On a tous já vivemos aquele momento em que apagamos a luz, olhamos pela janela e nos sentimos minúsculos perante o céu. Só que, desta vez, não é apenas um céu cheio de estrelas. É a totalidade do cosmos que acaba de se revelar um pouco mais, como se alguém tivesse acendido uma lanterna gigantesca na escuridão do Universo.
Com a SPHEREx, a nova missão da NASA, os cientistas acabam de apresentar um mapa inédito de tudo o que nos rodeia - das galáxias mais distantes às nuvens de poeira escondidas na nossa própria Via Láctea.
As primeiras imagens parecem um puzzle cósmico, uma espécie de ressonância magnética do Universo. Nelas, leem-se marcas do passado, mas também promessas de um futuro muito estranho.
Fica uma pergunta no ar: o que é que estamos, de facto, a descobrir aqui, diante dos nossos olhos?
A SPHEREx da NASA acabou de mudar a forma como “vemos” o Universo
A partir da sala de controlo, os engenheiros vêem desfilar arcos coloridos nos ecrãs. À primeira vista, parece uma televisão antiga mal sintonizada, cheia de faixas vermelhas, azuis, violetas. Depois, um astrónomo faz zoom numa zona minúscula, e essas manchas transformam-se em centenas de galáxias, cada uma com a sua própria assinatura luminosa.
A SPHEREx não tira “fotos bonitas” como o James Webb. Ela cartografa a luz invisível - o infravermelho - a que atravessa a poeira e guarda a memória dos primórdios do Universo.
Este novo instrumento não se limita a olhar para um canto do céu. Varrê-lo todo, metodicamente, como se estivéssemos a fazer um scan à superfície inteira de um cérebro em tempo real. E, de repente, o céu nocturno parece um pouco menos misterioso.
A missão SPHEREx (Spectro-Photometer for the History of the Universe, Epoch of Reionization and Ices Explorer) foi concebida como um recenseamento geral do cosmos. O telescópio vai analisar o céu inteiro em 102 cores infravermelhas diferentes, várias vezes ao longo de dois anos.
Cada pixel do céu será “fatiado” num espectro, como se a luz passasse por um prisma. Resultado: em vez de termos apenas um ponto brilhante, obtemos o ADN luminoso desse objecto.
Os primeiros mapas publicados pela NASA já mostram fitas luminosas que desenham a estrutura em grande escala do Universo: filamentos onde as galáxias se agarram, zonas vazias que parecem bolhas gigantes e, no meio de tudo, o rasto subtil de fenómenos que remontam a algumas centenas de milhões de anos após o Big Bang.
O que irá fascinar os investigadores não são apenas as imagens, mas o uso massivo de estatística por detrás delas. Com milhares de milhões de galáxias cartografadas, é possível quantificar como a matéria se organizou, medir até que ponto a expansão do Universo acelera e seguir as assinaturas da energia escura.
A SPHEREx vai também fazer um inventário dos gelos cósmicos - camadas congeladas de água, metano, CO₂ ou amoníaco - que revestem os grãos de poeira em torno de estrelas jovens.
Ao observar como estes gelos se distribuem, os cientistas esperam perceber como se formam os planetas e, por extensão, onde poderão emergir mundos potencialmente habitáveis. De repente, este mapa do céu começa a parecer um mapa dos futuros “bairros” onde procurar vida.
Como a SPHEREx constrói o seu mapa sem precedentes - e o que isso significa para nós
Na prática, a SPHEREx funciona como um scanner que passa e repassa pela mesma folha. Em órbita da Terra, o satélite roda lentamente e varre o céu em faixas sucessivas. A cada passagem, regista a luz infravermelha, separando com grande precisão os comprimentos de onda.
Todas estas faixas são depois “coladas” para formar um mapa global, um pouco como um fotógrafo a montar um panorama gigantesco a partir de milhares de fotografias.
O truque é a repetição. Ao observar o céu inteiro várias vezes, a SPHEREx consegue detectar o que muda, o que cintila, o que aparece ou desaparece: explosões de estrelas, movimentos de poeira, até surtos luminosos de objectos ainda mal compreendidos.
Nas primeiras simulações, os investigadores divertiram-se a “encher” o céu com todas as galáxias que a SPHEREx deveria teoricamente ver. As imagens são vertiginosas. Quase já não se distingue o vazio - apenas uma nuvem de pontos, sendo cada ponto um mundo de milhares de milhões de estrelas.
É fácil imaginar um astrónomo, tarde da noite, a fazer zoom num recanto minúsculo deste mapa e a encontrar um grupo de galáxias deformadas pela gravidade mútua. Ou uma nuvem de gelo em torno de uma estrela que está a dar origem a planetas.
Estes dados não vão ficar fechados num cofre. A NASA planeia torná-los públicos, permitindo que investigadores de todo o mundo - e também amadores muito competentes - explorem este mapa como se explora um atlas digital.
Do ponto de vista lógico, a SPHEREx não “substitui” os outros telescópios. Tem um papel diferente: o de vigia global. Enquanto o Hubble ou o James Webb se concentram em áreas minúsculas para ver detalhes incríveis, a SPHEREx fornece o contexto, a visão de conjunto.
Pode encarar-se como a camada de fundo de um sistema imenso: primeiro, identificam-se os locais interessantes com a SPHEREx; depois, faz-se zoom com os outros observatórios.
Esta estratégia muda o ritmo da investigação. Em vez de apostar às cegas em algumas alvos, os cientistas terão um inventário gigantesco de objectos estranhos, sinais bizarros e zonas com anomalias. É aí que as grandes descobertas futuras - as que ninguém espera - têm mais probabilidades de estar escondidas.
Como este mapa cósmico pode remodelar a nossa visão do tempo, das origens e do “alhures”
Para ler este novo mapa, quase é preciso adoptar um método mental. Primeiro, esquecer a ideia de um céu “plano” e estático. Cada ponto captado pela SPHEREx vem de uma época diferente - por vezes muito antiga. Olhar para o mapa é como folhear um álbum de família ao contrário.
Depois, lembrar que estas cores infravermelhas contam histórias sobre temperaturas, composições químicas e distâncias. Uma zona rica em gelo de água, por exemplo, torna-se um indício de futuras planetas rochosos.
A melhor abordagem é perguntar: neste pedaço de céu, o que é que estou realmente a ver? Um vestígio do início do Universo, ou os restos de uma estrela que acabou de morrer? Um viveiro de mundos, ou um deserto cósmico quase vazio?
Muitas pessoas sentem-se perdidas perante este tipo de imagem científica, saturada de dados. E é normal. A tentação é tratá-las como posters bonitos mas abstractos.
A armadilha, para quem não é especialista, seria achar que este mapa só diz respeito a astrofísicos. Na realidade, também toca na forma como contamos a origem de tudo - incluindo da vida na Terra.
Sejamos honestos: ninguém lê artigos científicos todos os dias. Ainda assim, vivemos num mundo em que estes mapas cósmicos já influenciam filmes, videojogos, romances e debates filosóficos. O céu digitalizado pela SPHEREx torna-se uma espécie de cenário comum para o nosso imaginário colectivo.
Um astrofísico da missão resume o desafio assim:
“Não estamos apenas a mapear o céu. Estamos a mapear a história de como algo saiu de quase nada - e se essa história se repete noutros lugares.”
Para situar o que a SPHEREx muda neste panorama já muito rico, vale a pena reter alguns pontos simples:
- A SPHEREx não vê o cosmos como os nossos olhos, mas como um espectro imenso de assinaturas químicas.
- A sua força é a quantidade: uma visão quase completa do céu, em centenas de milhares de milhões de pixels de dados.
- O seu papel-chave: identificar os alvos mais promissores para a investigação sobre energia escura, formação de planetas e a possível habitabilidade de mundos distantes.
O que este “scan universal” muda para a nossa curiosidade futura
À medida que este mapa ganha definição, joga-se algo mais íntimo. Começamos a ver o Universo como um sistema vivo, atravessado por ciclos, nascimentos e colapsos. A luz infravermelha torna-se um fio condutor que liga acontecimentos separados por milhares de milhões de anos.
Para um leitor, mesmo longe dos laboratórios, esta visão tem um efeito estranho: a nossa própria existência parece, ao mesmo tempo, insignificante e incrivelmente ligada ao resto. Respiramos átomos nascidos em estrelas que a SPHEREx mal detecta como neblina.
Este novo mapa não nos dá respostas simples. Sobretudo, cria melhores perguntas. Onde procurar mundos semelhantes ao nosso? Até que ponto o Universo está cheio de lugares “normais” onde a vida poderia começar sem alarido?
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Mapa infravermelho do céu inteiro | A SPHEREx analisa o céu todo em 102 comprimentos de onda diferentes | Perceber que esta missão oferece uma visão global e inédita do cosmos |
| Papel de “vigia” cósmico | Identifica as zonas interessantes para o Hubble, o James Webb e os telescópios do futuro | Ver como as grandes descobertas que aí vêm serão guiadas por este mapa |
| Gelos cósmicos e origens planetárias | Inventário dos gelos de água, metano, CO₂ nas nuvens de poeira | Compreender a ligação entre esta cartografia e a procura de mundos potencialmente habitáveis |
FAQ:
- O que é exactamente a SPHEREx? A SPHEREx é um telescópio espacial da NASA concebido para varrer o céu inteiro em luz infravermelha, separando-a em 102 cores para estudar a história do Universo e a distribuição de gelos cósmicos.
- Em que é que a SPHEREx é diferente do James Webb? O James Webb faz zoom em áreas minúsculas com um detalhe incrível, enquanto a SPHEREx cobre o céu inteiro com menor resolução, mas com uma cobertura muito maior, actuando como um grande levantamento global.
- Porque é que a SPHEREx usa luz infravermelha? A luz infravermelha consegue atravessar nuvens de poeira e revelar objectos mais frios, galáxias primitivas e impressões digitais químicas invisíveis na luz visível.
- Os dados da SPHEREx serão públicos? Sim. A NASA planeia divulgar os mapas e catálogos para que cientistas e amadores interessados, em todo o mundo, possam explorar e analisar os dados.
- A SPHEREx pode ajudar a encontrar planetas habitáveis? Indirectamente, sim: ao mapear onde se encontram gelos e moléculas-chave em torno de estrelas jovens, ajuda a identificar regiões onde a formação de planetas - e possivelmente mundos habitáveis - é mais provável.
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