Sem molho néon. Sem espuma. Apenas uma fatia grossa de pão de massa-mãe torrado, um lago de manteiga dourada e uma pitada de sal grosso estaladiço. Numa sala onde as pessoas costumam perseguir a coisa mais estranha do menu, metade dos telemóveis sai para… pão.
Na mesa ao lado, um casal partilha o que parece suspeitamente o básico de ontem: um pão inteiro, golpeado e brilhante, servido com três tipos de manteiga. Há alguns anos, isto pareceria enchimento. Agora é o prato principal, com preço de pequeno luxo. A mulher sorri e diz à amiga: “Sinceramente, vim só pelo pão.”
Num mundo obcecado por novidade, a tendência gastronómica mais quente é, de repente, a mais antiga em cima da mesa. E a história por trás dessa mudança diz muito sobre nós.
O regresso do pão humilde
O pão está a ter um regresso que um rockstar reformado invejaria. Não a baguete mole do supermercado que se come por defeito, mas pão a sério: massa-mãe elástica, pães de leite brilhantes, centeio rústico com sementes que ficam presas nos dentes.
Os restaurantes escrevem “Pão & Manteiga” nos menus como se fosse o cabeça de cartaz. As padarias têm filas a dar a volta ao quarteirão por um único pão caseiro. Os feeds do Instagram estão cheios de grandes planos do miolo que parecem quase indecentes. O que antes era o cesto gratuito onde se beliscava sem pensar é agora aquilo para o qual toda a gente chega cedo.
Muito disto começou em silêncio, nas cozinhas de casa. Durante a pandemia, quando o tempo se esticou e a farinha passou a ser um bem disputado, as pessoas começaram a tratar de iscos de massa-mãe como se fossem plantas de interior. Alguns falharam de forma espetacular; outros descobriram que fazer pão era como uma terapia que se pode fatiar. Esse ritual lento e manual nunca chegou a desaparecer. Apenas saiu das bancadas apertadas e voltou ao espaço público, com melhor farinha, fermentações mais longas e uma etiqueta de preço que diz: isto já não é comida de fundo.
Lisboa, Paris, Berlim, Nova Iorque: o padrão é o mesmo. Há uma década, uma “padaria” significava croissants, talvez uma sandes. Agora, os sítios com as filas maiores têm todos um produto-herói - um pão grande e rústico, com nome próprio e lista de espera.
No East End de Londres, uma padaria popular esgota a sua massa-mãe de assinatura até às 10h ao fim de semana. As pessoas chegam com sacos de pano e pedidos específicos: “um de sésamo, um caseiro e ainda têm o centeio de miso?” Não estão a comprar um pequeno-almoço rápido. Estão a comprar o centro do dia.
No TikTok, os vídeos com a hashtag #sourdough somam milhares de milhões de visualizações: ASMR de crosta a estalar, planos dramáticos do miolo, mãos a esticar massa como seda. Há uns anos, esse nível de atenção era reservado a lattes arco-íris e cronuts. Agora, um pão bem fermentado tem o mesmo destaque do que qualquer sobremesa vistosa. E os números acompanham: em muitas cidades, as padarias de especialidade multiplicaram-se e as vendas de pão premium crescem, enquanto o pão industrial estagna. O pão passou de ruído de fundo a personagem principal.
Porque é que este alimento antigo - e porquê agora? Parte da resposta é simples: o pão é um dos poucos alimentos que parecem ao mesmo tempo básicos e mágicos. Farinha, água, sal - e, de repente, temos algo que estala, cheira a casa e alimenta um grupo.
Num tempo de preços a subir e de scroll infinito, um pão oferece um pequeno luxo concreto e alcançável. Pode-se dispensar um menu de degustação, mas gasta-se num pão bonito que dura dias - de torradas de manhã a uma última fatia grelhada à noite. E também marca uma necessidade que muita gente sente em silêncio: algo tangível, feito à mão, imperfeito.
Há também uma rebelião discreta nisto. Durante anos, a cultura das dietas disse-nos para temer hidratos de carbono. Agora, pessoas do mundo da comida, nutricionistas e até atletas falam de bons hidratos, massas de fermentação longa, cereais integrais e digestão. O pão, bem feito, deixa de ser um prazer culpado e passa a ser um ritual diário. Não é só nostalgia. É uma recalibração do que sabe a “comida de verdade”.
Como apanhar a onda do pão em casa
Se quer entrar nesta tendência sem ficar numa fila ao amanhecer, comece com um movimento simples: escolha um “pão da casa” e conheça-o intimamente. Não dez receitas, não um plano complicado. Apenas um pão que faz repetidamente até ficar quase aborrecido - no melhor sentido.
Escolha algo realista: um pão simples sem amassar feito na panela, um pão de forma indulgente, ou uma massa-mãe simples se gostar de um bocadinho de caos. Use a mesma farinha durante um mês. A mesma forma. A mesma prateleira do forno. Mude apenas uma coisa de cada vez - um pouco mais de água, uma prova ligeiramente mais longa, uma cozedura mais quente. Pequenos ajustes fazem uma diferença enorme.
Vai começar a reparar em detalhes: como a massa se sente debaixo dos dedos, como a temperatura da cozinha altera a levedação, como a crosta soa quando está pronta. É aqui que a “tendência” se transforma numa competência tranquila do dia a dia.
Onde a maioria das pessoas desanima é no primeiro pão feio. Ou no terceiro. Uma massa-mãe achatada ou uma crosta queimada podem parecer prova de que “não se nasceu para padeiro”. Realidade: a maioria dos pães bonitos que vê online vem depois de dezenas de falhanços que ninguém publicou.
Seja simpático consigo próprio com os tempos. A fermentação longa é sua amiga, mas a vida também acontece. Ponha a massa no frigorífico quando precisar de sair. Coza um pouco menos ou um pouco mais às vezes, só para ver o que acontece. Sejamos honestos: ninguém faz isto mesmo todos os dias.
E se não tem qualquer interesse em cozer pão, o seu caminho é diferente mas igualmente válido: torne-se um melhor comprador de pão. Aprenda o nome de uma ou duas padarias locais. Pergunte o que saiu nessa manhã, o que fermenta mais tempo, o que fica bom no dia seguinte para tostas. Essa pergunta, muitas vezes, dá-lhe o melhor pão do sítio.
“O pão é o único alimento que mostra quanto tempo está disposto a dar”, disse-me um padeiro em Paris. “Não dá para fingir fermentação lenta. Ou lhe deu tempo, ou não deu.”
Então, como é que um pão “rico em tempo” se apresenta na vida real? Muitas vezes vem rotulado “massa-mãe” ou “levain”, mas os rótulos podem mentir. Melhores pistas são a textura e o sabor: um miolo irregular com buracos grandes e pequenos, uma mastigabilidade profunda mas suave, um sabor ligeiramente ácido e complexo em vez de apenas salgado.
- Procure: crosta escura, bem cozida (não pálida); significa mais sabor.
- Aperte com cuidado: o pão deve parecer leve para o tamanho, não um tijolo.
- Cheire: pão bom tem uma ligeira acidez, quase como iogurte.
- Pergunte quando foi cozido; o pão de ontem pode ser perfeito para tostas.
- Em casa: envolva num pano limpo; no primeiro dia, evite o saco de plástico.
Num plano mais emocional, o pão tem uma forma de ancorar o dia. Um pão fatiado na mesa pode transformar sobras em “jantar” em vez de “coisas aleatórias do frigorífico”. Todos já tivemos aquela noite em que a única coisa que fez a refeição parecer real foi um cesto de pão quente ao meio.
O que esta tendência “antiga” diz realmente sobre nós
As tendências gastronómicas costumam perseguir o novo: o hambúrguer mais louco, o sabor mais estranho, a sobremesa mais fotogénica. Esta é diferente. A redescoberta do pão parece um voto silencioso pela lentidão, pela repetição, por algo que não grita por atenção mas acaba por roubar a cena.
Há uma intimidade suave em partilhar pão que outros pratos não conseguem igualar. Rasga-se, passa-se, mergulha-se na mesma manteiga ou azeite. Fala-se com as mãos ocupadas. Fica-se mais tempo. O pão estica momentos que, de outra forma, passariam a correr. É quase absurdo que um produto tão simples seja o que está a furar o ruído do conteúdo gastronómico agora - e, no entanto, faz todo o sentido.
Para restaurantes, padeiros e até cozinheiros caseiros, a mensagem é clara: nem tudo o que é “novo” tem de ser novo. Às vezes, o movimento mais inteligente é pegar num produto que toda a gente acha que conhece e cuidar dele tanto que volta a parecer quase chocante. O pão está a mostrar até onde essa ideia pode ir. E, discretamente, está a convidar-nos a perguntar que outros básicos merecem o mesmo segundo olhar.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| O pão como produto estrela | Restaurantes e padarias apostam em pães de assinatura, de fermentação longa | Perceber porque é que hoje se paga mais por um “simples” pão |
| Uma prática acessível em casa | Um único tipo de pão, repetido, permite evoluir sem pressão | Começar sem se perder em receitas complicadas |
| Um reflexo dos nossos desejos profundos | Regresso a alimentos simples, lentos, ancorados no quotidiano | Relêr as próprias escolhas alimentares à luz desta tendência |
FAQ:
- O pão voltou mesmo ou isto é só hype das redes sociais? As duas coisas. As plataformas amplificam a tendência, mas o crescimento das padarias artesanais, dos menus de pão premium e das práticas de fermentação longa mostram uma mudança real para lá do ecrã.
- A massa-mãe é mais saudável do que o pão “normal”? Em geral, sim: a fermentação longa pode tornar o glúten mais fácil de digerir e melhorar ligeiramente a disponibilidade de nutrientes, embora continue a ser pão e não um alimento milagroso.
- Preciso de equipamento especial para fazer bom pão em casa? Uma panela pesada com tampa, um forno básico, uma balança de cozinha e paciência chegam; ferramentas mais “finas” ajudam, mas não são obrigatórias.
- E se eu não tiver tempo para cozer? Então a melhor opção é encontrar uma ou duas boas padarias locais, aprender os horários e comprar pão que se encaixe na sua semana - fresco para hoje, pães mais densos para tostar depois.
- Como evito que o pão fique duro demasiado depressa? Guarde-o com a face cortada virada para baixo numa tábua no primeiro dia e depois num saco de pano ou papel; fatie e congele o resto em porções para poder torrar diretamente do congelador.
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