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Ainda não arranque as suas plantas! Saiba como os horticultores conseguem colher tomates muito depois dos outros.

Pessoa colhendo tomates maduros e verdes num jardim, com uma cesta cheia ao lado.

As videiras parecem cansadas, as folhas estão salpicadas de castanho, e o seu vizinho já arrancou até ao último tomateiro. Você fica ali, de mãos na cintura, a perguntar-se se devia fazer o mesmo. O ar tem aquele frio do fim do verão, o tipo de frio que sussurra: acabou a época, arrume tudo.

E, no entanto, a poucos quilómetros de distância, produtores de mercado ainda estão a encher caixas com tomates vermelhos impecáveis… semanas depois da sua última salada.

Numa manhã fresca de setembro, observei um deles, com as botas a afundarem ligeiramente na terra húmida. As plantas pareciam velhas, sim, mas nos cachos mais baixos, pesados conjuntos de frutos ainda brilhavam como lanternas. Ele movia-se devagar, quase com ternura, a cortar caules, a verificar cada tomate com o polegar, pressionando de leve a pele.

À nossa volta, outras hortas já estavam nuas. A dele não. E isso não é magia.

“Há quem os arranque demasiado cedo”, disse-me ele, encolhendo os ombros. “Vêem um pouco de amarelo, uma noite fria, e entram em pânico.”

Ele não entrou em pânico. Ajustou, protegeu, empurrou a época só mais um bocadinho.

Este é o truque discreto pelo qual os produtores de mercado vivem.

Porque é que os produtores de mercado ainda colhem quando as suas plantas parecem “acabadas”

Passeie por uma horta profissional no fim do verão e vai notar algo marcante. As plantas não têm um aspeto perfeito. As folhas estão enroladas, alguns caules trazem as marcas das batalhas do ano com o vento, o sol e o míldio.

E, no entanto, no meio da folhagem cansada, vê-se: longas fiadas de tomates saudáveis, quase com ar de superioridade, ainda a amadurecer como se fosse meados de agosto.

Há uma pequena quinta na beira de uma aldeia que visito todos os setembros. Nessa altura, a maioria das hortas caseiras parece um cemitério de estacas e cordas. Este produtor? Está ocupado a carregar caixas brilhantes para uma carrinha às 7 da manhã, para o mercado de sábado.

Contou-me que a semana de pico do tomate não é em julho, como toda a gente pensa. Muitas vezes é aquele último período quente do início do outono, quando as noites são mais frescas, mas os dias ainda dão calor suficiente. Enquanto outros já limparam os canteiros para o próximo ano, ele está discretamente a aproveitar esse mês esquecido.

A diferença não é que a horta dele tenha melhor tempo. É mentalidade e timing. Onde os jardineiros caseiros veem as primeiras folhas a amarelecer e pensam “acabou”, os produtores de mercado veem uma planta a mudar a distribuição de energia. Retiram folhas doentes, melhoram a circulação de ar e concentram-se em terminar os frutos que já lá estão.

Não estão a tentar obter novas flores em outubro. Estão a jogar um jogo diferente: esticar a ponta final da colheita que já começou em julho. E esse jogo pode acrescentar facilmente duas, três, até quatro semanas de tomates à sua cozinha.

Os truques profissionais que mantêm os tomates a chegar muito depois de os vizinhos desistirem

O primeiro grande segredo é ridiculamente simples: não arranque as plantas, “desfolhe-as”. Os produtores de mercado costumam retirar quase toda a folhagem da metade inferior da planta no fim da época.

Mantêm os caules com frutos e sacrificam a maioria das folhas velhas, propensas a doença, que já pouco alimentam.

De pé entre duas linhas, vi um produtor trabalhar como um cabeleireiro. Uma mão a segurar o caule, a outra a partir rapidamente as folhas abaixo do cacho mais baixo que está a amadurecer. De repente, o solo voltou a ver luz. O ar voltou a circular.

Em minutos, plantas que pareciam arbustos desarrumados transformaram-se em estruturas limpas e arejadas, com globos vermelhos e verdes pendurados à vista, prontos para apanhar os últimos raios de sol e cada grau perdido de calor.

Os jardineiros caseiros muitas vezes agarram-se a cada folha, com medo de a planta “sofrer”. Os produtores de mercado pensam de outra forma: no fim da época, a energia precisa de direção. Ao removerem folhagem a mais, reduzem a pressão das doenças e ajudam a planta a terminar os frutos que já iniciou.

Sejamos honestos: ninguém faz isto religiosamente todos os dias. Mas fazer uma limpeza única e decidida quando as noites começam a arrefecer pode mudar tudo. Já não se trata de mimar a planta. Trata-se de a deixar colocar a força restante onde mais importa: naqueles tomates quase maduros que, de outra forma, perderia com o primeiro frio a sério.

Como proteger, amadurecer e salvar tomates à última hora

Outro gesto em que os produtores de mercado juram é a proteção de baixa tecnologia. Nada de estufas futuristas: apenas camadas simples que compram mais algumas semanas. Uma faixa de manta térmica (agryl) ou cobertura de fila colocada sobre as plantas à noite. Um túnel barato de plástico. Até janelas velhas encostadas sobre uma fila, como um telhado improvisado.

Não estão a lutar contra o inverno - apenas a roubar um pouco de tempo ao outono.

Um produtor mostrou-me o seu “túnel preguiçoso”: arcos feitos com tubo velho de rega, uma folha única de plástico e tijolos a segurar as extremidades. Em noites frias fecha; em dias amenos abre as laterais para as plantas não “cozerem”. Nada sofisticado, nada caro.

Num talhão ao lado, outro jardineiro tinha arrancado os tomates um mês antes. Passou, olhou para as filas carregadas debaixo do plástico e abanou a cabeça.

A parte emocional de que ninguém fala é esta: muitas vezes arrancamos as plantas porque estamos cansados. Cansados de regar, tutorar, verificar, lutar com lesmas e míldio. Num dia cinzento, a ideia de começar canteiros novos parece mais limpa do que arrastar a época.

A nível humano, faz sentido. A nível do tomate, está a deixar quilos de fruto para trás.

“Jardinagem de fim de época é 50% técnica, 50% paciência”, disse-me um produtor de mercado. “A maioria das pessoas perde não por falta de jeito, mas por impaciência.”

  • Desbaste as folhas na parte baixa da planta quando as noites ficarem frescas, em vez de arrancar a planta toda.
  • Cubra as filas com um túnel simples ou tecido nas noites frias para manter uma almofada de calor.
  • Deixe de perseguir novas flores e concentre-se em amadurecer o que já está pegado.
  • Colha tudo o que começar a ganhar cor e deixe acabar de amadurecer dentro de casa, num tabuleiro ou num saco de papel.

O poder surpreendente dos tomates de “segunda oportunidade”

Todos já tivemos aquele momento em que se entra na horta depois da primeira noite fria e se pensa: “Tarde demais.” As plantas estão abatidas, alguns frutos pálidos, outros duros como pedras. Muita gente desiste aí. Os produtores de mercado não.

Mudam para modo de salvamento.

Vi um agricultor, numa tarde de outubro, ir planta a planta com duas caixas: uma para tomates totalmente maduros, outra para os “com esperança” - aqueles frutos firmes, pálidos, quase prontos. Apanhava tudo o que tivesse um toque de cor ou um tamanho decente.

De volta ao seu barracão, colocou-os com cuidado numa única camada, como ovos, em tabuleiros de madeira. Voltei alguns dias depois. Os tabuleiros eram um mar de vermelho.

Há uma ciência discreta por trás disto. Os tomates conseguem continuar a amadurecer fora da planta quando atingem um certo estádio. Os produtores de mercado sabem que o jogo não é “deixar tudo lá fora e rezar”. É “trazer os frutos no limite para dentro antes que o frio os estrague e deixá-los terminar num espaço mais seguro”.

Uma divisão simples, uma caixa de cartão, um saco de papel com uma banana madura por perto - basta para desencadear e apoiar o amadurecimento. Reduz as perdas no campo e recupera-as em cima do balcão da cozinha ou numa despensa fresca.

Por isso, quando alguém lhe diz que a “época do tomate” vai até outubro ou até novembro, não está a gabar-se de um tempo perfeito. Está a usar todas as ferramentas: desfolha, proteção noturna, colheita seletiva, amadurecimento em interior.

Não arrancam as plantas só porque o verão “supostamente” acabou. Esperam até que o último tomate possível tenha tido a sua oportunidade. E essa mentalidade muda toda a sua relação com a horta.

Ponto-chave Detalhe Vantagem para o leitor
Não arrancar demasiado cedo Limpar as folhas doentes e manter os caules com frutos Prolonga a produção por várias semanas
Proteger as noites frescas Túneis, mantas, plásticos simples e baratos Mantém calor suficiente para continuar a maturação
Colheita de “salvamento” Apanhar frutos quase maduros e terminar no interior Limita perdas e aumenta os tomates aproveitáveis

FAQ:

  • Até quando podem os tomates amadurecer ao ar livre? Enquanto as noites se mantiverem, na maioria, acima dos 7–8°C e os dias tiverem algum sol, os tomates podem continuar a ganhar cor. Quando a geada começar a ser uma ameaça regular, passe a colher e a amadurecer no interior.
  • Os tomates amadurecidos no interior são menos saborosos? Podem ser ligeiramente menos complexos do que os amadurecidos na planta, mas se começaram a ganhar cor lá fora, o sabor costuma ser bom. Mais vale um tomate razoável amadurecido no interior do que uma planta arrancada cedo demais.
  • Devo continuar a fertilizar no fim da época? A maioria dos produtores de mercado deixa de adubar com intensidade no fim da época. O foco muda do crescimento para o amadurecimento, por isso regas suaves e uma alimentação leve costumam ser suficientes.
  • E se as minhas plantas tiverem muitas flores em setembro? Os produtores de mercado frequentemente beliscam/retiram as flores tardias. Sabem que essas flores não terão tempo de virar tomates maduros, por isso redirecionam a energia para os frutos já existentes.
  • Posso salvar tomates verdes antes da geada? Sim. Colha tomates verdes firmes e já totalmente formados e guarde-os numa única camada no interior. Muitos irão amadurecer lentamente, e os que ficarem verdes podem ser usados em chutneys ou para fritar.

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