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A longevidade não é um mistério: são os pequenos hábitos diários que os centenários repetem automaticamente.

Grupo de pessoas a tomar café à volta de uma mesa de madeira com comida e bebidas numa cozinha iluminada.

Não o silêncio pesado da solidão, mas o tipo suave, almofadado, interrompido pelo raspar de uma cadeira, o tilintar de uma colher de chá, o arrastar de chinelos num chão já bem gasto. Passe dez minutos com alguém que viveu para lá dos cem e repara em algo quase desconcertante: nada do que fazem parece espetacular. Sem banhos de gelo, sem batidos verdes, sem treinos às 4 da manhã. Apenas pequenas coisas, feitas uma e outra vez, como respirar.

Transformámos a longevidade numa espécie de desporto de luxo, com aplicações, suplementos e dispositivos vestíveis a manter a pontuação. No entanto, as pessoas que, discretamente, chegam aos 90 e aos 100 raramente falam de “biohacking”. Falam em dar de comer ao cão, ir dar uma volta porque “com ar fresco a gente sente-se sempre melhor”, e fazer chá para quem aparecer. As suas vidas são construídas a partir de rotinas minúsculas repetidas tantas vezes que deixaram de dar por elas. A parte estranha é esta: esses hábitos invisíveis são exatamente onde a magia se esconde.

A mulher que punha sempre mais um lugar

A minha avó, que viveu até aos 101, nunca se descreveu como “saudável”. Descrevia-se como “ocupada” e “com sorte com os vizinhos”, o que, francamente, parecia conversa. Os joelhos estalavam, ela esquecia-se dos nomes das pessoas, e mantinha uma reserva de bolachas em todas as divisões “para as visitas”. Não era sem glúten, nem sem açúcar, nem sem stress. Estava viva, teimosamente.

Há um pormenor que se destaca. Na sua pequena mesa de carvalho, ela punha sempre mais um lugar ao almoço. Um prato, talheres, copo, guardanapo dobrado, mesmo que não viesse ninguém. Nuns dias um vizinho batia à porta, ou uma cuidadora ficava mais dez minutos. Noutros, aquele lugar ficava vazio. Quando lhe perguntei porquê, encolheu os ombros: “Nunca se sabe quem pode precisar de comer.”

Parece nada - um hábito pitoresco, à moda antiga. E, no entanto, essa rotina simples significava que ela estava pronta para companhia mais vezes do que não. Estava à espera de presença humana. A casa não parecia uma caixa selada; parecia uma porta entreaberta. A solidão, esse assassino silencioso dos mais velhos, nunca conseguiu agarrá-la por completo, porque ela já tinha criado espaço à mesa.

Gostamos de pensar que uma vida longa vem de dietas especiais e análises perfeitas. Ela não tinha nem uma coisa nem outra. Tinha um ritual diário, inconsciente, que dizia ao corpo e ao cérebro: as pessoas pertencem aqui. E assim ela ficou.

Os pequenos movimentos que nunca chegaram bem a parar

Quando se vê um centenário levantar-se, há muitas vezes uma pequena batalha entre a gravidade e a força de vontade. Mas, se olhar com mais atenção, repara em quanto se mexem, aos bocadinhos, o dia todo. Raramente fazem “exercício” como nós o definimos. O que fazem é usar o corpo a cada hora, sem lhe chamar treino.

Visitei uma mulher de 99 anos em Yorkshire que ainda se recusava a comprar uma máquina de lavar loiça. Não por ser antiquada (embora fosse), mas porque gostava de “ter uma razão para me levantar”. Lavava chávenas à mão, prendia a roupa no estendal ao vento, arrastava-se pelo caminho do jardim para ir ver as alfaces. Sem Fitbit. Sem objetivo de passos. Apenas um ritmo: sentar, levantar, dobrar, alcançar. Milhares de pequenas mensagens a dizer aos músculos e aos ossos que ainda tinham trabalho.

Movimento sem inscrição no ginásio

Todos já tivemos aquele momento em que juramos, numa manhã de segunda-feira, transformar-nos com um novo regime. Ginásio três vezes por semana. Corrida antes do trabalho. Ioga diária. As intenções são nobres; a continuidade, nem por isso. Estes planos caem porque pertencem a uma vida diferente daquela que realmente vivemos.

Os centenários, seja em aldeias inglesas ou em vilas piscatórias japonesas, não “agendam” movimento. Entrançam-no em coisas que têm de acontecer na mesma. Vão a pé pôr uma carta no correio em vez de ir de carro. Ajoelham-se para arrancar ervas daninhas num canto do jardim, mesmo que demorem dez minutos a voltar a levantar-se. Sobem as escadas devagar em vez de instalar uma cadeira elevatória ao primeiro sinal de dificuldade.

Não é heroico; é teimosamente normal. E é exatamente por isso que resulta. Os corpos deles nunca se reformam por completo, por isso os sistemas nunca chegam a desligar. Pernas fortes aos 40 constroem-se com o que se levanta e carrega aos 30. Pernas fortes aos 90 vêm da caneca de chá que insiste em ir buscar sozinho, muito depois de ser mais fácil gritar: “Alguém me traz uma?”

A disciplina silenciosa de comer “nada de especial”

Se perguntar a pessoas com mais de cem anos o que comeram “para a saúde”, raramente obtém uma resposta clara. Mais vezes ouve: “Oh, comíamos o que havia.” Batatas, legumes, pão, um pouco de carne ao domingo. Na Sardenha ou em Okinawa, esse “o que havia” pode significar feijões, arroz, verduras e o que crescesse por perto. Numa cidade mineira britânica, pode significar guisados que davam para três dias e cenouras do quintal.

O interessante não é aquilo que não comiam, mas como comiam o que tinham. Devagar. À mesa. Mais ou menos à mesma hora, todos os dias. A fome seguia relógios e rotinas, não notificações. O intestino tinha um padrão previsível, o que soa dolorosamente aborrecido e é discretamente poderoso, porque os nossos sistemas internos adoram monotonia.

O controlo das porções quase acidental

Sejamos honestos: ninguém pesa 30 gramas de cereais todas as manhãs durante décadas. O que os muito velhos tendem a fazer é parar antes de estarem verdadeiramente cheios. Dizem coisas como: “Para mim chega,” e afastam o prato com um pequeno suspiro. Sem dramatismos. Sem valor moral atribuído ao bolo ou às natas. Apenas um hábito de toda a vida: não acabar tudo só porque está ali.

Lembro-me de uma mulher de 102 anos em Londres me dizer: “Passámos fome na guerra. Aprendia-se a ficar satisfeito com o suficiente.” Ela ainda mantinha esse ritmo de guerra: pequeno-almoço leve, almoço sensato, ceia modesta. Comia uma bolacha todos os dias com o chá das quatro e recusava chamar-lhe “um mimo”. Era apenas parte do guião.

As manchetes científicas falam de janelas de jejum e restrição calórica. Tire o jargão e encontra muitas vezes os mesmos comportamentos pequenos: parar no “suficiente”, não petiscar constantemente, comer comida a sério a horas regulares. Os centenários raramente tentaram “engenheirar” o metabolismo. Simplesmente repetiram os mesmos rituais alimentares silenciosos durante sessenta, setenta, oitenta anos.

Os rituais sociais que mantêm a alma elástica

Pergunte a pessoas nos 90 e 100 o que as faz continuar, e ouve a mesma resposta tantas vezes que começa a parecer ensaiada: “As pessoas.” Não a fé, não o dinheiro, não a tecnologia. As pessoas. As que aparecem, tocam à campainha, mandam um postal, discutem política, perguntam se viu o tempo. As que dão forma aos dias.

Um homem que conheci em Devon, com 98 na altura, ia ao mesmo café todas as manhãs às 10:30. Pedia um chá, sentava-se na ponta da mesa comprida e dizia olá a quem se juntasse. Em algumas manhãs eram os mesmos dois agricultores. Noutras, um turista ou um estudante com um portátil. Ele não ouvia metade do que diziam, mas mesmo assim ria-se das piadas de toda a gente.

Aquela visita ao café era uma rotina tão entranhada como lavar os dentes. Nem todos os dias “lhe apetecia”. Em alguns dias doíam-lhe os joelhos, ou a chuva vinha de lado. Ainda assim ia, porque “vão perguntar por mim”. Não era só receber companhia; era ser uma parte pequena mas fiável da história de outras pessoas.

Os pequenos gestos que dizem: “Ainda conto”

Os estudos sobre longevidade falam muitas vezes de propósito, como se todos precisássemos de uma grande missão para chegar à velhice. Mas quando se fala com as pessoas que realmente o estão a viver, o propósito parece muito mais um hábito do que heroísmo. Dar de comer a um gato. Regar uma planta no parapeito todas as quintas-feiras. Telefonar a uma amiga às 19:00 em ponto “para ver se ainda não morreu”, como uma mulher disse, alegremente.

Estes microcompromissos criam uma razão para aparecer no dia. Não são glamorosos e ninguém aplaude, mas sussurram: ainda fazem falta. Um homem nos 90 disse-me uma vez que as tulipas eram a razão de sair da cama. “Morrem se eu não cuidar delas.” É isso. Sem TED Talk. Só tulipas.

A forma social, tal como a forma física, não vem de um esforço enorme ocasional. Vem de estar presente de forma consistente e previsível, em pequenas coisas. Atender o telefone. Acenar ao carteiro. Dizer: “À mesma hora amanhã?” como se amanhã fosse garantido. Essa repetição abre um sulco fundo na mente: pertence ao mundo; ainda não acabou.

A mentalidade que não discute com o tempo

Há mais uma rotina que os centenários parecem praticar sem lhe dar nome. Acordam e, em vez de se revoltarem contra os anos, tratam do que têm à frente. Não é uma aceitação santa; queixam-se das dores, dos governos e “dos jovens de hoje” como toda a gente. Mas por baixo dos resmungos há uma trégua silenciosa com o tempo.

Uma vez perguntei a uma mulher de 100 anos se tinha medo de morrer. Ela pareceu ligeiramente ofendida. “Não tenho tempo para me preocupar com isso”, disse. “Amanhã vou fazer bolos.” Era uma frase tão pequena e comum, mas o peso dela ficou comigo. Amanhã não era uma promessa; era um plano. E ela tinha farinha no armário.

Eis outra rotina, escondida à vista de todos: o ato diário de imaginar pelo menos uma coisa que vai fazer a seguir. Pode ser tão trivial como acabar uma palavra cruzada ou podar as roseiras. O cérebro regista isso como futuro. Não precisa de um quadro de visão a cinco anos quando tem uma razão para se vestir às 9 da manhã.

Muitas das pessoas mais longevas que entrevistei partilham um lado ligeiramente traquinas. Planeiam pequenas rebeldias. Um gole de uísque no Natal “porque o médico diz que não”. Ficar acordado até tarde a ver futebol. Roubar mais um pouco de compota. Estes gestos sem importância enviam uma mensagem simples a si próprios: ainda estou aqui, e esta ainda é a minha vida.

O que podemos roubar-lhes, em silêncio

Há uma tentação de transformar tudo isto numa lista de verificação, de enfiar em mais um modelo de “cinco passos para viver mais”. Mas a vida real não funciona assim, e a maioria de nós também não. Os nossos trabalhos têm horários estranhos, os nossos telemóveis são barulhentos, os nossos armários estão cheios de coisas entregues ontem. Não está a falhar na longevidade por não cultivar o próprio feijão e não conversar com o padeiro todas as manhãs.

O que podemos levar, com cuidado, é o princípio das rotinas minúsculas e teimosas que nos pedem quase nada num dia qualquer, mas tudo ao longo do tempo. Levantar-se mais uma vez a cada hora. Comer mais ou menos à mesma hora, à mesa, mesmo que seja só você e uma refeição de micro-ondas. Mandar mensagem ao mesmo amigo todas as semanas, sem esperar ter “vontade”. Pôr mais um lugar, literal ou metaforicamente, para quem possa bater à porta.

Talvez o verdadeiro segredo seja aceitar que é nas coisas aborrecidas que a vida se estica em silêncio. Não no desafio de 30 dias, mas no arrastar de mil dias. Não na rotina matinal perfeita, mas no ritual simples da noite que consegue fazer mesmo quando o dia o devorou. Depois repete. Depois repete outra vez.

Quando penso na minha avó agora, não me lembro dos suplementos nem da contagem de passos. Lembro-me do som de ela pôr os talheres para um convidado que talvez não viesse, a trautear baixinho, a chaleira já a começar a ferver. Ela não andava a perseguir a longevidade. Estava apenas pronta para a vida, outra vez, naquele dia. E, estranhamente, isso pode ser a coisa mais parecida com uma receita que alguma vez vamos ter.

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