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Dermatologista alerta: pare de lavar o cabelo tão frequentemente, estamos a fazê-lo mal.

Pessoa a receber uma massagem na cabeça em frente a um espelho numa casa de banho iluminada.

O vapor do duche embacia o espelho enquanto espremes aquela dose familiar de champô. As tuas mãos mexem-se em piloto automático: raízes, comprimentos, enxaguar, repetir. Fizeste esta rotina tantas vezes que provavelmente conseguias lavar o cabelo de olhos vendados. Limpo é “bom”, oleoso é “mau”, fim de conversa.

Só que, ultimamente, algo não bate certo. O teu cabelo fica baço ao fim do dia. O couro cabeludo sente-se tenso, com comichão, quase irritado. Compras mais um champô “detox” e lavas ainda mais vezes, na esperança de recomeçar do zero. O resultado? Mais frizz, mais oleosidade, mais frustração.

Uma dermatologista com quem falei foi direta: estamos presos num ciclo de champô de que não precisamos.

E o verdadeiro choque é este.

Estamos a lavar o cabelo como se fosse 1995

Basta fazer scroll em qualquer rede social para ver: mulheres a mostrar “cabelo do dia 1”, depois “cabelo do dia 3”, e depois a anunciar com orgulho que estão no “dia 7, sem lavar”. Metade dos comentários grita “como é que isto é possível?”. A outra metade vem de pessoas a admitir, baixinho, que nunca tiveram o couro cabeludo tão bem.

Durante décadas, a regra não dita era simples: lavar o cabelo todos os dias era o padrão-ouro de higiene. Raízes oleosas? Lavar. Um cheirinho? Lavar. Cruzaste-te com um ser humano na rua? Lavar outra vez. O hábito ficou, generosamente patrocinado pela indústria da beleza. Não questionámos. Parecia virtuoso. Limpo. Civilizado.

Os dermatologistas veem o outro lado dessa obsessão pelo “limpo”. Uma derm em Londres contou-me que recebe regularmente doentes com couro cabeludo a descamar e reativo que confessam lavar o cabelo todos os dias - às vezes duas vezes por dia. Ficam chocados quando ela sugere reduzir. Uma doente, gestora de marketing de 32 anos, mantinha um registo no telemóvel: lavagens diárias, retoques noturnos com champô seco, tratamentos “clarificantes” mensais. No papel, parecia diligente. Na vida real, o couro cabeludo ardia.

Quando a convenceram a espaçar as lavagens de todos os dias para de três em três dias, aconteceu algo estranho. No início, o cabelo ficou mais oleoso entre lavagens, o que a deixou em pânico. Dois meses depois, o couro cabeludo acalmou, o excesso de oleosidade começou a diminuir e os comprimentos deixaram de partir como palha. Ela não tinha mudado de champô. Só o ritmo.

Os dermatologistas explicam isto com biologia simples: o couro cabeludo é pele com glândulas sebáceas, não é uma criatura separada que vive acima da tua testa. Se retiras esses óleos naturais vezes demais, a pele compensa produzindo mais sebo. Lavar, remover, sobreproduzir, repetir. Aquela sensação de “oleoso no dia seguinte” que achas que é genética muitas vezes é um efeito rebound.

Há também a realidade mecânica. Cada lavagem não é só detergente no cabelo: é fricção, água quente, esfregar, e depois calor do styling. A curto prazo, dá aquela sensação leve e fofa. A longo prazo, a cutícula - a camada externa do fio - vai-se desgastando. A cor desvanece. Os caracóis perdem elasticidade. A barreira do couro cabeludo fica mais fina e mais irritável. Estamos, basicamente, a limpar em excesso um sistema que se auto-regularia se lhe déssemos meia oportunidade.

Com que frequência deverias mesmo lavar o cabelo?

Os dermatologistas não concordam todos num número mágico, mas concordam nisto: a maioria das pessoas pode lavar muito menos do que pensa. A recomendação média fica algures entre duas e três vezes por semana, ajustada ao tipo de cabelo e ao estilo de vida. Cabelo liso e fino, que perde volume depressa, pode precisar de lavagens mais frequentes e suaves. Caracóis, crespos, cabelo encaracolado/ondulado com textura, muitas vezes fica muito melhor com uma lavagem bem feita por semana, mais refrescos do couro cabeludo pelo meio.

Pensa assim: o objetivo não é “nunca lavar”, é “lavar quando está genuinamente sujo, não apenas um pouco vivido”. Suor depois do treino? Sim. Cheiro forte? Sim. Um pouco de falta de volume nas raízes? Isso pode ser só o teu cérebro treinado por anúncios de champô. O termo dos derms é “conforto do couro cabeludo”. Se o couro cabeludo está calmo - sem comichão, sem dor, sem oleosidade descontrolada - provavelmente estás na frequência certa.

O período de transição é, normalmente, onde as pessoas desistem. Nas primeiras duas a quatro semanas em que lavas menos, as glândulas sebáceas ainda estão em overdrive, habituadas ao “desengordurar” diário. O cabelo pode sentir-se mais pesado, mais oleoso nas raízes, e estranhamente armado nas pontas. É aí que muitos voltam a lavar todos os dias e dizem: “Vês? Eu sabia que o meu cabelo precisa.”

Uma stylist de Nova Iorque disse-me que manda quase todos os novos clientes para o que ela chama, a brincar, uma “dieta de lavagens”. Semana 1: lavar dia sim, dia não. Semana 2: tentar esticar para de três em três dias. Semana 3: manter isso, mas acrescentar um brushing com pouco calor ou um coque para sobreviver aos dias mais oleosos. Na semana 4, a maioria aparece a dizer: “O meu cabelo está brilhante de uma forma que não via desde criança.” Não perfeito, não “liso de Instagram”, apenas menos irritado.

Há ainda um interveniente esquecido nesta história: o microbioma do couro cabeludo. Debaixo do cabelo existe um pequeno ecossistema de bactérias e fungos que ajuda a manter o equilíbrio. Lavagens agressivas, surfactantes fortes, água a escaldar e esfregar todos os dias baralham esse equilíbrio. Algumas pessoas acabam com descamação tipo caspa que tem menos a ver com “sujidade” e mais com um ambiente desequilibrado.

Os derms repetem um princípio simples: trata o teu couro cabeludo como tratas a pele do rosto. Normalmente não o lavarias com espuma três vezes por dia com água quente e depois queixar-te-ias de que está seco e repuxado. A lógica é a mesma, só com cabelo acoplado. Quando deixas de tratar o couro cabeludo como uma bancada gordurosa e passas a tratá-lo como pele viva, tudo começa a mudar.

Formas práticas de lavar menos… sem te sentires nojento/a

A tática mais eficaz não é força de vontade heroica; são pequenos ajustes na rotina. Começa pela temperatura da água: morna, não quente. Duches quentes sabem maravilhosamente bem, mas derretem os lípidos do couro cabeludo mais depressa do que imaginas. Depois, ajusta o champô. Fórmulas suaves, com poucos sulfatos, ou rotuladas para “uso frequente” tendem a ser mais amigas da barreira. Concentra o champô no couro cabeludo, não nos comprimentos; a espuma que escorre já limpa os comprimentos o suficiente.

Nos dias sem lavagem, um refresh rápido só nas raízes pode fazer uma diferença enorme. Um borrifo leve de água, um bocadinho de tónico leave-in ou bruma para o couro cabeludo, e depois cinco minutos a secar ao ar ou com secador em ar frio nas raízes. Só isso. Não estás a tentar fingir “cabelo do dia um”; estás a tentar sentir-te fresco/a o suficiente para sair de casa sem pensar nisto o tempo todo.

Há também a armadilha do styling. Séruns pesados com silicones, óleos espessos, sprays de fixação forte - tudo isto acumula rapidamente e empurra-te de volta para lavagens frequentes. Justo quando queres lavar menos, esses produtos obrigam-te a lavar mais. Um reset suave pode ajudar: uma lavagem clarificante para remover acumulações antigas e, depois, uma rotina mais simples com produtos mais leves enquanto “reeducas” o teu couro cabeludo.

E a parte emocional é real. Todos já passámos por isso: aquele momento em que cancelas planos porque o cabelo parece “demasiado nojento para ser visto”. Redefinir o que conta como “oleoso demais” faz parte do processo. Um pouco de brilho nas raízes não significa automaticamente que estás sujo/a; muitas vezes significa apenas que estás habituado/a a cabelo seco até ao osso por lavagem excessiva. Sejamos honestos: ninguém faz realmente rotinas de cabelo de 10 passos todos os dias. A maior parte de nós só quer ir trabalhar com um ar minimamente composto.

“Digo aos meus doentes: o vosso cabelo tem permissão para parecer ‘vivido’”, diz a Dra. Maya Gupta, dermatologista especializada em problemas do couro cabeludo. “Cabelo saudável não é rangente de tão limpo e imóvel. Tem movimento, algum peso, um pouco de óleo natural. O marketing de beleza corporativa vendeu-nos uma versão muito limitada e muito desidratada do que é ‘limpo’.”

  • Começa por espaçar devagar
    Passa de diário para dia sim, dia não durante duas semanas e depois empurra para de três em três dias. Dá ao teu couro cabeludo pelo menos um mês para ajustar antes de julgares o resultado.

  • Repensa os teus sinais de “sujo”
    O cheiro e o desconforto importam mais do que um pouco de brilho. Depende menos do espelho e mais de como o teu couro cabeludo se sente sob os teus dedos.

  • Usa truques para os dias sem lavagem
    Tranças soltas, coques baixos, bandolete/fitas e mudar a risca podem aguentar-te nos dias intermédios sem aquela sensação de “toda a gente está a olhar para as minhas raízes”.

Uma nova relação com o teu cabelo e o teu couro cabeludo

Quando as pessoas deixam de lavar obsessivamente, acontece uma coisa engraçada: a rotina do cabelo deixa de ser uma emergência diária e passa a ser um hábito de fundo. Há mais tempo de manhã. Menos pânico antes de reuniões. Claro que continuam a existir dias maus de cabelo, mas já não são tão dramáticos. Cabelo que não é constantemente “despido” costuma cair melhor, manter a forma com menos produto e não exige ser apanhado às 16h por pura frustração.

Esta mudança também é sobre dares a ti próprio/a permissão para não perseguires um padrão completamente irrealista de “frescura” 24/7. O teu couro cabeludo é tecido vivo: transpira, produz óleo, reage a hormonas, reage ao stress. Não vai comportar-se como nos anúncios retocados, por mais que o esfregues. O verdadeiro “flex” é um cabelo calmo, não perfeito.

Depois de tentares lavar menos, podes reparar noutras coisas. Aquele ponto com comichão no topo da cabeça que culpavas por “pele sensível” pode simplesmente desaparecer. Os teus caracóis podem começar a agrupar-se de forma mais natural. A tua cor pode durar mais algumas semanas antes de ficar alaranjada/baça. Nada disto vem com fogo-de-artifício. Vai surgindo devagar, semana após semana, lavagem após lavagem um pouco menos frequente.

Podes ainda decidir que o teu ponto ideal é lavar dia sim, dia não, ou uma vez por semana, ou só após os treinos. Tudo bem. Não há uma regra universal. O que os dermatologistas estão realmente a contestar é o reflexo automático do “todos os dias ou nada” que deixa o couro cabeludo despido e stressado. A pergunta não é “Com que frequência devo lavar como toda a gente?” A pergunta é: “Que ritmo é que deixa o meu couro cabeludo respirar?”

Ponto-chave Detalhe Valor para o/a leitor/a
Reduzir a frequência de lavagem de forma gradual Passar de diário para dia sim, dia não, e depois para de três em três dias ao longo de várias semanas Menos choque para o couro cabeludo, menos dias oleosos de “transição”, melhor equilíbrio a longo prazo
Concentrar o champô no couro cabeludo Usar fórmulas suaves nas raízes e deixar a espuma enxaguar pelos comprimentos em vez de os esfregar Protege a fibra capilar de danos, mantendo a limpeza onde é mais necessária
Usar estratégias para os dias sem lavagem Água fria/morna, brumas para o couro cabeludo, penteados simples, produtos mais leves em vez de champô constante Ajuda-te a sentires-te fresco/a e apresentável sem reativar o ciclo de lavagem excessiva

FAQ:

  • Com que frequência dizem os dermatologistas que devemos lavar o cabelo?
    A maioria sugere duas a três vezes por semana para couros cabeludos “normais”, com lavagens suaves mais frequentes para cabelo muito fino ou oleoso, e menos frequentes para cabelo encaracolado, muito crespo ou muito seco.
  • O meu cabelo vai ficar super oleoso se eu deixar de lavar todos os dias?
    No início, sim - pode parecer mais oleoso durante algumas semanas enquanto o couro cabeludo recalibra; depois, muitas vezes a produção de óleo abranda e estabiliza.
  • Lavar demasiado pode mesmo causar caspa?
    A lavagem excessiva pode irritar o couro cabeludo e perturbar o microbioma, o que pode agravar a descamação e a vermelhidão em pessoas com tendência para caspa.
  • O champô seco é uma alternativa segura entre lavagens?
    Usado ocasionalmente nas raízes, é geralmente seguro para a maioria das pessoas, mas o uso pesado diário pode obstruir os folículos e deve ser equilibrado com lavagens adequadas.
  • Que sinais me dizem que estou a lavar o cabelo em excesso?
    Couro cabeludo repuxado e com comichão, oleosidade de rebound rápida, comprimentos baços ou quebradiços e cor que desbota muito depressa são sinais de alerta comuns.

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