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Biólogos marinhos alertam para uma mudança preocupante no comportamento das orcas em relação às embarcações.

Homem observa uma orca com binóculos num barco, com um caderno de esboços próximo, ao largo de um veleiro.

A rádio crepitou primeiro. Depois veio o baque. Lá fora, no Atlântico cinzento‑aço, um veleiro de 38 pés estremeceu quando algo enorme embateu no leme, vezes sem conta, como um martelo lento e deliberado. O skipper, com as mãos a tremer no volante, apanhou um relance de preto e branco elegante sob a superfície. Uma orca rolou de lado, com um olho virado para o barco, a observar.

Ninguém a bordo falou durante vários segundos. O oceano pareceu, de repente, pequeno - quase apinhado.

Incidentes como este costumavam ser histórias raras, daquelas que se ouvem uma vez por década, contadas entre cervejas num bar de marina. Agora, biólogos marinhos estão a registá‑los em folhas de cálculo e mapas de calor. Ao largo de Espanha, Portugal, até perto da Escócia, os cientistas dizem que as orcas estão a mudar a forma como interagem com embarcações.

O inquietante não é apenas o que estão a fazer. É a rapidez com que parecem estar a aprender.

O estranho novo guião do principal predador do oceano

Numa manhã limpa perto do Estreito de Gibraltar, o biólogo marinho Alex Carillo está na proa de um navio de investigação, binóculos colados ao rosto. A água está calma, movimentada com barcos de pesca e ferries. Sob a superfície, ele sabe, vive um grupo coeso de orcas que a sua equipa acompanha há anos.

Antes, procurava‑as junto de redes de atum, a observar as investidas ágeis com que roubavam peixe de palangres. Ultimamente, procura outra coisa: o ziguezague revelador de um iate à vela que, de repente, perde o controlo; os gritos caóticos no convés; as chamadas de rádio em pânico. As orcas já não se mantêm à distância. Vão direitas aos cascos.

Em 2020, os relatos de orcas a interagir com barcos ao largo da costa ibérica começaram a disparar. Ao início, soava quase a uma partida do mar: alguns lemes danificados, marinheiros assustados, nada mais. Em 2023, os números cresceram até formarem um padrão que ninguém conseguia ignorar. Mais de 500 “interações” registadas na região. Várias embarcações afundaram após impactos repetidos no sistema de governo.

Um skipper descreveu o som como “como uma árvore a estalar debaixo de água”. Outro disse que parecia estranhamente metódico, como se os animais estivessem a testar cada golpe. Em alguns encontros, orcas juvenis pareciam copiar as mais velhas, a circular o leme danificado como crianças à volta de um brinquedo partido.

Para os biólogos marinhos, o comportamento é tão fascinante quanto preocupante. As orcas sempre foram conhecidas por aprenderem depressa, transmitindo “truques” dentro do grupo como nós transmitimos receitas ou ditados de família. Muitas equipas suspeitam de um efeito cultural em cadeia: alguns indivíduos começam a visar lemes e a prática espalha‑se socialmente, não geneticamente.

A questão em aberto é por que motivo começou. Alguns cientistas apontam para um possível evento traumático, como uma colisão que feriu uma matriarca. Outros suspeitam de uma mistura de brincadeira, frustração e aprendizagem oportunista num oceano cheio de barcos ruidosos e rápidos. A verdade pode estar algures no meio, carregada em silêncio dentro de cérebros mais complexos do que alguma vez ousámos imaginar.

Como as pessoas no mar estão a mudar discretamente os seus hábitos

As conversas na popa mudaram. Onde os velejadores antes trocavam dicas sobre a afinação ideal das velas, agora trocam notas sobre “protocolos de orcas”. Algumas empresas de charter ao longo das costas espanhola e portuguesa fazem briefing às tripulações antes mesmo de embarcarem. A mensagem é simples: abrandar, manter a calma, não tentar fugir.

Os investigadores recomendam agora uma espécie de rendição controlada. Reduzir a velocidade. Arriar as velas, se possível. Desligar música e equipamento ruidoso. Deixar o barco à deriva. A teoria: sem a vibração e a resistência de um leme em movimento, o encontro pode parecer menos um jogo interessante para as orcas. Vai contra todos os instintos não fazer nada enquanto animais enormes embatem no barco. Ainda assim, quem o fez diz que as interações por vezes terminam tão abruptamente como começaram.

Para skippers profissionais e velejadores de fim‑de‑semana, esta nova realidade é tanto um ajuste mental como prático. Parte‑se a sonhar com horizontes vazios e vento limpo, não em ficar preso como observador passivo enquanto um predador de 5 toneladas testa o teu governo.

Orientações circulam em fóruns de vela e grupos de WhatsApp: evitar coordenadas de hotspots conhecidos sempre que possível, navegar mais perto de águas menos profundas, manter cartas atualizadas com encontros recentes. Muitas destas dicas espalham‑se mais depressa online do que qualquer aviso oficial conseguiria, uma espécie de guia de sobrevivência feito pela comunidade. Sejamos honestos: ninguém lê religiosamente todos os boletins de segurança marítima todos os dias.

Num barco de investigação ao largo da Galiza, a bióloga Marta Fernandez viu desenrolar‑se um padrão que ainda a inquieta. Uma orca aproximou‑se da popa de um veleiro, tocou no leme uma vez, depois duas, e em seguida empurrou com mais força, estalando a estrutura. Dois juvenis pairavam por perto, a imitar ângulos e movimentos. Para os humanos a bordo, pareceu um ataque. Para Marta, pareceu dolorosamente uma lição.

“Não estamos a ver agressão sem sentido”, diz ela. “Estamos a ver aprendizagem social em tempo real. É isso que me tira o sono.”

  • Reduza a velocidade cedo se as orcas se aproximarem, em vez de esperar pelo impacto.
  • Mantenha a comunicação clara a bordo; uma voz a coordenar, todos os outros focados.
  • Após um encontro, registe hora, posição GPS e detalhes do comportamento enquanto estão frescos.
  • Partilhe o seu relato com autoridades locais ou apps de ciência‑cidadã para ajudar a refinar os mapas.

O que esta mudança pode estar a dizer‑nos sobre o oceano - e sobre nós

Quando as pessoas falam baixinho sobre estes encontros em cafés de porto, fica no ar uma mistura estranha de admiração e desconforto. Num nível básico, quase infantil, a ideia de baleias “a fazerem frente” aos barcos toca num nervo. Estamos habituados a pensar nelas como gigantes gentis, personagens de fundo nas nossas histórias do mar - não como agentes a reescrever o enredo.

Num nível mais profundo, o novo comportamento das orcas é um espelho. Reflete o quão densamente enchemos o mundo delas com aço em movimento, ruído de gasóleo e redes intermináveis. Todos conhecemos as manchetes sobre sobrepesca e plástico; isto parece diferente. Não é uma estatística distante. É uma pancada no casco.

Os biólogos marinhos caminham numa linha frágil entre o alerta e o assombro. Têm cuidado em não enquadrar as orcas como vilãs, mesmo admitindo que a tendência é preocupante. Muitos insistem numa nuance essencial: estes animais não estão a “atacar pessoas” como os filmes nos ensinaram a temer. Parecem focar‑se quase obsessivamente na maquinaria em si - o leme, a única parte do barco que se mexe como um membro vivo, resistente.

Uma possibilidade inquietante é que associem essa peça móvel a dor passada, como uma cicatriz que não se consegue evitar tocar. Outra é que se tenha tornado uma moda cultural, um jogo perigoso que se espalhou como desafios de dança na internet. Ambas as hipóteses dizem algo perturbador sobre quão adaptáveis - e quão aborrecidos ou stressados - estes animais podem estar nos nossos mares industrializados.

Num plano puramente prático, o que acontecer a seguir importa para quem ama estar no mar. As seguradoras já estão a fazer perguntas. Organizadores de regatas ajustam rotas. Algumas escolas de vela incluem briefings sobre orcas nas aulas básicas de segurança, logo a seguir aos coletes salva‑vidas e aos exercícios de homem ao mar.

Num plano mais pessoal, isto toca aquela camada mais funda de narrativa oceânica com que muitos de nós crescemos. Todos já vivemos aquele momento em que o mar nos põe no nosso lugar - com uma vaga, uma rajada, uma mudança súbita de vento. Agora, para um número crescente de pessoas, essa lição chega com a forma de uma barbatana dorsal preta e branca a deslizar sob a popa, a decidir - pelo menos durante alguns minutos de respiração suspensa - quem é que realmente manda na cena.

Ponto‑chave Detalhe Interesse para o leitor
Mudança de comportamento das orcas Aumento rápido das interações que visam lemes, sobretudo ao largo de Espanha e Portugal Compreender por que estes encontros são mais frequentes e mais intensos
Resposta de cientistas e navegadores Novas orientações: abrandar, reduzir ruído, deixar o barco à deriva, cartografar zonas de risco Saber o que fazer de forma concreta em caso de encontro no mar
Questão ecológica e cultural Orcas a aprender socialmente, possível ligação a trauma, stress e sobre‑ocupação humana dos oceanos Ver estes incidentes como um sinal sobre o estado real dos nossos oceanos

FAQ

  • As orcas estão a atacar barcos porque odeiam humanos? As evidências atuais sugerem que se focam em lemes e cascos, não em pessoas. Os cientistas não veem um padrão de dano deliberado a humanos, mas sim um interesse direcionado pelas partes móveis das embarcações.
  • O que devo fazer se as orcas se aproximarem do meu barco? Reduza a velocidade, arri(e) as velas se for seguro, silencie o barco e evite manobras bruscas. Mantenha todos calmos, coloque coletes salva‑vidas e contacte as autoridades marítimas locais pelo rádio.
  • Estas interações já levaram a mortes ou ferimentos graves? Vários barcos foram danificados ou afundaram, mas relatos de ferimentos humanos graves continuam a ser extremamente raros. Os principais riscos são colisão, pânico a bordo e abandono da embarcação de forma insegura.
  • As alterações climáticas têm um papel neste novo comportamento? Os investigadores suspeitam de uma rede de fatores: mudanças nas presas, rotas de navegação mais movimentadas, ruído e colisões passadas. As alterações climáticas podem fazer parte do pano de fundo, mas não foi provada uma causa única.
  • Pode fazer‑se algo para travar esta tendência? A curto prazo, melhor planeamento de rotas, velocidades mais baixas e partilha de dados podem reduzir encontros de risco. A longo prazo, a única resposta honesta é mais difícil: repensar quão intensamente usamos e perturbamos as mesmas águas que as orcas chamam de lar.

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