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Engenheiros de aquecimento explicam o erro comum das pessoas ao usar o termóstato no frio e o que isso significa para o consumo de energia.

Mulher ajusta termostato para 20°C numa parede da cozinha, com chávena de café a fumegar na mesa ao lado.

A chamada chegou pouco depois das 7h, numa segunda-feira que ainda parecia noite.

Lá fora, a primeira vaga a sério de frio do inverno tinha congelado os para-brisas e transformado os passeios em armadilhas cintilantes. Cá dentro, radiadores despertavam a chiar por todo o país, enquanto as pessoas espetavam dedos meio gelados nos termóstatos. Numa moradia geminada tranquila, uma pequena luz verde piscava de poucos em poucos minutos, e o dono da casa olhava para ela como se fosse um detetor de mentiras. A caldeira fazia clique, parava, clique outra vez. “O meu aquecimento está avariado”, disse ao técnico ao telefone. “Não para de desligar. Deve estar a custar-me uma fortuna.”

Não estava avariado. E não era aquilo que ele pensava.

O drama do termóstato “liga-desliga” que se vê nas vagas de frio

Nas manhãs mais frias, os técnicos de aquecimento dizem que podiam passar o dia inteiro a responder à mesma pergunta: “Porque é que o meu aquecimento está sempre a ligar e a desligar?” Ajusta o termóstato para 20°C, a caldeira arranca, a casa começa a aquecer… e depois pára. Dez minutos mais tarde, volta a arrancar. E pára de novo. Para quem está a olhar para o ícone da chama ou para a luz da caldeira, parece que o sistema está confuso - ou pior, a desperdiçar dinheiro.

O que está a ver é o termóstato a fazer o seu trabalho. Não a falhar. Não a entrar em pânico. Apenas a equilibrar, em silêncio, temperatura, conforto e combustível. Esse padrão sincopado de liga-desliga-liga não é um esgotamento nervoso: é uma estratégia.

Um técnico com quem falei descreveu uma chamada típica de inverno numa casa em banda bem arranjada, com janelas de vidro simples e um termóstato inteligente novinho em folha. O proprietário tinha-o instalado para “poupar energia”, mas estava convencido de que acontecia o contrário. Mostrou ao técnico o gráfico na aplicação, agitando o telemóvel como prova: picos intermináveis, à medida que a caldeira ciclava, ligando e desligando a cada poucos minutos, enquanto a temperatura exterior pairava perto do zero.

Ele tinha começado a baixar muito o termóstato no momento em que a caldeira parava, e depois a subir de novo quando a casa “voltava a parecer fria”. Em uma semana, o gráfico do consumo de gás parecia um monitor cardíaco num drama hospitalar. Jurava que o sistema estava avariado. O técnico verificou a caldeira, a bomba, os radiadores. Tudo impecável. O problema não era o sistema de aquecimento. Era a história que ele tinha contado a si próprio sobre o significado daqueles padrões de liga-desliga.

No centro deste mal-entendido está um mito simples e teimoso: o de que uma caldeira a funcionar continuamente é sempre mais cara do que uma que liga e desliga. A realidade é mais complexa. A maioria das casas no Reino Unido ainda usa termóstatos básicos on/off que trabalham com uma banda de temperatura, não com um único número mágico. Define 20°C e a caldeira pode aquecer até 20,5°C, depois descansar até a divisão descer para 19,5°C, e então arrancar outra vez. Esse ciclo é normal. Se o ciclo for muito curto e rápido, pode significar ineficiência. Mas um padrão estável de liga-desliga moderado pode ser menos desperdício do que puxões longos e brutais - de muito frio para muito quente.

Os técnicos comparam isto a conduzir em trânsito intenso. Passar a fundo de 0 para 110 km/h gasta mais combustível do que rolar de forma constante na faixa dos 65–80 km/h. O seu termóstato está a tentar “cruzar” à volta da temperatura definida. O problema começa quando os humanos, fixados em luzes e ícones, interferem com base na sensação - e não na física.

O que o seu termóstato está realmente a fazer - e como ajudá-lo

A maior mudança que os técnicos gostavam que as pessoas fizessem em vagas de frio é aborrecidamente simples: escolha uma temperatura-alvo realista e deixe o termóstato em paz durante algum tempo. Não para sempre. Só o suficiente para o sistema encontrar um ritmo estável. A maioria dos termóstatos modernos - mesmo os básicos - “aprende” quanto tempo a sua casa demora a aquecer e a arrefecer. Se estiver sempre a mexer nos controlos a cada dez minutos, essa aprendizagem nunca acontece.

Recomendam escolher uma banda de conforto em vez de um número de fantasia. Numa casa mais antiga e com correntes de ar, manter 19–20°C de forma estável costuma ser mais confortável do que um ioiô entre 16°C e 23°C. Deixe a caldeira ciclar. Observe o padrão ao longo de toda uma manhã, em vez de uma única hora. Os picos parecem mais calmos quando se faz zoom out.

Numa tarde sombria de janeiro em Leeds, um técnico mostrou-me o seu exemplo preferido num tablet. Duas casas idênticas, lado a lado, o mesmo modelo de caldeira. Na Casa A, o proprietário deixou o termóstato nos 19°C durante três dias gelados e usou horários programados. Na Casa B, a proprietária baixava o termóstato para 12°C sempre que saía para um recado e depois subia para 22°C quando voltava “para aquecer rapidamente”.

Os gráficos desses três dias contavam uma história clara. A caldeira da Casa A ciclava em rajadas regulares e moderadas, consumindo pouco menos de 30 kWh por dia. A Casa B mostrava picos selvagens, à medida que a caldeira trabalhava a plena potência para puxar divisões geladas dez graus de cada vez. Essa casa consumiu quase 40 kWh por dia - cerca de mais um terço - embora a proprietária acreditasse que estava a ser “cuidadosa”. Ela culpava a luz intermitente da caldeira. O verdadeiro culpado era o comportamento dela com o termóstato.

Instituições de apoio ao consumidor na área da energia notam o mesmo padrão nos registos de chamadas. As pessoas relatam que o aquecimento “nunca pára de funcionar” quando definem o termóstato muito alto durante uma vaga de frio, à espera de uma explosão rápida de calor, estilo hotel. Depois entram em pânico com estimativas de fatura e começam a baixar o termóstato para 14°C quando vão dormir - só para acordarem numa geleira e o subirem para 24°C no piloto automático. No papel, isto parece “usar só quando é preciso”. No contador, parece stress.

Tecnicamente, uma caldeira está mais “feliz” quando pode modular - funcionar com menor potência durante mais tempo, ajustando o calor para cima e para baixo de forma suave. Muitos sistemas modernos fazem isto automaticamente com compensação meteorológica ou controlos inteligentes. Mas se o humano responsável continua a exigir mudanças dramáticas, a caldeira volta sempre ao ponto de partida: sistema frio, tubagens frias, trabalho duro.

A atitude mais útil numa vaga de frio é, estranhamente, pouco dramática. Pense em pequenos ajustes, não em grandes oscilações.

Hábitos de termóstato mais inteligentes que reduzem discretamente o consumo

Um truque prático que os técnicos repetem como um mantra é a regra “um grau, um dia”. Se a sua casa parece fria a 18°C e sente vontade de saltar logo para 23°C “só para aquecer”, sugerem aumentar o alvo em 1°C e viver com isso durante um dia inteiro. Deixe a casa - e o termóstato - estabilizar. Se continuar genuinamente com frio, suba mais um grau no dia seguinte.

Esta abordagem mais lenta faz duas coisas. Respeita a forma como os edifícios realmente se comportam - paredes, pisos e mobiliário têm inércia térmica. E impede-o de perseguir a sensação falsa de “calor rápido” que leva a ultrapassagens (overshoot), divisões abafadas e uma caldeira a trabalhar no máximo sem ganho real. Muitas pessoas descobrem que ficam confortáveis a 19–20°C quando toda a casa absorve calor de forma gradual.

Outro hábito-chave é usar horários programados em vez de reações do momento. Os técnicos veem um padrão: casas com horários simples e consistentes quase sempre gastam menos energia ao longo do inverno do que casas que funcionam por impulso. Um aquecimento de manhã, uma ligeira descida enquanto toda a gente está fora, uma subida suave antes da noite - este ritmo permite que a caldeira e o termóstato antecipem, em vez de apagar fogos.

Há também a questão muito debatida de desligar completamente o aquecimento quando se sai por algumas horas. Muitos técnicos preferem um caminho intermédio, especialmente em casas mal isoladas durante frio intenso. Deixe a temperatura descer um par de graus, não cair a pique. Assim, a caldeira não tem de fazer um sprint a partir de quase zero quando chega a casa. E sim, alguns dirão que deve andar a purgar radiadores e a equilibrar perfeitamente cada válvula. Sejamos honestos: ninguém faz isso todos os dias.

O comportamento mais mal interpretado de todos talvez seja o instinto do “termóstato como pedal do acelerador”. Subir o termóstato não faz a casa aquecer mais depressa; apenas diz ao sistema para continuar a funcionar durante mais tempo. Por isso, quando vê a luz da caldeira a ligar e desligar estando já perto da temperatura-alvo, isso não é “desperdício”. É o sistema em regime de cruzeiro. O desperdício começa quando decide que a ciclagem normal significa “não está a funcionar” e atira o termóstato para cima por frustração.

Um técnico em Glasgow foi direto na nossa entrevista:

“Nove vezes em dez, quando as pessoas me dizem que o aquecimento está ‘a devorar dinheiro’, não é a caldeira. É a forma como estão a perseguir o calor. Reagem a cada arrepio como se o sistema fosse um interruptor, e não uma máquina lenta e pesada. O termóstato não lhes está a mentir - as expectativas é que estão.”

Soa duro, mas o tom dele estava longe disso. Depois enumerou pequenas alterações, tolerantes, que pessoas normais conseguem fazer sem se tornarem obcecadas por aquecimento:

  • Escolha um intervalo de conforto realista (normalmente 18–21°C) e mantenha-se perto dele durante pelo menos alguns dias numa vaga de frio.
  • Use horários simples em vez de mexer constantemente manualmente.
  • Ignore cada luz de liga/desliga isolada e foque-se antes nos padrões de consumo diários ou semanais.

A nível humano, isto tem tanto a ver com ansiedade como com quilowatt-hora. Essas luzes a piscar e ícones pequenos convidam a micro-pânicos: “Ligou outra vez, estou a gastar dinheiro.” No entanto, quando os técnicos analisam faturas ao longo de meses, as casas onde as pessoas menos vezes olham para o termóstato são frequentemente as que pagam menos.

Repensar o conforto quando a temperatura desce

Quando se percebe que a dança de liga-desliga do termóstato durante uma vaga de frio não é uma falha moral nem uma fuga secreta na carteira, a relação com o aquecimento muda um pouco. A caldeira deixa de parecer um inimigo. Torna-se um colega de equipa um pouco desajeitado, que precisa de instruções claras e consistentes - não de martelar botões em pânico.

Aquela luz a piscar que o preocupou ontem pode parecer diferente amanhã - não como um aviso, mas como respiração. Liga, desliga, liga, desliga. Rajadas mais curtas quando o sol bate nas janelas. Mais longas quando o vento aumenta. Quando deixa de fixar cada respiração e começa a observar o ritmo ao longo de uma semana, surge um padrão que parece menos caótico e mais como um pulso.

Todos já vivemos aquele momento em que a casa parece de repente fria, as faturas assustam, e o termóstato se torna um pequeno símbolo de plástico de tudo o que está fora do nosso controlo. Os técnicos veem esse medo todos os invernos, sentados à mesa da cozinha ao lado de canecas de chá meio acabadas. A mensagem deles não é que as pessoas devem aguentar ou viver de camisola para sempre. É mais suave: abrande as reações, confie na física lenta da sua casa e deixe o termóstato ser aborrecido.

O seu consumo de energia numa vaga de frio não depende só do frio lá fora. Depende de histórias - as que conta a si próprio sobre o que aquelas luzes e números significam, e se cada clique é uma crise. Mude a história e a mesma caldeira, o mesmo termóstato, a mesma casa podem sentir-se muito diferentes.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A ciclagem do termóstato é normal A caldeira alterna entre funcionamento e paragem dentro de uma faixa de temperatura, não num número fixo Evita o pânico ao ver o aquecimento “sempre a ligar” e reduz intervenções desnecessárias
Grandes oscilações de temperatura saem caro Passar de muito frio para muito quente obriga a caldeira a funcionar mais tempo a plena potência Incentiva ajustes mais estáveis para limitar o consumo ao longo do tempo
Pequenos hábitos, grandes efeitos Ajustes em degraus de 1°C, programas horários simples, menos “mexidelas” no termóstato Ajuda a controlar a fatura sem sacrificar o conforto no dia a dia

FAQ:

  • Aumentar o termóstato faz a minha casa aquecer mais depressa? Não. Não altera a velocidade de aquecimento, apenas a temperatura final que o sistema vai tentar atingir.
  • É mais barato deixar o aquecimento baixo o dia todo ou ligar e desligar? Numa casa mal isolada, um ajuste estável e moderado com horários bem definidos é muitas vezes mais eficiente do que grandes ciclos on/off extremos.
  • Como sei se a minha caldeira está a ciclar demasiado (short-cycling) de forma problemática? Se a caldeira liga e desliga a cada 1–2 minutos de forma contínua, peça a um profissional para verificar o dimensionamento e/ou as configurações.
  • Qual é uma boa temperatura para definir durante uma vaga de frio? Para a maioria das casas, um intervalo de 18–21°C funciona bem, com eventualmente menos 1–2°C à noite se a habitação retiver calor.
  • Os termóstatos inteligentes são mesmo melhores para o consumo? Podem ser, mas apenas se deixar os algoritmos trabalhar com definições coerentes, em vez de alterar tudo constantemente.

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