A cozinha cheirava a óleo morno e raspa de laranja muito antes de qualquer coisa tocar na frigideira. A minha avó mexia-se devagar, mas com aquela precisão silenciosa que só se ganha depois de umas quantas milhares de fornadas de bugnes. O atilho do avental estava torto, o rádio murmurava velhas chansons ao fundo, e a mesa tinha uma leve poeira de farinha, como neve fresca num parapeito de janela. Ela beliscava um pedaço de massa, esticava-o, torcia-o uma vez, deixava-o cair no tacho e esperava pelo chiarzinho que queria dizer esta vai ficar fofa.
Nunca lhe chamou receita. Chamava-lhe “uma coisinha para depois da escola”. E, no entanto, sempre que o prato chegava, cheio de bugnes douradas, a família inteira parava. Telemóveis pousados, bocas cheias, ninguém a falar.
A verdade é que as bugnes super fáceis e fofinhas dela fazem algo que nenhuma sobremesa sofisticada consegue. Puxam-nos diretamente de volta à infância.
Porque é que as bugnes da minha avó sabem a casa
A minha avó nunca pesava ingredientes. Usava uma chávena de café lascada, as mãos e o humor do dia. E mesmo assim, as bugnes saíam leves como nuvens, pouco doces, com o estaladiço certo na beira.
Ao vê-la, percebia-se que isto era menos sobre pastelaria e mais sobre ritmo. A forma como partia os ovos num só gesto. A maneira como os batia como se estivesse a meter ar dentro da tigela. A pequena pausa antes de deixar cair cada tira de massa no óleo, como se a estivesse a cumprimentar.
Esse é o primeiro segredo: estas bugnes ultra fáceis e ultra fofas nascem de movimentos simples, repetidos até se tornarem quase como respirar.
Numa tarde de inverno, tentei cronometrar quanto tempo durava um prato de bugnes na mesa da sala. Éramos seis. Um bule de chá. Um filme visto a meio.
Oito minutos. Foi quanto demoraram duas dúzias de bugnes douradas a desaparecer, deixando apenas uma constelação de açúcar no prato. O meu avô fez de conta que não tinha comido a última, o meu primo procurou debaixo do guardanapo como se ainda fossem aparecer mais por magia.
Nunca discutíamos por elas; simplesmente sabíamos: quem chega primeiro, serve-se primeiro. Aqueles oito minutos diziam mais sobre o poder de um lanche simples do que qualquer tabela nutricional ou moda alimentar.
Há também um lado prático em toda esta nostalgia. As bugnes fofinhas são, basicamente, uma aula-mestra de massa humilde. Farinha, ovos, um pouco de açúcar, gordura, um perfume de citrinos ou baunilha, e um tacho de óleo calmo.
O que as transforma é a forma como tratamos a massa: como a amassamos sem a maltratar, como a deixamos repousar sem nos esquecermos dela, como a cortamos e torcemos para prender pequenas bolsas de ar.
Quando começamos a olhar com atenção, a lógica aparece: o calor deixa o fermento feliz, a gordura mantém o miolo tenro, um pouco de álcool (rum ou licor de flor de laranjeira) evita que absorvam demasiado óleo. A “magia” é só bom senso, passado de geração em geração com um sorriso e mãos enfarinhadas.
A receita dourada: bugnes ultra fáceis, ultra fofas
Eis como ela fazia, traduzido para algo que se consegue seguir numa tarde atarefada. Numa tigela grande, bata 3 ovos com 60 g de açúcar até ficarem claros e ligeiramente espumosos. Junte uma pitada de sal, a raspa de uma laranja ou limão não tratados, e um pequeno cálice de rum ou um pouco de água de flor de laranjeira.
Derreta 80 g de manteiga e deixe arrefecer um pouco antes de a incorporar. Depois, vá juntando gradualmente cerca de 400 g de farinha misturada com 8 g de fermento em pó, trabalhando com as mãos até obter uma massa macia, ligeiramente pegajosa, que se desprende da tigela.
Forme uma bola, cubra com um pano limpo e deixe repousar à temperatura ambiente pelo menos 45 minutos. É nesse repouso que a magia acontece em silêncio.
Quando a massa estiver relaxada, enfarinhe ligeiramente a bancada e estenda-a até cerca de 3–4 mm de espessura. Nem finíssima como papel, nem grossa. Fina o suficiente para inchar, espessa o suficiente para ficar almofadada por dentro.
Com uma faca ou cortador, corte losangos ou retângulos. Ao centro de cada um, faça um pequeno corte e depois passe delicadamente uma ponta pelo corte, criando aquela forma de “gravata”. Se algumas ficarem feias, deixe-as. Vão saber na mesma.
Aqueça óleo neutro (girassol ou amendoim) num tacho fundo até cerca de 170–180°C. Frite poucas de cada vez, virando uma vez, até dourarem dos dois lados. Coloque sobre papel absorvente e polvilhe generosamente com açúcar em pó enquanto ainda estão mornas. Sejamos honestos: ninguém espera que arrefeçam a sério.
As pessoas ficam nervosas com frituras - e é aí que a maioria das bugnes corre mal. Ou o óleo está demasiado quente, queimando por fora enquanto ficam cruas por dentro, ou está demasiado frio, e saem pesadas, oleosas, um bocadinho tristes.
Se não tiver termómetro, use este truque simples: mergulhe a ponta de uma colher de pau no óleo. Quando se formarem bolhinhas pequenas à volta de forma constante, o óleo está pronto. Quando fuma ou escurece depressa, passou do ponto.
Outro erro comum é trabalhar demais a massa. Não é preciso amassar como pão. Pare assim que estiver lisa e elástica. Seja gentil, e as bugnes recompensam com aquele centro macio, tipo nuvem, que se lembra da infância.
“No dia em que começares a medir cada grama”, riu-se a minha avó uma vez, “vais esquecer-te de provar com o nariz.”
Essa frase ficou comigo mais do que a lista de ingredientes. Ela tocava na massa com um dedo, cheirava o ar por cima do tacho, ouvia o chiar como se fosse uma língua.
- Use os sentidos: a massa deve sentir-se maleável, não rija; o óleo deve sussurrar, não rugir.
- Mantenha-as pequenas: bugnes mais pequenas cozinham mais uniformemente e ficam mais leves.
- Sirva depressa, fale depois: as bugnes fofinhas estão no auge nos primeiros 20 minutos.
- Congele as que sobrarem: pode congelar bugnes já frias e aquecer rapidamente no forno a 150°C.
Num bom dia, a cozinha inteira vira uma espécie de teatro silencioso - e, de repente, tem dez anos outra vez, à espera da primeira dentada morna.
Mais do que uma receita: um prato cheio de memórias partilhadas
Há uma razão para estas bugnes ultra fáceis e fofinhas aparecerem sempre pelo Carnaval, nas tardes de domingo e naqueles longos dias de inverno em que o céu nunca acorda bem. São baratas, rápidas e indulgentes. Mas também são, por natureza, sociais.
Não dá propriamente para fazer uma “pequena” quantidade. A massa estica, o prato enche, os vizinhos passam “só para dizer olá” e acabam por ir embora com açúcar nos dedos. Um prato em cima da mesa e, de repente, as pessoas sentam-se, abrandam e conversam mais um bocadinho.
Todos já tivemos aquele momento em que um cheiro vindo da cozinha nos atinge com tanta força que voltamos ao corredor da infância, a descalçar os sapatos mais depressa para chegar à mesa.
Curiosamente, quanto mais a vida se muda para o online, mais este tipo de lanche importa. As bugnes não fotografam com o dramatismo de um bolo de sete camadas. São dourado-bege, um pouco irregulares, às vezes tortas. E, no entanto, são sempre as primeiras a desaparecer em qualquer encontro.
Amigos que “já não comem açúcar” pegam sempre em pelo menos uma. Crianças habituadas a snacks industriais mordem estas formas ligeiramente irregulares e ficam surpreendidas: “São tão leves.” Essa mistura de crocante por fora e suavidade quase aérea por dentro apanha toda a gente desprevenida.
Estas bugnes carregam algo que os algoritmos não medem: a memória de alguém ter tirado tempo para fritar uma fornada só para si.
Por isso, quando estiver na sua cozinha, com farinha nas mãos e o óleo a cantar baixinho, não está apenas a seguir uma receita de um cartão ou de um ecrã. Está a reenencenar um ritual silencioso que centenas de famílias partilham sem nunca se conhecerem.
Talvez torça a massa de maneira diferente. Talvez use baunilha em vez de rum, ou troque laranja por limão. O essencial mantém-se: uma massa simples, um pouco de paciência e a decisão de transformar uma tarde comum numa pequena celebração.
E quem sabe - daqui a quarenta anos, alguém poderá estar a contar a história das “bugnes ultra fáceis e fofinhas da minha avó”, a pensar em si, no seu avental desalinhado e naquela primeira fornada dourada.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Textura ultra fofa | Massa ligeiramente trabalhada, bem repousada, estendida a 3–4 mm e frita a 170–180°C constantes | Ajuda a recriar aquela dentada leve como nuvem dos lanches de infância |
| Sabor de assinatura | Raspa de laranja ou limão com um toque de rum ou água de flor de laranjeira | Traz um aroma nostálgico que perfuma a cozinha inteira |
| Ritual de família | Fornadas grandes, comidas mornas, partilhadas à volta da mesa em poucos minutos | Transforma uma receita simples num verdadeiro momento de ligação |
FAQ:
- Posso assar bugnes em vez de as fritar? As bugnes tradicionais são fritas, e é isso que lhes dá o inchaço característico e o crocante leve. Pode assá-las a cerca de 180°C durante 10–12 minutos, mas ficarão mais secas e mais parecidas com brioche do que aéreas.
- Porque é que as minhas bugnes ficam densas em vez de fofas? Normalmente acontece por trabalhar demasiado a massa, estendê-la muito grossa ou usar óleo que não está quente o suficiente. Deixe a massa repousar bem, mantenha os 3–4 mm e procure um chiar suave e constante no tacho.
- Posso preparar a massa com antecedência? Sim. Pode fazer a massa algumas horas antes e guardá-la no frigorífico, bem tapada. Deixe-a aproximar-se da temperatura ambiente antes de estender, para ser mais fácil de trabalhar e inchar melhor no óleo.
- É possível fazê-las sem álcool? Claro. Pode omitir o rum e usar água de flor de laranjeira ou baunilha. O álcool ajuda sobretudo a limitar a absorção de óleo, mas a receita continua a resultar lindamente sem ele.
- Durante quanto tempo as bugnes fofinhas se mantêm boas? Estão no seu melhor nas primeiras horas após fritar, quando o contraste entre crocante por fora e centro macio é maior. Depois disso, guarde numa caixa hermética durante 1–2 dias, ou congele e reaqueça brevemente para as “reviver”.
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