgado Evita interpretações simplistas do tipo “usar preto = problema”
Micro-experiências com outros tons Introduzir variações de cor gradualmente para testar o que sente Propõe um gesto concreto para reconectar estilo e autoestima sem se forçar

FAQ:

  • Gostar de preto significa que tenho baixa autoconfiança? Não. A investigação aponta mais para um uso exclusivo e rígido do preto como armadura de proteção, e não para o simples facto de gostar dessa cor. O contexto e a flexibilidade importam.
  • A psicologia da cor pode mesmo dizer algo sério sobre a minha personalidade? A cor, por si só, não o diagnostica. Ainda assim, combinada com a forma como se sente, se comporta e fala de si, torna-se uma pista útil sobre a sua relação com visibilidade e vulnerabilidade.
  • E se eu gostar genuinamente de neutros ou pastéis? Então mantenha-os. A pergunta-chave é: estes tons expandem o seu sentido de si, ou mantêm-no pequeno por medo do julgamento? Prazer e medo sentem-se de forma muito diferente no corpo.
  • Como posso experimentar cores mais ousadas com segurança? Comece em pequeno: acessórios, verniz das unhas, um caderno, uma fronha. Experimente em situações de baixo risco em casa ou com pessoas de confiança antes de levar para contextos de maior pressão.
  • Devo falar sobre isto com um terapeuta? Se a cor estiver ligada a vergonha, imagem corporal ou ansiedade social, trazer o tema para a terapia pode abrir uma conversa rica. Muitos clínicos usam roupa e escolhas estéticas como portas de entrada suaves para trabalho mais profundo.

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