You deixas o saco do ginásio junto à porta e apanhas um vislumbre de ti no espelho do corredor. Cabelo despenteado, t-shirt húmida, faces coradas. Objectivamente, não estás nada “pronto/a para o Instagram”. E, no entanto, há qualquer coisa na forma como estás de pé que mudou. Os ombros estão um pouco mais levantados. A tua passada sente-se diferente, como se o teu corpo estivesse silenciosamente a dizer: “Fizemos isto.”
Há dez minutos estavas a duvidar de tudo à frente de uma folha de cálculo ou de um lava-loiça cheio de loiça. Agora respondes às mensagens um pouco mais depressa, falas um pouco mais claramente, e de repente aquele e-mail que tinhas medo de enviar já não parece assim tão assustador.
O que é que aconteceu, afinal, naquela curta hora entre apertar os atacadores e sair do balneário?
O interruptor escondido no cérebro que se activa quando te mexes
Há um momento muito específico durante um treino em que a mente começa a mudar. Sentes a respiração a subir, os músculos a queixarem-se, e depois, quase em segredo, o teu cérebro começa a reescrever a história que contas a ti próprio/a.
Já não és apenas “uma pessoa cansada depois do trabalho”. És alguém a fazer flexões, ou a caminhar a passo rápido, ou a aguentar o último minuto na bicicleta quando querias desistir aos trinta segundos. A tua identidade desliza, só um pouco, na direcção de “pessoa que consegue lidar com coisas difíceis”.
Essa pequena mudança é o primeiro tijolo da confiança.
Pensa num dia em que quase não foste. Chuva lá fora, dia longo, motivação zero. Senta-te na beira da cama, a fazer scroll, a negociar contigo. Depois arrastas-te porta fora para uma corrida de 20 minutos.
A corrida em si não tem nada de especial. Paras uma vez para recuperar o fôlego, a playlist falha, um atacador desata-se. E, ainda assim, quando voltas, o mundo parece um pouco mais gerível. A discussão de manhã já não pesa tanto. O projecto no trabalho parece ligeiramente menos impossível.
Não estás a imaginar. Um estudo da Universidade da Geórgia concluiu que até exercício de baixa intensidade pode melhorar significativamente o humor e a energia percebida - dito de forma simples, o teu cérebro actualiza o medidor “Eu consigo lidar com isto”.
Por baixo da superfície, o teu corpo esteve a fazer um espectáculo químico discreto. Mexer os músculos diz ao teu cérebro para libertar endorfinas, dopamina e serotonina - o trio do “sente-te melhor, continua, está tudo bem”. Não são só sobre felicidade. Elas mudam a forma como o mundo parece ameaçador.
Ao mesmo tempo, o exercício reduz os níveis de hormonas do stress como o cortisol. Essa combinação é poderosa. Os problemas da tua vida não desaparecem, mas deixam de te gritar tão alto. Confiança não é a ausência de problemas; é a sensação de que hoje estás um pouco mais equipado/a para os enfrentar do que ontem.
Por isso, quando te sentes estranhamente mais corajoso/a depois de treinar, é o teu sistema nervoso a sussurrar: “Acabaste de sobreviver, de propósito, a um desafio. Talvez consigas lidar com o resto também.”
Como usar os treinos como uma prática de confiança
Um método simples muda tudo: trata cada treino como um mini “laboratório de confiança”, em vez de apenas uma queima de calorias. Antes de começares, escolhe um pequeno desafio que te assuste só um bocadinho: mais duas repetições, mais um minuto, um peso ligeiramente mais pesado, uma música mais rápida para caminhar.
Depois, durante o treino, presta atenção não só ao corpo, mas também ao teu diálogo interno. Repara no momento em que o teu cérebro diz “Não consigo” na repetição 8 e tu ainda assim fazes a repetição 10. É a tua narrativa interna a ser obrigada a actualizar-se em tempo real.
Quando terminares, faz uma repetição mental de 30 segundos: “Eu não queria começar. Eu comecei. Eu queria parar. Eu continuei mais dois minutos.” Este é o ciclo da confiança: intenção, desconforto, conclusão.
A maioria das pessoas vai ao ginásio à procura de resultados visíveis no espelho e esquece os ganhos invisíveis na cabeça. Depois desiludem-se quando os abdominais não aparecem em três semanas e desistem de tudo. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.
O truque é deixar de tratar cada treino como um teste de valor pessoal e encará-lo mais como uma série de experiências. Nuns dias, a tua vitória é apenas aparecer. Noutros, é bater uma nova distância. Ambos contam. Ambos são pequenos depósitos na tua conta de “Eu posso confiar em mim”.
Quando falhas um dia, isso não apaga o teu progresso. É apenas um ponto de dados, não a tua história inteira.
“A confiança não cai do céu depois de um treino”, explica a psicóloga do desporto Dra. Maya Lewis. “Cresce silenciosamente sempre que as tuas acções combinam com as tuas intenções. O movimento é uma das formas mais concretas de provares a ti próprio/a que consegues fazer o que disseste que ias fazer.”
- Antes do treino – Escolhe um desafio realista e um inegociável: por exemplo, “Vou mexer-me durante 15 minutos” e “Vou tentar mais uma série”.
- Durante o treino – Repara no segundo exacto em que o teu cérebro diz “desiste” e fica com essa sensação por mais duas respirações.
- Logo a seguir – Diz a tua vitória em voz alta, mesmo que pareça parvo: “Eu fui, mesmo estando cansado/a.”
- Mais tarde, no dia – Quando surgir um e-mail ou tarefa difícil, lembra-te: “Hoje já fiz uma coisa difícil.”
- Ao longo da semana – Regista esforço, não estética: “Vezes em que apareci” ganha a “Centímetros perdidos” nas notas do telemóvel.
A forma silenciosa como o movimento muda a maneira como te vês
A mudança mais profunda por trás da confiança pós-treino é a identidade. Cada vez que mexes o corpo, estás a reunir provas sobre quem és. Não a versão polida do “sobre mim”, mas a versão diária, vivida. A que ou evita o desconforto, ou aprende a dançar com ele durante algum tempo.
Quando acumulas vitórias pequenas suficientes - terminar uma série quando o teu cérebro implorava para parar, entrar numa aula onde não conheces ninguém, correr à volta do quarteirão pela primeira vez em anos - a tua auto-imagem já não consegue ficar igual. Ela estica para caber nesta nova pessoa que tu continuas a ser, através das tuas acções.
Já todos estivemos aí: aquele momento em que percebes que a confiança que sentes depois de um treino não é realmente sobre o treino. É sobre finalmente teres evidência de que consegues aparecer por ti, mesmo nos dias caóticos e com pouca energia.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Mudança na química cerebral | O exercício liberta endorfinas, dopamina e serotonina, ao mesmo tempo que reduz o cortisol | Ajuda a explicar por que razão o mundo parece menos avassalador e te sentes mais corajoso/a após o treino |
| Ciclo da confiança | Intenção → desconforto → conclusão torna-se um padrão repetido durante os treinos | Mostra como pequenos desafios físicos treinam a resiliência mental e a auto-confiança |
| Actualização da identidade | Movimento regular muda lentamente a forma como te vês, de “Eu não consigo” para “Eu lido com coisas difíceis” | Incentiva a focar a consistência do esforço em vez de resultados estéticos para construir confiança duradoura |
FAQ:
- Porque é que me sinto mais confiante depois de um treino mesmo que não pareça diferente? O teu cérebro reage ao que fazes, não apenas ao teu aspecto. Completar um treino prova que consegues definir uma intenção, enfrentar desconforto e concretizar, o que naturalmente aumenta a auto-confiança e a confiança.
- Quanto tempo costuma durar essa confiança pós-treino? Para muitas pessoas, as melhorias de humor e confiança podem durar várias horas. O exercício regular tende a prolongar esse efeito ao longo do tempo, tornando o teu nível base mais estável.
- Preciso de treinos intensos para sentir este impulso psicológico? Não. Até uma caminhada rápida, uma sequência curta de yoga, ou 15 minutos de exercícios com o peso do corpo podem desencadear a mudança química no cérebro que aumenta a confiança.
- E se me sentir constrangido/a no ginásio em vez de confiante? É comum. Começa com sessões mais pequenas e mais privadas, ou treina em casa. Foca-te nas tuas pequenas vitórias, não em comparar-te com as pessoas à tua volta.
- O exercício pode mesmo ajudar com baixa auto-estima a longo prazo? O exercício não é uma cura mágica, mas pode ser uma ferramenta poderosa. Em conjunto com terapia, relações de suporte e hábitos saudáveis, o movimento regular torna-se muitas vezes um pilar sólido na reconstrução da auto-estima.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário