Um som agudo e gutural, rasgado pelo vento atlântico antes que alguém conseguisse perceber as palavras. O skipper desligou o motor por instinto. O barco estremeceu e ficou a derivar numa rotação lenta e inquieta. Debaixo da superfície, uma sombra preta e branca cortou a água, virou, e voltou em linha recta.
O impacto no leme foi como bater numa rocha submersa. Excepto que a rocha voltou a atacar. E voltou outra vez. Quatro, cinco, seis golpes - cada um mais deliberado, mais certeiro. Alguém atrapalhou-se com um telemóvel, tentando filmar com as mãos a tremer. Ninguém falou. Ouvia-se o zumbido dos estais do mastro com as vibrações.
Só quando as orcas se afastaram, tão calmamente como tinham surgido, é que a tripulação reparou na inclinação nauseante do barco. O leme tinha desaparecido. De repente, o mar pareceu muito vasto - e muito partilhado.
Porque é que as orcas estão, de repente, a abalroar barcos no Atlântico
Biólogos marinhos por toda a Europa estão em sobressalto. Ao largo de Espanha, Portugal, França e até das Ilhas Britânicas, grupos de orcas têm estado a atacar sempre o mesmo ponto fraco dos veleiros: o leme. Não se limitam a roçar o casco. Estão a abalroar, morder, sacudir e, depois, a desaparecer no azul profundo como comandos disciplinados.
Não se trata de sustos isolados sussurrados em marinas. Desde 2020, investigadores registaram centenas de «interacções com orcas» com embarcações no Atlântico Nordeste. Algumas terminaram com lemes destruídos, outras com barcos a meter água, e algumas com perda total da embarcação. Ainda sem mortes humanas. Mas os vídeos partilhados em fóruns de vela têm sempre o mesmo ambiente: pânico, seguido de um silêncio impotente.
O que verdadeiramente arrepia os cientistas é o padrão. Os ataques parecem aprendidos, repetidos, e até copiados de grupo para grupo. Muitos apontam para uma fêmea adulta, alcunhada White Gladis, que se acredita ter iniciado este comportamento após um encontro traumático com um barco. A partir daí, outras parecem tê-lo adoptado, como um novo jogo sombrio. As orcas são altamente sociais, com cultura, memória e imitação integradas na sua sobrevivência. Quando uma espécie assim começa a mudar a forma como lida connosco, toda a gente presta atenção.
Incidentes reais que levaram investigadores a repensar o comportamento das orcas
Numa tarde limpa de Maio de 2023, um veleiro de 15 metros chamado Champagne avançava a bom ritmo perto do Estreito de Gibraltar. O mar estava calmo. A tripulação tinha acabado de jantar. Então veio o embate: um golpe profundo e arrepiador na popa, que fez voar a loiça. Em minutos, perceberam que tinham perdido o controlo da direcção. O leme estava a ser mastigado por baixo deles.
O capitão descreveu mais tarde ter olhado para a água e visto três orcas a trabalhar em conjunto como uma unidade táctica. Uma abalroava, outra torcia o leme, a terceira circulava. Não havia frenesi. Havia método. O barco afundou pouco depois, já com a tripulação evacuada por uma embarcação próxima. Para os investigadores que analisaram o caso, o detalhe mais perturbador não foi o afundamento em si. Foi o foco. A precisão.
No final de 2024, cenas semelhantes tinham ocorrido ao longo de um amplo corredor atlântico que vai de Marrocos à Galiza, com relatos esporádicos até perto do Canal da Mancha. Muitos ataques duram menos de 15 minutos e visam apenas o sistema de governo. Algumas orcas foram filmadas a transportar pedaços de leme como troféus. Marinheiros contam histórias de grupos a seguir os barcos, como se os “estudassem”. Quando os cientistas mapearam os incidentes, viram concentrações junto de rotas de navegação movimentadas, zonas de pesca e pontos de estrangulamento onde os humanos comprimiram o habitat das orcas em corredores estreitos de ruído e tráfego. O mar começou a parecer menor para todos os envolvidos.
O que poderá estar a passar-se na mente de uma orca
Os investigadores não concordam numa explicação única. Alguns acham que tudo começou com uma orca que sobreviveu a uma colisão ou a um emaranhamento e desenvolveu uma resposta agressiva a barcos. Outros vêem nisto uma tendência social, uma moda a espalhar-se numa comunidade coesa, tal como certos grupos têm truques de caça próprios ou “dialectos” vocais. As orcas são conhecidas por comportamentos culturais: um grupo pode caçar focas em praias, outro especializa-se em peixe, outro em tubarões.
Há ainda o factor inteligência. As orcas resolvem problemas, reconhecem rostos, ensinam as crias. Quando um animal assim começa a experimentar um novo comportamento à volta de humanos, raramente fica isolado. Uma orca jovem vê uma mais velha atacar um leme, observa o caos que se segue e aprende. Seja a motivação curiosidade, frustração, brincadeira, ou algo para o qual ainda nem temos palavra, a repetição não é um acaso.
Por baixo dos vídeos virais e das manchetes sensacionalistas, esconde-se outra pergunta: o que fizemos nós para desencadear isto? Poluição sonora, presas em declínio, choques com navios, ferimentos por artes de pesca - tudo isto molda a forma como as orcas sentem a nossa presença. Gostamos de as romantizar como “baleias assassinas” amigáveis, mas são predadores de topo a negociar uma casa cada vez mais pequena e mais ruidosa. Quando essa negociação passa da evasão para o confronto, o equilíbrio de poder no mar parece muito diferente.
Como é que marinheiros e tripulações estão a tentar reagir no mar
Por agora, os marinheiros desenvolveram uma espécie de manual oficioso, passado de cais em cais entre cafés e em discussões online frenéticas. Abrandar o barco. Desligar o motor. Não gritar nem atirar coisas. Evitar a popa se as orcas estiverem lá. Muitos skippers arriam as velas e deixam o barco à deriva, esperando que a falta de resistência torne o “jogo” menos divertido. O objectivo é simples: tornar tudo aborrecido.
Algumas tripulações tentaram aparelhos e truques improvisados. Dispositivos acústicos “pinger” destinados a afastar golfinhos. Barras de metal batidas no casco. Até música alta debaixo de água. A maior parte não parece funcionar por muito tempo. As orcas adaptam-se rapidamente ou simplesmente ignoram o ruído. Alguns navegadores já transportam sistemas de governo de emergência e âncoras de deriva (drogues) prontas a largar para estabilizar o barco após perder o leme principal, tratando encontros com orcas quase como se tratam borrascas: imprevisíveis, perigosos, parte do risco da travessia.
Ao nível humano, o medo é real, mesmo que nem sempre o admitam. Numa vigia nocturna, sozinho no cockpit, cada chapinhar súbito parece carregado de significado. Um velejador da Bretanha disse a investigadores que agora planeia as viagens em família para evitar pontos críticos conhecidos, mesmo que isso acrescente dias à rota. Na prática, é isso que muitos fazem: consultar mapas actualizados de interacções, escolher rotas costeiras em vez de alto-mar, ou adiar passagens nas épocas de maior actividade. Sejamos honestos: ninguém vive obcecado com isto no dia a dia, mas quando se prepara uma grande travessia, estes mapas tornam-se uma obsessão.
O que os especialistas aconselham - e aquilo com que se preocupam em silêncio
As autoridades marítimas em Espanha e Portugal emitiram orientações detalhadas. A mensagem central: manter a calma, reduzir a velocidade e evitar provocar os animais. Se as orcas se aproximarem, recomenda-se que a tripulação pare o barco tanto quanto possível, coloque coletes salva-vidas, e se mantenha afastada da popa. Terminada a interacção, deve reportar a localização, o tamanho do grupo e os danos às redes científicas que acompanham o fenómeno.
Os investigadores contrapõem com cuidado ideias mais agressivas. Alguns marinheiros falam em usar dissuasores, petardos ou até armas. Os cientistas avisam que escalar a força pode reforçar associações negativas e alimentar respostas mais violentas. Pedem aos skippers que pensem a longo prazo: uma orca ferida ou traumatizada num grupo social coeso não desaparece simplesmente. A sua experiência pode espalhar-se como uma história que o grupo memoriza.
“Não estamos apenas a lidar com animais, estamos a lidar com culturas”, diz um especialista em cetáceos na Galiza. “Se um grupo específico associar barcos a trauma, essa história pode ser passada às crias e aos grupos vizinhos. É isso que me assusta.”
Há também o peso emocional em quem está no mar. Num fórum de velejadores que vivem a bordo, uma publicação tornou-se viral: um casal confessava que agora teme certas passagens, dividido entre o sonho da vida oceânica e um medo corrosivo daquelas formas pretas e brancas. Num plano mais amplo, especialistas destacam três prioridades discretas para quem vai entrar em zonas com orcas:
- Consultar mapas actualizados de interacções com orcas e avisos locais antes de partir.
- Preparar um plano simples de governo de emergência e praticá-lo pelo menos uma vez.
- Falar com franqueza com a tripulação sobre medo, papéis e o que fazer antes de acontecer alguma coisa.
O que estes ataques dizem sobre o nosso futuro com oceanos selvagens
Estes ataques de orcas tornaram-se uma espécie de espelho. De um lado, vemos um predador poderoso e inteligente a afirmar-se num espaço que gostamos de imaginar como parque de diversões ou rota comercial. Do outro, vemos a nossa própria fragilidade exposta: um leme partido, um mayday, um pequeno grupo de pessoas subitamente à mercê de forças com as quais não se pode negociar.
Para os cientistas, cada novo caso é, ao mesmo tempo, um ponto de dados e um clarão de aviso. Estaremos perante uma moda passageira que desaparecerá tão depressa como começou? Ou os primeiros sinais de uma mudança mais profunda na forma como as orcas respondem a um século de ruído de navios, stocks de peixe reduzidos e encontros perigosos com cascos e redes? Não há consenso - apenas uma sensação crescente de que algo nesta relação estalou.
Todos conhecemos aquele momento em que uma história sobre animais deixa de parecer “gira” e começa a soar pessoal. Talvez nunca tenha posto os pés num veleiro, mas já sentiu o sobressalto de perceber que a natureza selvagem não é um cenário: é uma presença com regras próprias. Estes encontros com orcas espalham-se rapidamente no TikTok e nos feeds noticiosos não só por serem dramáticos, mas porque tocam numa pergunta que raramente dizemos em voz alta: o que acontece quando o oceano começa a dizer “não”? Os próximos anos dirão se isto é uma fase - ou o início de uma nova e incómoda conversa com as criaturas que sempre reinaram nas profundezas.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Mudança de comportamento das orcas | Aumento de ataques dirigidos aos lemes no Atlântico Nordeste | Perceber porque estes incidentes fazem manchete e preocupam os investigadores |
| Impacto na navegação | Barcos danificados ou afundados, novas rotinas de segurança no mar | Compreender os riscos concretos para velejadores e navegadores |
| Questões ecológicas e éticas | Stress, traumatismos, cultura animal e respostas humanas | Reflectir sobre o nosso lugar nos oceanos e as nossas responsabilidades |
FAQ
- As orcas estão a tentar afundar barcos de propósito? Parecem estar a visar deliberadamente os lemes, o que pode incapacitar uma embarcação, mas não há provas claras de que compreendam a consequência total de um barco se afundar.
- Estes ataques de orcas já mataram alguém? Não foram confirmadas mortes humanas nestas interacções recentes no Atlântico, embora vários barcos tenham sido gravemente danificados ou perdidos.
- Porque é que as orcas se focam especificamente no leme? O leme move-se, faz ruído e controla a direcção do barco, pelo que provavelmente lhes parece um alvo vulnerável e estimulante para animais tão inteligentes.
- É seguro navegar em zonas onde as orcas estão activas? Muitos marinheiros continuam a cruzar estas águas, mas planeiam as rotas com cuidado, seguem as orientações locais e preparam-se para o risco pequeno, mas real, de uma interacção.
- Estes comportamentos podem espalhar-se a orcas noutros oceanos? É possível, dentro de culturas de orcas interligadas, mas por agora este padrão está sobretudo documentado numa população específica do Atlântico Nordeste.
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