A noite em que percebi que algo não estava bem, o meu calendário parecia um jogo de Tetris no modo difícil. Chamadas umas atrás das outras, recados, treino, copos, e-mails “respondidos rapidamente” à meia-noite. Por fora, parecia impressionante. Por dentro, eu sentia-me como um navegador com 47 separadores abertos e sem som - apenas um zumbido estranho de ansiedade.
Nesse dia, uma amiga enviou mensagem: “Podemos falar? Não estou nada bem.” Fiquei a olhar para a mensagem e depois para a minha agenda. Sem pensar, escrevi: “Esta semana está impossível, talvez para a próxima?” e senti imediatamente um aperto agudo no peito.
Não era falta de preocupação. Eu só não sabia como parar.
E foi aí que a pergunta me acertou em cheio: e se toda esta azáfama não fosse produtividade nenhuma, mas sim uma armadura?
Quando o “estou tão ocupado(a)” se torna camuflagem emocional
Algumas pessoas usam joias ou ténis giros. Outras usam a ocupação constante. Conhece o tipo: sempre a correr para algum lado, a fazer malabarismos com um milhão de projetos, nunca verdadeiramente disponível para um café sem pressa ou uma conversa profunda sem agenda. Os dias estão cheios de tarefas, mas se perguntar como estão de verdade, riem-se e dizem: “Não tenho tempo para pensar nisso.”
Esse é o primeiro indício. Quando a vida está tão cheia que não sobra espaço para sentir, pode haver mais qualquer coisa por baixo das listas de coisas a fazer. O movimento constante esconde as partes silenciosas. As partes sensíveis.
Uma gestora que entrevistei recentemente contou-me sobre o ano em que “finalmente conseguiu”. Novo cargo, grande aumento, o LinkedIn cheio de parabéns. A agenda estava tão lotada que a assistente lhe marcava pausas para ir à casa de banho. Ao início, ela brincava com isso. As pessoas admiravam a sua garra.
Mas, num domingo, abriu o portátil, viu 189 mensagens por ler e desatou a chorar por causa de uma simples fatura. Não por causa da fatura, mas porque foi a primeira vez que parou tempo suficiente para o sistema nervoso a alcançar. O pai tinha morrido seis meses antes. Ela não tinha tirado um único dia para fazer luto. Tinha apenas “mantido-se ocupada”.
Essa é a lógica da ocupação como escudo. A mente aprende, em silêncio: se eu continuar a mexer-me, não tenho de sentir. Sem perguntas assustadoras. Sem conversas desconfortáveis. Sem ficar sentado(a) com a solidão, ou a vergonha, ou o medo de que, se abrandar, descubra que está de facto exausto(a), ou infeliz, ou perdido(a). A ocupação torna-se um desvio emocional engenhoso.
O problema é que os sentimentos não desaparecem. Ficam à espera. Saem em fugas: irritabilidade, insónias, aquela estranha dormência que não sabe bem nomear. O escudo começa a rachar por dentro.
Identificar os sinais de que a sua agenda está a esconder os seus pontos sensíveis
Há um teste simples que dói um pouco: se, de repente, a sua agenda ficasse livre durante três dias, sentir-se-ia aliviado(a)… ou em pânico? O pânico é uma pista. Quando o tempo vazio parece perigoso, muitas vezes significa que algo vulnerável está à espera no silêncio.
Um método pequeno: repare nos seus micro-momentos. Termina uma tarefa e tem dez minutos livres. Vai logo ao telemóvel? Abre o e-mail? Começa uma nova tarefa que podia perfeitamente fazer mais tarde? Esse impulso para atividade imediata é como o escudo opera no dia a dia. Odeia intervalos. Os intervalos convidam os sentimentos.
Erro comum: achar que isto só acontece com “workaholics”. Pode esconder-se atrás de ocupação social, ocupação com a parentalidade, ocupação criativa. A forma não importa assim tanto. Falei com um pai jovem que se inscreveu em todas as comissões da escola, treinava duas equipas, organizava todos os churrascos. As pessoas achavam que ele era o pai mais envolvido do mundo.
Numa noite, a companheira perguntou, muito suavemente: “Quando foi a última vez que estiveste em casa sem fazer nada?” Ele não conseguiu responder. Por baixo de todo o voluntariado havia um medo silencioso de ficar sozinho no sofá, a enfrentar a pergunta: “Quem sou eu quando ninguém precisa de mim?”
A lógica é simples: enquanto alguém precisar de si, não tem de precisar de nada para si. Estar ocupado(a) permite-lhe ficar do lado de quem dá, onde se sente forte e competente. A vulnerabilidade vira isso do avesso. Pede-lhe que admita que está cansado(a). Ou com medo. Ou a precisar de carinho. Isso é muito mais difícil do que dizer: “Desculpa, esta semana estou atolado(a).”
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ninguém acorda e diz: “Hoje, às 15h, vou sentar-me corajosamente com todos os meus sentimentos.” A maioria de nós apenas deriva de volta para o conforto do calendário. O truque é perceber quando deixa de ser prático e passa a ser protetor.
Baixar o escudo com gentileza, sem rebentar com a sua vida
Comece pequeno, quase impercetivelmente. Não precisa de cancelar metade da sua vida nem mudar-se para uma cabana no meio do bosque. Pense nisto como desapertar a armadura, fivela a fivela. Um gesto concreto: marque “espaço em branco” na agenda com a mesma firmeza com que marca reuniões. Dez minutos entre chamadas que não pode preencher. Sem ecrãs. Sem tarefas domésticas. Só uma caminhada curta, um copo de água, olhar pela janela.
Durante esse espaço em branco, faça uma pergunta simples: “O que é que estou a sentir, de facto, agora?” Não o que acha que deveria sentir. Apenas o que está lá. Dê-lhe um nome em silêncio, como quem verifica o tempo.
Muita gente salta este passo porque tem medo de uma inundação. Imagina que, se abrir uma fenda, o luto ou a raiva vão entrar como um maremoto. Na maior parte das vezes, não é assim. É mais como uma gota lenta que finalmente é reconhecida.
A armadilha comum é transformar o “trabalho de vulnerabilidade” noutro projeto de produtividade. Diário com códigos de cores. Cinco podcasts. Seis livros. Rotina matinal de doze passos. Isso é apenas o escudo vestido de bem-estar. Em vez disso, seja gentil consigo. Duas frases honestas numa app de notas podem ser mais reais do que um ritual perfeito que nunca consegue manter.
Às vezes, a coisa mais radical que pode fazer numa cultura que idolatra a ocupação é dizer: “Eu não estou bem agora”, e deixar essa frase no ar, sem a tentar consertar.
- Micro-pausas: 3–5 ciclos de respiração depois de cada tarefa, só para notar o seu corpo.
- Alarme de “verificação emocional”: um lembrete diário no telemóvel que diz apenas: “Diz o nome de uma emoção.”
- Partilha gentil: dizer a uma pessoa segura uma coisa honesta por semana, sem a disfarçar com piadas.
- Nãos suaves: trocar “Estou tão ocupado(a)” por “Não tenho capacidade para isso agora.”
- Bolsas sem ecrãs: 20 minutos por dia sem telemóvel, sem TV, sem portátil - só os seus pensamentos.
Viver com uma agenda mais leve e um coração mais macio
Há um momento estranho que surge depois de começar a baixar o escudo. Os dias não ficam de repente amplos e iluminados. Sentem-se um pouco desconfortáveis, como caminhar sem a mochila pesada a que já se tinha habituado. Repara que se cansa mais cedo. Percebe que algumas amizades dependiam de ser sempre você a dizer “sim”. Nota reuniões que eram mais sobre o seu ego do que sobre o seu propósito.
E, no entanto, algo silencioso aparece no espaço aberto. Ouve os seus próprios pensamentos com mais clareza. Dá por si a prolongar um abraço em vez de planear a meio a próxima tarefa. Saboreia o café em vez de o engolir entre e-mails.
A surpresa mais profunda é esta: a vulnerabilidade não abranda a sua vida tanto quanto teme. Ela reorganiza-a. Pode continuar ocupado(a) em certas fases, mas a ocupação passa a servir um mestre diferente. Não o medo de sentir, nem o terror de ser “improdutivo(a)”, mas a escolha genuína. Escolhe os projetos que importam. Diz não sem oferecer uma desculpa de cinco parágrafos. Deixa que algumas pessoas o(a) vejam nos dias em que não está impressionante.
Essa é uma vida cheia muito diferente. Menos como armadura. Mais como pele.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o(a) leitor(a) |
|---|---|---|
| Reparar no escudo | Acompanhar momentos em que o tempo vazio parece ameaçador ou desconfortável | Ajuda a reconhecer quando a ocupação é proteção emocional, não necessidade |
| Criar espaço em branco | Marcar pequenas pausas inegociáveis sem ecrãs ou tarefas | Dá espaço para sentimentos e necessidades emergirem em segurança |
| Praticar honestidade gentil | Partilhar frases simples e reais com pessoas de confiança | Cria ligação e reduz a necessidade de se esconder atrás de uma agenda cheia |
FAQ:
- Como sei se estou genuinamente ocupado(a) ou apenas a esconder-me? Pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Um sinal-chave de que se está a esconder é sentir ansiedade em momentos de abrandamento, ou quando perguntas emocionais simples (“Como estás, a sério?”) parecem mais esmagadoras do que o seu dia de trabalho mais longo.
- E se eu não puder dar-me ao luxo de trabalhar menos agora? Baixar o escudo não é só uma questão de horas trabalhadas. É sobre a forma como as atravessa. Dez minutos honestos consigo, ou uma conversa corajosa, podem mudar coisas mesmo numa fase exigente.
- Ser vulnerável não me vai tornar menos eficaz? A maioria das pessoas relata o contrário. Quando não está a gastar energia a suprimir emoções, ganha mais foco. E toma decisões mais claras sobre o que merece realmente o seu tempo.
- Como falo disto com pessoas que esperam que eu esteja sempre “ligado(a)”? Comece com limites pequenos: “Não vou estar disponível depois das 19h” ou “Preciso de pensar antes de dizer que sim.” Não deve a toda a gente uma explicação emocional completa. O seu comportamento pode falar primeiro.
- E se eu me abrir e não sair nada de dramático? Isso é completamente normal. A vulnerabilidade nem sempre são lágrimas e grandes revelações. Às vezes é só admitir: “Estou cansado(a)” ou “Não tenho a certeza de querer este ritmo.” Essa honestidade silenciosa continua a ser real.
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