Saltar para o conteúdo

Andar rapidamente nem sempre indica boa forma física; pode sinalizar um problema psicológico.

Pessoa com bloco de notas e smartwatch num parque, corredor a passar e pessoas sentadas ao fundo.

Bag bem encostada ao corpo, olhos fixos em frente, passos firmes e ritmados no passeio. Vistos de fora, parecem eficientes, em forma, quase heroicos na determinação de chegar a algum lado mais depressa do que toda a gente.

Mas basta ficares atrás tempo suficiente e começas a notar pequenos sinais. O maxilar cerrado no semáforo vermelho. O suspiro irritado quando alguém abranda à frente. A forma como os ombros nunca descem totalmente, mesmo quando não há pressa nenhuma. Aquela marcha não parece livre. Parece uma luta.

Gostamos de dizer: “Anda depressa, vive mais.” No entanto, para muitos, este passo acelerado esconde algo muito mais silencioso e menos lisonjeiro. Um ritmo de marcha rápido pode não ser uma medalha de boa forma. Também pode ser um sintoma a andar.

Quando um passo rápido tem mais a ver com a mente do que com os músculos

No papel, caminhar a passo vivo é um hábito de sonho. Os cardiologistas adoram, os contadores de passos elogiam, e as apps de bem‑estar recompensam com fogos de artifício e barras verdes. À distância, quem anda depressa parece o cidadão‑modelo do mundo da saúde.

Mas, ao olhar com atenção, a história muda. O ritmo é rígido, quase agressivo, como se o corpo estivesse preso em avanço rápido. As mãos estão tensas, a respiração curta, os olhos a procurar obstáculos que ainda nem existem. Isso nem sempre é energia. Às vezes, é inquietação que aprendeu a mexer-se.

Alguns psicólogos falam disto como uma espécie de “ansiedade motora”. A mente acelera, as pernas seguem, e o corpo transforma-se num veículo para aquilo que vai a girar por dentro. Parece produtivo, até virtuoso. Mas pode treinar, de forma silenciosa, o sistema nervoso a viver num estado de urgência permanente.

Numa plataforma de comboios cheia, numa manhã em Londres, vi uma mulher na casa dos trinta a andar de um lado para o outro. Verificou o ecrã por cima, depois o relógio, depois o telemóvel. Quando o comboio finalmente chegou a horas, ela entrou à pressa na mesma, como se pudesse partir sem ela.

Mais tarde, admitiu a um terapeuta que não sabia como “apenas caminhar”. Se abrandasse, sentia-se exposta, como se os pensamentos a alcançassem. Por isso, andava depressa para os calar. Para toda a gente, parecia alguém que levava a boa forma muito a sério.

Todos já tivemos aquele momento em que atravessamos a cidade em tempo recorde, coração a disparar, por absolutamente nenhuma razão válida. Sem reunião, sem emergência - apenas uma pressão vaga que nos empurra a mexer. Essa pressão raramente tem a ver com as pernas. Muitas vezes vem de uma mente que se esqueceu de como é sentir-se segura a um ritmo normal.

Investigadores que estudam padrões de movimento no dia a dia começam a associar a marcha cronicamente rápida a níveis mais elevados de stress e ansiedade‑traço. A imagem ainda está a formar-se, mas as pistas alinham-se. Pessoas que se descrevem como “sempre a correr” mostram muitas vezes os mesmos hábitos corporais: passada curta, ombros tensos, respiração superficial.

O cérebro aprende a associar movimento a alívio. Andar mais depressa dá um golpe rápido, legal, de controlo. Não consegues abrandar os pensamentos, mas consegues cortar três minutos ao percurso. Essa pequena vitória torna-se viciante, e o ritmo passa a ser o padrão - mesmo em dias tranquilos.

Com o tempo, isto pode esbater a linha entre atividade saudável e uma subtil auto‑sabotagem. O que parece disciplina pode esconder inquietação crónica. O que é elogiado como “grande energia” pode ser, na realidade, um sistema nervoso preso em alta rotação, demasiado ativado para assentar num ritmo mais gentil.

Como testar se a tua marcha rápida é saudável… ou um sinal de alerta

Há uma experiência simples que podes fazer na tua próxima caminhada. Escolhe um percurso familiar e abranda deliberadamente o ritmo em cerca de um terço. Deixa que te ultrapassem. Deixa que os semáforos mudem sem correres para os apanhar. Repara não só no corpo, mas também no comentário interno.

Se sentires um ligeiro aborrecimento, tudo bem. Se sentires irritação, tensão no peito, ou uma vontade forte de “despacha-te e acaba com isto”, isso é um sinal real. O teu padrão base pode estar programado para a velocidade de uma forma que pouco tem a ver com saúde.

Outro teste: anda sem o telemóvel na mão. Sem podcasts, sem mensagens, sem navegação. Se caminhar a um ritmo moderado, em silêncio, for quase insuportável - como se o teu cérebro estivesse a tentar sair da própria pele - vale a pena prestar atenção. O problema não é o teu cardio. É a ansiedade por baixo.

Assim que perceberes que a tua marcha rápida pode ser mais psicológica do que física, o objetivo não é policiar a velocidade. É dar ao teu sistema nervoso novas opções. Começa com coisas pequenas, em terreno seguro. Escolhe um percurso habitual em que decides conscientemente: “Esta é a minha rua lenta.”

Nessa rua, baixa os ombros uma vez. Deixa os braços balançarem um pouco mais soltos. Expira devagar ao longo do comprimento de uma montra. São ajustes microscópicos, mas o cérebro repara. Aprende que nada colapsa quando tiras a pressa.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Vais esquecer-te, vais acelerar, vais dar por ti meio a correr sem motivo. Está tudo bem. A ideia não é a perfeição. É apenas interromper a ligação automática entre “sair de casa” e “mexer-me como se o mundo estivesse a arder”.

Muitos caminhantes cronicamente rápidos lutam com um sentimento silencioso de culpa quando abrandam. Receiam ser julgados como preguiçosos, improdutivos, ou menos empenhados - sobretudo em grandes cidades onde o ritmo é uma moeda social. Andar depressa parece prova de que estão “em cima do assunto”.

Essa culpa pode tornar difícil criar hábitos mais suaves. Por isso, começa por mudar a história, não só a velocidade. Diz a ti mesmo: “Estou a testar como o meu corpo se sente a diferentes ritmos”, em vez de “Estou a obrigar-me a ser lento.” Parece pequeno, mas a linguagem transforma vergonha em curiosidade.

Fica atento a armadilhas comuns. Algumas pessoas só abrandam quando estão completamente exaustas, e então o cérebro associa a marcha lenta a falhanço ou burnout. Outras fazem uma caminhada consciente, sentem inquietação e concluem que “não resulta”. Isso é como julgar o ginásio depois de uma única visita.

“Quando um paciente me diz que ‘não aguenta andar devagar’, eu não ouço disciplina”, diz a psicóloga clínica Dra. Hannah Lewis. “Oiço um sistema nervoso que se esqueceu do que é sentir segurança no corpo.”

A abordagem dela tem menos a ver com proibir a marcha rápida e mais a ver com alargar a amplitude. Em alguns dias, andar depressa é funcional e útil. Noutros, é uma cortina de fumo. A competência está em perceber em que dia estás.

  • Escolhe um micro-momento diário para abrandar o ritmo: o troço da porta de casa até à esquina, o corredor do supermercado, o corredor do escritório.
  • Liga esse ritmo mais lento a uma âncora sensorial: a sensação dos pés dentro dos sapatos, o ar no rosto, o som dos passos.
  • Se a ansiedade aumentar, não lutes contra ela. Dá-lhe um nome em silêncio (“aqui está aquela sensação de pressa”) e mantém o ritmo mais lento por mais dez respirações.

Deixar que as pernas digam a verdade sobre como te sentes

A forma como nos movemos na rua diz mais sobre nós do que o nosso relógio ou app de fitness admite. Uma marcha rápida pode significar vitalidade e força. Também pode ser uma forma de estar sempre um passo à frente de pensamentos que não queremos enfrentar sozinhos no semáforo.

Não há um ritmo “certo” universal. A verdadeira pergunta é: quem manda na tua velocidade - tu ou o teu stress? Se consegues escolher abrandar sem sentir que o mundo está a desabar, então o teu passo rápido provavelmente está a servir-te. Se não consegues, talvez seja altura de ficares curioso.

Os nossos corpos muitas vezes sussurram aquilo que a boca tem medo de dizer. Uma marcha inquieta, uma passada tensa, uma corrida constante contra prazos imaginários podem ser sinais de que algo cá dentro tem fome de facilidade. Às vezes, a coisa mais corajosa não é correr mais. É percorrer a mesma rua a metade do teu ritmo habitual e ver o que vem à superfície.

Não tens de transformar cada deslocação numa meditação. Não precisas de postura perfeita nem de banda sonora espiritual. Uma única pergunta honesta, a meio do passo - “Estou mesmo com pressa, ou só vivo como se estivesse?” - já pode mudar o dia.

Partilha essa pergunta com um amigo, vê como reage, e perceberás como isto é comum. Para alguns, será um alívio. Para outros, um espelho. Seja como for, depois de notares a história por trás da tua passada, é difícil deixar de a ver. E é aí que a mudança costuma começar.

Ponto-chave Detalhes Porque é importante para os leitores
Usar um “troço lento” num percurso familiar Escolhe um trecho curto e previsível (de casa à paragem, plataforma da estação, corredor do escritório) e caminha aí deliberadamente a um ritmo moderado todos os dias. Dá-te um espaço seguro e repetível para perceber se abrandar é neutro, agradável ou desproporcionalmente stressante.
Verificar o corpo, não apenas a contagem de passos Presta atenção ao maxilar, ombros e respiração quando andas depressa. Tensão e respiração superficial frequentemente sinalizam pressa mental, não boa forma física. Ajuda a distinguir entre esforço saudável e um “modo de fuga” ansioso que te pode desgastar silenciosamente.
Ligar o ritmo ao contexto, não à identidade Reserva a marcha rápida para verdadeira pressão de tempo (apanhar um comboio, pausa de almoço curta) e permite um ritmo mais solto quando há margem. Impede que a pressa constante se torne a tua personalidade por defeito e dá ao teu sistema nervoso bolsos regulares de descanso.

FAQ

  • Andar depressa é sempre um mau sinal do ponto de vista psicológico? Não. Muitas pessoas caminham rápido simplesmente porque estão em forma, são altas ou vivem num ambiente agitado. Torna-se preocupante quando sentes que não consegues abrandar sem desconforto, ansiedade ou irritação.
  • Como posso saber se o meu ritmo rápido está ligado à ansiedade? Tenta abrandar intencionalmente durante cinco minutos num contexto de baixa pressão. Se sentires uma onda de inquietação, aperto no peito ou pensamentos acelerados sem razão clara, o teu ritmo pode estar ligado a tensão emocional e não apenas a hábito.
  • Mudar a velocidade a caminhar pode mesmo afetar os meus níveis de stress? Sim. Abranda a passada, relaxa os braços e prolonga a expiração: isso envia sinais de “segurança” ao cérebro. Com o tempo, pode ajudar a reduzir respostas crónicas de luta‑ou‑fuga.
  • Devo deixar de fazer caminhada rápida como exercício? Não, se gostas e te sentes bem durante e depois. O objetivo não é proibir andar depressa, mas acrescentar flexibilidade, para poderes escolher quando puxar por ti e quando mover-te de forma mais suave.
  • Quando vale a pena falar com um profissional? Se caminhar devagar desencadeia pânico, medo intenso ou pensamentos intrusivos, ou se te sentes constantemente “em alerta” no corpo, falar com um psicólogo, terapeuta ou médico de família pode dar apoio ajustado e excluir outras questões.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário