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A nova tendência culinária que está a conquistar todos os paladares, segundo um conceituado crítico gastronómico.

Chef a decorar prato sofisticado com legumes e carne enquanto casal observa na mesa em fundo de cozinha moderna.

It smells like a campfire after rain, like toasted bread and lemon zest, like… miso? The dish looks familiar and strange at the same time: a glossy sauce over roast chicken, a drizzle of bright green oil, a crumble of something that might be almonds or popcorn. At the next table, a teenager is filming her plate, while her grandfather asks the server, half-laughing, “So is this… French? Asian? What am I eating?” The answer comes with a smile: “It’s a flexitarian menu. Plant-first, flavor-first.”

The grandfather takes a bite. Pauses. Then nods, slowly, almost suspiciously, before going back in for more. The teenager is already typing: “This new food trend is wild.”
Nobody here is missing steak.
Not tonight.

A revolução silenciosa no teu prato

A crítica gastronómica londrina Amelia Ross faz rodar a última colherada de molho na taça e parece quase aborrecida. “Estava pronta para não gostar disto”, admite, “mas esta é a primeira tendência em anos que realmente sabe ao futuro.” Está a falar de fine dining flexitariano - a nova onda culinária que está a seduzir pessoas que normalmente revirariam os olhos a tudo o que fosse “saudável”. Os restaurantes chamam-lhe “plant-forward”, “veg-centric”, “amigo do planeta”. Os clientes chamam-lhe simplesmente delicioso.

A ideia é simples no papel: as plantas lideram, a carne e o peixe passam para um papel secundário, e o sabor vence as regras alimentares. No prato, está longe de ser simples. A manteiga é trocada por tahini, as natas por caju sedoso, o caldo de carne por um jus de vegetais assados lentamente. Continuas a ter aqueles sabores grandes e reconfortantes - umami, fumo, crocância - só que construídos a partir de ingredientes inesperados. O veredito da crítica? “Isto não é comida de dieta. Isto é prazer, com consciência.”

Há um ano, Ross dedicou uma coluna inteira a gozar com “pratos verdes sem alegria”. Hoje, a sua crítica mais partilhada chama-se: “Porque é que a cozinha flexitariana é a única tendência que agrada a toda a gente à mesa”. Quando uma cética profissional muda de opinião, algo está a acontecer.

Num bistrô cheio de vida em Copenhaga, o chef aponta para o quadro do menu onde só dois pratos têm mais de 30 g de carne. Não fazem alarde no Instagram. Simplesmente alimentam, discretamente, duzentas pessoas por dia. Um prato tornou-se um sucesso inesperado: “bife” de couve chamuscada com “bacon” fumado de sementes de girassol e migalhas de manteiga com miso. Parece um castigo. Esgota quase todas as noites.

Do outro lado do Atlântico, um espaço em Nova Iorque relata que 70% dos clientes escolhem agora o menu de degustação flexitariano, mesmo quando existe uma alternativa clássica de bife. Ninguém é obrigado. Os clientes seguem apenas o paladar. Um casal entra para celebrar um aniversário. Um adora carne, o outro não a come de todo. Saem a dizer à equipa que “nunca concordaram tão facilmente sobre comida”. Numa terça-feira fria, esse tipo de vitória silenciosa vale mais do que um TikTok viral.

Os números confirmam as histórias. Inquéritos mostram que uma fatia crescente de jovens adultos se identifica agora como “flexitariana”, em vez de estritamente vegan ou omnívora. Ainda assim, os dados nunca explicam tudo. O verdadeiro motor é emocional: as pessoas estão cansadas de discussões à mesa. Querem comida que pareça generosa e com pouca culpa, pratos que não imponham uma posição ou um rótulo. A cozinha flexitariana encaixa nesse espaço.

Em vez de construir identidade em torno de “o que recuso comer”, esta tendência constrói-a em torno de “o que nos junta”. A carne não é proibida; é tratada como uma especiaria preciosa. Algumas fatias finíssimas de pato fumado por cima de uma montanha de cenouras assadas. Uma colher de óleo de chouriço sobre um guisado de feijão que é maioritariamente legumes. A frase da crítica acerta em cheio: “Já não estamos a cozinhar para provar um ponto. Estamos a cozinhar para tornar a mesa mais gentil.”
De um modo estranho, funciona.

Como os chefs conseguem sabor plant-first sem perder ninguém

O truque que todas as cozinhas flexitarianas bem-sucedidas usam é quase infantil: começar pelo desejo, não pelas regras. Os chefs perguntam a si mesmos: “Com o que é que as pessoas sonham comer num dia mau?” E depois recriam essa sensação usando sobretudo plantas. Pensa em frango frito crocante. Numa versão flexitariana, podes receber uma fatia grossa de aipo-rábano, em salmoura de leitelho, envolvida em pão ralado temperado, frita até estalar, e servida com mel picante e pickles. O teu cérebro recebe o mesmo pico de dopamina. O teu corpo recebe um prato muito diferente.

Eles obsessam com a textura. Crocância de sementes tostadas, mastigabilidade de cogumelos assados lentamente, sedosidade de feijões triturados. Fumo de alhos-franceses chamuscados em chama aberta. Sal não apenas do saleiro, mas de azeitonas, miso, queijos curados usados com parcimónia, como perfume. A carne, quando aparece, é tratada como um cameo de luxo, não como o protagonista. É por isso que até carnívoros convictos voltam: nunca se sentem repreendidos, apenas surpreendidos.

Os cozinheiros de casa começam a copiar o “manual” em pequenas coisas. Um pai londrino descreve como “a carne passou a ser o especial de domingo, não o padrão de terça-feira”. Em vez de bife três vezes por semana, a família agora come carne uma ou duas - e gasta o dinheiro poupado em melhor qualidade. A descoberta favorita: um ragù de cebola bem dourada e lentilhas, finalizado com um splash de vinho tinto e uma mãozinha minúscula de pancetta em cubos. Há mais vegetal do que animal no garfo, mas o sabor lê-se como um clássico italiano cozinhado lentamente.

Em Paris, uma designer gráfica de 26 anos partilha online a sua “taça flexitariana preguiçosa”: batata-doce assada, grão-de-bico crocante, um ovo estrelado e uma colher de chili crisp. Sem medições, sem contagem de calorias, sem legenda moralista. A publicação chega discretamente a meio milhão de visualizações. A maioria dos comentários soa igual: “Eu conseguia mesmo comer isto.” Uma frase destaca-se: “Estou cansada de a comida me fazer sentir que estou a escolher lados.”
Esse é o motor emocional por trás da tendência: facilidade, não pureza.

A lógica por baixo é surpreendentemente prática. Cozinhar de forma flexitariana não te exige deitar fora tudo o que sabes. Só muda o centro do prato. Em vez de perguntar “Que carne vamos comer hoje?”, a pergunta passa a ser: “Que vegetal ou cereal é a estrela, e queremos um pouco de carne com isso?” Essa mudança mental altera listas de compras, tempos de cozinha e até a forma como as sobras funcionam.

Os restaurantes usam o pensamento flexitariano como uma espécie de restrição criativa. A carne é cara, por isso investem imaginação nos vegetais: assar, fermentar, chamuscar, fazer pickles. Isto abre um novo universo de sabores. Uma única cenoura pode aparecer em fatias assadas, cubos fermentados e um puré vibrante no mesmo prato. A crítica observa: “Quando os chefs deixam de se apoiar no bife, finalmente vês quem sabe mesmo cozinhar.” O efeito secundário inesperado é que vegetarianos, vegans e omnívoros começam a elogiar o mesmo menu - algo que quase nunca acontecia há cinco anos.

Experimentar a onda flexitariana em casa sem perderes a cabeça

A forma mais fácil de começar é escolher um prato familiar e inverter discretamente as proporções. Pega na tua bolonhesa habitual. Mantém a base - cebola, alho, ervas, tomate - mas duplica a cenoura, o aipo e os cogumelos finamente picados. Reduz a carne para metade e deixa-a bem tostada para máximo sabor, ou até troca metade por lentilhas. Deixa cozinhar em lume brando mais tempo do que pensas. Quando chega ao prato, a maioria das pessoas nem percebe onde acaba a carne e começam as plantas.

Outro passo: criar “tabuleiros de toppings” em vez de centros de carne. Põe à mesa taças com legumes assados, cebola em pickle, frutos secos tostados, queijo ralado, ervas frescas e um pequeno recipiente com algo de carne - pedacinhos de bacon estaladiço, frango desfiado, migalhas de enchido temperado. Cada um compõe a sua taça sobre arroz, cereais ou folhas de salada. Toda a gente sente controlo. Ninguém fica preso a uma palestra. É flexitarianismo por infiltração e, sobretudo as crianças, tendem a esquecer que estão maioritariamente a comer plantas quando há crocância e cor na mesa.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. A vida real é caótica, e está tudo bem. O erro mais comum é passar de “carne em todas as refeições” para “sem carne esta semana” de um dia para o outro. Esse choque costuma acabar em pizza de desilusão. Começa com uma noite flexitariana por semana. Fica em pratos de que já gostas - tacos, caris, assados no tabuleiro - e ajusta o equilíbrio.

Outra armadilha é tentar imitar perfeitamente a carne com substitutos ultraprocessados e depois sentir frustração. Muitos chefs flexitarianos quase nem tocam nesses produtos. Preferem apoiar-se em cogumelos, leguminosas, beringela, frutos secos, ovos e queijo verdadeiro em pequenas quantidades. Vê os dias sem carne como uma oportunidade para novos favoritos, não como versões falsas de antigos. Num dia mau, ervilhas congeladas, bom azeite, alho e massa podem ser um jantar “plant-first” melhor do que um triste substituto de hambúrguer, borrachudo.

“A coisa mais entusiasmante na comida flexitariana”, diz a crítica Amelia Ross, “é que não pede fé cega. Só te pede que dês uma dentada e digas a verdade sobre o que estás a provar.”

A mudança emocional é quase maior do que a nutricional. Numa mesa flexitariana, há menos espaço para vergonha alimentar. Alguém pode pôr mais queijo, outra pessoa pode dispensar o bacon, e toda a gente continua a partilhar a mesma base. Essa sensação de união é o verdadeiro tempero. Numa quarta-feira tranquila, quando estás cansado e o mundo parece pesado, ter menos uma coisa para discutir pode parecer luxo.

  • Troca um prato com carne por semana por uma versão plant-first de algo de que já gostas (chili, massa, caril).
  • Usa a carne como topping ou reforço de sabor, não como o grosso da refeição.
  • Brinca com notas fumadas, tostadas e assadas para dar profundidade aos vegetais.
  • Mantém uma “prateleira do sabor” com miso, molho de soja, vinagre, frutos secos e sementes.
  • Deixa que cada pessoa personalize à mesa para reduzir resistência e drama.

Porque é que esta tendência pode durar mais do que as outras

Vimos muitas modas alimentares irem e virem: gelado de carvão, bagels arco-íris, superalimentos impossíveis de pronunciar. A cozinha flexitariana parece diferente porque não exige uma nova identidade. Não precisas de te chamar nada nem de escolher um “campo”. Apenas começas a comer um pouco mais como os avós que esticavam um pequeno pedaço de carne para um tacho inteiro de guisado - só que com melhor iluminação para Instagram.

Numa rua movimentada da cidade, já se nota a mudança. Os menus deixaram de se dividir de forma limpa entre “carne” e “vegetariano”. Em vez disso, páginas inteiras de pratos são, por acaso, plant-first, e os pratos com carne têm o mesmo tom suave: estão ali se os quiseres, não são a estrela do espetáculo. Numa noite, pedes brócolos chamuscados com creme de amêndoa e óleo de malagueta. Na semana seguinte, voltas pelo borrego estufado lentamente - e não te sentes hipócrita depois de ler três artigos sobre o planeta.

Todos já tivemos aquele momento em que alguém à mesa pede desculpa pelo que está prestes a encomendar, como se escolher um hambúrguer ou uma salada revelasse o teu valor moral. A cozinha flexitariana contorna esse campo minado. Diz: come com alegria; só deixa as plantas ter mais palco. A nota final da crítica na sua coluna fica contigo: “Pela primeira vez em anos, estou a ver as pessoas discutir menos e partilhar mais pratos.” Talvez essa seja a razão silenciosa pela qual esta tendência está a encantar todos os paladares, do tio rabugento ao miúdo do TikTok a filmar o garfo.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Fine dining flexitariano Menus plant-first em que a carne tem um papel secundário Dá ideias para comer melhor sem perder prazer
Técnicas centradas no sabor Assar, fumar, fermentar e uso inteligente de umami Ajuda a recriar a satisfação de “comida de conforto” em casa
Pequenas mudanças realistas Alterar proporções em pratos familiares e criar refeições ao estilo “toppings” Torna a tendência fácil de experimentar sem virar a vida do avesso

FAQ:

  • O que significa exatamente “flexitariano”? Normalmente descreve pessoas que comem sobretudo refeições à base de plantas, mas ainda incluem carne ou peixe ocasionalmente, sem regras rígidas nem rótulos.
  • Isto é o mesmo que ser vegetariano ou vegan? Não. Vegetarianos evitam carne e vegans evitam todos os produtos de origem animal. Flexitarianos mantêm alguns alimentos de origem animal, apenas em quantidades menores e mais seletivas.
  • Vou sentir-me saciado se comer mais refeições plant-first? Sim, se te focares em fibra, proteína e gorduras saudáveis - pensa em feijões, lentilhas, ovos, frutos secos, sementes, cereais integrais e lacticínios, se os consumires.
  • Preciso de produtos especiais ou substitutos de carne? De todo. Muitos dos melhores pratos flexitarianos usam ingredientes do dia a dia como vegetais, leguminosas, cereais, ervas e um pouco de bom queijo ou carne.
  • Como posso começar sem irritar a minha família? Começa com um prato familiar por semana em que aumentas discretamente os vegetais e reduces a carne, e deixa que cada um personalize o prato à mesa.

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