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A velocidade a que caminhamos pode revelar mais sobre a nossa personalidade do que se pensava.

Duas pessoas a caminhar numa rua arborizada em dia ensolarado.

On enrijecemos, aceleramos, suspiramos. Mas e se este pequeno teatro do passeio revelasse muito mais do que simples hábitos de deslocação? Em grandes cidades como Londres ou Nova Iorque, dá para adivinhar quem está stressado, quem está perdido, quem está confiante… apenas pela forma como os pés batem no chão.

Uma investigadora disse-me um dia que conseguia “ler” uma pessoa em 20 segundos de caminhada. Ri-me e, depois, vi-a observar a multidão. Quase não disse nada - apenas murmúrios: “ansioso”, “muito controlado”, “cansado da vida”. Sem palavras, só o andamento dos passos. Achamos que escolhemos o ritmo. Na verdade, é ele que nos denuncia.

O que a tua velocidade a andar diz discretamente sobre ti

Observa uma multidão numa passadeira movimentada e esquece as caras por um instante. Foca-te apenas no ritmo dos pés. Algumas pessoas cortam através dos transeuntes, rápidas, decididas, como se caminhassem para um prazo invisível. Outras vagueiam, quase a flutuar, com pausas, desvios, uma espécie de banda sonora privada que mais ninguém ouve.

Os investigadores notaram um padrão: pessoas que, naturalmente, andam mais depressa tendem a pontuar mais alto em traços como a conscienciosidade e a extroversão. Planeiam, avançam, detestam perder tempo. Quem anda mais devagar, em muitos estudos, inclina-se um pouco mais para a introversão ou para a reflexão. Observa mais à volta. Faz mais diálogos internos. Nada disto é absoluto, mas as médias são surpreendentemente consistentes.

Um estudo de 2019, que acompanhou dezenas de milhares de adultos no Reino Unido, encontrou algo marcante: pessoas com um passo mais rápido não só tinham melhor saúde física, como também um perfil psicológico frequentemente descrito como mais proativo, orientado para objetivos e, por vezes, até um pouco impaciente. Noutro experimento, observadores viram pequenos clipes de pessoas a andar com o rosto desfocado. Só pela passada e pela velocidade, conseguiam inferir traços de personalidade com uma precisão acima do acaso.

Pensa no teu próprio ritmo quando estás atrasado versus quando não tens nenhum destino específico. O corpo muda sem que tenhas de pensar nisso. Esse modo por defeito - o teu ritmo “base” - tende a aparecer quando não estás a representar para ninguém. No regresso do supermercado. A atravessar o parque de estacionamento. A passear o cão. É aí que o teu sistema nervoso fala primeiro e a tua fachada social vem atrás.

Os psicólogos associam a velocidade de marcha ao que chamam nível de ativação - a energia interna do cérebro e do corpo. Pessoas com alta ativação vivem com um zumbido suave por dentro, como um computador que nunca desliga totalmente. Muitas vezes mexem-se mais depressa, falam mais depressa, verificam o telemóvel com frequência. Naturalmente, os pés acompanham esse tempo. Pessoas com menor ativação atravessam o dia com outra batida, menos apressadas, mais atentas ao que se passa à volta. Nenhum estilo é “melhor”. Cada ritmo é como uma impressão digital de como te encontras com o mundo.

Como usar o teu ritmo como um espelho de personalidade na vida real

Há uma experiência simples que podes fazer esta semana. Escolhe um percurso que faças muitas vezes: de casa para a paragem do autocarro, do escritório para o café da esquina. Faz o caminho uma primeira vez “como de costume”, sem te forçares. Depois, noutra altura, faz o mesmo percurso a pensar conscientemente em abrandar 20%. Não ao ponto de uma tartaruga - apenas ligeiramente mais suave, mais pausado.

Repara no que muda na tua cabeça. Muitas pessoas dizem que, quando abrandam, o monólogo interno fica mais audível. As preocupações vêm à tona. As ideias também. Um ritmo mais rápido, pelo contrário, pode funcionar como uma tampa sobre emoções difíceis - como um ruído de fundo que impede certos pensamentos de chegarem até ti. A tua velocidade por defeito é muitas vezes o compromisso que a tua mente encontrou entre evitar desconforto e continuar funcional.

Experimenta outra variação: caminha com alguém cujo ritmo natural seja muito diferente do teu. Deixa essa pessoa escolher o andamento. Tu segues. Ao fim de alguns minutos, pergunta a ti próprio: estou irritado/a, aliviado/a, tranquilo/a, estimulado/a? Este pequeno atrito revela muito. Se um ritmo mais lento te tira do sério, provavelmente há um nível de tensão normalizado no teu dia a dia de que já nem te apercebes. Se um ritmo mais rápido te esgota depressa, talvez o teu sistema nervoso já esteja no limite do que consegue suportar sem o dizer claramente.

Aqui é que as coisas se complicam. Muita gente lê este tipo de estudos e pensa: “Então eu ando depressa, devo ser tipo A, stressado, obcecado com desempenho”. Ou o contrário: “Ando devagar, devo ser preguiçoso ou desmotivado.” Estes rótulos pegam-se - e magoam. A vida real é mais confusa. Um pai ou uma mãe a empurrar um carrinho anda mais devagar. Uma pessoa ansiosa pode andar depressa na rua, mas arrastar os pés em casa, onde ninguém está a olhar. Uma alma criativa pode alternar entre passos quase a correr em dias de prazos e passos errantes quando anda à caça de ideias.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ninguém passa a tarde a cronometrar as próprias caminhadas e a tomar notas como um cientista de laboratório. O objetivo não é recolher dados perfeitos. É desenvolver uma curiosidade suave sobre a forma como o teu corpo se move quando ninguém está a ver. Essa curiosidade tende a desinchar a vergonha e a abrir espaço para pequenos ajustes em vez de grandes julgamentos sobre ti próprio.

Um psicólogo que entrevistei resumiu-o de forma direta:

“A tua velocidade a andar não te define, mas muitas vezes expõe o ritmo a que a tua vida, neste momento, está a exigir que existas.”

Para tornar isto menos abstrato, podes manter uma pequena lista mental - não como um dever, mas como um ponto de referência flexível:

  • Ritmo do trajeto de manhã: apressado, neutro ou relaxado?
  • Ritmo do passeio ao fim de semana: igual ao dos dias úteis ou claramente diferente?
  • Com amigos: tens tendência a impor o ritmo do grupo ou a segui-lo?
  • Sob stress: os teus passos aceleram ou bloqueiam?
  • Depois das férias: a tua velocidade natural muda durante alguns dias?

Estas micro-observações, recolhidas ao longo das semanas, começam a revelar padrões. Talvez o teu corpo acelere sempre que entras em certas ruas associadas ao trabalho. Talvez abrandes perto de espaços verdes. Preferências escondidas. Tensões escondidas. Tudo codificado no comprimento da tua passada.

Deixa os teus pés reescreverem a história que contas sobre ti

Passa um dia a reparar simplesmente nos caminhantes à tua volta. O adolescente que se encolhe e arrasta as sapatilhas como se o chão pesasse mais debaixo dele. O executivo de sapatos engraxados cujos saltos marcam um ritmo seco, quase sincopado, no passeio. A senhora idosa que anda devagar, mas sem hesitar - cada passo firme, quase cerimonial.

Podes dar por ti mais tolerante quando os “lês” assim. Aquela pessoa lenta à tua frente na escada rolante pode estar a recuperar de uma cirurgia, pode estar perdida nos seus pensamentos após uma chamada difícil, ou pode simplesmente ser alguém cujo sistema nervoso se recusa a viver em avanço rápido. Aquele que anda depressa colado a ti nem sempre é mal-educado; às vezes é apenas um coração que corre há demasiado tempo sem pausa.

Quando mudas a forma de ver, acontece algo inesperado. O teu próprio ritmo deixa de ser um defeito a corrigir e passa a ser um dado a escutar. Começas a notar quando estás a pegar no ritmo de outra pessoa só para lhe agradar ou para evitar conflito. Percebes quando os teus pés aceleram sempre que te aproximas de um lugar que te deixa desconfortável. Apanhas-te a abrandar perto de um parque, porque ver verde já te faz bem - mesmo que não entres.

A partir daí, pequenos ensaios tornam-se possíveis. Podes escolher andar cinco minutos mais devagar de propósito antes de uma reunião que te provoca ansiedade. Podes experimentar um ritmo ligeiramente mais rápido nos dias em que tudo te parece estagnado, só para ver se a mente acompanha o movimento do corpo. Podes descobrir que algumas partes da tua personalidade ficam mais acessíveis a diferentes velocidades: o teu lado brincalhão em modo passeio, o teu lado decidido quando os passos estalam no passeio.

Nada disto exige gadgets, aplicações, nem dispositivos conectados. Só tu, um passeio, um corpo em movimento. As pistas já lá estão, há anos, na forma como atravessas uma sala ou desces uma escada. Não precisas de te tornar noutra pessoa. Podes deixar a tua velocidade a andar ser aquilo que sempre foi: uma frase silenciosa que a tua personalidade repete, vezes sem conta, a cada passo.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A velocidade a andar reflete o tempo interior Estudos ligam o ritmo natural a traços como extroversão, conscienciosidade ou temperamento reflexivo Ajuda a compreender melhor o próprio estilo de funcionamento
O contexto importa tanto quanto a personalidade Saúde, stress, ambiente e papéis sociais alteram fortemente o ritmo Evita julgamentos rápidos sobre si próprio ou os outros
Pequenas experiências podem mudar a forma de pensar Brincar com diferentes velocidades influencia emoções, ideias e sensações corporais Oferece uma ferramenta simples para ajustar o dia a dia, sem esforço complexo

FAQ:

  • Andar depressa significa sempre que estás stressado/a? Não necessariamente. Algumas pessoas têm um ritmo naturalmente rápido, ligado à sua morfologia ou à energia de base, sem estarem em sobrecarga mental.
  • Posso mudar a minha personalidade mudando a velocidade a que ando? Não, mas mudar o ritmo pode influenciar temporariamente o teu humor, o teu nível de foco e a forma como te apresentas aos outros.
  • Quem anda devagar tem menos motivação na vida? A investigação não diz isso. Um passo mais lento pode refletir cansaço, um estilo mais contemplativo, uma preocupação de saúde ou simplesmente outra relação com o tempo.
  • É útil registar a minha velocidade a andar com uma app? Pode ser divertido para ver tendências, mas a observação subjetiva - como te sentes a diferentes ritmos - costuma ser mais esclarecedora.
  • E se o meu ritmo variar muito de dia para dia? É frequente. Um ritmo muito flutuante pode simplesmente mostrar que o teu corpo reage fortemente ao sono, ao stress, à alimentação ou às emoções do momento.

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