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Idosa diz que lares são um inferno e o seu dia a dia comprova isso.

Idosa sentada à mesa, segurando medicação e ao lado de uma bandeja de comida e documentos, num quarto de hospital.

Ela inclina-se para a frente na poltrona rígida, o casaco de malha azul a escorregar de um ombro, e fixa os olhos nos meus. «Não se deixe enganar pelas flores no átrio», diz ela, com a voz áspera de idade e raiva. «Os lares são um inferno vivo.»
No corredor atrás dela, uma televisão berra um concurso para ninguém em particular. Um homem de chinelos arrasta os pés, empurrando o andarilho como se puxasse uma mala por um aeroporto que nunca escolheu visitar. O ar cheira levemente a desinfetante e a legumes demasiado cozidos.

O nome dela é Margaret. Tem 86 anos, é afiada como um alfinete - e está furiosa.

A vida quotidiana aqui, insiste ela, é uma pena de prisão em câmara lenta com sorrisos educados.

E, quando se começa a ouvir as histórias dela, é muito difícil desviar o olhar.

«Isto não é cuidado, é sobrevivência com horários»

A Margaret acorda todos os dias às 6h15, não porque queira, mas porque é quando começam as «rondas da manhã». Um desconhecido abre-lhe a porta, puxa as cortinas e fala alto, como se ela tivesse problemas de audição. Não tem.

O pequeno-almoço chega num tabuleiro de plástico: a mesma papa, a mesma torrada branca, pousados numa mesa um pouco longe demais da cama. «Se eu não comer depressa, levam-no embora», encolhe os ombros. «Por isso aprendi a ter fome no relógio deles.»

Os dias dela são cortados em blocos: medicação, refeições, casa de banho, «atividades». Tudo cronometrado. Nada escolhido.

Uma vez, a Margaret tentou recusar a sessão de bingo em grupo. Queria ficar no quarto e acabar um livro. «Disseram-me que eu estava a ser difícil», recorda, com os lábios a apertarem-se. Um membro da equipa acabou por estacionar a cadeira de rodas dela na sala de convívio «para que não ficasse sozinha».

Ela riu-se quando me contou isso. Não foi uma gargalhada feliz.

No Reino Unido e nos EUA, inquéritos mostram um padrão semelhante: pessoas idosas em lares a relatarem níveis elevados de tédio, solidão e perda de autonomia, mesmo em locais que cumprem todos os requisitos oficiais. No papel, é «vida segura e supervisionada». Na realidade, muitos residentes falam mais de esperar do que de viver. Esperar pelas refeições. Esperar pelos comprimidos. Esperar que alguém se lembre de que eles ainda existem.

O que a Margaret descreve não é abuso espetacular. É algo mais silencioso e mais difícil de nomear. Pequenas indignidades que se acumulam até pesarem mais do que o corpo que as carrega.

A camisola preferida enfiada na lavagem industrial e encolhida. A porta aberta sem bater. Ser tratada por «querida» em vez de pelo nome. Funcionários a lerem as notas do plano de cuidados à frente dela, como se ela não estivesse ali sentada.

Nenhuma destas coisas, por si só, dá uma manchete. Mas, juntas, criam esse «inferno vivo» de que ela fala: uma vida em que nunca se está totalmente no comando do próprio corpo, do próprio tempo, da própria história.

O perigo não é só a negligência. É o apagamento.

Como resistir à crueldade silenciosa da rotina

Quando lhe pergunto como aguenta, a Margaret não fala em gratidão nem em pensamento positivo. Fala em táticas. «Tem de esculpir o seu próprio dia», diz ela.

Esconde pequenos snacks numa gaveta, para poder comer quando realmente sente fome. Mantém um caderno barato junto à cama, onde aponta a que horas chegam os comprimidos, que enfermeira veio, o que foi dito. «Lembra-me que ainda estou atenta», explica.

O maior ato de rebeldia dela é enganadoramente simples: faz questão de ter uma decisão por dia que seja totalmente sua. O que vestir, quando tomar banho, se quer participar numa atividade ou não. «Se discutirem, eu repito: é a minha vida, não é um horário.»

Para as famílias, a parte mais difícil é perceber o quanto deste «inferno» é invisível nos dias de visita. As flores estão frescas, os pisos limpos, os funcionários sorriem. O seu familiar diz que está «bem» porque não quer ser um peso.

Por isso, é preciso ouvir nas entrelinhas. Falam mais de coisas que «têm de» fazer do que do que «querem» fazer? Referem muitas vezes a espera? Parecem de alguma forma mais pequenos, como se o mundo deles tivesse encolhido ao tamanho do quarto e do corredor?

Sejamos honestos: ninguém faz isto de forma consistente todos os dias. A vida é atarefada, as visitas são apressadas, e muitos filhos adultos carregam a culpa como um casaco extra. Ainda assim, algumas perguntas bem colocadas podem revelar muito mais do que uma visita guiada perfeitamente encenada.

A Margaret tem uma mensagem para essas famílias - e não adoça as palavras.

«Não perguntem só se estamos bem. Perguntem o que odiamos. Perguntem do que temos saudades. Vocês são os únicos que podem fazer barulho por nós quando nós não conseguimos.»

Eis como pode ser «fazer barulho» na vida real:

  • Faça perguntas específicas à equipa: horários das refeições, verificações noturnas, como são oferecidas as escolhas.
  • Visite sem avisar, a horas diferentes - não apenas aos domingos à tarde.
  • Fale em privado com outros residentes; muitas vezes surgem padrões.
  • Registe preocupações num diário simples com datas, nomes e detalhes.
  • Escale a questão com educação, mas com firmeza, se as rotinas se sobrepõem à dignidade básica.

Por vezes, a mais pequena resistência - uma pergunta, um pedido, uma nota escrita - pode mudar a forma como um residente é tratado no dia a dia.

O que o «inferno vivo» dela diz sobre o resto de nós

A Margaret insiste que a história dela não é única. «Eu sou só a que ainda fala alto o suficiente para reclamar», brinca. A brincadeira cai mal.

O quotidiano dela expõe algo que a maioria das sociedades prefere não olhar de frente: o que acontece, de facto, quando terceirizamos o envelhecimento para instituições.
Numa folha de cálculo, um lar é uma resposta arrumada para um problema desarrumado. Na vida real, é um lugar onde o trabalho lento de cuidar colide com orçamentos, rotatividade de pessoal e burocracia sem fim.

O resultado, demasiadas vezes, é segurança sem alma. Mantêm-se as pessoas vivas - mas permite-se que vivam?

Todos já tivemos aquele momento em que passamos por um lar e dizemos para nós próprios, em silêncio: «Espero nunca acabar ali.» E seguimos com o nosso dia.

A realidade diária da Margaret transforma esse medo vago em algo preciso: ser lavada por alguém com pressa, ser tratada na terceira pessoa, ouvir «hoje estamos com falta de pessoal» como se isso explicasse tudo.

As palavras dela colocam em cima da mesa uma pergunta mais dura: que padrão aceitamos para os nossos idosos que nunca toleraríamos para nós próprios? Se um trabalhador de escritório de 40 anos fosse acordado, vestido e alimentado àquelas horas, com tão pouca voz, chamaríamos a isso controlo. Para uma pessoa de 86 anos, é «cuidado». Esse duplo critério devia inquietar-nos.

E, no entanto, escondida na raiva dela, há também uma espécie de esperança teimosa. A Margaret ainda decora o parapeito da janela. Ainda reclama. Ainda repara em qual enfermeira pára para ouvir e qual não pára.

Ela prova que, mesmo num sistema que pode parecer uma máquina, a centelha humana não se apaga em silêncio.

O inferno dela não é apenas sobre sofrimento. É sobre estar lúcida o suficiente para ver o que podia ser melhor - e ter de lutar por cada mudança minúscula. Essa luta não devia ficar aos ombros de uma mulher de 86 anos com um casaco de malha azul. Pertence a todos nós.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A «vida» num lar é muitas vezes uma sucessão de rotinas impostas Horários fixos, decisões tomadas pelos residentes, escolhas limitadas Permite detetar se um familiar está a sofrer uma perda de autonomia disfarçada de organização
Os sinais de mal-estar são muitas vezes discretos Discurso centrado na espera, tédio, sensação de ser «um peso» Ajuda a fazer as perguntas certas para lá do «está tudo bem?»
As famílias têm mais poder do que pensam Perguntas direcionadas, visitas em horários variados, registos, reclamações fundamentadas Oferece alavancas concretas para melhorar o quotidiano de um familiar numa instituição

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Como posso perceber se o meu familiar se sente preso no lar?
    Esteja atento a palavras repetidas como «tenho de», «obrigam-nos», «não nos deixam». Repare se fala mais de rotinas do que de relações, interesses ou projetos pessoais.
  • O que devo perguntar à equipa durante as visitas?
    Pergunte quem decide os horários diários, como os residentes escolhem refeições e atividades, quantos cuidadores estão de serviço à noite e como lidam com reclamações dos residentes.
  • Todos os lares são um «inferno vivo» como a Margaret descreve?
    Não. Alguns são lugares genuinamente calorosos e respeitadores. Ainda assim, a história dela espelha problemas comuns: perda de autonomia, cuidados apressados e negligência emocional escondida por corredores limpos.
  • O que posso fazer se a pessoa de quem gosto tem medo de reclamar?
    Ofereça-se para ser a voz dela. Mantenha um registo escrito dos problemas, aborde-os com calma com a direção e, se necessário, contacte um provedor/mediador (ombudsman) ou um grupo de defesa na sua área.
  • Existem alternativas realistas aos lares tradicionais?
    Dependendo do seu país, as opções podem incluir cuidadores ao domicílio, habitação partilhada, pequenas casas em modelo «familiar» ou convivência intergeracional. Nenhuma é perfeita, mas podem distribuir os cuidados por várias pessoas em vez de colocar tudo numa instituição.

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