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Equipas de psicologia identificam três preferências de cor associadas à baixa autoconfiança.

Homem jovem a decidir entre camisola cinzenta e camisa azul claro em quarto bem iluminado.

Nunca se está realmente à espera.

Um dia, apercebemo-nos de que voltamos sempre a vestir a mesma camisola azul-noite, de que o nosso telemóvel tem um vermelho muito específico, de que a nossa sala é estranhamente bege… e já nem sabemos quando começámos a fazer essas escolhas. Nos consultórios de alguns psicólogos, estes detalhes não passam despercebidos. Observam os casacos, as capas de smartphone, os fundos de ecrã, por vezes até a cor das unhas. Porque é que um adulto brilhante parece ficar preso a apenas três tons, durante anos? E porque é que esse trio surge com tanta frequência em quem duvida de si?

Equipas de psicologia começaram a cruzar observações. Entre processos clínicos, questionários anónimos e experiências em laboratório, um padrão repete-se. Três famílias de cores, escolhidas vezes sem conta, até nos pormenores mais discretos. Três refúgios visuais que parecem dizer o mesmo: “Quero misturar-me, proteger-me, controlar a imagem que transmito.” Desenha-se uma estranha certeza.

As três cores que voltam sempre quando a confiança vacila

Os psicólogos que trabalham a perceção das cores notam-no há anos: o trio que mais aparece em pessoas com autoestima frágil é o bege-cinzento, o azul muito escuro e o vermelho “armadura”. Não os vermelhos vivos de festa, nem os azuis claros de verão. Antes, estes tons pesados, controlados, por vezes quase militares. Dominam na roupa do dia a dia, nos objetos que mais tocamos, naquilo que vemos primeiro ao abrir os olhos de manhã.

O que impressiona as equipas não é a escolha em si, mas a repetição. Gavetas inteiras de camisas azul-marinho. Interiores beges sem um único contraste. Acessórios vermelho profundo, como uma assinatura rígida. Estas cores parecem tornar-se um uniforme oficioso. Quem as escolhe fala muitas vezes em “simplificar”, “não errar”, “não dar nas vistas” ou, pelo contrário, “impor respeito”. A linguagem muda, mas a lógica de proteção volta sempre.

Os estudos em psicologia das cores mostram que o bege-cinzento funciona como uma espécie de véu neutro. Apaga contornos, tranquiliza porque não choca ninguém. O azul muito escuro remete para autoridade, seriedade, muitas vezes escolhido por quem receia ser julgado como “pouco sério”. Já o vermelho profundo funciona como uma armadura emocional: é a cor do autocontrolo, do poder exibido, escolhida por quem teme ser visto como vulnerável. Não estamos a falar de “gostar de azul” em sentido amplo, mas de uma dependência específica destes tons, em quase todos os domínios da vida visual.

Quando as tuas cores se tornam um escudo invisível

Uma psicóloga de Londres conta o caso de Amelia, 32 anos, gestora de marketing. Ao abrir o guarda-roupa para um exercício simples, desata a rir e, logo a seguir, fica desconfortável. Oito casacos azul-marinho. Três calças pretas. Um único vestido colorido - ainda com a etiqueta. Jurava adorar amarelo na decoração, mas nunca o usava. As canetas, a agenda, até o fundo do ecrã do computador: tudo girava à volta do azul muito escuro. À medida que fala, deixa escapar esta frase: “Quando estou de azul, levam-me a sério. Tenho menos medo de falar.”

Noutro consultório, um terapeuta mostra uma série de questionários anónimos. Em quem se define como “frequentemente auto-crítico” ou com “medo de desiludir”, o bege-cinzento domina no espaço de vida: sofá, paredes, lençóis, loiça. Tudo parece “discreto”, sem risco. No extremo oposto, um grupo de executivos em hipercontrolo, exaustos, prefere o vermelho profundo em detalhes estratégicos: relógio, batom, mala, carro. O vermelho não se espalha; impõe-se num ponto preciso, como uma insígnia. Todos já vivemos aquele momento de vestir a “camisa da coragem” antes de uma reunião. Para eles, é quase todos os dias.

Os psicólogos não dizem que estas cores criam falta de confiança. Observam antes o inverso: quando a autoconfiança vacila, estes tons tornam-se pontos de ancoragem. O bege-cinzento acalma a ansiedade social apagando a diferença. O azul escuro dá a ilusão de uma postura profissional inabalável. O vermelho profundo oferece uma máscara de força a quem se sente frágil por dentro. Sejamos honestos: quase ninguém faz isto todos os dias de forma plenamente consciente. É um mecanismo lento, invisível, que se instala pela acumulação de pequenas decisões “práticas”. Até ao momento em que a cor fala mais alto do que a pessoa.

Transformar este código secreto numa alavanca para a tua confiança

Os psicólogos que estudam estas preferências não propõem pintar tudo de amarelo de um dia para o outro. Incentivam, isso sim, um microdeslocamento. Um método surge com frequência: a “experimentação discreta”. Consiste em introduzir uma cor mais aberta, mais suave ou mais alegre num objeto de impacto emocional muito baixo. Uma chávena. Um caderno. Um fundo de ecrã. Mantêm-se as cores-refúgio, mas abre-se uma pequena janela para outra coisa - apenas o suficiente para o cérebro testar uma nova associação: cor diferente, segurança intacta.

Outro gesto simples é observar onde se concentram as tuas cores-refúgio. Se o teu corpo está sempre vestido de azul escuro, mas o teu ambiente digital está cheio de tons variados, não estás a proteger a mesma coisa. O corpo é a imagem social direta. O ecrã é um espaço mais íntimo. Os psicólogos por vezes convidam os pacientes a deslocar uma cor-refúgio para um objeto menos visível e a libertar uma zona mais exposta com um tom um pouco mais pessoal: uma camisola azul mais clara, um bege ligeiramente rosado, um vermelho mais suave. O objetivo não é ser “estiloso”, mas aliviar um grau de controlo.

Os erros mais frequentes surgem quando se interpreta estas descobertas como um veredito. Não: gostar de azul-marinho não significa automaticamente que a tua confiança está quebrada. O que levanta questões é a rigidez: a ausência de jogo, de nuance, de tentativa. Os terapeutas veem muitas vezes pacientes que se julgam duramente assim que se apanham a encaixar no “perfil” descrito por um estudo. Aí, de novo, as cores servem para se castigarem, em vez de abrirem uma conversa honesta consigo próprios.

“A cor não é um diagnóstico, é uma linguagem. A pergunta não é ‘o que é que isto diz sobre mim?’, mas ‘o que é que estou a tentar dizer a mim próprio ao escolher isto todos os dias?’”, explica uma psicóloga especializada em neurociências visuais.

  • Observar sem julgar: identifica o teu trio de cores dominante ao longo de uma semana.
  • Mudar apenas uma coisa: um acessório, um fundo de ecrã, um objeto do quotidiano.
  • Registar o que sentes: sentes-te mais exposto ou apenas diferente?
  • Manter os teus refúgios: as tuas cores protetoras também têm uma função tranquilizadora.
  • Introduzir uma “cor íntima”: um tom de que gostas, mesmo que ainda não te atrevas a mostrá-lo em todo o lado.

E se as tuas cores soubessem um pouco mais sobre ti do que tu pensas?

O trabalho destas equipas de psicologia não procura encaixar as pessoas em caixas cromáticas. Apenas torna visível algo que o nosso corpo já sabe fazer: falar através da matéria, dos objetos, das texturas, das tonalidades. Onde as palavras dizem “está tudo bem”, as cores do quotidiano às vezes sussurram outra coisa. Uma necessidade de controlo, um medo do olhar dos outros, um cansaço de ser julgado. O bege-cinzento que invade uma sala, o azul escuro que coloniza um guarda-roupa, o vermelho profundo que se repete como um mantra não têm todos a mesma história, mas muitas vezes vêm do mesmo lugar: a tensão entre quem somos e quem achamos que devemos parecer.

Começar a olhar para este código não obriga a mudar tudo. Abre sobretudo espaço para perguntar: o que foi que, na minha vida, fez nascer esta necessidade de proteção furtiva? Em que momento escolhi ser “seguro”, em vez de vivo, nas minhas cores? Algumas pessoas, ao trabalharem a confiança, acabam por manter o azul ou o vermelho, mas mudam o contexto, o corte, o tecido. O símbolo transforma-se: deixa de ser um escudo e passa a ser uma assinatura assumida. Outras descobrem, com surpresa, que também gostam de verdes suaves, laranjas acolhedores, brancos quebrados - e que o mundo não desaba quando os vestem no escritório.

As cores que vestires amanhã de manhã não vão curar, por si só, anos de dúvida. Mas podem servir como um campo de treino concreto para algo muito mais profundo: testar, em segurança, a ideia de que podes ser um pouco mais tu sem perder o amor dos outros. Uma cor diferente num objeto minúsculo é um “sim” tímido a essa possibilidade. E, às vezes, esse tipo de “sim” discreto vale mais do que um grande discurso sobre autoconfiança.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Trio de cores-refúgio Bege-cinzento, azul muito escuro e vermelho profundo surgem frequentemente em pessoas com autoestima frágil Permite identificar as próprias zonas de proteção silenciosa
Papel de escudo Estes tons servem para se diluir, impor seriedade ou exibir uma força de fachada Ajuda a compreender o que se procura controlar inconscientemente
Micro-experiências Introduzir gradualmente outras cores em pequenos objetos, sem pressão Oferece uma forma concreta e suave de trabalhar a confiança no dia a dia

FAQ:

  • O facto de gostar de azul escuro significa necessariamente que tenho pouca confiança em mim? Não. Os psicólogos falam sobretudo de padrões rígidos: quando quase tudo, o tempo todo, gira em torno do mesmo tom, isso torna-se um indício a explorar - não uma prova.
  • Visto-me quase sempre de bege e cinzento; devo preocupar-me? Não vale a pena entrar em pânico. Podes apenas perguntar-te se essas cores ainda te representam de facto ou se te servem sobretudo para “não levantar ondas”. A verdadeira pergunta é: o que é que evitarias ao acrescentar uma cor mais pessoal?
  • O vermelho profundo pode ser um sinal de confiança, em vez de fragilidade? Sim, depende do contexto. Para alguns, é uma alegria real de afirmação. Para outros, é uma armadura para mascarar a dúvida. O que muda tudo é o que sentes por dentro quando o usas.
  • Como testar novas cores sem me sentir disfarçado? Começa por zonas de baixo risco: meias, cadernos, capa de almofada, fundo de ecrã. Deixa o teu olhar habituar-se em casa antes de levar essas cores para situações mais expostas.
  • Os estudos sobre cores são mesmo científicos ou sobretudo simbólicos? Há investigação séria sobre o impacto das cores no humor e na perceção social. Mas a psicologia mantém-se prudente: falamos de tendências, não de leis absolutas. As tuas memórias, a tua cultura e a tua história pessoal têm um peso enorme.

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