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A regra dos 19 °C acabou: eis a nova temperatura recomendada por especialistas para aquecimento.

Pessoa ajusta termostato digital numa sala acolhedora com sofá, planta e luz natural.

O radiador no corredor liga-se com um suspiro metálico e baço.

Lá fora, o céu tem aquele cinzento plano de inverno que parece engolir o som. Cá dentro, uma família está em frente ao termóstato, meio a discutir, meio a rir. O pai jura que 19 °C é “o que os especialistas dizem”. O adolescente, de hoodie e meias grossas, insiste que parece um frigorífico. A mãe percorre o telemóvel, franzindo o sobrolho perante um artigo que diz que a famosa regra dos 19 °C talvez esteja… desatualizada.

Durante anos, disseram-nos para manter as casas a 19 °C no inverno: bom para a saúde, bom para a fatura, bom para o planeta. Uma espécie de número mágico, passado de vizinho para vizinho como um código secreto. Mas a ciência - e a realidade de como vivemos hoje - tem vindo a mudar, discretamente.

E a nova temperatura recomendada pode surpreendê-lo.

Então, os 19 °C acabaram mesmo?

Entre em quase qualquer casa numa fria noite de janeiro e sente-o de imediato: a negociação invisível entre conforto e culpa. A sala está acolhedora, mas alguém acabou de sussurrar: “O aquecimento está caro, não mexas no termóstato.” Durante décadas, 19 °C foi a resposta padrão, repetida por agências de energia e campanhas públicas por toda a Europa como a temperatura “certa” para uma casa aquecida.

Esse número fazia sentido numa era de camisolas mais grossas, energia mais barata e menos horas passadas em teletrabalho. Hoje, as pessoas dormem, trabalham, fazem exercício e acompanham a escola em casa dentro das mesmas quatro paredes. A regra antiga começa a parecer mais um compromisso estranho do que uma referência útil.

A verdade é que os especialistas já avançaram - em silêncio.

No Reino Unido e em muitos países europeus, o novo “ponto ideal” frequentemente citado por cientistas da construção e entidades de saúde situa-se entre 20 °C e 21 °C para as principais divisões de estar. Nem um calor exagerado, nem um frio penitente. Apenas quente o suficiente para não andar com os ombros tensos nem embrulhado em mantas à secretária. Algumas organizações de saúde até alertam que passar muitas horas abaixo dos 18 °C pode aumentar os riscos para pessoas mais velhas ou com problemas respiratórios.

Então por que razão os 19 °C se mantiveram durante tanto tempo? Em parte porque era simples. Um número para memorizar, uma mensagem para campanhas. Soava virtuoso: está a poupar energia, a fazer a sua parte. Mas as famílias mudaram. As casas estão mais isoladas. Os trabalhos são mais sedentários. E mais de nós passa dez ou doze horas por dia dentro de casa sem grande movimento. Isso importa, porque a sensação de “calor confortável” está profundamente ligada a quanto se mexe, ao que veste, à humidade do ar e à idade.

As orientações europeias mais recentes tendem agora para 20–21 °C nas salas de estar, ligeiramente mais fresco nos quartos à noite, e intervalos flexíveis em vez de uma regra rígida. A obsessão por um único número mágico está a dar lugar a um foco em zonas, horários e conforto humano real. Os especialistas em energia falam hoje menos de “19 ou nada” e mais de “quente onde conta, quando conta”.

O novo manual de temperaturas para um inverno moderno

Se há uma mudança concreta que os especialistas recomendam, é esta: apontar para cerca de 20–21 °C na divisão principal onde passa a maior parte do dia e deixar o resto da casa um pouco mais fresco. Isso significa que a cozinha ou a sala pode rondar os 20,5 °C enquanto corredores e quartos de hóspedes ficam mais perto dos 18 °C. Quartos? Muitas vezes o ideal é 18–19 °C à noite para dormir bem e manter a fatura estável.

O método é surpreendentemente simples. Comece por subir o termóstato para 20 °C e mantenha-o assim durante dois ou três dias. Preste muita atenção a como se sente, especialmente à secretária ou no sofá ao fim da tarde. Depois ajuste em passos de meio grau. Muitos termóstatos modernos permitem alterações de 0,5 °C, e esses pequenos ajustes fazem muitas vezes a diferença entre “estou a congelar” e “estou bem”. Pense nisto como afinar um instrumento, em vez de ligar/desligar um interruptor.

Numa terça-feira chuvosa do inverno passado, visitei um casal na casa dos sessenta, numa pequena moradia geminada. Tinham-se agarrado aos 19 °C durante anos porque “era o que o governo dizia”, mesmo passando as noites enrolados em mantas. Um deles tem artrite, que piora com o frio. Depois de uma consulta, o médico de família sugeriu, com cuidado, manter a sala mais perto dos 21 °C quando estão em casa e acordados.

Estavam aterrorizados com a ideia de a fatura disparar. Ainda assim, subiram o termóstato e colocaram um temporizador para o aquecimento baixar à noite e quando saíam. Um mês depois, tinham gasto um pouco mais de energia, sim, mas nem perto do que temiam. A maior mudança foi no corpo: menos rigidez, menos arrepios tardios, mais tempo a ler no sofá em vez de se refugiarem debaixo do edredão às 20h30.

O mesmo padrão surge em estudos recentes sobre casas frias. Em habitações mal aquecidas, as pessoas mexem-se menos, sentem mais cansaço e por vezes ligam aquecedores elétricos ineficientes em “rajadas de pânico”, o que na prática aumenta a fatura. Quando as temperaturas se mantêm estáveis naquela faixa de 20–21 °C onde as pessoas passam o tempo, tendem a usar o sistema de forma mais racional. Sem picos dramáticos, menos momentos desesperados de “máximo calor”, muito menos stress.

Analistas de energia chamam a isto o efeito rebound ao contrário: em vez de aquecer fortemente uma casa fria durante uma hora e depois desligar tudo, aposta-se num calor estável nas divisões ocupadas e aceita-se que as restantes zonas fiquem mais frescas. O resultado é muitas vezes um consumo semelhante ou ligeiramente inferior, mas uma sensação de conforto completamente diferente. É também por isso que muitos especialistas dizem hoje que a verdadeira pergunta não é “Os 19 °C morreram?”, mas sim “Onde, quando e para quem é que 19 °C chega?”

A lógica por trás das novas recomendações é simples: um número não serve para todos os corpos. Um adulto saudável de trinta anos, ativo e que passa parte do tempo fora de casa, pode estar perfeitamente satisfeito a 19 °C na maioria das noites. Uma pessoa reformada com problemas cardíacos, sentada horas a fio, não está na mesma situação. Nem um bebé a dormir a sesta num quarto virado a norte, nem um freelancer a escrever o dia todo em frente a uma janela com correntes de ar.

É por isso que as autoridades de saúde insistem cada vez mais em intervalos e contexto. Exposição prolongada abaixo dos 18 °C pode ser arriscada para grupos vulneráveis. Cerca de 20 °C tende a servir a maioria dos adultos em zonas de estar. Até 21 °C oferece mais conforto para trabalho sedentário ou para pessoas mais velhas, sobretudo em climas húmidos. A ciência também mostra que a sensação de calor não depende apenas da temperatura do ar: isolamento, revestimentos do chão, humidade e até a cor das paredes influenciam o quão “quente” uma divisão parece, mesmo com o mesmo número no visor.

Dos números aos hábitos: como aquecer de forma mais inteligente, não mais agressiva

O aconselhamento dos especialistas parece agora menos uma ordem rígida e mais um conjunto de hábitos simples. Um dos mais eficazes é aquecer por zonas: aquecer as divisões onde realmente vive para aquela faixa de 20–21 °C e deixar o resto um pouco mais baixo. As válvulas termostáticas nos radiadores facilitam isto. Baixa o quarto um nível durante o dia, mantém a casa de banho confortável para os duches da manhã e prioriza a divisão onde realmente se senta e respira a maior parte do tempo.

Os temporizadores são tão importantes quanto a temperatura. Em vez de ligar e desligar o aquecimento em rajadas, muitos especialistas recomendam blocos estáveis e programados: aquecer a casa pouco antes de acordar, baixar um grau a meio do dia e subir suavemente no início da noite. A caldeira trabalha de forma menos frenética, as paredes mantêm-se mais quentes e os seus ossos também. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas ter um horário básico, mesmo que por vezes não o cumpra, é melhor do que pura improvisação.

Numa manhã húmida de novembro, vi uma mãe/pai solteira(o) seguir a rotina num apartamento T2. Costumava manter tudo a 19 °C “porque é isso que agora nos dizem”, e depois entrar em pânico quando as crianças se queixavam do frio e subir para 23 °C durante uma hora. A nova tática é mais indulgente. O quarto das crianças e a sala ficam por volta de 20,5 °C das 6h às 8h e depois descem quando elas saem para a escola. O termóstato está programado para voltar a subir pouco antes de chegarem a casa, para o espaço já se sentir acolhedor.

Ainda deixa o corredor nos 17–18 °C. A diferença é que os locais onde realmente se sentam, estudam e dormem estão nessa nova zona recomendada. A fatura não diminuiu drasticamente, mas também não disparou. O que mais mudou foi o nível de stress. Já não sente que está a falhar se subir o termóstato acima dos 19 °C numa noite particularmente húmida e ventosa. A velha pressão moral aliviou um pouco.

Os especialistas em aquecimento dizem que as pessoas cometem frequentemente os mesmos erros: procurar rajadas rápidas de “muito quente” em vez de um “morno” constante, ignorar correntes de ar por baixo das portas enquanto se obcecam com o número do termóstato, ou aquecer divisões vazias porque foi assim que o sistema ficou definido há anos. Também veem muita culpa. As pessoas pedem desculpa por quererem 20,5 °C, como se o conforto fosse um luxo. Uma especialista com quem falei abanou a cabeça e disse: “Não é uma má pessoa por odiar sentir frio à secretária.”

“A regra dos 19 °C nunca foi pensada como uma lei moral”, diz uma consultora de energia que trabalha há anos em orientações públicas. “Era um número de campanha. Hoje, dizemos às pessoas: comece por 20–21 °C onde vive e trabalha e depois adapte ao seu corpo, à sua casa e à sua carteira.”

Também repetem algumas vitórias simples que muitas vezes importam mais do que o grau exato no visor:

  • Feche portas para manter o calor onde está, em vez de aquecer corredores.
  • Purgue os radiadores e verifique zonas frias uma vez por ano para maior eficiência.
  • Use cortinas grossas à noite, mas deixe entrar o sol durante o dia.
  • Coloque o termóstato longe de sol direto, fornos ou correntes de ar frio.
  • Vista-se por camadas de forma realista para não exigir que a caldeira faça tudo.

Uma nova forma de pensar sobre a “temperatura certa”

Estamos a entrar num período estranho em que os conselhos antigos colidem com a realidade nova. A regra dos 19 °C ainda ecoa em campanhas públicas e nas redes sociais. Ao mesmo tempo, médicos, engenheiros de edifícios e analistas de energia repetem uma mensagem ligeiramente diferente: procure a faixa de conforto 20–21 °C onde a vida realmente acontece e deixe o resto flexível. Esta mudança pode parecer pequena. Não é. É uma passagem do “tamanho único” para algo mais próximo do senso comum.

A nível pessoal, a pergunta deixa de ser “Que número devo obedecer?” e passa a ser “Que equilíbrio funciona para o meu corpo, o meu orçamento e a minha casa?” A nível social, obriga-nos a falar com honestidade sobre casas frias, pessoas vulneráveis e aquilo que esperamos dos nossos espaços de vida. A nível climático, empurra-nos para o isolamento, controlos inteligentes e comportamento - e não para moralizar em torno do termóstato.

Numa noite tranquila deste inverno, pode dar por si em frente a esse pequeno ecrã luminoso na parede, com o polegar hesitante sobre o botão. O velho reflexo vai sussurrar “19”. A ciência emergente, a experiência vivida de milhões de pessoas em teletrabalho, os avisos de saúde sobre longas horas em divisões frias: todas essas vozes empurram-no para uma faixa um pouco mais quente e mais humana. A escolha já não será feita apenas por especialistas. Será feita, grau a grau, em cozinhas e salas como a sua.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Fim da regra dos 19 °C Os especialistas privilegiam agora uma faixa de 20–21 °C para as divisões de estar Compreender melhor porque não está a ser “demasiado exigente” se 19 °C lhe parece frio
Conforto direcionado por zonas Aquecer mais as divisões ocupadas e deixar as outras ligeiramente mais frescas Reduzir a fatura sem sacrificar o conforto onde passa os seus dias
Hábitos em vez de números rígidos Programar, isolar, ajustar em meio grau, em vez de fazer “iô-iô” com o termóstato Ganhar serenidade e eficiência energética no dia a dia

FAQ

  • Os 19 °C são oficialmente “errados” agora? Não exatamente. Os 19 °C ainda podem funcionar para adultos saudáveis e ativos, mas muitos especialistas recomendam agora 20–21 °C nas principais zonas de estar, sobretudo se for sedentário ou vulnerável.
  • Que temperatura sugerem as organizações de saúde para o inverno? A maioria aconselha manter as divisões ocupadas por volta dos 20 °C ou ligeiramente acima e evitar longos períodos abaixo dos 18 °C para pessoas mais velhas, bebés e quem tem problemas de saúde.
  • Subir o termóstato de 19 °C para 21 °C vai fazer a fatura disparar? Pode aumentar o consumo, mas o aquecimento por zonas, temporizadores e melhor isolamento muitas vezes compensam grande parte dessa diferença. A forma como aquece é tão importante quanto o número.
  • É seguro dormir num quarto a 21 °C? Sim, é seguro, embora muitos especialistas do sono sugiram 18–19 °C para melhor qualidade de sono. Pode testar diferentes definições e manter a que o ajuda a descansar.
  • E se a minha casa nunca chega aos 20 °C mesmo com o aquecimento ligado? Isso costuma ser sinal de isolamento fraco, radiadores subdimensionados ou problemas na caldeira. Nesse caso, pedir aconselhamento a um profissional ou a um serviço local de aconselhamento energético pode ser mais útil do que simplesmente subir o termóstato.

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