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Adeus multas: conheça as novas tolerâncias oficiais dos radares de velocidade

Homem a conduzir, interior do carro, vista do pára-brisas, visor do carro aceso, semáforo ao longe, espelho retrovisor visíve

O coração aperta, o pé levanta-se, os olhos procuram nervosamente o limite indicado na placa anterior. Era 50? 70? Ou 80 “reduzido temporariamente” por causa de obras onde já não há um único operário há semanas?

Dentro do carro, o ambiente congela. Faz-se o cálculo mental: “Eu ia a quanto, agora? 56? 59? Isto passa, ou acabei de financiar a próxima rotunda aqui da zona?”. Ri-se amarelo, protesta-se contra “as armadilhas para sacar dinheiro” e, depois, espera-se, fatalista, pela temida carta.

Ultimamente, este pequeno teatro interior está a mudar. As regras mexeram-se. E algumas multas também.

Adeus às multas? O que as novas tolerâncias dos radares de velocidade mudam realmente

Numa segunda-feira cinzenta, bem cedo, na circular à saída de uma cidade de média dimensão, o fluxo de carros parece quase coreografado. Os limpa-para-brisas varrem o vidro, os velocímetros pairam mesmo abaixo do limite, e todos os condutores parecem abrandar exatamente no mesmo troço: a familiar caixa cinzenta do lado direito. Ali, as pessoas não olham para a estrada; olham para o ponteiro.

O que agora é diferente é que muitos desses condutores ouviram o rumor: “Aumentaram a margem. Dá para ir um bocadinho mais depressa sem multa.” Alguns sorriem para si mesmos e deixam o carro subir um ou dois km/h acima do que antes. Outros não confiam nada nisso e ficam colados a uns ansiosos 47 km/h numa zona de 50.

Entre lendas urbanas e títulos de rádio ouvidos pela metade, uma nova pergunta tomou discretamente conta de milhões de painéis de instrumentos: quanto é que, na prática, se pode exceder o limite antes de o radar “morder”?

Por toda a Europa e em várias regiões do Reino Unido, os radares estão a ser recalibrados com tolerâncias mais claras e, muitas vezes, ligeiramente mais generosas. A lógica não é dar carta-branca aos condutores, mas alinhar a fiscalização com a realidade técnica. Nenhum radar é perfeitamente exato até à última casa decimal - e o seu painel também não.

Hoje, muitas autoridades falam abertamente em margens explícitas: um número fixo de km/h a baixas velocidades, ou uma percentagem a velocidades mais altas. Em vez de “limiares misteriosos”, publicam valores como 5 km/h até 100 km/h e, depois, 5% acima disso. Isto significa que um carro medido a 54 km/h numa zona de 50 pode agora passar incólume, onde antes teria acionado uma multa.

A mudança é importante porque redesenha a linha fina entre uma distração menor e uma sanção. Também reduz parte da revolta em torno de “armadilhas de tolerância zero” e dá aos utilizadores da estrada uma almofada realista para pequenos deslizes. Mas não transforma as autoestradas numa terra de ninguém. As novas regras são sobre precisão, não sobre permissão.

Como funcionam as novas tolerâncias em estradas reais

Para perceber o que está a mudar, ajuda imaginar um troço específico de asfalto. Digamos: uma avenida urbana de 50 km/h com radar fixo, mais uma estrada nacional de 90 km/h com controlo móvel usado pela polícia. Nas novas tolerâncias oficiais adotadas em muitas jurisdições, a margem em cidade é frequentemente definida em torno de 5 km/h, enquanto acima de 100 km/h passa a ser uma percentagem, tipicamente 5%.

Isto significa que, numa zona de 50, o radar pode só disparar a partir de uma velocidade medida de 56 km/h. Numa zona de 90, com margem de 5%, a fiscalização pode começar a partir de 95 km/h. Depois, as autoridades aplicam esta dedução antes de calcular a velocidade legal no auto. Assim, se for fotografado a 97 km/h nessa estrada de 90, podem registar 92 km/h após subtrair a margem - e você escapa à multa.

Isto não é um palpite: está ligado a erros de medição certificados e à diferença entre o que o painel indica e a velocidade real. O painel do carro mostra muitas vezes mais 2–5 km/h do que a velocidade real. Estas tolerâncias procuram evitar punir condutores pela própria imprecisão da tecnologia.

Veja-se o caso da Claire, enfermeira de 38 anos, que percorre 50 km por dia entre um subúrbio e o hospital. Durante anos, colocava o cruise control a 47 km/h em zonas de 50, com medo de acumular pontos que não se podia dar ao luxo de perder. “Chegava ao trabalho tensa, como se já tivesse reprovado num teste antes de o turno começar”, recorda.

Quando as notícias locais divulgaram as novas tolerâncias, com números exatos, ela subiu cautelosamente o cruise para 50 ou 51. Um mês depois, nenhuma multa. Três meses, ainda nada. A única mudança real? O trajeto encurtou cerca de seis minutos e passou a parecer muito menos como andar em bicos de pés.

Do ponto de vista estatístico, faz sentido. Em vários países europeus que clarificaram ou alargaram ligeiramente as margens, o número de autos por infrações “mesmo no limite” caiu, enquanto o excesso de velocidade grave se manteve constante ou desceu. Os radares não ficaram mais “simpáticos”. Ficaram mais precisos.

A ideia central é simples: a fiscalização deve visar comportamentos realmente perigosos, não pequenas flutuações. Especialistas em segurança rodoviária falam muitas vezes de curvas de risco, mostrando que a gravidade dos acidentes aumenta de forma acentuada acima de determinados patamares - não por ir um ou dois km/h acima. Ao elevar um pouco a linha de disparo - e ao dizer claramente aos condutores onde ela está - as autoridades recentram o sistema nas velocidades de maior risco.

Há também uma mudança psicológica. Quando as pessoas sentem que uma regra é justa, é mais provável que a respeitem. Um condutor que sabe que não será punido por 52 numa zona de 50 tem mais probabilidade de abrandar a partir de 70, porque a linha parece razoável, não arbitrária. Esta sensação de justiça pode parecer abstrata, mas molda o comportamento real, faixa a faixa.

Ainda assim, as novas tolerâncias não apagam a lei. Ir 20 ou 30 km/h acima do limite continua a colocá-lo nos mesmos escalões de multa, perda de pontos e possíveis idas a tribunal como antes. Adeus a algumas multas mesquinhas, sim. Não adeus às consequências.

Conduzir com as novas “almofadas”: hábitos práticos e armadilhas

O hábito mais concreto a adotar é criar a sua própria “margem pessoal” por cima da oficial. Em vez de andar a tentar acertar no nível exato de disparo, muitos condutores experientes seguem uma regra simples: nunca mais do que 3–4 km/h acima do limite indicado no painel. Essa pequena folga absorve variações mínimas de inclinação, vento e atenção.

Nas autoestradas, onde a tolerância tende a ser baseada em percentagem, muitos pendulares de longa distância ajustam o cruise um pouco abaixo do que acham que o radar permite. Por exemplo, 128–129 km/h numa zona de 130, sabendo que o painel provavelmente indica a mais. Assim, a margem oficial funciona como reserva, não como a rede principal.

Pense na tolerância como um co-piloto silencioso, não como um desafio. Está lá para cobrir ruído humano e técnico, não para incentivar a “jogar à galinha” com o flash.

Onde as pessoas muitas vezes são apanhadas é nas zonas de transição. A estrada passa de 90 para 70 e, depois, rapidamente para 50 junto a uma aldeia, e o radar fica logo após a última placa. Olha-se uma vez, acha-se que já se abrandou o suficiente e… flash. Muitos desses autos não acontecem porque alguém vinha a “rasgar” a estrada, mas porque adia a travagem por mais alguns segundos.

Sejamos honestos: ninguém faz isto na perfeição todos os dias, mas a estratégia mais segura é simples - comece a levantar o pé assim que vir um limite mais baixo à frente, não mesmo antes do radar. A velocidade do carro não desce instantaneamente, e é nesses últimos metros “em deslize” que a margem se gasta.

Outra armadilha frequente é confiar em boatos mal recordados. Um colega diz: “Agora podes ir +10 em todo o lado, é oficial.” Não é. As tolerâncias variam por país, por tipo de radar, e até conforme seja fixo ou móvel. Os únicos números que contam são os publicados pela autoridade rodoviária local ou pela polícia. O resto é conversa de café com ar de lei.

“A tolerância não existe para ‘oferecer’ mais velocidade aos condutores”, explica um inspetor de fiscalização rodoviária numa nota oficial. “Existe para que um condutor medido a 51 km/h numa zona de 50, com um painel ligeiramente generoso e uma margem de erro certificada, não seja tratado como um infrator deliberado.”

Para manter tudo cristalino ao volante, ajuda ter uma pequena lista mental sempre que entra num troço conhecido por ter radares:

  • Identificar o limite efetivamente sinalizado, não aquele que acha que “devia” ser.
  • Lembrar que o painel normalmente indica um pouco acima da velocidade real.
  • Deixar uma folga pessoal de 3–4 km/h abaixo do que os rumores dizem ser a tolerância.
Ponto-chave Detalhes Porque é importante para os leitores
Limites urbanos (30–50 km/h) Muitos radares fixos aplicam uma margem técnica fixa de cerca de 3–5 km/h. Uma leitura de 54 km/h numa zona de 50 pode ser reduzida no auto para 49–51 km/h, ficando abaixo do limiar de multa. Mostra como uma pequena oscilação do ponteiro ou um olhar momentâneo para outro lado não significa automaticamente uma conta na caixa do correio.
Velocidades mais altas (90–130 km/h) Acima de aproximadamente 100 km/h, as tolerâncias são frequentemente percentuais, comummente em torno de 5%. Um valor medido de 106 km/h numa zona de 100 pode ser ajustado para o limite legal para efeitos de fiscalização. Ajuda quem conduz longas distâncias a perceber porque “andar um pouco acima” nem sempre é punido, desde que se mantenha em poucos km/h.
Radares fixos vs. móveis Os radares fixos seguem, em geral, margens publicadas e padronizadas. Unidades móveis operadas pela polícia podem ter definições ligeiramente diferentes e são mais frequentemente colocadas onde o risco de acidente é elevado. Recorda que confiar apenas na memória de um troço pode ser enganador ao entrar numa nova zona ou perante controlos temporários.

A discreta mudança cultural por trás dos números

O que estas novas tolerâncias realmente revelam é uma mudança na forma como pensamos a estrada. Os carros estão mais cheios do que nunca de sistemas de assistência - do cruise adaptativo à manutenção na faixa - e, ainda assim, o velho medo do “radar escondido” ficou a pairar como um resto de outra era. Clarificar margens é uma forma de atualizar essa relação.

Isto empurra todos - condutores, polícia, legisladores - para uma conversa mais adulta: sabemos que a velocidade contribui para acidentes, mas também sabemos que humanos não são robôs. Há diferença entre sair momentaneamente 3 km/h acima e atravessar uma zona de 50 a 80. Tratar estas duas situações como iguais faz o sistema perder credibilidade.

Alguns condutores inevitavelmente vão tratar a nova folga como velocidade “grátis”. Outros continuarão a andar abaixo do limite, demasiado marcados por multas antigas para confiar na mudança. A maioria ficará algures no meio, ajustando-se gradualmente ao longo dos meses, à medida que passa tempo sem chegar nenhuma multa inesperada pelo correio.

Nesse espaço intermédio, acontece algo interessante. As conversas mudam de “Multam-te por 2 km/h a mais, é um escândalo” para “Levei uma por 82 numa zona de 70, sim, estiquei-me.” A responsabilidade não desaparece com as multas; apenas se torna mais fácil de aceitar quando a linha parece justa.

Talvez esse seja o verdadeiro adeus escondido no título “Adeus às multas”. Não um adeus a todas as penalizações, mas um lento adeus à sensação de estar a ser caçado por pequenos deslizes. Ao passar pelo próximo radar e olhar, quase com calma, para o velocímetro, talvez se apanhe a pensar menos no envelope no tapete da entrada - e mais nas pessoas que partilham a estrada consigo.

FAQ

  • Isto significa que posso conduzir com segurança 10 km/h acima de todos os limites agora? Não. As tolerâncias destinam-se a absorver erros de medição e pequenas flutuações, não a conceder mais 10 km/h em todo o lado. Em muitos locais, a folga real é apenas de 3–5 km/h a velocidades baixas e cerca de 5% a velocidades mais altas.
  • Todos os radares têm a mesma tolerância? Não. As definições podem variar entre radares fixos, sistemas de velocidade média e unidades móveis usadas pela polícia. Deve sempre confiar nos valores oficiais publicados pela sua autoridade local, e não na experiência de um amigo.
  • Porque é que a velocidade do meu painel não coincide com a do radar? A maioria dos fabricantes calibra os velocímetros para indicarem ligeiramente a mais, muitas vezes alguns km/h, para reduzir a probabilidade de estar a ir mais depressa do que pensa. Os radares, por outro lado, são calibrados segundo normas certificadas e depois ajustados novamente no cálculo do auto.
  • As tolerâncias podem mudar em obras ou zonas temporárias? Podem. Montagens temporárias por vezes usam limiares diferentes, e a fiscalização pode ser mais rigorosa onde há trabalhadores ou utilizadores vulneráveis. É prudente conduzir ABAIXO do limite nessas zonas, em vez de confiar em qualquer margem.
  • As multas antigas serão anuladas porque a tolerância aumentou? Regra geral, não. As novas regras aplicam-se a partir da data em que entram em vigor e raramente afetam autos anteriores, salvo se for anunciada uma medida retroativa específica pelas autoridades.

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