“A privacidade não tem a ver com ter algo a esconder.
A mulher no café olhava para o telemóvel com aquele franzir de sobrolho que normalmente reservamos para más notícias. Acabara de escrever a morada de casa no Google Maps, mas antes de carregar em enter, o telemóvel sugeriu calmamente: “Casa – 12 minutos”.
Ela nunca tinha guardado aquela morada. Nunca.
Virou-se para a amiga e riu-se, embora a voz lhe tremesse um pouco: “O meu telemóvel sabe onde eu moro melhor do que eu.” Fizeram uma piada, mas o silêncio que se seguiu disse outra coisa. Um incómodo discreto.
Quanto é que esta coisa sabe sobre mim?
A maioria dos smartphones é assim agora. Registam onde dormes, onde trabalhas, onde fazes compras, em que noites chegas tarde a casa. E guardam tudo isso mesmo quando achas que não estás a “usar” o telemóvel.
A parte estranha é que desligar grande parte deste rastreio demora menos tempo do que ler este parágrafo.
O que o teu telemóvel regista silenciosamente sobre ti todos os dias
Tira o telemóvel do bolso e olha para ele durante um segundo. Parece teu, certo? O teu papel de parede, as tuas apps, as tuas notificações. À superfície, é o teu pequeno mundo.
Por baixo da superfície, é também um gravador silencioso da tua vida: onde vais, no que tocas, o que procuras, o que dizes ao assistente de voz.
A maioria dos smartphones recolhe dados de localização por defeito. Muitos também registam a tua atividade nas apps, os teus hábitos de navegação, algumas das tuas interações com outros dispositivos na mesma rede.
Nada disto parece dramático quando estás a fazer scroll na fila do supermercado. Parece normal. Rotineiro. E é exatamente por isso que quase ninguém entra nas definições na primeira semana depois de comprar um telemóvel novo.
Um inquérito de 2023 nos EUA concluiu que mais de 80% dos utilizadores nunca verificou por completo as definições de privacidade, nem uma vez. Aceitam os ecrãs de boas-vindas. Carregam em “Permitir” quando uma nova app pede localização “enquanto utiliza a app”. E depois, semanas mais tarde, descobrem que essa mesma app tem o rastreio de “precisão” da localização ativado.
Vamos carregando nos ecrãs para chegar ao que interessa. O jogo. O feed social. Os mapas. Escondida nessa impaciência está a matéria-prima de um perfil permanente sobre a tua vida.
Porque é que estes dados existem, afinal? Parte é prática. O telemóvel precisa de saber onde estás para te dar informação de trânsito ou alertas meteorológicos. Algumas apps precisam de localização para funcionar.
Mas a linha entre “útil” e “intrusivo” é fina. E desloca-se discretamente, atualização após atualização.
As empresas dizem que estes dados as ajudam a melhorar serviços e a mostrar conteúdo “relevante”. Isso é parcialmente verdade. Também te torna mais previsível. Um utilizador previsível clica em mais anúncios, passa mais tempo no ecrã e torna-se um produto melhor.
Essa é a verdade desconfortável: em muitas plataformas, tu és aquilo que está a ser otimizado.
Como reduzir o rastreio em segundos em qualquer smartphone
A boa notícia: não precisas de ser hacker, advogado, ou aquele amigo entendido em tecnologia a quem toda a gente liga ao domingo à noite.
A maioria das maiores “torneiras” de dados pode ser apertada em menos de dois minutos, diretamente na app Definições do teu telemóvel.
No iPhone, o ganho mais rápido é este: Definições → Privacidade e Segurança → Serviços de Localização. Vê a lista de apps. Toca em cada uma e muda “Sempre” para “Ao usar a app” ou “Nunca” em tudo o que não precisa da tua localização para funcionar.
Depois, desce até “Serviços do Sistema” e desativa “Localizações Importantes” se não gostares da ideia de o telemóvel mapear discretamente as tuas rotas habituais.
No Android, vai a Definições → Localização. A partir daí, podes desligar a localização por completo ou escolher “Permissões de localização das apps” e alterar opção a opção, app a app. Muitos telemóveis também têm “Histórico de Localização do Google” e “Atividade na Web e de Apps” na secção da conta Google. Desligar isso interrompe uma grande fatia do rastreio do dia a dia.
A mudança é imediata. A tua vida não se desmorona. Os mapas continuam a funcionar. A meteorologia continua a funcionar. Os anúncios é que ficam um pouco menos inquietantes.
Muita gente hesita nesta fase porque tem medo de “estragar alguma coisa”. As mensagens de aviso não ajudam; estão escritas para te empurrar a deixar tudo ligado.
Realidade: a maioria das tuas apps favoritas funciona perfeitamente com permissões limitadas.
Pensa nisto como dar a alguém as chaves de tua casa quando essa pessoa só precisa de acesso à caixa do correio. Se uma app é de meteorologia, precisa de localização aproximada, não de rastreio permanente e preciso. Uma app de lanterna não precisa de localização de todo.
Tanto no iOS como no Android, também podes ir a Definições → Privacidade (ou semelhante) e rever “Permissões” por categoria: Localização, Microfone, Câmara, Contactos.
No Android, esse ecrã pode ser surpreendentemente revelador. Podes encontrar uma app de compras com acesso ao microfone, ou um jogo que conhece a tua posição GPS exata. É aí que podes recuperar discretamente um pouco de controlo.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas fazê-lo uma ou duas vezes por ano já muda o jogo.
Há outra definição que passa despercebida: personalização de anúncios. No iPhone, em Definições → Privacidade e Segurança → Publicidade Apple, podes limitar a forma como a tua atividade molda os anúncios que vês. No Android, na tua conta Google → Anúncios, podes desativar “Anúncios personalizados”.
Não faz o rastreio desaparecer, mas quebra parte do ciclo de criação de perfil.
“Trata-se do direito de decidir que partes da tua vida se tornam dados”, disse-me recentemente uma defensora de direitos digitais. O ecrã do telemóvel dela estava rachado. As definições de privacidade não.
As pessoas confessam frequentemente os mesmos pequenos medos quando começam a mexer nestas definições: “E se eu perder alguma coisa?”, “E se eu estragar isto?”, “E se já for tarde demais?”
Nunca é tarde demais para tornar o teu rasto digital um pouco mais leve do que foi ontem.
Aqui ficam algumas vitórias rápidas que normalmente fazem diferença imediata:
- Desliga “Histórico de Localização” e “Atividade na Web e de Apps” na tua conta Google (no Android e nas apps Google no iPhone).
- Desativa “Localizações Importantes” no iPhone se não quiseres que os teus locais habituais fiquem guardados.
- Revê as permissões das apps para Localização, Câmara e Microfone duas vezes por ano.
- Limita a personalização de anúncios nas definições da conta Apple e Google.
- Apaga apps que já não usas; cada app extra é mais uma porta de entrada para os teus dados.
O que muda quando dizes não ao rastreio por defeito
Depois de desligar esses poucos interruptores, não há fogo de artifício. O café não aplaude. O telemóvel não te dá os parabéns.
O que muda é mais subtil: uma mudança silenciosa em quem decide o que o teu telemóvel sabe sobre ti.
A tua app de mapas pode voltar a pedir permissão quando a abres. Uma app de meteorologia pode perguntar se pode “Usar localização precisa só desta vez”. Começas a reparar nessas perguntas em vez de as saltares automaticamente.
Essa pequena pausa antes de carregares em “Permitir” é a verdadeira revolução.
No plano prático, a bateria pode durar um pouco mais. Menos verificações de localização em segundo plano, menos “pings” silenciosos. Podes ver menos anúncios hipersegmentados que parecem ler-te a mente.
Emocionalmente, algumas pessoas descrevem uma leveza que não esperavam. Sentem-se menos “observadas”, mesmo que continuem a usar redes sociais e apps de streaming como toda a gente.
Num plano mais profundo, dizer não a certas definições por defeito é uma forma de dizer sim a outra coisa: o teu direito a viver parte da tua vida fora do registo.
Todos carregamos estes retângulos de vidro para todo o lado - quartos, hospitais, jantares de família, primeiros encontros, funerais. Todos já vivemos aquele momento em que o telemóvel em cima da mesa parece quase estar a observar a cena.
Recusar o rastreio constante não significa ficar offline para sempre. Significa estar disposto a perguntar, de vez em quando: esta app precisa mesmo de saber onde estou, ou quanto tempo fiquei ali?
Nalguns dias, a resposta será sim. Noutros, um simples não será surpreendentemente poderoso.
Ainda assim, o teu telemóvel continuará a ser inteligente. Continuará a levar-te a casa, a ajudar-te a encontrar aquela rua minúscula à noite, a ajudar-te a partilhar fotos e a lembrar-te de reuniões.
Mas fará tudo isso em termos ligeiramente diferentes: os teus, não apenas os padrões que nunca escolheste verdadeiramente.
E isso, muitas vezes, é tudo o que é preciso para um dispositivo deixar de parecer que te está a observar em silêncio e voltar a parecer que está a trabalhar contigo.
Partilha isto com alguém que diz sempre “sou péssimo com tecnologia” e vê o que acontece quando essa pessoa percebe que proteger-se é sobretudo uma questão de três toques, não de um curso de informática.
Algumas das mudanças mais poderosas na nossa vida digital não parecem heroicas. Parecem uma pessoa sozinha com o telemóvel, a percorrer definições e a decidir que tipo de rasto quer deixar para trás.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Limitar a geolocalização permanente | Passar as apps de “Sempre” para “Ao usar a app” ou “Nunca” | Reduz o rastreio contínuo sem perder funções essenciais |
| Desativar o histórico e a personalização | Desligar “Histórico de Localização”, “Atividade na Web e de Apps” e anúncios personalizados | Menos criação de perfil, anúncios menos intrusivos, maior sensação de controlo |
| Rever regularmente as permissões | Verificar câmara, microfone, contactos e localização 1 a 2 vezes por ano | Evita permissões excessivas concedidas por hábito ou cansaço |
FAQ
- Desligar a localização impede todo o rastreio? Não totalmente. Apps e serviços ainda podem inferir alguns dados a partir da rede, do uso da conta e de outros sinais, mas desativar a localização reduz drasticamente os dados mais sensíveis e precisos.
- Os meus mapas e apps de transporte ainda funcionam? Sim. Podes permitir a localização “Ao usar a app”, para que só acedam à tua posição quando a app está aberta e ativa, e não 24/7 em segundo plano.
- Vale a pena mudar definições se já partilhei anos de dados? Sim. Os dados do passado podem existir, mas limitar o que é recolhido daqui para a frente reduz a criação de perfis futuros e diminui o que pode ser exposto numa violação ou uso indevido.
- Preciso de apps extra para proteger a minha privacidade? Não necessariamente. Muitas melhorias importantes vêm das definições integradas do iOS e do Android. Ferramentas extra podem ajudar, mas não são um requisito para começar.
- As empresas ainda vão conseguir personalizar a minha experiência? Em certa medida, sim. Podem usar sinais não pessoais ou menos granulares. O que muda é a profundidade do perfil e o grau de intimidade dos dados em que se baseiam.
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário