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Faço isto todos os domingos e a casa de banho fica limpa a semana inteira, mas os meus convidados dizem que sou obcecado.

Pessoa a limpar um lavatório com spray desinfetante e pano branco, com toalhas e saboneteira ao lado.

Ela entrou na minha casa de banho, farejou o ar vagamente cítrico, viu as toalhas de mãos ainda dobradas e o vidro do duche sem uma única marca, e virou-se para mim com aquele olhar meio a brincar, meio a sério. Para ela, era um hotel. Para mim, era… normal.

O que ela não viu foi o caos que aquela casa de banho costumava ser de segunda a sábado à noite. As constelações de pasta de dentes no espelho. Os tufos de cabelo em forma de moitas no canto. As misteriosas manchas húmidas que ninguém admite ter feito. Por isso criei uma regra para mim: todos os domingos, sem negociação, faço um “reset” completo à casa de banho, do chão ao tecto.

Agora o meu espaço mantém-se limpo a semana toda. Os meus convidados dividem-se entre a admiração e um olhar de lado simpático. E a verdade está algures entre a higiene e o controlo.

O ritual “obsessivo” de domingo que mantém a semana calma

Todos os domingos, por volta das 17h, algo automático se activa. Ponho um podcast, abro a janela, e a casa de banho transforma-se no meu pequeno campo de batalha. Não espero que a sujidade grite por mim; vou atrás dela antes de ela chegar. Há um conforto estranho nisso.

Enquanto os amigos estão a afundar-se no doomscrolling de domingo, eu estou a passar a esfregona nos azulejos e a esfregar o lavatório como se ele me tivesse ofendido pessoalmente. Já não demora assim tanto - talvez 30, 40 minutos - mas não é negociável. É como lavar os dentes: não se debate, faz-se. O resto da semana, mal penso em limpezas.

Para quem vê de fora, a rotina parece exagerada. Para mim, é simplesmente o “imposto” que pago uma vez por semana para que as minhas manhãs de segunda-feira não cheirem a toalhas húmidas e champô velho.

Num domingo, dois amigos chegaram mais cedo para um brunch e apanharam-me em pleno ritual. Eu estava com luvas de borracha, cabelo apanhado, o telemóvel encostado ao cesto da roupa a passar um episódio de true crime. Eles ficaram à porta, a ver-me lavar o forro da cortina do duche como se eu estivesse a realizar uma cerimónia ancestral.

  • Fazes isto todas as semanas? - perguntou um deles, com as sobrancelhas a fazerem aquela acrobacia julgadora. Encolhi os ombros e continuei. Quando lhes disse que também limpo os interruptores e o manípulo do autoclismo, riram-se como se eu tivesse confessado que polia as lâmpadas. Uma hora depois, estavam a tirar selfies no meu espelho, a brincar que a casa de banho estava “limpa demais para se usar”.

Uma semana depois, essa mesma amiga mandou-me uma foto da casa de banho dela. Digamos apenas que o lavatório já tinha visto coisas. Escreveu: “Ok, agora percebo. Vou experimentar a tua cena de domingo.” A linha entre “obsessivo” e “na verdade, inteligente” acabara de se deslocar um bocadinho.

Há uma razão para este hábito funcionar, e não é porque eu adoro esfregar juntas. Uma casa de banho é um espaço de muito uso, muita humidade e muitos germes. Quando se deixa andar, a sujidade não fica ali quietinha; acumula-se. E a sujidade acumulada exige o triplo do esforço, o triplo dos produtos, o triplo da frustração.

Ao fazer uma sessão focada todos os domingos, não ando a correr atrás de desastres. Estou a evitá-los. O vidro não fica baço, o calcário não se agarra como se fosse pela vida, e o bolor não tem hipótese de se instalar nos cantos. Esse “reset” semanal quebra o ciclo antes de se transformar num castigo que ocupa um fim de semana inteiro.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Temos trabalho, filhos, comboios atrasados, almoços esquecidos. Um ritual semanal é realista. Transforma a limpeza de um controlo de danos em modo de emergência numa marcação fixa com o teu “eu” do futuro - aquele que não quer começar a quinta-feira a olhar para um ralo de duche viscoso.

A rotina exacta de domingo na casa de banho (e porque não é tão louca como parece)

Eis o que faço mesmo aos domingos, passo a passo, sem fingir que sou protagonista de um anúncio de limpeza. Começo por tirar tudo das superfícies visíveis: escovas de dentes, skincare, lâminas, a colónia de elásticos de cabelo que se reproduz misteriosamente. Superfícies vazias permitem ganhar velocidade.

Depois borrifo. Tudo de uma vez. Paredes do duche, banheira, lavatório, torneiras, sanita, até o exterior da sanita. Deixo o produto actuar enquanto mudo para “tarefas secas”: sacudir o tapete, pôr as toalhas para lavar, levar o lixo. Deixar o detergente trabalhar alguns minutos faz com que eu esfregue muito menos.

Acabo sempre “de cima para baixo”: espelho e prateleiras primeiro, depois lavatório e torneiras, depois duche, depois sanita e, por fim, o chão. A gravidade existe; não faz sentido lavar o chão e depois andar a salpicar água suja para todo o lado. O que parece complicado é apenas a mesma dança repetida. Quando as mãos sabem os passos, o cérebro pode divagar.

As pessoas dizem-me muitas vezes que “não têm tempo” para isto. Percebo - ao domingo toda a gente está cansada. Mas quando cronometramos, os números contam outra história. Na maioria das semanas, esta limpeza mais profunda fica abaixo dos 45 minutos. Compara isso com as 2–3 horas que gastarias uma vez por mês a lutar com crostas de espuma de sabão e uma sanita com ar de experiência científica.

Outra armadilha: esperar pela motivação. Spoiler - a motivação raramente aparece. O que funciona melhor é prender o ritual da casa de banho a algo fixo. Para mim, é o fim de arrumar as compras. Para ti, pode ser depois do café de domingo ou antes da chamada semanal à tua mãe. O ritual “apanha boleia” de algo que já vai acontecer.

Numa semana má, sim, salto partes. Talvez esfregue bem a sanita e o lavatório e apenas passe um pano rápido no duche. Disciplina não significa perfeição; significa aparecer de alguma forma. É assim que o hábito sobrevive às semanas caóticas, às ressacas, aos comboios atrasados, às febres dos miúdos.

“Uma casa de banho limpa não tem a ver com ser maniático da arrumação”, disse-me uma psicóloga numa entrevista. “Para muita gente, tem a ver com reclamar uma pequena área de controlo numa vida que parece barulhenta e imprevisível.”

Quando os convidados chamam ao teu ritual “obsessivo”, raramente vêem a camada emocional por trás. Talvez tenhas crescido numa casa onde a limpeza era gritada, não partilhada. Talvez a casa de banho suja da última casa partilhada ainda te persiga. Talvez isto tenha menos a ver com azulejos brilhantes e mais com não acordar para o caos visual sempre que vais à casa de banho às 3 da manhã.

  • Faz um único “reset” semanal, não mini-pânicos intermináveis.
  • Deixa os produtos actuar antes de esfregar; poupa energia.
  • Limpa sempre de cima para baixo e depois da frente para trás.
  • Aceita semanas “suficientemente boas” em vez de perseguires a perfeição.
  • Usa música, um podcast ou uma chamada para transformar isto num ritual, não num castigo.

É mesmo obsessivo, ou apenas um tipo diferente de autocuidado?

À superfície, esta é uma história sobre um ritual de limpeza ao domingo. Por baixo, é sobre como cada um de nós traça a linha entre o “normal” e o “demais”. As mesmas pessoas que treinam para maratonas às 6 da manhã podem levantar uma sobrancelha a um “reset” semanal da casa de banho - e, no entanto, ambos são rotinas construídas para proteger uma certa qualidade de vida.

Numa segunda-feira tranquila, quando entro numa casa de banho que ainda parece e cheira a domingo, não é só o brilho que me atinge. É o silêncio na minha cabeça. Não há uma vozinha a sussurrar: “Tens mesmo de limpar isto.” Não há aquela vergonha de baixa intensidade sempre que um convidado pede para usar a sanita. Apenas um espaço neutro, funcional, a fazer o seu trabalho.

Toda a gente conhece aquele momento em que alguém abre casualmente a porta da tua casa de banho numa festa e sentes o estômago a afundar. Um ritual simples pode apagar esse medo. Não porque devas a alguém uma casa de banho de exposição, mas porque mereces não te sentires exposto pelo teu próprio lavatório. Talvez esse seja o verdadeiro ponto aqui.

Quando os convidados lhe chamam obsessivo, às vezes sorrio e deixo-os. Sei que por trás da palavra “obsessivo” há muitas vezes uma mistura de curiosidade, culpa e um bocadinho de inveja. Limpar nunca vai ser glamoroso, e não deve dominar a tua vida. Mas durante 30–45 minutos ao domingo, pode mudar silenciosamente a tua semana de uma forma que nenhuma vela perfumada alguma vez conseguirá.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Uma única sessão semanal Limpeza completa ao domingo, 30–45 minutos Reduz a carga mental diária e evita as “grandes limpezas” mensais
Ordem estratégica Borrifar tudo, deixar actuar, de cima para baixo e depois o chão Poupa tempo, menos esforço físico, resultados mais visíveis rapidamente
Ritual, não obsessão Tornar o gesto rotineiro, ancorá-lo num momento fixo Transforma uma tarefa num automatismo gerível, melhora o conforto em casa

FAQ:

  • É mesmo necessário limpar a casa de banho todos os domingos? Não para toda a gente, mas um “reset” semanal é o ponto ideal para a maioria das casas: os germes ficam sob controlo, a sujidade não ganha tempo para se acumular e evitas aquelas maratonas temidas de limpeza profunda.
  • Quanto tempo deve demorar uma boa limpeza de domingo na casa de banho? Se fizeres isto todas as semanas, normalmente 30–45 minutos. Quanto mais consistente fores, mais rápido fica, porque estás a manter - não a “salvar” a situação.
  • E se eu falhar uma semana - o hábito fica arruinado? Não. Retomas no domingo seguinte e recomeças. Os hábitos constroem-se ao longo de meses; não se perdem em sete dias. O essencial é voltar, não ser perfeito.
  • Uma casa de banho impecável significa que tenho TOC? Não automaticamente. A perturbação obsessivo-compulsiva (TOC) é uma condição de saúde mental séria, com pensamentos intrusivos e compulsões. Gostar de uma casa de banho limpa ou ter uma rotina não é, por si só, um diagnóstico.
  • Como é que faço para o ritual parecer menos uma tarefa? Junta-o a algo de que gostes: um podcast, o teu álbum favorito, uma chamada com um amigo. Usa produtos cujo cheiro te agrade e pára no “suficientemente bom” em vez de perseguires uma capa de revista.

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