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Cientistas comportamentais afirmam que quem opta por ficar solteiro apresenta os mesmos traços de personalidade ao longo do tempo.

Homem sorridente usa smartphone numa cafetaria, com caderno e chávenas na mesa.

”. Na sala de estar, os casais olham-se, as alianças brilham, as crianças correm e, no meio, há aquela pessoa que sorri, um pouco de lado, bem consigo, bem com a sua vida. Não pede desculpa, já não se justifica muito. Diz apenas: “Na verdade, eu estou bem assim.”

Durante muito tempo, esta frase foi tomada como um escudo, um golpe de teatro. Os psicólogos, porém, começam a dizer outra coisa. Depois de acompanharem, durante anos, pessoas que permanecem solteiras por escolha, repararam numa coisa intrigante: os mesmos traços de personalidade voltam a aparecer. Uma e outra vez.

Como se por trás do “prefiro estar sozinho(a)” se escondesse um perfil muito específico.

O padrão de personalidade oculto dos solteiros para a vida

Os investigadores do comportamento que acompanham milhares de pessoas ao longo de dez, quinze, por vezes vinte anos, contam todos mais ou menos a mesma história. Quando alguém fica solteiro(a) por opção, de forma duradoura, não é apenas uma sucessão de “má sorte” ou de más apps. Essas pessoas apresentam, estatisticamente, os mesmos marcadores psicológicos: um nível de autonomia muito elevado, uma forte tolerância à solidão, uma curiosidade intelectual acima da média.

Também tendem a obter pontuações elevadas no que os psicólogos chamam agency: a sensação de estar ao comando da própria vida. Definem as suas próprias regras do jogo. Onde outros ajustam a agenda para caber um relacionamento, estes solteiros constroem primeiro uma agenda à sua medida. E se alguém puder entrar nela, óptimo. Se não, a vida continua.

Os grandes estudos longitudinais na Europa e na América do Norte dizem o mesmo com números frios. As pessoas que se declaram “solteiras por opção” mostram, ao longo de vários anos, níveis mais altos de conscienciosidade e de estabilidade emocional do que muitas vezes se imagina. Não são necessariamente santos zen, mas antes aquele tipo de perfil que sabe para onde vai, paga as contas a tempo e recupera depressa dos golpes duros.

Os investigadores assinalam ainda um detalhe recorrente: estes solteiros por escolha não fogem da intimidade. Deslocam-na. Para amizades profundas, projectos criativos, por vezes para a “família escolhida”. Longe do cliché da pessoa reclusa com o gato e a Netflix em fundo. Encontram-se agendas cheias de jantares, viagens a dois ou três, grupos de conversa e comunidades online surpreendentemente coesas.

Visto de fora, poder-se-ia pensar que são pessoas “pouco românticas”. Os dados sugerem outra coisa: atribuem simplesmente um valor muito alto à coerência pessoal. Quando colocam a personalidade na balança, o preço a pagar por um relacionamento “por defeito” parece-lhes demasiado elevado. Não querem reduzir interesses, esmagar o seu ritmo de vida ou renunciar à necessidade de uma solidão regeneradora. Estão dispostos a viver com o desconforto social que isso cria. E isso, para os psicólogos, é um traço distintivo forte.

O que as pessoas solteiras por escolha fazem de diferente no dia a dia

Se as observarmos de perto, estas pessoas têm um hábito muito concreto: organizam o quotidiano como se ninguém viesse “completá-lo”. O apartamento, as rotinas, os planos a cinco anos não ficam em suspenso. Não ficam à espera de “a pessoa certa”. Compram a loiça bonita para si. Organizam o espaço para o seu conforto, não para uma hipotética coabitação futura.

Parece insignificante, mas esse gesto repetido molda a sua psique. Vivem-se como a “personagem principal” da própria história, não como uma metade à procura da outra. Essa postura mental reforça o sentido de autonomia, precisamente um dos traços mais marcantes nos estudos. Treinam-se para serem suficientes, sem se tornarem herméticos.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias a 100%. Mesmo os mais convictos têm noites de dúvida. Uma das participantes acompanhadas num estudo americano contou que, aos 38 anos, quase “entrou numa relação por cansaço”. À sua volta, toda a gente se casava, as conversas repetiam-se, e a ideia de dizer “não, ainda não” em cada almoço de família começava a esgotá-la. Entrou numa relação que, no papel, assinalava as caixas certas.

Em doze meses, viu o seu bem-estar descer nos questionários regulares do estudo. Dizia-se mais irritada, menos criativa, mais distraída no trabalho. Acabou por terminar, explicando aos investigadores que se tinha metido “numa relação contra a sua personalidade”. As pontuações de satisfação com a vida subiram depois, até voltarem ao nível anterior. A trajectória não é única. Os dados agregados mostram o mesmo padrão em perfis muito autónomos que “experimentam” o casal para encaixar na norma, sem acreditarem verdadeiramente.

Os cientistas falam de “incongruência de papel”. Quando a forma de viver em casal entra em conflito directo com a identidade profunda, todo o sistema começa a ranger. Estas pessoas têm frequentemente uma relação muito rica com a solidão: usam-na para pensar, criar, recuperar. Em coabitação permanente, o reservatório de energia esvazia-se mais depressa. Não é que rejeitem o amor. Rejeitam uma organização de vida que lhes suga demasiado tempo e demasiada disponibilidade mental. Onde a maioria aceita esse compromisso pela segurança afectiva, elas escolhem maximizar a liberdade psicológica. E o cérebro parece florescer nesse enquadramento.

Como viver como alguém “solteiro por opção”… mesmo que não seja

Os gestos que caracterizam estes solteiros convictos podem servir a toda a gente, mesmo a quem adora a vida em casal. O primeiro é honrar as próprias preferências ao nível muito concreto do dia a dia. Reserve uma noite por semana que não dependa de ninguém. Não um “se não tivermos nada combinado”. Um verdadeiro encontro consigo: cinema sozinho(a), leitura, projecto pessoal, caminhada longa sem ter de avisar.

Nos estudos, as pessoas que se mantêm felizes em solteirice escolhem hábitos que lhes devolvem a imagem de um adulto completo. Investem na formação, nas paixões, na saúde como se fosse um “nós” para cuidar - só que esse “nós” é a relação consigo próprias. Não é um slogan de Instagram, é uma disciplina. Pagam, literalmente, pela autonomia: cursos, viagens, terapia, material criativo. Este excesso de vida interior torna-as menos dependentes de validação romântica.

A armadilha, para muitos, é copiar este estilo de vida sem escutar as próprias necessidades. Há quem se force a gostar da solidão porque isso parece “personalidade forte”. Os psicólogos vêem isso logo nos dados: estes falsos solteiros felizes mostram stress latente e um humor mais instável. Se é do tipo que recarrega baterias com os outros, tentar viver “como um solteiro por convicção” pode esgotá-lo(a). Não há medalhas para ganhar.

Estes estudos lembram também outro ponto: mesmo os solteiros por escolha mais realizados não vivem num vazio relacional. Compensam com uma “arquitectura social” bem pensada: amigos de infância mantidos, vizinhos com quem se fala a sério, grupos de interesses comuns onde se pode aparecer sem aviso. É aqui que muita gente se engana: quer a liberdade do solteiro sem o trabalho de construção social que isso exige. Resultado: o isolamento emocional cai em cheio nas noites difíceis.

Um investigador britânico resume muitas vezes os seus resultados com uma frase um pouco crua:

“Ser solteiro por opção não é rejeitar o amor. É recusar terceirizar o seu sentido de identidade.”

Para viver este estilo de vida sem ser engolido(a) pela solidão não escolhida, alguns pontos de referência repetem-se nos testemunhos:

  • Cultivar conscientemente 3 a 5 amizades profundas, em vez de uma rede grande mas superficial.
  • Planear rituais semanais (brunch, desporto, atelier) que criem um sentimento de encontro com os outros.
  • Manter um projecto de longo prazo que não dependa de ninguém: escrever um livro, aprender um instrumento, criar uma pequena actividade.
  • Aceitar que haverá momentos de falta… sem fazer disso uma prova de que a sua vida “falhou”.
  • Falar com honestidade com pelo menos uma pessoa de confiança sobre esta escolha, para não a carregar sozinho(a) na cabeça.

O que estas conclusões dizem sobre nós, não apenas sobre os solteiros

No fundo, o que estes estudos longitudinais sobre solteiros por opção mostram ultrapassa largamente a pergunta “vale a pena estar em casal ou não?”. Apontam para um ponto cego colectivo: a nossa dificuldade em aceitar que algumas personalidades não florescem no modelo padrão a dois. Quando a ciência mostra que um certo tipo de perfil se mantém, de forma estável, feliz, produtivo, ligado, sem um casal oficial, isso põe em causa uma narrativa social inteira.

A verdadeira questão passa a ser: damos espaço suficiente a estes perfis para existirem sem os rotular de “medo de compromisso” ou “trauma por resolver”? Muitos contam que demoraram anos a perceber que o problema não estava neles, mas no enquadramento que lhes era proposto. A partir do momento em que deixaram de se ver como um bug, um detalhe mudou: a forma como olham para os casais dos outros. Menos inveja, menos julgamento, mais curiosidade.

Podemos ler esta investigação como um espelho. Quem seria você se a opção “casal” não existisse? Que traços da sua personalidade ganhariam mais espaço? Quem fica solteiro por escolha, de alguma forma, respondeu a esta pergunta e organizou a vida à volta dela. Não porque odeie o amor, mas porque encontrou outra forma de equilíbrio. E mesmo que você sonhe com um “nós” sólido, talvez haja, nesse “eu” assumido, algo a aproveitar.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Autonomia elevada Solteiros por opção mostram um forte sentido de controlo sobre a vida e as decisões. Ajuda a questionar a sua própria relação com a dependência afectiva.
Relação com a solidão Usam a solidão como recurso psicológico, não como castigo. Ajuda a transformar momentos a sós em tempo de reconstrução, em vez de vazio.
Arquitectura social Investem muito em amizades, projectos e comunidades. Dá pistas concretas para se sentir ligado(a), com ou sem relação.

FAQ:

  • Escolher ficar solteiro significa que tenho medo de compromisso? Os estudos mostram que muitos solteiros por opção assumem compromissos fortes… noutros sítios: trabalho, amizades, causas. Não é uma recusa do compromisso em si; é uma escolha do terreno.
  • Pessoas solteiras por opção ainda podem apaixonar-se profundamente? Sim. Podem viver histórias intensas, mas recusam entrar num modelo que nega a sua necessidade de autonomia. O amor não está excluído; a coabitação sistemática, por vezes, sim.
  • Ficar solteiro é mau para a saúde mental a longo prazo? Os dados são nuances. Um celibato não desejado pode pesar muito. Um celibato escolhido, com uma boa rede social, pode ser tão protector como uma relação estável.
  • Como sei se sou verdadeiramente solteiro por escolha ou apenas resignado(a)? Observe a sua energia interior: sente alívio ou exaustão com esta situação? A resignação costuma vir com cinismo e tristeza; a escolha vem com impulso e projectos.
  • Vou arrepender-me de ficar solteiro mais tarde? Os estudos mostram que o arrependimento depende menos do estado relacional do que da sensação de ter, ou não, traído a própria personalidade. Viver em coerência consigo reduz, a longo prazo, o amargo dos “e se…”.

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