Aquele estilo que temos visto há anos nas cozinhas do Instagram e nas casas de banho de hotéis. A proprietária fica à porta, de braços cruzados, já meio arrependida da escolha. “No Pinterest parecia mais quente”, murmura. O empreiteiro encolhe os ombros. Microcimento outra vez. A mesma cor, o mesmo acabamento, o mesmo eco ligeiramente frio no espaço.
Duas ruas abaixo, outra remodelação está a terminar. Mesmo orçamento, o mesmo briefing: “minimalista, moderno, fácil de limpar”. Mas as paredes parecem mais suaves, quase aveludadas. O chão difunde a luz em vez de a refletir. As pessoas entram e tocam em tudo sem saber bem porquê. O material é novo. Ou melhor, é antigo, mas voltou com uma vingança discreta.
Não é microcimento. E está prestes a ocupar o seu lugar.
A fadiga do microcimento: porque estamos a virar a página
Entre em quase qualquer alojamento “de designer” hoje em dia e percebe-o em segundos. A concha cinzento-claro, vagamente industrial, que *supostamente* parecia sofisticada. Microcimento no chão, microcimento no duche, por vezes até microcimento na bancada da cozinha. Ao início, parecia fresco e arquitetónico. Depois espalhou-se como um uniforme.
O problema é que as casas já não querem parecer galerias. As pessoas procuram calor, suavidade e uma luz que favoreça rostos - não apenas mobiliário. Cada vez mais designers admitem, em surdina, que estão fartos dos mesmos planos cinzentos que estalam nos cantos e mostram cada salpico de calcário. O outrora “efeito betão” cool começou a parecer um pouco… arrendamento.
É aqui que entra, sorrateira, a substituição: rebocos à base de cal e rebocos de argila. São táteis, mate, indulgentes. E estão a dominar os moodboards.
Fale com plataformas de remodelação e ouvirá a mesma história. Um grande marketplace britânico de interiores reportou em 2024 que as pesquisas por “casa de banho em microcimento” tinham caído quase 30%, enquanto “paredes com limewash” e “reboco de argila” tinham duplicado num ano. Designers de interiores falam de clientes que chegam a pedir “aquela parede quente e texturada dos cafés de Copenhaga”, já não betão polido.
No Instagram, a mudança é ainda mais óbvia. As grandes contas que impulsionaram o microcimento há cinco anos agora publicam fotografias ao sol de paredes irregulares, calcárias, em tons de aveia e areia. Cozinhas que poderiam ter sido brutalistas parecem agora quase monásticas. Mas não frias. Mais como uma casa mediterrânica antiga, suavizada pelo tempo e pelas mãos.
Um arquiteto londrino descreve-o assim: “Os meus clientes mostram-me menos lofts e mais mosteiros.” É uma grande viragem em relação à era do microcimento.
Porquê cal e argila? Em parte, porque respondem à maior queixa sobre o microcimento: a forma como envelhece. Fissuras nas juntas, manchas que parecem permanentes, um eco duro em espaços pequenos. Os rebocos de cal e argila vão na direção oposta. Aceitam imperfeições. Pequenas variações não parecem dano; parecem personalidade. Além disso, são respiráveis - as paredes não ficam “presas” atrás de uma camada tipo plástico.
Há também uma mudança psicológica. Passámos uma década a perseguir “vibrações de casa de banho de hotel”. Agora, as pessoas querem espaços que pareçam existir há mais tempo do que o contrato do telemóvel. Superfícies que registam as mudanças de luz ao longo do dia, que parecem diferentes no inverno e no calor de julho. A cal e a argila respondem a essa necessidade emocional onde o microcimento, por mais elegante que seja, muitas vezes não chega.
A ascensão da cal e da argila: como usar o novo material-estrela em casa
Se está a imaginar um reboco antigo, pesado e esfarelado, esqueça. Os rebocos modernos de cal e argila são formulados para casas reais, famílias ocupadas e manhãs caóticas. O melhor não é rebocar tudo. É escolher uma ou duas superfícies estratégicas onde o material possa realmente brilhar.
Um truque comum que os designers adoram: uma parede de destaque na sala com um acabamento de cal claro, leitoso. Suaviza imediatamente o canto da TV ou aquela parede estranha atrás do sofá. Nas casas de banho, tratam muitas vezes as paredes superiores com cal ou argila e deixam azulejo apenas nas zonas de água. Cria uma sensação de casulo sem arriscar exposição constante.
Se está a remodelar uma cozinha, pense na zona entre a bancada e os armários (o resguardo/splashback). Um reboco com textura suave aí pode transformar armários baratos em algo com aspeto feito à medida. A chave é a contenção.
Há uma razão pela qual os profissionais estão, com cuidado, a afastar os clientes das casas de banho “caixa completa” em microcimento. Já viram demasiadas reparações. Com cal e argila, a armadilha é diferente: ir demasiado escuro, demasiado depressa. Superfícies mate e texturadas “engolem” luz, por isso um ferrugem profundo ou um verde-azeitona podem tornar um pequeno apartamento no Reino Unido numa caverna - sobretudo no inverno. Os designers tendem a começar por neutros quentes: osso, linho, greige com um sussurro de rosa argila.
Ao nível da manutenção, há outra história: ao contrário do microcimento, que muitas vezes promete “perfeição fácil de limpar” e raramente cumpre, a cal e a argila são honestas desde o início. Ganham pátina. Mostram vida. Isso faz parte do encanto. Ainda assim, há quem entre em pânico ao primeiro borrão.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ninguém anda a limpar as paredes com carinho diariamente. Portanto, o objetivo não é um acabamento de museu. É uma superfície que fica *melhor* com alguns riscos - não arruinada.
Uma stylist de interiores resumiu isto à mesa de café:
“O microcimento tentou fazer as casas parecerem boutiques. A cal e a argila fazem-nas sentir como sítios onde se vive mesmo. Prefiro ver uma marca de polegar junto à entrada do que uma fissura fina que grita ‘remodelação que correu mal’.”
Para quem está a tentar perceber o que fazer a seguir em casa, ajuda ter uma folha de cola:
- Escolha reboco de cal ou de argila para paredes que apanham luz natural, não para zonas com salpicos constantes de água.
- Em espaços pequenos, opte por tons quentes e dessaturados; guarde os tons muito escuros para divisões grandes e luminosas.
- Peça ao aplicador um painel de amostra e viva com ele alguns dias antes de decidir.
- Aceite pequenas marcas e variações de tom como parte do visual, não como falhas.
- Mantenha o microcimento apenas onde realmente funciona: talvez uma bancada ou um único piso de baixo tráfego.
O que esta mudança diz realmente sobre a forma como vivemos agora
Ouça como as pessoas falam da casa de sonho em 2026. Raramente dizem “quero que pareça cara”. Dizem “quero que seja calma”. É uma grande diferença. Os materiais carregam um estado de espírito. O microcimento traz uma certa distância fria, quase como uma galeria ou uma concept store. A cal e a argila trazem suavidade, familiaridade, a sensação de que pode andar descalço com um café na mão sem pensar onde pisa.
Também estamos mais conscientes de ar, som e toque desde os anos de confinamento. Espaços duros e com eco, que ficam bem em fotografia, podem ser estranhos quando se passa dez horas por dia dentro deles. Rebocos mais macios absorvem melhor o som do que uma “casca” contínua de revestimento cimentício. E ajudam as paredes a respirar, o que importa tanto em casas antigas como em construções novas, muito isoladas.
A mudança para longe do microcimento não é um julgamento moral do material. É mais um “experimentámos, aprendemos, seguimos em frente”. Alguns vão mantê-lo numa ilha de cozinha ou num piso de destaque. Mas a nova estrela é clara: aquelas paredes calcárias, minerais, táteis, que nos fazem querer encostar e ficar mais um pouco.
E, provavelmente, essa é a verdadeira história: estamos a escolher materiais que nos fazem permanecer - não apenas fazer scroll.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Fadiga do microcimento | Perceção de interiores frios e repetitivos com “efeito betão”; fissuras e manchas visíveis ao longo do tempo | Ajuda a perceber porque é que a sua casa de banho, antes na moda, agora parece datada |
| Cal e argila como sucessores | Superfícies respiráveis, mate e táteis, com variações suaves de tom e paletas de cores quentes | Dá-lhe uma alternativa clara para pedir a arquitetos e decoradores |
| Uso prático em casa | Melhor em paredes de destaque, paredes superiores da casa de banho e zonas de splashback, evitando exposição constante à água | Oferece ideias concretas para melhorar o espaço sem uma remodelação total |
FAQ:
- O microcimento está mesmo “acabado” ou apenas menos na moda? Não vai desaparecer de um dia para o outro, mas o seu momento de auge já passou. Vai manter-se em usos específicos, enquanto os rebocos de cal e argila ganham destaque nas paredes.
- A cal ou a argila podem ser usadas em duches como o microcimento? Não da mesma forma. Funcionam melhor em paredes superiores e zonas menos expostas; áreas totalmente molhadas geralmente continuam a precisar de azulejo ou de sistemas impermeáveis especializados.
- Os rebocos de cal e argila são mais caros do que o microcimento? Os custos de material são muitas vezes semelhantes ou ligeiramente superiores, mas a mão de obra é o que mais pesa. Ambos exigem aplicadores especializados; os preços variam muito por região e complexidade.
- Os rebocos texturados mancham facilmente nas cozinhas? Podem marcar, mas muitas formulações modernas incluem acabamentos de proteção. A maioria dos salpicos do dia a dia pode ser limpa com cuidado, e alguma pátina tende a integrar-se no aspeto geral.
- E se eu já instalei microcimento - devo arrancá-lo? Não é necessário. Muitas pessoas mantêm o microcimento existente em pisos ou bancadas e introduzem cal ou argila nas paredes próximas para suavizar o conjunto do espaço.
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