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Especialistas alertam que o creme Nivea pode prejudicar a pele, mas a marca nega.

Mulher segurando creme facial e telemóvel numa casa de banho com espelho e produtos de cuidado pessoal.

Nivea Crème. A casa de banho da tua mãe. As mãos da tua avó. O produto que nunca parecia mudar, enquanto tudo o resto no mundo da beleza mudava. E, no entanto, ultimamente, essa mesma latinha está no centro de uma história muito diferente: dermatologistas a alertar no TikTok, listas longas de ingredientes esmiuçadas no Reddit, checklists de “o que evitar” a circular no Instagram.

De um lado, especialistas em pele a afirmar que este creme icónico pode estar a obstruir poros, a desregular a barreira cutânea e até a irritar rostos sensíveis. Do outro, a marca Nivea a repetir calmamente que a fórmula é segura, testada, aprovada. Dois mundos que muitas vezes não conversam entre si. E, de pé no corredor da farmácia, creme na mão, surge a dúvida: será que andámos todos estes anos a esfregar um mito reconfortante na pele?

Porque é que os especialistas desconfiam de repente da lata azul

Pergunta a um grupo de dermatologistas, fora de registo, o que acham do creme Nivea, e a reação raramente é neutra. Uns reviram os olhos, outros suspiram, e alguns mostram fotografias no telemóvel: bochechas cobertas de pequenas borbulhinhas, queixos cheios de comedões fechados, placas vermelhas nas pálpebras onde o creme foi “apenas usado como um hidratante suave”.

Durante anos, a textura espessa e cerosa foi vista como o escudo de inverno por excelência, o creme “para tudo”, do cotovelo à pálpebra. Hoje, é precisamente essa promessa de tamanho único que muitos especialistas contestam. Porque a pele, lembram-nos, não é genérica. E uma fórmula nascida em 1911 nem sempre envelhece bem num rosto de 2025, já a lutar com poluição, ativos e stress.

No TikTok e no Instagram, alguns dermatologistas começaram a chamar ao creme Nivea “oclusivo à antiga” ou “festa de poros numa lata”. Exagero? Talvez. Mas por trás das piadas há preocupações reais com óleos minerais, perfume e a frequência com que o aplicamos como se fosse uma cura milagrosa.

Pensa na Lisa, 29 anos, que partilhou a sua história num fórum britânico de cuidados de pele neste outono. Trocou para o clássico creme Nivea depois de se cansar de marcas caras de “clean beauty” que não faziam nada. Na primeira semana, a pele pareceu mais macia, mais “preenchida”. Na segunda semana, as bochechas começaram a comichar à noite. Na quarta semana, a linha do maxilar estava salpicada de pequenas elevações que não via desde o secundário.

O médico de família disse-lhe que era “apenas hormonal”. A dermatologista, quando finalmente a viu, fez uma pergunta: “Mudou de hidratante?” Quando a Lisa mencionou a Nivea, ele acenou e explicou que fórmulas densas e oclusivas podem reter suor, sebo e bactérias, especialmente em pele naturalmente oleosa ou mista. Não é uma catástrofe, mas uma acumulação lenta e teimosa. A Nivea, contactada pelo mesmo fórum para comentar, repetiu que o seu creme é clinicamente testado e seguro para o uso a que se destina.

Histórias como a da Lisa não são casos isolados. Um pequeno inquérito alemão a consumidores, divulgado nas redes sociais, mostrou que entre utilizadores frequentes de cremes oclusivos espessos, 1 em 4 relatou mais borbulhas ou irritação ao longo de seis meses. Não é um ensaio científico revisto por pares, mas é um retrato do que muitos já sentiam: o que conforta a pele de uma pessoa pode, discretamente, sufocar a de outra.

Então, o que há dentro daquela adorada lata azul que deixa os especialistas inquietos? Começa pela base: paraffinum liquidum (óleo mineral) e petrolato, ambos altamente oclusivos. Estes ingredientes não são tóxicos no sentido cosmético, e os reguladores na Europa e nos EUA autorizaram a sua utilização. Ficam à superfície da pele como um impermeável, reduzindo a perda de água transepidérmica. Ótimo se a tua barreira cutânea está fragilizada e a pedir proteção. Menos ótimo se a tua pele já é oleosa, tem tendência acneica, ou vives numa cidade húmida e raramente fazes uma limpeza adequada à noite.

Dermatologistas defendem que este “efeito impermeável” pode criar um microclima onde suor, células mortas e sebo ficam presos. Com o tempo, os poros parecem maiores, a textura fica mais áspera e os comedões fechados podem multiplicar-se. Junta-lhe perfume - um irritante comum em peles reativas ou com tendência para rosácea - e tens um cocktail longe de ser neutro.

A empresa-mãe da Nivea, a Beiersdorf, rejeita firmemente a ideia de que o creme seja prejudicial. Os seus porta-vozes destacam avaliações de segurança rigorosas, utilização ao longo de gerações e conformidade com toda a regulamentação europeia. Insistem que os óleos minerais usados são altamente purificados e que “não há evidência de que a Nivea Crème danifique pele saudável quando utilizada conforme indicado”. O choque está aí: entre os limites oficiais de segurança e as reações confusas e do dia a dia de rostos reais e únicos.

Como proteger a tua pele se ainda gostas (ou usas) Nivea

Se tens uma lata azul na casa de banho neste momento, não precisas de a deitar fora em pânico. Pensa nela como uma ferramenta que precisa do trabalho certo. O primeiro ajuste que os especialistas sugerem é simples: deixa de a aplicar como creme diário no rosto inteiro, sobretudo de manhã e à noite. Trata-a mais como um bálsamo direcionado.

Usa uma quantidade do tamanho de uma ervilha apenas em zonas muito secas: cantos do nariz no inverno, nós dos dedos gretados, zonas ásperas nas canelas. Aquece o produto entre os dedos até amolecer e depois pressiona suavemente em vez de arrastar sobre a pele. Também podes aplicá-lo em camada como “topcoat oclusivo” à noite por cima de um sérum hidratante, mas apenas em zonas sem tendência acneica, como a parte externa das bochechas. Aqui, menos é mais gentil.

O segundo passo-chave é dar à pele uma pausa real da oclusão constante. Muitos dermatologistas recomendam duas semanas sem produtos pesados à base de petrolato no rosto. Nesse período, muda para um hidratante mais leve, sem perfume, com ingredientes como glicerina, ácido hialurónico ou esqualano. Não é glamoroso, mas o aborrecido muitas vezes é sinónimo de pele calma.

Na prática, presta atenção aos teus hábitos de limpeza. Se usas creme Nivea à noite, a limpeza da manhã passa a importar mais. Um gel/creme de limpeza suave e com pouca espuma pode ajudar a remover a película oleosa e a evitar acumulação de produto. Sejamos honestos: quase ninguém faz isto todos os dias depois de um dia longo. É exatamente assim que as camadas oclusivas se vão acumulando em silêncio. Gestos pequenos e consistentes vencem máscaras milagrosas uma vez por mês.

Num plano mais emocional, há o apego. Aquele cheiro da lata azul muitas vezes pertence às nossas mães, às casas de banho da infância, ao nosso primeiro hidratante “de adulto”. Largar isso não é apenas uma decisão racional de skincare - é um luto pequeno. Num comboio cheio, ainda apanhas um aroma nas mãos de alguém e viajas no tempo imediatamente.

Uma dermatologista francesa com quem falei admitiu que ainda guarda uma lata no consultório, “pelo cheiro e pelas memórias”, mas nunca a recomenda como creme diário para o rosto. O principal apelo dela é não confiar cegamente no marketing ou na nostalgia acima do que a tua pele está a tentar dizer.

“O creme Nivea não é veneno. Só não é o milagre universal que muitas pessoas acreditam”, disse ela. “Se a tua pele fica vermelha, com relevo ou brilhante depois de o usares todos os dias, essa é a tua resposta. O teu rosto não quer saber que a tua avó adorava a lata.”

Para ajudar a filtrar o ruído, aqui fica uma checklist mental rápida quando abres a tampa azul:

  • A minha pele é naturalmente seca, ou mais mista/oleosa?
  • Já uso ativos como retinol, vitamina C ou ácidos?
  • Estou a aplicar de manhã, à noite, ou em ambos?
  • Limpo bem a pele antes de cada aplicação?
  • Notei mudanças subtis: mais borbulhinhas, mais brilho, mais vermelhidão?

Todos já tivemos aquele momento em que um produto querido de repente parece… estranho. A base já não assenta bem, as bochechas picam um pouco, ou a testa começa a brilhar ao meio-dia. A tua rotina não mudou drasticamente, mas a tua pele anda a sussurrar há semanas. Ouvir esse sussurro mais cedo, em vez de esperar por uma crise de borbulhas, é muitas vezes a diferença silenciosa entre “este creme funciona comigo” e “porque é que ninguém me avisou?”

A questão mais profunda: em quem confiamos com o nosso rosto?

Por trás do debate sobre a Nivea há uma história maior: o fosso crescente entre o que as marcas dizem, o que os reguladores aprovam e o que as comunidades online observam em tempo real. Um creme pode ser legalmente seguro, amplamente adorado e, ainda assim, problemático para uma fatia significativa de utilizadores. As três afirmações podem coexistir.

As marcas falam a linguagem da conformidade e da tradição. Os dermatologistas falam a linguagem de padrões clínicos: o mesmo tipo de irritação repetida vezes sem conta. Online, as pessoas falam a linguagem de selfies e colagens de “antes/depois”. Nenhuma destas lentes é perfeita. Juntas, aproximam-se mais da realidade.

Há também uma divisão geracional. Utilizadores mais velhos veem qualquer crítica à Nivea como um ataque ao bom senso e à simplicidade. Fãs de skincare mais jovens, criados com listas de ingredientes e ativos, veem a lata azul como uma relíquia que sobreviveu sobretudo graças à nostalgia e ao preço. Algures no meio está um grupo apenas a tentar perceber porque é que o seu “clássico suave” parece estar a virar-se contra eles.

Em vez de perguntar “O creme Nivea é bom ou mau?”, uma pergunta mais útil pode ser: “Para que pele, em que contexto, com que frequência?” É menos apelativo num outdoor, mas muito mais próximo de como a pele realmente se comporta. Um rosto seco e queimado pelo vento numa viagem de ski não precisa da mesma fórmula que uma zona T oleosa sob a poluição de verão numa cidade.

A marca, por seu lado, continua a negar que o creme Nivea possa estar a “prejudicar” utilizadores, insistindo que reações isoladas não refletem a segurança global do produto. Legalmente, não estão errados. Mas culturalmente, o chão está a mudar. As pessoas já esperam mais do que “seguro o suficiente”. Querem produtos que funcionem com a sua pele específica - e não apenas contra a secura em abstrato.

Talvez seja aí que esta controvérsia realmente morde: obriga-nos a admitir que a era dos cremes universais está a desaparecer. O skincare hoje é de nicho, personalizado, algorítmico. A lata azul, teimosamente inalterada, parece de repente um símbolo de um mundo em que questionar um clássico de família quase soava a falta de respeito. Questioná-lo agora não faz da tua avó alguém “errada”. Só significa que a tua pele, o teu ambiente e as tuas expectativas são diferentes.

Da próxima vez que abrires a tampa metálica, podes parar meio segundo. Não por medo, mas por curiosidade. Como é que a minha pele se sente hoje? Repuxada? Oleosa? Inflamada? Confortável? Ainda podes decidir mergulhar o dedo e desfrutar desse cheiro familiar nas mãos, nos cotovelos, naquela zona seca do tornozelo. Ou podes, discretamente, mover a lata da prateleira da casa de banho para o fundo de uma gaveta - guardando a memória e mudando a rotina.

De qualquer forma, a verdadeira mudança é esta: o poder está a afastar-se dos logótipos e a aproximar-se da experiência vivida. O teu rosto, com todas as suas pequenas reações e humores, tem o voto final. E essa é uma história que vai muito para além de uma lata azul.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
O creme Nivea não é neutro Textura muito oclusiva, com perfume, podendo favorecer irritações e comedões em certos tipos de pele Perceber porque é que um “creme de culto” pode causar problemas no teu rosto
Uso direcionado em vez de diário Melhor utilizá-lo em zonas muito secas ou como camada pontual, em vez de creme de rosto manhã e noite Limitar o risco de poros obstruídos e reações, e ainda assim acabar o produto
Ouvir os sinais da pele Vermelhidão, brilho e pequenas elevações são indicadores a levar a sério, mesmo que a marca negue problemas Aprender a ajustar a rotina com base no que sentes, e não apenas no marketing

FAQ:

  • O creme Nivea é perigoso? Legal e toxicologicamente, é considerado seguro, mas a fórmula pesada e perfumada pode desencadear irritação ou borbulhas em muitas pessoas, sobretudo no rosto.
  • Posso usar o creme Nivea no rosto todos os dias? Podes, mas muitos dermatologistas desaconselham o uso como creme diário aplicado no rosto inteiro, especialmente em pele oleosa, com tendência acneica ou sensível.
  • Quais são os principais problemas que os especialistas apontam à Nivea? A elevada oclusividade do óleo mineral e do petrolato, mais o perfume, pode reter sebo e irritar pele reativa, levando a relevo/borbulhinhas, brilho e vermelhidão.
  • É melhor reservar a Nivea apenas para o corpo? Para a maioria das pessoas, sim: tende a funcionar melhor em zonas corporais muito secas como mãos, pés, cotovelos e canelas do que no rosto.
  • O que devo escolher em alternativa para o rosto? Procura um hidratante mais leve e sem perfume, com ingredientes como glicerina, ácido hialurónico ou esqualano, adaptado ao teu tipo de pele - em vez de uma abordagem “um creme para tudo”.

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