O habitáculo brilha como um pequeno cinema.
Três ecrãs estendem-se pelo tablier de um Mercedes novinho em folha, a deslizar por menus e animações com mais fluidez do que a maioria dos portáteis. O condutor toca no vidro, meio impressionado, meio perdido. Volume aqui, climatização ali, modo de condução enterrado a duas passagens de distância. O carro parece mais um gadget do que uma máquina feita para conduzir.
Ainda há pouco tempo, esta parede de píxeis era o cartão de visita orgulhoso da Mercedes. O famoso Hyperscreen, barras tácteis, painéis brilhantes - um showroom tecnológico sobre rodas. De repente, o responsável pelo software da Mercedes diz algo quase herético: os botões físicos podem simplesmente funcionar melhor.
Numa indústria a correr para copiar os smartphones, esta confissão toca num nervo.
O momento em que os ecrãs deixaram de parecer inteligentes
O ponto de viragem não chegou com um grande escândalo. Veio em milhares de pequenas frustrações. Um condutor a tentar mudar a temperatura numa estrada esburacada, com o dedo a escorregar no ecrã. Outro a vasculhar três menus para desligar um bip de manutenção na faixa. Talvez já tenha visto aquele silêncio estranho quando alguém se senta num carro premium novo e sussurra: “Como é que… se desliga isto?”
No papel, aqueles ecrãs brilhantes pareciam progresso. Na realidade, os olhos afastam-se da estrada por mais alguns segundos. Os ombros ficam tensos. O carro parece esperto, mas estranhamente pouco simpático. É aí que começa a inversão do responsável de software: não num laboratório, mas nesses micro-momentos humanos de irritação e dúvida.
Uma entrevista recente acendeu o rastilho. O chefe de software da Mercedes disse abertamente aquilo que muitos condutores já murmuravam: os botões tradicionais são muitas vezes mais rápidos e mais seguros de usar. Falou de “memória muscular”, de conseguir ajustar coisas sem fixar o olhar num ecrã. Soou quase antiquado, e no entanto profundamente moderno. Porque o verdadeiro luxo, num mundo cheio de ecrãs tácteis, é a ausência de esforço.
Veja-se o percurso. A Mercedes investiu dinheiro e orgulho no Hyperscreen, uma placa curva de vidro de pilar a pilar. Era um doce para os media de tecnologia, espetacular em fotografias, perfeito para o “uau” do stand. As equipas de vendas adoravam como fazia os rivais parecerem ultrapassados da noite para o dia. Os proprietários adoravam mostrá-lo aos amigos. Nas redes sociais, os ecrãs tornaram-se virais.
Depois veio a rotina. Reflexos com sol forte. Dedadas por todo o lado. “Botões” hápticos que nem sempre respondiam a um toque leve. Condutores mais velhos a perguntar nos concessionários porque é que o controlo do aquecimento do banco tinha de viver dentro de um menu. Um clube automóvel alemão chegou a testar níveis de distração e concluiu que ecrãs com vários níveis de menus podem ser mais lentos de operar do que comandos simples.
Esses estudos confirmam uma verdade básica que pilotos e ergonomistas conhecem há décadas: controlos tácteis permitem ao cérebro fazer duas coisas ao mesmo tempo. Sentir e conduzir. Os ecrãs exigem os olhos. Puxam a atenção para longe de metal em movimento, ciclistas, crianças a sair do passeio. Parecem limpos e futuristas; acrescentam ruído cognitivo.
Porque é que a Mercedes está a recuar na sua própria revolução
Dentro da Mercedes, a mudança não é apenas estética. É estratégica. A empresa quer construir a sua própria plataforma de software e depender menos das Big Tech. Isso implica desenhar não só código, mas a forma como os humanos realmente o tocam. O novo amor por botões não é nostalgia; é design de interação com um volante ligado.
O chefe de software fala em “redução inteligente”. Menos gestos, hierarquias mais claras, mais funções em botões e comandos reais. Um volume que se encontra sem olhar. Um pisca-alerta que se dá com a mão em pânico, não algo que se procura no meio de uma floresta de ícones. É quase cómico: quanto mais digital o carro se torna por dentro, mais analógicas as interfaces podem parecer.
Na prática, isto é uma revolução silenciosa. Os fornecedores voltam a ser chamados para botões robustos, rodas rotativas, comandos com “clique”. Os designers estão a esculpir ilhas físicas dentro de oceanos de vidro. A Mercedes já mostra interiores com ecrãs mais discretos, menos ruído visual, tipos de letra mais claros. A marca que transformou tabliers em tablets está agora a tentar torná-los calmos novamente.
Há aqui uma lição para todos os construtores. Os ecrãs, antes um fator diferenciador, estão rapidamente a tornar-se uma commodity. Qualquer startup de elétricos consegue colar um ecrã enorme ao tablier. O que não conseguem copiar tão depressa é a sensação de que o carro “nos entende” - que ajuda em vez de chatear ou confundir. É aí que a Mercedes quer recuperar terreno.
Como isto muda a forma como conduzimos, compramos e reclamamos
Se está a comprar carro agora, este debate passa a importar. Não se trata apenas de gostar ou não de ecrãs grandes. Trata-se de como vai viver com a máquina todas as manhãs no trânsito, à chuva, com crianças a gritar atrás. Antes de falar em preço, sente-se e faça uma coisa simples: tente mudar as três funções que mais usa, sem pensar.
Baixe a temperatura. Mude a estação de rádio ou a playlist. Ajuste o nível de assistência à condução ou o modo de condução. Cronometre quanto tempo os seus olhos saem da estrada. Conte quantos toques são precisos. Se não conseguir fazer essas tarefas “de cor” ao fim de alguns dias de utilização, essa interface vistosa está a roubar-lhe orçamento de atenção em cada viagem.
Num test drive, deixe o vendedor acabar a demonstração ensaiada e depois assuma o controlo com calma. Peça-lhe que fique em silêncio cinco minutos. Vá aos controlos como iria naturalmente. Não seja educado com o carro. Rode, carregue, deslize ao seu ritmo. Se precisar de ajuda para encontrar coisas simples, é um sinal de alerta. Um bom design quase desaparece na rotina; um mau design obriga-o a entrar na sua própria lógica, como uma app teimosa.
Temos de ser honestos: a maioria das pessoas nunca lê o manual todo nem explora todos os submenus na garagem. Sejamos honestos: ninguém faz isso todos os dias. É por isso que estas decisões de interface são tão cruciais. Aprende o básico numa semana e depois vive com esses hábitos durante anos. Quando o responsável de software da Mercedes elogia botões físicos, está implicitamente a dizer: fomos longe demais. Construímos carros para reviewers de tecnologia, não para humanos cansados às 7h30.
Do lado da marca, isto também é sobre confiança. Os condutores estão a reagir contra “ecrã pelo ecrã”. Queixas sobre lentidão, falhas, ecrãs congelados já não são raras. Todos já ouvimos um amigo dizer que o carro pareceu desatualizado depois de uma única atualização de software. Não é essa a relação que a Mercedes - ou qualquer marca premium - quer ter com os seus clientes.
Por isso, a empresa está a reposicionar-se. Em vez de gritar “mais píxeis”, começa a sussurrar “menos fricção”. Controlos físicos de climatização regressam em alguns modelos. Sliders tácteis no volante são substituídos por botões a sério. Menus de software são achatados, com funções-chave fixadas à superfície. O carro começa a parecer menos um smartphone onde por acaso nos sentamos, e mais uma máquina que respeita a nossa capacidade mental.
A parte mais reveladora talvez não seja o hardware, mas o tom. O responsável de software fala como alguém que ouviu queixas durante muito tempo e finalmente decidiu dizê-las em voz alta. Esse tipo de “fomos longe demais” é raro numa indústria obcecada por nunca olhar para trás.
“Só porque pode pôr algo num ecrã não significa que deva”, admite um designer de UX que trabalhou com várias marcas alemãs. “Quando vai a 130 km/h, a melhor interface é aquela que a sua mão encontra automaticamente.”
Essa frase condensa anos de atrito numa linha. E aponta para uma mudança mais ampla que vai além da Mercedes. Os reguladores estão a observar mais de perto a distração dentro do carro. Alguns organismos de segurança já criticam carros onde funções essenciais se escondem atrás de menus em camadas. Analistas de seguros acompanham discretamente como habitáculos muito “tech” afetam o comportamento do condutor e as estatísticas de acidentes.
- Procure carros que mantenham climatização, volume e sistemas essenciais de segurança em comandos físicos.
- Teste todos os controlos tácteis numa estrada irregular, não apenas no estacionamento.
- Pergunte durante quanto tempo são suportadas as atualizações de software e se as funções básicas continuam a funcionar quando o ecrã falha.
A rebelião silenciosa contra o “tudo-em-ecrã”
Estamos a ver uma pequena rebelião, e ela começa nos sítios onde os seus dedos aterram sem pensar. Os condutores estão a atingir o limite com deslizes e toques constantes. Marcas que construíram a identidade na precisão e na engenharia estão a redescobrir que um seletor bem calibrado pode impressionar mais do que um painel gigante de ícones. Numa condução noturna, iluminada apenas por alguns botões limpos, o carro volta de repente a parecer um companheiro, não um tablier cheio de apps.
Isto não significa que os ecrãs vão desaparecer dos Mercedes. Longe disso. Navegação, câmaras, ajudas avançadas à condução - tudo isso depende de um bom ecrã. A mudança é mais subtil. Trata-se de respeitar a fronteira entre o que pertence a um telemóvel e o que pertence a um objeto em movimento que pesa quase duas toneladas. Trata-se de aceitar que o “uau” nunca deve vir ao custo do “onde está a minha atenção agora?”
A um nível humano, isto também é uma história sobre como nos adaptamos. Habituámo-nos a smartphones, smart TVs, smartwatches. Um carro, porém, é diferente. Pede-lhe que partilhe responsabilidade com uma máquina em situações rápidas e imprevisíveis. É por isso que este debate sobre botões versus ecrãs toca num nervo muito para além dos círculos de entusiastas. No fundo, trata-se do tipo de tecnologia que queremos nas partes da vida onde os erros doem.
Da próxima vez que se sentar ao volante de um Mercedes novo - ou de qualquer carro moderno - pare um segundo antes de carregar no start. Olhe em redor. Repare no que é vidro, no que é metal, no que realmente se mexe quando lhe toca. Depois imagine-se com pressa, à chuva, atrasado, com a música demasiado alta e um telefone a vibrar no bolso.
É nesse momento que a confissão do responsável de software ganha vida. É aí que descobre se o seu carro está do seu lado - ou se, discretamente, lhe está a pedir demasiado.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Botões vs ecrãs | A Mercedes admite que os comandos físicos continuam a ser mais rápidos e menos distrativos. | Perceber melhor porque é que alguns tabliers cansam no dia a dia. |
| Experiência real de condução | A “memória muscular” permite ajustar funções sem tirar os olhos da estrada. | Escolher um carro mais sereno de conduzir, sobretudo em viagens longas. |
| Estratégia da Mercedes | Regresso gradual a comandos tácteis simples, integrados num ecossistema de software próprio. | Antecipar os próximos interiores da marca e a evolução do mercado. |
Perguntas frequentes (FAQ)
- Porque é que a Mercedes está a reconsiderar os ecrãs tácteis agora? Porque o feedback do mundo real e dados de segurança mostram que controlos totalmente baseados em ecrã podem distrair os condutores e atrasar ações básicas.
- Os Mercedes vão perder os seus grandes ecrãs? Não; a marca continuará a usar ecrãs de alta qualidade, mas é provável que funções-chave voltem a botões e seletores físicos.
- Os botões físicos tornam mesmo a condução mais segura? Estudos e testes com utilizadores sugerem que controlos tácteis reduzem o tempo em que os olhos ficam fora da estrada, diminuindo o risco de distração.
- O que devo testar num test drive de um Mercedes? Tente ajustar climatização, áudio e ajudas ao condutor sem olhar para baixo durante muito tempo; repare se essas ações são intuitivas ou complicadas.
- Esta tendência é exclusiva da Mercedes? Não; vários construtores estão a reintroduzir mais controlos físicos após a corrida para tabliers totalmente tácteis.
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