Saltar para o conteúdo

Ficar agressivo quando tem fome é um mecanismo de sobrevivência ligado a baixos níveis de glucose no cérebro.

Mulher segura frasco em cozinha, rodeada por bananas, copo de sumo e caderno. Ela parece preocupada com a saúde.

A reunião arrasta-se e as bolachas já desapareceram há muito. Alguém sugere “só mais um ponto” e sentes a mandíbula a apertar sem razão aparente. A colega que normalmente parece inofensiva soa, de repente, insuportavelmente convencida. Dás por ti a responder mais bruscamente do que querias e, mal as palavras te saem da boca, pensas: “Uau, de onde é que isto veio?”

No caminho para casa, finalmente com uma sandes na mão, o mundo volta a amolecer. O trânsito continua horrível, a tua caixa de entrada continua cheia, mas, de alguma forma, tudo parece menos um ataque pessoal. A única coisa que mudou foi a comida.

Há uma palavra para esta transformação silenciosa: hangry.

Porque é que o teu cérebro fica eriçado quando o estômago está vazio

Os neurocientistas dir-te-ão que o teu cérebro é ganancioso. Funciona com um fluxo constante de glicose, usando cerca de 20% da energia do teu corpo mesmo quando estás descaído no sofá a fazer scroll. Quando esse abastecimento baixa, o cérebro não fica apenas cansado. Sente-se ameaçado.

Imagina o cérebro como um chefe exigente num escritório envidraçado. No momento em que a máquina de café avaria, disparam alarmes. Essa tensão que sentes quando não comes há horas é o teu sistema interno de alarme a tentar proteger-te, não um defeito aleatório de personalidade. O teu “mau humor” é, na verdade, biologia antiga a arrombar a porta.

Imagina um humano primitivo na savana, com nada além de um estômago vazio e um pau. Se a fome apenas o deixasse sonolento e doce, teria morrido de fome em silêncio. Em vez disso, a baixa glicose colocava o corpo num estado mais aguçado e defensivo. Um cérebro com fome significava: encontra comida depressa, compete se for preciso, luta se for necessário.

Esse guião antigo continua a correr quando rosnas com o teu parceiro por causa de onde encomendar o jantar. As apostas são obviamente menores do que perseguir antílopes, mas o teu sistema nervoso ainda não recebeu a nota. Esse pico de irritação, essa vontade de responder torto, é um mecanismo de sobrevivência a ser ativado numa cozinha moderna em vez de numa paisagem selvagem.

A nível químico, a baixa glicose é como puxar a ficha ao teu sistema de travagem emocional. Regiões do cérebro que ajudam a regular impulsos e a manter perspetiva, como o córtex pré-frontal, começam a perder energia primeiro. Ao mesmo tempo, os teus detetores de ameaça, sobretudo a amígdala, mantêm-se irrequietos e ruidosos.

Assim, ficas com um efeito duplo: menos controlo, mais reatividade. Hormonas de stress como o cortisol e a adrenalina juntam-se à festa, empurrando-te para reações rápidas e defensivas. Não estás a “exagerar sem motivo”. Estás a reagir com um cérebro em modo de emergência, programado para proteger a tua sobrevivência muito antes de se preocupar com o tom que usaste num group chat.

Como impedir que a fome se transforme em hostilidade acidental

A ferramenta de prevenção mais simples soa quase infantil: não te deixes chegar à zona vermelha. Isso significa planear pequenas fontes de energia constantes, em vez de períodos heroicos de nada seguidos de uma refeição gigantesca. Um punhado de frutos secos na mala, um iogurte na secretária, uma banana no carro. Pequenas pontes entre refeições para o teu cérebro não entrar em queda livre.

Pensa no teu humor como a bateria do telemóvel. Não esperas chegar a 1% e entrar em pânico, carregando do zero de cada vez. Ligas um pouco mais cedo. O açúcar no sangue funciona da mesma forma. Reabastecimentos suaves e regulares tornam as tuas reações mais brandas, os teus pensamentos mais claros, a tua paciência menos frágil.

Muitas pessoas esperam pelo “momento certo” para comer: almoço às 13h em ponto, jantar às 20h, nada fora desses rituais. É assim que acabas a pedir desculpa por palavras que não querias realmente dizer. Ouvir os primeiros sinais de fome parece simples demais, quase como batota. Um leve aperto no estômago, uma quebra de foco, aquela sensação vaga de inquietação em reuniões longas - esses são os teus convites.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar. Andamos a correr, saltamos refeições, adiamos. O truque não é a perfeição, é a consciência. Quando reparares que estás mais agressivo, pergunta-te se a tua última refeição a sério é mais antiga do que o teu último e-mail por ler. Muitas vezes, a resposta explica mais do que imaginas.

“Houve uma fase em que todas as discussões ao fim da tarde com o meu parceiro começavam por volta das 19h”, admite a Laura, 34. “Achávamos que tínhamos problemas de relação. Afinal, era só baixa glicemia e mau timing. Agora comemos qualquer coisa às 18h e, de repente, os nossos ‘problemas’ ficam mais fáceis de falar.”

  • Leva contigo um lanche consistente: um pequeno pacote de frutos secos, sementes ou palitos de queijo é melhor do que sobreviver apenas a café.
  • Junta hidratos de carbono com proteína: fruta com manteiga de amendoim, bolachas de água e sal com húmus - não apenas picos de açúcar.
  • Marca um reabastecimento “inegociável”: uma pausa de 10 minutos a meio da manhã e a meio da tarde, como qualquer outra reunião.
  • Usa uma palavra-código em casa: “Estou na zona da fome” significa “dá-me cinco minutos e comida antes de entrarmos em assuntos sérios”.
  • Bebe água: a desidratação pode exagerar os sinais de stress do cérebro, tornando o hangry mais intenso.

Viver com o teu homem das cavernas interior sem o deixar mandar no dia

Assim que percebes o padrão, é difícil não o ver. A discussão com o teu irmão que começou mesmo antes do almoço. O e-mail sarcástico que enviaste às 16h45 depois de teres saltado o lanche da tarde. O parceiro que parece sempre mais frio tarde da noite com o estômago vazio. De repente, a baixa glicose aparece como uma personagem discreta em todas estas cenas.

Compreender que a tua irritabilidade é um mecanismo de sobrevivência não desculpa comportamentos que magoam. Dá-te uma nova alavanca. Podes pedir uma pausa, comer qualquer coisa e retomar a conversa com um cérebro que está, de facto, a receber combustível. E também podes ser mais brando com os outros quando respondem torto, claramente a funcionar “a vapores”.

Há algo estranhamente reconfortante em perceber que o teu “lado mau” não é uma maldição misteriosa, mas uma reação previsível. Não estás estragado; estás programado. O teu cérebro está ferozmente comprometido em manter-te vivo, e às vezes isso parece uma língua afiada e ombros tensos.

Da próxima vez que sentires aquela subida familiar de irritação a crescer mais depressa do que a situação merece, faz uma pequena experiência. Come algo com um pouco de proteína e hidratos de carbono complexos, bebe um copo de água e dá-lhe quinze minutos. Deixa a glicose subir, deixa o teu sistema de travagem voltar a funcionar. Depois volta a olhar para a pessoa à tua frente, ou para o e-mail no teu ecrã, e vê o que mudou.

O instinto de sobrevivência que ajudou os teus antepassados a lutar por comida pode aprender um papel mais calmo na tua vida diária. Pode ser aquele empurrão discreto que diz: “Pára. Alimenta-me. Depois decide.” E essa pequena mudança, quase invisível, pode ser o que salva a tua próxima conversa, a tua próxima noite, ou até a tua noção de quem és quando já não estás a morrer de fome.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A baixa glicose desencadeia irritabilidade O cérebro perde capacidade de regulação enquanto os sistemas de stress e ameaça se mantêm ativos Ajuda a explicar reações hangry sem autoculpabilização
O hanger é um mecanismo de sobrevivência Programação antiga empurrava os humanos a competir e agir de forma agressiva quando tinham fome Transforma vergonha em compreensão e gestão prática
Pequenos reabastecimentos regulares ajudam Lanches equilibrados e conversas planeadas longe da fome intensa Formas concretas de proteger relações e manter um humor mais estável

FAQ:

  • Porque é que me sinto zangado em vez de apenas com fome? O teu cérebro interpreta a baixa glicose como uma ameaça à sobrevivência. Reduz o controlo dos impulsos e aumenta as respostas ao stress, o que se sente mais como raiva do que como simples apetite.
  • Ser “hangry” é uma coisa científica real? Sim. Estudos mostram que descidas do açúcar no sangue afetam áreas do cérebro ligadas ao autocontrolo e à regulação emocional, tornando as pessoas mais irritáveis e agressivas.
  • Isto significa que tenho um problema de açúcar no sangue? Não necessariamente. O hanger de curto prazo é comum. Se te sentes frequentemente trémulo, suado ou mal quando tens fome, fala com um médico para excluir problemas como hipoglicemia ou diabetes.
  • O que devo comer para evitar ficar hangry? Opta por lanches que combinem hidratos de carbono com proteína e alguma gordura saudável, como fruta e frutos secos, iogurte com aveia, ou húmus com bolachas integrais, em vez de apenas doces ou bolos.
  • Consigo “treinar-me” para não ficar hangry? Não podes reescrever a tua programação de sobrevivência, mas podes antecipá-la: come com regularidade, repara nos primeiros sinais de fome e adia conversas sensíveis para depois de comeres.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário