Em clínicas de todo o mundo, um comprimido familiar para a diabetes está, discretamente, a atrair uma nova atenção por parte de investigadores do envelhecimento e médicos de longevidade.
O medicamento, a metformina, tem estado em armários de medicamentos há gerações como tratamento básico da diabetes tipo 2. Agora, indícios preliminares sugerem que, para algumas mulheres mais velhas, este fármaco de longa data poderá fazer mais do que estabilizar a glicemia. Poderá, de forma modesta, inclinar as probabilidades de chegar a uma idade muito avançada.
Um comprimido para a diabetes associado à sobrevivência para lá dos 90
O sinal mais recente vem da Women’s Health Initiative, uma grande coorte norte-americana que acompanhou a saúde de centenas de milhares de mulheres pós-menopáusicas durante mais de três décadas. Investigadores dos EUA e da Alemanha analisaram estes registos, focando-se em mulheres com mais de 60 anos que tinham acabado de receber um diagnóstico de diabetes tipo 2.
Compararam dois grupos. Um iniciou tratamento com metformina, a terapêutica padrão de primeira linha. O outro começou com sulfonilureias, uma classe mais antiga de fármacos redutores de glicose. Ao longo de mais de 15 anos de seguimento, surgiu um padrão que surpreendeu até especialistas experientes em diabetes.
As mulheres a tomar metformina apresentaram um risco aproximadamente 30% menor de morrer antes dos 90 anos do que as mulheres tratadas com sulfonilureias.
O trabalho, publicado no The Journal of Gerontology em maio de 2025, não resultou de um ensaio clínico randomizado. Em vez disso, a equipa usou um desenho conhecido como “emulação de ensaio-alvo” (target trial emulation). Este método tenta imitar a estrutura de um ensaio com dados observacionais: critérios de elegibilidade claros, grupos de tratamento definidos e ajustamentos cuidadosos para fatores de confundimento.
Esta abordagem é importante. Ensaios randomizados raramente duram 15 anos, especialmente em populações idosas. Aqui, o horizonte prolongado permitiu aos investigadores analisar a sobrevivência até idades muito avançadas - algo que os ensaios habituais de fármacos raramente captam.
Quem poderá beneficiar mais?
O estudo centrou-se em mulheres que desenvolveram diabetes tipo 2 tardiamente, após os 60 anos, e que não tinham complicações graves no início. Trata-se de pessoas que podem viver muitos mais anos com boa gestão, pelo que diferenças nos resultados a longo prazo se tornam mais fáceis de observar.
Os investigadores ajustaram vários fatores: idade, índice de massa corporal, estado tabágico, pressão arterial, níveis de colesterol e algumas condições pré-existentes. Mesmo após este refinamento estatístico, a vantagem de sobrevivência para utilizadoras de metformina manteve-se.
Isto não significa que todas as mulheres com diabetes obtenham o mesmo benefício. Os dados indicam que, em média, neste grupo específico de mulheres mais velhas, a metformina esteve associada a uma menor probabilidade de morrer antes dos 90 anos quando comparada com uma terapêutica alternativa específica.
Como a metformina poderá influenciar a biologia do envelhecimento
A metformina sempre foi mais do que um simples comprimido para reduzir o açúcar no sangue. Biólogos observam-na com curiosidade há anos porque parece atuar em vias centrais que controlam o stress celular e o uso de energia.
Estudos laboratoriais associam a metformina à redução do stress oxidativo, diminuição da inflamação crónica, melhor proteção do ADN e ativação de genes ligados à longevidade, como o FOXO3.
Em modelos animais, especialmente em ratinhos, a metformina prolongou a esperança média de vida quando administrada cedo e em doses adequadas. Algumas experiências mostram atraso na formação de tumores e melhor função cognitiva em animais envelhecidos expostos ao fármaco.
Estas descobertas levaram alguns especialistas em gerociência a descrever a metformina como um composto “geroprotetor”: não um elixir mágico da juventude, mas uma substância que pode reduzir o risco de várias doenças relacionadas com a idade ao mesmo tempo. Os investigadores têm analisado o seu potencial papel em:
- Reduzir a incidência de alguns cancros em pessoas com diabetes
- Diminuir eventos cardiovasculares como enfartes e AVC
- Possivelmente abrandar o declínio cognitivo e a demência em alguns grupos
- Melhorar marcadores de inflamação crónica de baixo grau
Estas associações provêm sobretudo de estudos observacionais e de trabalho mecanístico, não de grandes ensaios definitivos. Ainda assim, no seu conjunto, constroem uma narrativa biológica que torna mais plausíveis os novos dados de sobrevivência em mulheres idosas.
O ensaio TAME e a ambição de testar o envelhecimento diretamente
Para passar de indícios a evidência, gerontólogos desenharam o ensaio TAME - Targeting Aging with Metformin. A ideia é ambiciosa: em vez de se focar numa única doença, o TAME pretende testar se a metformina pode atrasar o início de um conjunto de condições relacionadas com a idade, incluindo cancro, doença cardiovascular e declínio cognitivo, em pessoas que ainda não estão doentes.
Se for concluído como planeado, o TAME poderá mudar a forma como os reguladores encaram o envelhecimento. Atualmente, nenhum fármaco tem indicação para “tratar o envelhecimento”. Os ensaios são estruturados em torno de doenças específicas. O financiamento do TAME avançou mais lentamente do que os seus defensores esperavam, refletindo hesitação financeira e regulatória.
A questão central não é se a metformina apaga rugas ou cabelos brancos, mas se consegue atrasar ligeiramente a chegada de várias doenças graves ao mesmo tempo.
Porque isto não prova que a metformina é um fármaco de longevidade
A análise da Women’s Health Initiative continua a ser um estudo observacional, mesmo com o seu desenho sofisticado. Isso significa que mede associações, não causa e efeito diretos.
Várias fontes de viés permanecem em pano de fundo. Os médicos poderão prescrever metformina a mulheres que aparentam estar globalmente mais saudáveis, reservando sulfonilureias para casos mais complexos. Alguns dados relevantes podem estar em falta ou mal medidos, como a gravidade da diabetes no diagnóstico, a adesão à dieta ou a atividade física. Tudo isto pode influenciar a sobrevivência independentemente do fármaco.
Outra limitação: não existiu um grupo de controlo sem tratamento. Todas as mulheres da análise tomaram um medicamento redutor de glicose. Assim, as conclusões respondem a uma pergunta estreita: as mulheres a tomar metformina, neste conjunto de dados, tiveram melhores resultados do que mulheres semelhantes a tomar sulfonilureias? O estudo não diz se a metformina prolonga a vida face a não tomar qualquer medicação, nem face a classes mais recentes como agonistas do recetor GLP‑1 ou inibidores de SGLT2.
A população estudada também importa. Todas as participantes eram mulheres pós-menopáusicas, na sua maioria nos EUA. Os resultados não se aplicam automaticamente a homens, a adultos mais jovens com diabetes de início precoce, nem a pessoas de outros contextos étnicos e socioeconómicos.
Questões éticas em torno do uso “off-label”
A possibilidade de um genérico barato influenciar o envelhecimento já alimentou interesse entre pessoas saudáveis de meia-idade. Algumas clínicas de longevidade prescrevem metformina a clientes sem diabetes, citando dados iniciais e investigação em animais.
Usar um medicamento sujeito a receita em pessoas saudáveis, apenas por possíveis efeitos de atraso do envelhecimento, levanta questões desconfortáveis para a medicina e para os reguladores.
A metformina tem um longo historial de segurança em pessoas com diabetes tipo 2, mas esse contexto importa. Em diabéticos, os benefícios potenciais superam claramente os riscos. Numa pessoa saudável de 45 anos com glicemia normal, o cálculo muda. Efeitos adversos como desconforto gastrointestinal e défice de vitamina B12, normalmente aceitáveis como compromisso, podem deixar de parecer triviais quando os benefícios permanecem por provar.
Há também a dimensão social. Se a prescrição para longevidade se generalizar entre doentes mais ricos em clínicas privadas, os sistemas de saúde poderão enfrentar pressão para financiar abordagens semelhantes sem evidência sólida, ampliando desigualdades com base em quem pode pagar tratamentos experimentais de longo prazo.
Metformina comparada com outros fármacos para a diabetes
Para pessoas com diabetes tipo 2, o debate é concreto e prático. Deverá a metformina manter-se como o fármaco de primeira linha por defeito em idosos, dados os indícios de melhor sobrevivência a longo prazo face a terapêuticas mais antigas como as sulfonilureias?
| Classe de fármaco | Utilização principal | Principais preocupações | Perspetiva de longevidade |
|---|---|---|---|
| Metformina | Primeira linha na diabetes tipo 2 | Perturbações digestivas, acidose láctica rara, défice de B12 | Sinais de menor mortalidade e menor risco multi-doença em alguns grupos |
| Sulfonilureias | Redução da glicose quando a metformina não é adequada | Hipoglicemia, aumento de peso | Neste estudo, maior risco de morte antes dos 90 vs metformina |
| Agonistas do GLP‑1 | Tratamento da diabetes e obesidade | Custo, náuseas, possíveis problemas da vesícula biliar | Forte perda de peso, benefícios cardiovasculares, faltam dados de envelhecimento a longo prazo |
| Inibidores de SGLT2 | Diabetes, insuficiência cardíaca, doença renal | Infeções genitais, desidratação | Proteção robusta cardíaca e renal; impacto no envelhecimento em estudo |
As recomendações clínicas já favorecem a metformina como fármaco inicial na maioria dos casos, sobretudo pelo equilíbrio entre eficácia, segurança e baixo custo. As novas observações sobre sobrevivência para lá dos 90 anos poderão reforçar essa posição, pelo menos quando não existir contraindicação.
O que isto significa hoje para mulheres com diabetes tipo 2
Para uma mulher idosa recentemente diagnosticada com diabetes tipo 2, estes resultados não exigem ações radicais. Apoiam, sim, uma conversa com o seu médico caso não esteja já a tomar metformina e não tenha motivo clínico para a evitar, como doença renal grave ou história de acidose láctica.
O ponto mais amplo vai além de qualquer fármaco isolado. A saúde metabólica está fortemente ligada à forma como envelhecemos. O controlo da glicemia junta-se à pressão arterial, colesterol, peso corporal, sono e atividade física como alavancas que alteram as probabilidades de viver bem até à nona e décima décadas de vida.
Medicamentos como a metformina podem orientar a biologia na direção certa, mas os hábitos do dia a dia continuam a determinar a maior parte da curva de risco.
Olhando em frente: do “anti-envelhecimento” ao controlo do risco
A linguagem da medicina “anti-envelhecimento” promete frequentemente muito mais do que a ciência atual consegue oferecer. Uma abordagem mais realista vê fármacos como a metformina como ferramentas para reduzir dano acumulado e atrasar doença, e não como bilhetes para uma longevidade extrema.
A investigação futura deverá focar-se em combinações: metformina mais mudanças de estilo de vida, ou metformina integrada com fármacos mais recentes, para perceber como diferentes estratégias interagem ao longo de décadas. Os investigadores poderão também procurar perfis genéticos ou biomarcadores que identifiquem quem responde melhor, tornando o tratamento mais personalizado e menos baseado em tentativa-e-erro.
Por agora, a história da metformina está num cruzamento intrigante: um genérico familiar, um corpo crescente de biologia do envelhecimento e perguntas difíceis sobre até onde deve ir a medicina ao remodelar a duração e a forma das vidas humanas. As mulheres deste estudo podem oferecer uma pista, mas ainda não dão uma resposta final.
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