A lã é demasiado quente para esta pequena sala comum no lar de acolhimento em Paris, mas ela agarra-se a ela como a um colete salva‑vidas. A mãe senta-se em frente, a apertar uma mala gasta, com a voz a oscilar entre a raiva e a incredulidade. Em cima da mesa, entre as duas: um relatório, um documento institucional frio que descreve, em linguagem clínica, como o cabelo da filha foi rapado sem o seu consentimento. Duas outras crianças, soube entretanto, passaram pelo mesmo. Sem motivo médico. Sem piolhos. Sem emergência. Apenas uma decisão tomada algures entre a rotina e o abuso. A mãe procura palavras e chega a uma: “violência”. À volta, as luzes fluorescentes zumbem com calma. A história, porém, está longe de ser calma.
Cabelo, poder e a linha invisível que foi ultrapassada
A primeira coisa que ela notou não foi o silêncio, mas a ausência de som. Sem o resmungo habitual de adolescente, sem portas a bater, sem auscultadores aos berros. Apenas uma rapariga, parada à porta, com a cabeça tapada, os olhos a evitar tudo. Quando a boné finalmente saiu, em casa, a mãe diz que precisou de um segundo para perceber o que estava a ver. O crânio rapado. As falhas desajeitadas, irregulares. O olhar de alguém a quem não foi dado escolher.
Ela conta como se fosse um pesadelo. Dois novos casos no mesmo lar de acolhimento em Paris, depois de um primeiro já denunciado. A mesma história: crianças cujo cabelo foi rapado em contexto institucional, sem justificação médica. Sem ordem do tribunal. Sem consentimento parental. A explicação oficial? Algures entre “higiene” e “organização”. Para a mãe, é precisamente esse o problema: por detrás de um gesto aparentemente prático esconde-se uma incompreensão profunda do que significa retirar a uma criança uma parte da sua identidade.
Na proteção de crianças, o cabelo raramente é “apenas cabelo”. Assistentes sociais sabem-no, psicólogos repetem-no e, ainda assim, estes casos voltam a aparecer. Cortar ou rapar a cabeça de alguém sem consentimento tem uma história longa e dolorosa: punição, humilhação, dominação. Quando a mãe fala de “um tipo de violência que nunca deveria acontecer”, não está a exagerar. Está a apontar para algo mais subtil, mais insidioso - um abuso que não deixa nódoas negras, mas deixa crianças a olharem-se ao espelho, a perguntarem-se até que ponto lhes pertence aquilo que são.
Por detrás das paredes do lar: o quotidiano e os medos silenciosos
O lar de acolhimento em Paris parece banal por fora. Um pouco cinzento, um pouco cansado, com aquele charme burocrático de edifícios públicos que já viram melhores dias. Lá dentro, há desenhos colados nas paredes, quadros de tarefas, uma televisão que parece estar ligada metade do tempo. À primeira vista, nada grita “escândalo”. A história só começa quando se repara nos pequenos detalhes: os bonés, os lenços, a súbita relutância em ser fotografado.
Um educador, falando sem se identificar, descreve uma equipa “sobrecarregada, com falta de pessoal, a funcionar em modo de sobrevivência”. Turnos que não acabam, dossiers a acumular, urgências em cadeia. No meio deste caos, instalam-se atalhos. Corta-se cabelo depressa, tomam-se decisões em cima do joelho, com os corpos das crianças a tornarem-se mais um “problema” para gerir. A mãe da rapariga não desculpa isso. Apenas sabe que, nesta tempestade diária, os mais vulneráveis acabam sempre por pagar o preço mais alto.
À escala nacional, a França conta dezenas de milhares de crianças colocadas em acolhimento todos os anos. Relatórios do Provedor de Direitos (Défenseur des droits) assinalam repetidamente padrões preocupantes: falta de formação, supervisão insuficiente, zonas cinzentas em torno do consentimento. Nem todos os lares são abusivos - longe disso. Muitos educadores lutam com tudo o que têm para oferecer às crianças algo que se pareça com uma vida segura. Ainda assim, quando o sistema range, é nestes lugares íntimos e simbólicos que as fissuras aparecem primeiro - o quarto, a casa de banho, a cadeira de cabeleireiro improvisada num corredor.
Porque rapar a cabeça de uma criança não é “apenas cabelo”
Pergunte a um adolescente o que sente em relação ao seu cabelo e raramente obterá uma resposta neutra. O cabelo transporta cultura, religião, identidade de género, pertença social. Para crianças já desenraizadas das suas famílias e rotinas, pode ser uma das últimas coisas que ainda controlam. Cortá-lo sem aviso não muda apenas o aspeto. Diz-lhes, de forma crua, que o seu corpo não lhes pertence por inteiro.
Psicólogos que trabalham em proteção de crianças descrevem estes atos como “violência simbólica”. Sem murros, sem gritos, mas um sinal: os adultos podem decidir, unilateralmente, o que acontece ao teu corpo. Para crianças colocadas por decisão judicial, já a braços com a impotência, o impacto é enorme. Podem não encontrar as palavras certas, podem até “aceitar” no momento, intimidadas ou habituadas a obedecer. O choque chega muitas vezes depois, ao espelho, ou no recreio, quando os olhares ficam mais cortantes do que as tesouras.
A mãe que denunciou os dois novos casos de crianças rapadas não está apenas a defender o penteado da filha. Está a levantar uma pergunta que atravessa todo o sistema: onde termina o cuidado e começa o controlo? Ela fala de “um tipo de violência que nunca deveria acontecer” porque sente que uma linha foi ultrapassada - uma linha que muitos adultos têm dificuldade em ver. Quando uma instituição gere o cabelo como gere a roupa lavada ou os lençóis, envia uma mensagem que vai muito além do cuidado pessoal. Fala de quem, no fim de contas, “possui” os corpos destas crianças.
Como proteger a dignidade das crianças em contextos institucionais
O primeiro passo concreto parece quase simples demais: perguntar à criança. Não como formalidade, nem com um “vamos fazer isto, está bem?” já a meio do gesto. Uma pergunta verdadeira, feita com antecedência, com tempo para uma resposta real. Para crianças mais novas, isso pode significar escolher entre estilos, comprimentos, ou quem faz o corte. Para adolescentes, pode significar dizer não, ou pedir a presença de outro adulto em quem confiem.
Qualquer medida excecional que toque no corpo - cabelo, roupa, revistas corporais - deve ser registada, justificada e supervisionada. Parece pesado. É exatamente esse o objetivo. Se alguém tiver de explicar, por escrito, porque foi rapada a cabeça de uma criança e quem concordou com isso, os atalhos abusivos tornam-se mais difíceis. Em emergências, pode contactar-se um responsável de prevenção ou um juiz; em não emergências, há tempo para ligar a um progenitor, tutor ou representante legal. A urgência nunca deve tornar-se a desculpa por defeito.
Muitos profissionais conhecem estas regras de cor. Onde tudo falha é no dia a dia. Um novo funcionário copia o que vê. “Sempre fizemos assim.” A linha entre proteger e controlar vai-se esbatendo. Protocolos internos claros, visíveis nas áreas comuns, podem funcionar como uma rede de segurança discreta para todos - equipa e crianças.
Erros comuns que os adultos cometem - e como evitar repeti-los
A nível pessoal, uma das maiores armadilhas para adultos em instituições é pensar “eles já estão habituados”. Crianças em acolhimento são frequentemente incrivelmente resilientes. Encolhem os ombros. Fazem piadas. Dizem “está tudo bem”. Isso não significa que não estejam magoadas. Apenas significa que aprenderam o preço de protestar. Muitas já viveram o suficiente para saber que falar pode trazer mais problemas do que o silêncio.
Outro erro recorrente é tratar tudo pela lente da logística. Crianças a mais, casas de banho a menos, tempo a menos. Cabelo, roupa, corpos tornam-se “tarefas a despachar”. Sejamos honestos: ninguém está realmente consciente disto todos os dias, mesmo fora das instituições. Num contexto onde tudo é cronometrado e controlado, esta tendência cresce. É aí que uma pequena pausa pode mudar tudo: mais dois minutos para perguntar, explicar e esperar pela resposta.
Os pais também podem sentir-se paralisados. Entre o medo de retaliação contra o filho e a desconfiança das instituições, muitos hesitam em reclamar. A mãe de Paris que tornou o caso público correu um risco, emocional e social. As suas palavras ecoam as de muitos outros que nunca chegaram aos meios de comunicação.
“Dizem-nos que os nossos filhos estão em segurança com eles”, diz ela, baixinho, “mas se começam a decidir sobre o corpo deles sem nós, o que vem a seguir?”
- Documente tudo: datas, nomes, conversas, fotos quando apropriado.
- Peça explicações por escrito, não apenas justificações verbais.
- Contacte uma entidade independente (advogado, provedor dos direitos das crianças, associação).
- Apoie a versão dos factos da criança sem a obrigar a falar.
- Lembre-se de que dizer “não” a uma prática abusiva não é ser um pai/mãe “difícil”.
Depois do choque, que futuro para estas crianças - e para o sistema?
Algumas histórias fazem barulho durante alguns dias e depois desaparecem. Esta vai sobreviver às manchetes para as crianças envolvidas. O cabelo volta a crescer, sim. Mas, durante algum tempo, sempre que tocarem no couro cabeludo, terão uma memória: uma sala, um zumbido, uma decisão tomada acima das suas cabeças. Essas pequenas cicatrizes reaparecem muitas vezes anos mais tarde, quando tentam perceber porque é que confiar em adultos parece inseguro.
Para a mãe de Paris, falar publicamente não é apenas sobre a sua filha. É sobre todas as outras que nunca chegam a um jornal ou a uma reportagem televisiva. Crianças que se adaptam “bem demais”, que cumprem em silêncio, que dizem aos assistentes sociais o que eles querem ouvir só para seguir em frente. Na sua voz há raiva, mas também algo mais teimoso: a exigência de uma conversa honesta sobre poder na proteção de crianças. Num mau dia, pergunta-se se algo mudará mesmo. Num dia melhor, imagina um futuro em que rapar a cabeça de uma criança sem consentimento seria impensável - e não apenas “lamentável”.
Todos já tivemos aquele momento em que o cabeleireiro cortou “só mais um bocadinho” do que queríamos e sentimos uma estranha traição ao espelho. Agora estique essa sensação para a vida de uma criança que já vive longe de casa, longe de tudo o que é familiar, com estranhos a decidir quando come, dorme, estuda. De repente, uma cabeça rapada deixa de ser um detalhe. É um sinal de alerta. Talvez a verdadeira pergunta, para lá deste caso, seja até onde estamos dispostos a ir para proteger a dignidade de crianças que não vemos todos os dias.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Consentimento e corpo das crianças | Rapar cabeças num lar sem consentimento é uma forma de violência simbólica | Ajuda a reconhecer quando uma prática ultrapassa a linha do cuidado para o abuso |
| Atalhos no quotidiano institucional | Equipas sobrecarregadas podem normalizar práticas que minam a dignidade | Mostra, por dentro, como “pequenos” abusos se tornam rotina |
| O que as famílias podem fazer | Documentar, exigir respostas por escrito, procurar apoio independente | Dá ferramentas concretas para reagir se algo semelhante acontecer |
FAQ:
- Porque é que rapar a cabeça de uma criança num lar é visto como violência? Porque toca no corpo e na identidade da criança sem consentimento livre e informado, num contexto em que ela já está numa posição de fragilidade.
- A equipa pode cortar ou rapar o cabelo por razões de higiene? Apenas em situações estritamente justificadas, com motivos documentados, respeito pela criança e, sempre que possível, autorização parental ou legal.
- O que pode um pai/mãe fazer se descobrir que isto aconteceu? Recolher provas, pedir uma explicação por escrito à instituição, contactar um advogado ou uma organização de direitos das crianças e, se necessário, apresentar queixa formal.
- Todos os lares em França estão envolvidos neste tipo de prática? Não. Muitas equipas trabalham com ética e respeito, mas estes casos mostram que ainda faltam salvaguardas claras e supervisão em alguns locais.
- Como podemos proteger melhor as crianças em acolhimento? Reforçando a formação, clarificando protocolos sobre corpo e consentimento, escutando a voz das crianças e aceitando supervisão externa em vez de fechar fileiras.
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