Estás sentado em frente a alguém de quem gostas. A pessoa está a falar, as palavras saem depressa, e tu acenas com a cabeça nos momentos certos. Atiras um “uau”, um “percebo perfeitamente”, até um sorriso leve. De fora, pareces o exemplo perfeito de boa escuta.
Por dentro? Estás meio a escrever um e-mail na cabeça, meio à espera da tua vez de responder.
A outra pessoa faz uma pausa, a procurar no teu rosto algo que pareça contacto.
Sentes uma pequena picada de culpa que não consegues bem nomear.
Essa picada silenciosa é muitas vezes o primeiro sinal: a tua escuta passou de presença real para desempenho.
Quando a tua atenção é um disfarce, não uma ligação
A escuta performativa é como usar auscultadores com cancelamento de ruído enquanto acenas entusiasticamente num concerto.
Pareces envolvido. O teu corpo faz a coreografia certa. A tua mente está noutro sítio.
Fazemos isto muitas vezes com colegas, parceiros, até com crianças. Espelhamos expressões, repetimos frases-chave, oferecemos pequenos resumos arrumadinhos do que a outra pessoa sente.
Pode soar cuidadoso, até sofisticado.
Mas há um vazio no centro.
Estás a ouvir para parecer simpático, competente, “emocionalmente inteligente” - não para seres transformado pelo que ouves.
E a outra pessoa sente muitas vezes essa diferença, mesmo que não consiga explicar por que é que a conversa a deixa estranhamente sozinha.
Imagina isto. Um amigo diz-te que está exausto e a pensar em despedir-se.
Tu entras em “modo bom ouvinte” sem sequer dares por isso.
Inclinas o corpo na direção dele, o telemóvel virado para baixo.
Dizes: “Isso deve ser mesmo difícil”, e “Tens estado sob tanta pressão ultimamente.”
Refletes as emoções dele, tal como viste naquele TikTok de terapia.
Mas, enquanto ele fala, tu vais silenciosamente à procura do teu conselho.
Estás a alinhar histórias de sucesso, cenários de pior caso, truques de produtividade.
Quando ele pára para respirar, tu entras com uma opinião surpreendentemente polida.
Ele acena, diz “Obrigado, isso ajuda.”
Mas, quando chega a casa, sente-se pouco cuidado de uma forma para a qual não tem bem palavras.
Porque o que ele precisava não era da tua performance de escuta.
Precisava da tua presença crua, ligeiramente imperfeita.
A escuta performativa não é uma simpatia falsa.
É mais uma simpatia em piloto automático.
Fomos recompensados a vida toda por parecermos atentos - na sala de aula, em reuniões, em videochamadas onde a regra real é “Não pareças aborrecido”.
Por isso aprendemos os comportamentos: acenar, parafrasear, manter contacto visual, lançar um “hum-hum” suave de poucos em poucos segundos.
Por baixo, a mente mantém uma agenda privada: resolver isto, responder com inteligência, não soar egoísta, não soar ignorante.
Essa agenda puxa-nos para fora do momento, vezes sem conta.
Ouvir de verdade significa que a tua agenda interior afrouxa a sua presa.
Não estás à espera de falar.
Estás a deixar que o que a pessoa diz te atinja, mesmo que não tenhas uma resposta bonita pronta.
Essa é a diferença entre uma performance e uma presença.
Pequenas mudanças que te trazem de volta à presença real
Uma das formas mais rápidas de apanhares quando estás a desempenhar é reparar no que o teu corpo está a fazer.
Não na tua cara - no teu corpo.
Pergunta a ti próprio, a meio da conversa: “Onde é que a minha atenção está realmente agora?”
Se sentires o peito apertado, a mandíbula tensa, ou estiveres inclinado para a frente um bocadinho demais, talvez estejas a tentar “ouvir bem” em vez de simplesmente ouvir.
Experimenta este pequeno reinício.
Faz uma respiração lenta, deixa os ombros descerem alguns milímetros e sente o peso dos pés no chão ou do corpo na cadeira.
Depois, durante os próximos 20 segundos, abdica de qualquer necessidade de responder bem.
Não estás ali para impressionar, salvar ou diagnosticar.
Estás ali para testemunhar.
Uma armadilha comum é a “escuta de manchete”.
Só apanhas os pontos principais, como quem passa os olhos por um feed de notícias, e depois apressas-te a chegar a uma conclusão.
Alguém diz: “Estou tão cansado de fazer tudo em casa”, e o teu cérebro ouve: “sobrecarregado, carga doméstica, conversa sobre dividir tarefas.”
Então saltas diretamente para soluções ou defesas, dependendo do papel que tens na história.
Todos já passámos por aquele momento em que percebes que estiveste a discutir com a versão da história dentro da tua cabeça - não com a que a pessoa está realmente a contar.
A mudança é surpreendentemente pequena: faz mais uma pergunta antes de responder.
Coisas como:
“O que é que te está a custar mais neste momento?”
ou “Quando é que começaste a sentir-te assim?”
Essa pergunta extra abranda a tua narrativa o tempo suficiente para a narrativa real da outra pessoa aparecer.
A escuta verdadeira começa quando deixas de ensaiar a tua próxima frase e te permites estar ligeiramente despreparado.
- Verifica o teu comentário interno
Repara se estás silenciosamente a avaliar, a corrigir ou a julgar-te como ouvinte. Esse comentário é sinal de que saíste do momento. - Faz perguntas de clarificação
Perguntas curtas e suaves como “O que queres dizer com isso?” ou “Podes dizer mais sobre essa parte?” puxam-te de volta para a curiosidade. - Reflete o impacto, não apenas o conteúdo
Em vez de repetires as palavras, nomeia o peso: “Isso soa mesmo solitário” ou “Deve ter sido um choque enorme.” - Permite pequenos silêncios
Uma pausa de dois ou três segundos parece longa, mas muitas vezes convida a verdade que estava escondida por baixo da primeira resposta. - Pratica pequenos check-ins honestos contigo
A meio da conversa, pergunta em silêncio: “Estou aqui para parecer uma boa pessoa, ou para encontrar esta pessoa onde ela está agora?”
Deixar que as conversas se tornem lugares de contacto real
Quanto mais começas a notar a tua própria escuta performativa, menos precisas de a julgar.
Vais ver os padrões: com o teu chefe, desempenhas competência; com um amigo, desempenhas sabedoria; com o teu parceiro, desempenhas paciência.
Há um certo alívio em nomear isto.
Não tens de arrancar a máscara de uma vez.
Podes apenas afrouxá-la um pouco na próxima conversa.
Talvez admitas: “Apanhei-me a saltar para soluções. Podes contar-me mais antes de eu responder?”
Ou digas: “Quero estar aqui contigo, mas a minha cabeça está a acelerar. Dá-me um segundo.”
Estas pequenas confissões soam desajeitadas no papel, mas muitas vezes abrem a porta para a intimidade exata que tens tentado representar.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.
Vamos continuar a resvalar para o hábito, para a performance, para a auto-proteção.
O convite não é tornares-te um santo da presença.
É notares mais depressa quando saíste mentalmente da sala e escolheres voltar.
Com o tempo, as pessoas à tua volta começam a senti-lo.
As conversas ficam mais lentas, mais profundas, menos cortantes nas bordas.
Contam-te coisas que não contam a outras pessoas.
Não porque dizes todas as frases certas, mas porque a tua atenção tem peso agora.
Ouvir de verdade nem sempre soa impressionante.
Às vezes é silencioso, embaraçoso, cheio de frases a meio.
E, ainda assim, é muitas vezes aí que alguém finalmente sente que não está a carregar a sua história sozinho.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Notar sinais de performance | Detetar agendas internas, reações ensaiadas e tensão no corpo | Dá um aviso prático e precoce antes de as conversas saírem do rumo |
| Mudar para a curiosidade | Fazer mais uma pergunta, abrandar, permitir pequenos silêncios | Ajuda-te a ouvir o que está realmente a ser dito, e não apenas a tua própria história |
| Nomear o que está a acontecer | Admitir honestamente quando estavas a resolver, a defender-te ou a desligar | Constrói confiança e transforma momentos desconfortáveis numa ligação mais profunda |
FAQ:
- Como sei se estou a ouvir de verdade ou apenas à espera de falar? Vais notar onde está a tua atenção. Se estás a construir a tua resposta, a julgar as escolhas da pessoa, ou a antecipar a “coisa certa” a dizer, provavelmente estás à espera de falar. A escuta verdadeira parece mais lenta e um pouco incerta - como se ainda não soubesses onde a conversa vai parar.
- E se eu genuinamente não tiver tempo para uma escuta profunda? Então é mais gentil seres transparente. Diz algo como: “Quero mesmo ouvir isto como deve ser, mas estou com pressa agora. Podemos falar às 4?” Limites curtos e honestos são menos prejudiciais do que uma presença apressada e falsa.
- Repetir as palavras de alguém de volta é sempre performativo? Não. Torna-se performativo quando o fazes para parecer competente, em vez de confirmar que compreendeste mesmo. Se parafraseares, mantém simples e observa a cara da pessoa: ela relaxa, ou fica educadamente distante?
- E se a outra pessoa só quiser conselhos, e não presença profunda? Podes perguntar diretamente: “Queres que eu sobretudo ouça, ou estás à espera de ideias?” Algumas pessoas querem mesmo ajuda prática primeiro. Mesmo assim, alguns minutos de escuta real tornam qualquer conselho mais relevante.
- Como posso praticar escuta recetiva sozinho? Experimenta ouvir um podcast ou uma nota de voz sem fazer multitasking. Repara quando a mente se dispersa ou começa a discutir. Traz-te de volta, com suavidade, ao tom, às pausas e aos sentimentos por baixo das palavras. A competência é a mesma quando estás com pessoas reais.
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