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Cientistas comportamentais dizem que pessoas que andam mais rápido que a média exibem traços de personalidade semelhantes, comprovados em vários estudos.

Homem a caminhar numa rua movimentada, vestindo t-shirt cinzenta e calções pretos, com mochila e bolsa a tiracolo.

Vous caminha a um ritmo tranquilo e aquela silhueta passa por si, mochila a balançar, olhar fixo em frente, passo quase metronómico. Não é apenas “ir mais depressa”. É uma atitude. Uma forma de ocupar o espaço, de engolir a distância, como se o tempo pesasse mais para essas pessoas do que para as outras. Na rua, na estação, nos corredores do escritório, estes caminhantes apressados existem em todo o lado. E se revelassem algo de profundo sobre a personalidade? Os investigadores do comportamento começam a dizer que sim. E o mais inquietante é que os resultados se repetem, uma e outra vez.

O que os caminhantes rápidos revelam discretamente sobre a sua personalidade

Observe qualquer passeio movimentado à hora de ponta e vai identificá-los em segundos. Os caminhantes rápidos abrem caminho pela multidão, desviam-se das malas, antecipam movimentos como se o cérebro calculasse trajetórias invisíveis. Raramente pegam no telemóvel a meio do passo. O corpo parece ligeiramente inclinado para a frente, como se fosse puxado por um objetivo que os outros não veem. Os cientistas do comportamento que observam este padrão não veem apenas “pessoas com pressa”. Veem um conjunto de traços que volta a surgir em testes laboratoriais, questionários e estudos de longa duração.

Vários estudos de grande dimensão encontraram o mesmo: pessoas que andam mais depressa do que a média tendem a pontuar mais alto em traços como conscienciosidade e extroversão e mais baixo em neuroticismo. São frequentemente descritas como focadas, orientadas para objetivos e mais dispostas a tomar iniciativa. Não são super-heróis. Apenas, de forma consistente, mais “em movimento” na vida - tal como no passeio. Um estudo no Reino Unido chegou mesmo a associar uma maior velocidade ao andar a uma sensação de maior controlo sobre a vida quotidiana. O corpo move-se mais depressa quando o cérebro acredita que o futuro é gerível.

Por baixo, há uma lógica que vai para além dos testes de personalidade. Os caminhantes rápidos costumam ver o tempo de maneira diferente. Estimam tarefas como mais curtas, agendas mais apertadas, prazos mais próximos. O relógio interno parece estar um ponto acima. Esse ritmo mental transborda para as pernas. Quando os investigadores os acompanham ao longo de anos, surge outro padrão: maior satisfação média com a vida e um sentido de propósito mais forte. Isso não significa que os caminhantes lentos estejam condenados à apatia. Sugere que andar depressa é muitas vezes uma peça de um temperamento maior: mais proativo, mais assertivo, mais pronto a avançar no dia em vez de deixar que o dia passe por cima. Não é só o ritmo. É a postura perante a vida.

Por dentro da mentalidade de quem anda naturalmente mais depressa

Um dos exemplos mais citados vem de centros urbanos cheios. Em experiências em que observadores cronometraram discretamente peões em diferentes países, descobriram que andar mais depressa não era aleatório. Pessoas que se descreviam como ambiciosas, organizadas e “facilmente aborrecidas quando não acontece nada” eram consistentemente as mais rápidas. Um banqueiro em Londres, um estudante em Seul, uma enfermeira em Nova Iorque: vidas diferentes, o mesmo compasso. Pergunte-lhes por que andam assim e as respostas parecem simples - “odeio perder tempo”, “gosto de chegar aos sítios”, “sinto-me melhor quando me mexo”. Por detrás dessas frases casuais, os investigadores veem o mesmo padrão psicológico.

Veja-se o caso da Emma, 32 anos, gestora de projetos. Os amigos gozam com ela porque têm de trotar para a acompanhar a caminho do jantar. Ela não se considera “rápida”; para ela, está apenas a andar. Quando fez uma avaliação de personalidade no trabalho, pontuou alto em conscienciosidade, alto em extroversão e reportou baixos níveis de ansiedade. Os dados do Fitbit mostraram algo semelhante: a sua velocidade média de marcha era superior à da maioria dos utilizadores na sua faixa etária. Quando tentou abrandar de propósito, sentiu-se inquieta, como se estivesse a fingir ser outra pessoa. O corpo e a mente estavam habituados a atravessar o mundo com uma espécie de urgência silenciosa.

Os cientistas do comportamento explicam isto ligando o movimento à energia mental. Pessoas que andam mais depressa tendem a processar informação mais rapidamente, a decidir mais depressa e a sentir maior motivação para “fechar ciclos” em vez de deixar coisas pendentes. O mesmo motor cognitivo que as leva a responder a e-mails mais cedo pode também levar os pés a dar passos ligeiramente maiores e mais rápidos. Estudos em que os participantes usaram sensores de movimento confirmam: maior velocidade ao andar vem muitas vezes acompanhada de mais atividade diária total, mais interações sociais e até micro-objetivos mais frequentes (“vou buscar esse café agora”, “passo na loja no caminho para casa”). O ritmo dos passos espelha o ritmo das escolhas.

Dá para mudar a velocidade a andar - e o que acontece se o fizer?

Se tentar andar mais depressa de propósito durante um dia, a experiência é estranhamente reveladora. Começa a notar como a atenção se aguça, como varre o passeio com o olhar, como planeia mentalmente alguns metros à frente. Um truque simples usado em experiências comportamentais é escolher um percurso familiar e decidir: “Hoje, vou andar como se tivesse uma razão urgente para chegar cedo.” Não é correr. É apenas um impulso mais firme, passadas um pouco mais longas, braços a balançar um pouco mais. Muitos participantes relatam depois sentir-se mais “despertos” e ligeiramente mais confiantes após apenas dez minutos. A postura do corpo devolve informação ao cérebro, como um empurrão subtil na direção da ação.

Há, no entanto, um senão. Se o seu ritmo natural é lento, forçar um andamento rápido o dia todo pode parecer artificial e cansativo. Isso não significa que seja menos determinado ou menos capaz. Algumas pessoas pensam em arcos largos, não em explosões curtas. Ainda assim, pode “emprestar” partes da mentalidade do caminhante rápido sem se tornar um metronomo humano. Escolha momentos: a caminhada para uma reunião importante, os primeiros passos da manhã, a forma como se move quando precisa de clareza. Pense menos em “tenho de me tornar um caminhante rápido” e mais em “sei como mudar para o meu ritmo focado quando preciso”. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Um cientista do comportamento resumiu isto de forma direta:

“A velocidade a que anda não é o seu destino. É um instantâneo de como o seu corpo e a sua mente estão, neste momento, a lidar com tempo, energia e propósito.”

É por isso que alguns terapeutas usam hoje a marcha como uma pista diagnóstica discreta. Não a leem como um horóscopo. Observam-na juntamente com padrões de sono, velocidade da fala e tomada de decisão. E alguns coaches brincam com isto como ferramenta prática. Pedem aos clientes que experimentem três ritmos distintos durante a semana: “deliberadamente lento”, “natural” e “ritmo de missão”. O contraste pode ser surpreendentemente emocional.

  • Caminhantes rápidos partilham frequentemente traços como impulso, foco e maior perceção de controlo sobre o tempo.
  • Caminhantes lentos podem inclinar-se mais para reflexão, consciência sensorial e menor stress em movimento.
  • Mudar o ritmo momento a momento pode alterar o quão decisivo ou centrado se sente.

O que o seu ritmo diz sobre a vida que está a construir

Assim que começa a reparar nas velocidades de marcha, não consegue “desver”. O colega que desliza pelo corredor como se a alcatifa lhe pertencesse. O vizinho que passeia com auscultadores, perfeitamente no seu próprio ritmo. Os investigadores avisam contra transformar isto numa nova forma de julgar pessoas. Rápido não significa “melhor”, lento não significa “preguiçoso”. É mais uma pergunta aberta: até que ponto o seu ritmo está alinhado com a vida que quer? Se os seus dias parecem um sprint permanente, talvez o seu andar rápido seja um sinal de stress, não uma força. Se anda à deriva e adia, talvez um passo um pouco mais rápido ajude a mente a “engrenar”.

O que impressiona nos dados é como a velocidade de marcha prevê resultados a longo prazo. Estudos ligaram um ritmo habitual mais rápido não só a marcadores de personalidade, mas também a melhor saúde, menor risco de certas doenças e até maior longevidade. Parte disso é biologia; corpos mais em forma andam mais depressa sem tentar. Parte é psicologia; pessoas que acreditam que o seu futuro importa tendem a comportar-se de formas que o protegem. A rua torna-se uma espécie de espelho em movimento. A forma como a atravessa - a cortar caminho ou a arrastar os pés - diz algo sobre a história que conta a si próprio sobre o tempo.

Talvez a verdadeira pergunta não seja “Sou um caminhante rápido ou lento?”, mas “Quando é que o meu ritmo corresponde à minha intenção?” Andar depressa para encontrar um amigo de quem gosta sabe a vida, não a ansiedade. Marchar para casa com ombros tensos e maxilar cerrado não sabe. Um passeio lento ao fim da tarde, depois de um dia brutal, pode ser um ato de autorrespeito, não falta de ambição. O seu ritmo é um botão, não um rótulo. Se há um convite discreto escondido em todos estes estudos replicados, é este: preste atenção, só uma vez esta semana, à forma como se move entre o ponto A e o ponto B. Pode ver a sua própria personalidade em movimento pela primeira vez.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A velocidade a andar reflete a mentalidade Caminhantes rápidos pontuam frequentemente mais alto em conscienciosidade, extroversão e sentido de controlo Ajuda a interpretar o seu ritmo como pista sobre objetivos e motivação
O ritmo pode ser treinado momento a momento Experimentar “ritmo de missão” ou caminhadas “deliberadamente lentas” muda a forma como se sente e decide Oferece uma forma fácil e gratuita de influenciar foco, stress e clareza
O ritmo é um botão, não um rótulo fixo Lento e rápido têm ambos pontos fortes, dependendo do contexto e da intenção Incentiva a autocompaixão em vez de autocrítica sobre o seu tempo natural

FAQ:

  • É verdade que quem anda depressa vive sempre mais tempo? Nem sempre, mas muitos estudos associam um ritmo habitual naturalmente mais rápido a melhor saúde e menor risco de mortalidade, em parte porque reflete condição física e vitalidade globais.
  • Andar devagar significa que sou preguiçoso ou pouco motivado? Não. Algumas pessoas têm um sistema nervoso mais calmo, um tipo de corpo diferente ou simplesmente gostam de se mover de forma mais consciente; a motivação mostra-se nas ações, não apenas na velocidade.
  • Posso mudar a minha personalidade obrigando-me a andar mais depressa? Não vai reescrever o seu caráter; ainda assim, períodos curtos de caminhada mais rápida podem aumentar foco, confiança e energia, o que pode apoiar outras mudanças que queira fazer.
  • Porque é que ando depressa mesmo quando não estou atrasado? Muitos caminhantes rápidos têm um sentido interno de urgência ou uma forte orientação para a eficiência, pelo que o seu padrão é continuar a mover-se como se o tempo fosse sempre valioso.
  • Existe uma velocidade ideal a que eu deva apontar? Não há um ritmo “perfeito” universal; o que importa é ter uma velocidade que seja confortável para o seu corpo e conseguir ajustá-la conscientemente quando a situação pedir algo diferente.

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