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Como perceber se a sua produtividade está a esconder a fuga de questões emocionais mais profundas

Mulher escreve num caderno numa mesa com chávena de café, relógio e smartphone ao lado.

O teu e-mail está limpo, a cozinha está impecável e há quinze quadradinhos assinalados no teu planeador.
Santas-te, portátil aberto, pronto(a) para “a grande coisa” que continuas a adiar: uma conversa difícil. Uma decisão assustadora. Um sentimento que não queres nomear.

Então abres mais um separador. Reorganizas mais uma pasta. Respondes a mais uma mensagem “rápida”.
Sentes-te eficiente, quase orgulhoso(a), mas por baixo há um desconforto baixo, a zumbir.

Há algo essencial que não está a ser feito.
E, no fundo, tu sabes.

Quando a produtividade se transforma em camuflagem emocional

Há um tipo específico de produtividade que, por fora, parece saudável e, por dentro, sabe a veneno.
Estás ocupado(a), útil, a funcionar em alta rotação. As pessoas elogiam-te: “Estás sempre em cima de tudo.”

Mas o teu corpo conta uma história diferente. O peito aperta sempre que abrandas. O cérebro acelera à procura da próxima tarefa no segundo em que surge o silêncio.
O trabalho torna-se um escudo, não uma ferramenta.

Esse é o momento silencioso em que a produtividade deixa de ser progresso e passa a ser fuga.

Imagina uma segunda-feira em que respondeste a todos os e-mails antes das 9h, planeaste a semana e codificaste o calendário por cores.
Dizes a ti mesmo(a) que, finalmente, vais ver aquele resultado médico, aquela mensagem de fim de relação, aquela notificação do banco.

Em vez disso, ofereces-te para ajudar um colega, começas a reorganizar ficheiros, decides que “este é o momento perfeito” para limpar fotografias antigas.
A meio da tarde, estás exausto(a) e estranhamente vazio(a). Fizeste tudo, menos a única coisa que realmente importa para a tua vida.

É assim que a evitamento veste um fato de produtividade: mãos ocupadas, coração congelado.

À superfície, faz sentido. O teu cérebro adora tarefas com regras claras e recompensas rápidas.
E-mail respondido? Uma pequena dose de dopamina. Gaveta arrumada? Mais um pico de alívio.

O trabalho emocional não oferece isso. Luto, medo, vergonha ou arrependimento chegam sem checklist, sem barra de progresso, sem aplausos.
Por isso, o teu sistema nervoso empurra-te, discretamente, para o caminho mais seguro: mais tarefas, mais listas, mais estrutura.

A lógica torna-se simples: se continuares em movimento, talvez não tenhas de sentir.

Sinais de alerta de que a tua “eficiência” é, na verdade, evitamento

Um teste útil é este: repara no que acontece nos cinco segundos depois de terminares uma tarefa.
Pausas, respiras e sentes o corpo relaxar um pouco?

Ou agarras logo no telemóvel, atualizas uma app, abres um novo separador, rabiscas um novo “a fazer”?
Esse salto frenético de uma microtarefa para a seguinte é, muitas vezes, um sinal de que estás a fugir de algo mais pesado.

Produtividade devia criar espaço na tua vida, não encher cada centímetro vazio com ruído.

Pensa em alguém que fica a trabalhar até tarde “porque é quando sou mais produtivo(a)”.
No papel, parece dedicação. Na realidade, casa parece um campo minado: um(a) parceiro(a) tenso(a), um apartamento solitário, uma discussão por resolver desde a semana passada.

Então faz “só mais uma chamada”. Diz sim a projetos extra. Torna-se a pessoa fiável, sempre disponível, sempre online.
A agenda está cheia, mas a vida interior está em silêncio.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que ficar até tarde no trabalho parece mais seguro do que ir para casa e encontrar-te contigo.

O padrão costuma ter algumas formas repetidas. Organizas em excesso coisas de baixo risco e enfrentas de menos verdades de alto risco.
Dizes coisas como “quando este projeto acabar, trato disso”, mas a meta nunca para de se mexer.

Podes até sentir um pânico estranho nos dias mais calmos. Sem ruído, sentimentos enterrados começam a sussurrar.
Então crias urgência onde ela não existe: adicionas objetivos, novos hábitos, “desafios” que te dão algo para perseguir.

Isto não é preguiça disfarçada. É dor disfarçada.

Como te apanhares com gentileza e virares para o trabalho real

Um gesto simples muda tudo: dá nome à coisa que não estás a fazer.
Não à tarefa - ao sentimento por trás da tarefa.

Em vez de “estou a evitar ligar à minha mãe”, experimenta “tenho medo que ela me culpe”, ou “estou zangado(a) e não sei o que fazer com isto”.
Escreve uma frase crua num caderno ou numa app de notas antes de mergulhares na próxima leva de tarefas.

A clareza não resolve a emoção, mas rouba, silenciosamente, poder ao evitamento.

Uma armadilha comum é ir para o “tudo ou nada”. Reparas que andaste a esconder-te no trabalho e, de repente, queres arrumar a tua vida emocional inteira num fim de semana.
Puxas de um diário enorme, marcas conversas profundas, inscreves-te em três cursos, prometes a ti mesmo(a) uma versão nova de ti.

Depois torna-se avassalador, rebentas, e voltas a ser “super produtivo(a)” em vez disso.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Experimenta movimentos pequenos e consistentes. Cinco minutos honestos com os teus sentimentos valem mais do que cinco horas de planos heroicos que nunca vais repetir.

“A produtividade é ótima a fazer a tua vida avançar. Só que não consegue dizer-te se estás a correr em direção a algo com significado ou a fugir de algo insuportável.”

  • Repara nos teus “picos súbitos de produtividade” logo após gatilhos emocionais.
  • Pergunta: “Que sentimento estou a saltar ao fazer isto em vez de…?”
  • Define uma regra pequena: um passo desconfortável antes de três tarefas fáceis.
  • Usa um temporizador: 5–10 minutos de reflexão silenciosa e depois volta ao trabalho.
  • Procura apoio: um(a) amigo(a), terapeuta ou grupo de suporte quando os sentimentos parecem grandes demais.

Deixa a tua lista de tarefas e a tua vida interior sentarem-se à mesma mesa

Não precisas de escolher entre ser eficiente e ser emocionalmente honesto(a).
A verdadeira mudança acontece quando a tua produtividade começa a servir a tua vida interior, e não a substituí-la.

Isso pode parecer bloquear dez minutos após uma reunião importante só para perguntares: “O que é que estou mesmo a sentir agora?”
Ou decidir que, antes de reorganizares mais uma pasta, vais ler aquele e-mail difícil - ou ficar com o nó na garganta durante três respirações silenciosas.

Vais continuar a ter dias em que te escondes no trabalho. És humano(a). A questão é se dás conta um pouco mais cedo de cada vez e regressas a ti com um pouco mais de gentileza.
Às vezes, a coisa mais corajosa que farás na semana não será riscar vinte tarefas.

Será ficares quieto(a) tempo suficiente para ouvires o que o teu coração tem tentado dizer por baixo de todo esse ruído.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Identificar evitamento emocional Repara quando picos súbitos de produtividade surgem após stress, conflito ou pensamentos dolorosos Ajuda-te a ver o momento em que o trabalho se transforma em fuga
Dar nome ao que não estás a enfrentar Identifica o sentimento por trás da tarefa evitada, não apenas a tarefa em si Reduz a ansiedade e traz clareza ao que realmente dói
Usar passos emocionais pequenos Cinco minutos de reflexão antes de mergulhar em tarefas fáceis Torna o trabalho emocional sustentável, não avassalador

FAQ:

  • Como sei se estou genuinamente produtivo(a) ou apenas a evitar emoções? Normalmente estás a evitar quando tarefas de baixo impacto se expandem para ocupar todo o teu tempo, sobretudo logo após gatilhos emocionais, e as poucas tarefas grandes e significativas ficam permanentemente estacionadas no fundo da lista.
  • A produtividade e o trabalho emocional podem coexistir? Sim, quando as tuas tarefas refletem o que realmente importa, e não apenas o que te mantém distraído(a). Associa cada sprint de trabalho a um pequeno check-in: “O que estou a sentir agora?”
  • Qual é um primeiro passo se tenho evitado sentimentos há anos? Começa por nomear, não por resolver: escreve uma frase por dia sobre o que estás realmente a sentir, mesmo que seja “Não sei o que sinto, só sei que me sinto apertado(a) e inquieto(a).”
  • É normal sentir ansiedade quando deixo de estar ocupado(a)? Muito. O teu sistema nervoso habituou-se ao movimento constante. Esse desconforto agitado é comum e, muitas vezes, abranda quando ficas presente com ele em vez de ires imediatamente à procura de mais uma tarefa.
  • Quando devo considerar procurar ajuda profissional? Se a tua ocupação estiver ligada a ansiedade intensa, pânico, burnout ou experiências dolorosas que não consegues abordar sozinho(a) sem te sentires esmagado(a), um(a) terapeuta pode oferecer ferramentas e um espaço seguro para explorar o que está por baixo da tua produtividade.

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