Na deslocação de quinta-feira ao fim da tarde, os semáforos da circular ficam âmbar e depois vermelhos, como um metrónomo preguiçoso. Os carros avançam, param, arrastam-se, param. E em metade dos veículos surge o mesmo pequeno reflexo: a mão direita a rodar a chave ou o polegar a carregar no botão start/stop, com o pé esquerdo ainda a pressionar a embraiagem ou com o carro ainda engrenado.
Os motores tossem, tremem, voltam a pegar. Outra vez. E outra vez. Ninguém pensa muito nisso. É simplesmente assim que conduzimos agora.
Na oficina ali em baixo, os mecânicos observam este bailado à porta, de braços cruzados e lábios cerrados. Eles sabem que este hábito tem um preço.
Um preço silencioso, lento e caro.
O pequeno reflexo que os mecânicos detestam: ligar e desligar da forma errada
Nas oficinas, chamam-lhe de tudo: “arrancadores de embraiagem”, “bombadores de chave”, “rearranques engrenados”. O reflexo é simples: os condutores desligam o motor ainda com uma mudança engrenada ou com a embraiagem meio pressionada e depois voltam a ligar com tudo ainda “carregado”.
No papel, o carro aguenta. Na vida real, as peças queixam-se em silêncio. O motor de arranque luta contra a transmissão. A cambota leva um pequeno solavanco de cada vez. Os apoios do motor levam um micro-golpe.
Uma vez, não acontece nada. À milésima, o carro começa a sentir-se… cansado.
Numa terça-feira chuvosa, o Paulo, 38 anos, traz o seu utilitário a diesel. “Treme quando ligo, e há uma espécie de clack”, diz ele, com as chaves no balcão. Conduz sobretudo em cidade, muitas viagens curtas, e orgulha-se de desligar o motor em cada semáforo “para poupar combustível”.
O mecânico ouve e depois faz uma pergunta: “Quando roda a chave, está em ponto morto ou ainda a carregar na embraiagem?” O Paulo hesita. Nunca tinha pensado realmente nisso. Os dados confirmam esta história: condutores urbanos que param e voltam a arrancar constantemente podem acumular duas a três vezes mais ciclos de arranque do que condutores de autoestrada, na mesma quilometragem.
Isso significa duas a três vezes mais esforço em peças que nunca foram feitas para serem maltratadas assim.
O que acontece mecanicamente é bastante simples. Um motor gosta de arrancar sem carga: caixa em ponto morto, embraiagem totalmente libertada, rodas sem pedir binário. Quando volta a ligar com uma mudança engrenada ou com a embraiagem meio pressionada, o motor de arranque tem de vencer a resistência da transmissão e, por vezes, das rodas.
Cada arranque torna-se um pequeno braço-de-ferro em vez de um aperto de mão. O motor de arranque aquece um pouco mais. O volante do motor, as molas da embraiagem e o volante bi-massa nos dieséis modernos absorvem vibrações mais agressivas. Ao longo de dezenas de milhares de arranques, o material fatiga mais depressa.
O mesmo se aplica a quem “puxa” o carro para a frente com o motor de arranque em vez de usar o motor como deve ser. Cada atalho tem uma conta no fim.
Como proteger o motor com pequenas mudanças de hábito
O reflexo que poupa motores é o oposto do que muita gente faz no trânsito. Antes de desligar, deixe o carro repousar: travão de mão puxado, pé fora da embraiagem, alavanca em ponto morto. Só então desligue o motor. Deixe-o ficar completamente silencioso antes de mexer em mais alguma coisa.
Para voltar a ligar, o mesmo ritual, ao contrário: chave ou botão, ponto morto engrenado, embraiagem totalmente pressionada só no último segundo para engatar a primeira. Esta sequência limpa mantém o motor de arranque a trabalhar contra a menor resistência possível.
Demora mais dois segundos. Na estrada, isso parece nada. Na vida longa de um motor, é enorme.
Há também a moda de usar a chave/botão manual para “ajudar” ou contornar o start-stop automático em situações desconfortáveis. Muitos condutores carregam repetidamente no botão de arranque numa fila, meia embraiagem, meio travão, caixa ali entre mudanças. Num motor moderno cheio de sensores, isso cria pequenos choques que a electrónica não consegue suavizar.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias com o rigor de um manual de oficina. Esquecemo-nos, estamos atrasados, improvisamos. O objectivo não é tornar-se um robô. O objectivo é simplesmente reduzir o número de arranques brutais ou com carga. Mesmo cortar a pior metade deles já muda o destino do motor de arranque e do volante do motor.
Um mecânico veterano resumiu isto de uma forma que os clientes não esquecem:
“Ligue o motor como se acordasse uma criança a dormir. Com cuidado, sem puxar o cobertor.”
- Condutores urbanos beneficiam mais de arranques “limpos”, porque multiplicam os rearranques em engarrafamentos e manobras apertadas.
- Carros híbridos e com start-stop também precisam de hábitos respeitadores; o sistema ajuda, mas as peças não são indestrutíveis.
- Uma simples lista mental - ponto morto, travão de mão, depois ligar ou desligar - pode acrescentar anos a um carro que acha que já é “só uma ferramenta”.
Outros assassinos silenciosos do motor escondidos nas rotinas do dia-a-dia
Este reflexo de ligar/desligar é apenas uma peça do puzzle. Muitos condutores combinam-no, em silêncio, com outros pequenos hábitos que vão roendo o motor: viagens curtas em que o óleo nunca aquece verdadeiramente; rotações altas instantâneas assim que o motor pega; longas esperas com a direcção no batente, com a bomba da direcção assistida a gemer de dor.
Cada gesto parece inofensivo sozinho. Juntos, mudam a rapidez com que a borracha endurece, a velocidade a que o óleo se degrada, a frequência com que os injectores entopem. Um motor raramente morre por um único grande erro. Morre por mil pequenos erros repetidos que ninguém questionou.
A boa notícia é que a rotina “anti-desgaste” é simples e quase aborrecida. Dê ao motor 20–30 segundos de calma após um arranque a frio antes de exigir acelerações fortes. Evite a alternância obsessiva de start-stop em filas onde avança a cada dois ou três segundos. Deixe o turbo arrefecer por alguns instantes após uma condução exigente antes de desligar, em vez de cortar a ignição no posto de combustível com o capô ainda a irradiar calor.
Ao nível humano, isto também muda o seu estado ao volante. Começa a sentir que está a trabalhar com a máquina, não a lutar contra ela. Isso tende a ver-se nas facturas de reparação. E, por vezes, na sua própria pulsação.
Estes detalhes não fazem de si um “entendido de carros”. Apenas permitem que guarde o dinheiro para algo melhor do que um volante bi-massa novo. O reflexo que os mecânicos referem primeiro é cristalino: ligue e desligue sempre com o motor sem carga e a caixa em repouso. À volta disso, escolha uma ou duas pequenas melhorias que consiga manter. Não uma mudança de estilo de vida completa.
Alguns condutores só mudam depois de pagarem uma grande conta e sentirem o golpe. Outros ajustam mais cedo, quase por um respeito silencioso pela máquina que leva os seus filhos, o seu trabalho, os seus fins-de-semana. Seja como for, este desgaste lento e invisível está debaixo dos seus dedos sempre que toca na chave.
E, depois de o ver, é difícil deixar de o ver.
| Ponto-chave | Detalhes | Porque é importante para os leitores |
|---|---|---|
| Arranque sempre em ponto morto com a embraiagem totalmente libertada | Rode a chave ou carregue no botão de arranque apenas quando a caixa estiver em ponto morto e o pé fora da embraiagem; depois, com o motor já a trabalhar de forma estável, pressione a embraiagem para engatar a primeira. | Reduz o esforço no motor de arranque e no volante do motor, diminuindo o risco daquele temido “abanão forte” ao arrancar e prolongando a vida de peças que custam centenas a substituir. |
| Evite rearrancar constantemente em trânsito pára-arranca | Em trânsito denso onde avança a cada poucos segundos, deixe o motor a trabalhar em vez de o desligar e ligar em cada paragem curta, a menos que o start-stop automático o faça de forma suave. | Evita milhares de ciclos extra de arranque com carga por ano, especialmente para quem faz cidade, o que de outra forma acelera o desgaste da bateria, do motor de arranque e do sistema de embraiagem. |
| Deixe o motor estabilizar antes de o desligar | Antes de cortar a ignição, ponha a caixa em ponto morto, puxe o travão de mão, largue a embraiagem e deixe o motor ao ralenti por alguns segundos, sobretudo após auto-estrada ou subidas. | Dá ao óleo e ao líquido de refrigeração um breve momento para circular e arrefecer, protegendo turbos, reduzindo acumulação de calor e ajudando o motor a envelhecer de forma mais suave. |
FAQ
- Usar sistemas start-stop de fábrica também desgasta o motor mais depressa? Os sistemas start-stop modernos são concebidos com motores de arranque reforçados, volantes mais robustos e software específico para gerir arranques repetidos. São testados para muito mais ciclos do que um motor de arranque normal. Ainda assim, condução brusca - avançar engrenado, “meia embraiagem”, travagens súbitas - acrescenta vibração e esforço, por isso um uso calmo e previsível faz o sistema durar mais.
- Arrancar com uma mudança engrenada é assim tão mau se o carro não se mexer? Sim, porque mesmo que o carro não role, o motor de arranque tem de vencer a resistência da transmissão e, por vezes, das rodas numa ligeira inclinação. Com o tempo, esse esforço extra repetido encurta a vida do motor de arranque e pode rachar ou desapertar componentes em carros com muitos quilómetros.
- Como sei se os meus hábitos de arranque já danificaram alguma coisa? Sinais de alerta incluem um abanão forte ao ligar, ruídos metálicos tipo clack vindos da zona da caixa, vibrações nos pedais, ou um motor de arranque que soa cansado e lento. Se notar isto, uma visita a um mecânico de confiança para verificar motor de arranque, bateria e volante do motor evita surpresas mais tarde.
- Isto importa tanto num carro velho e “barato”? Sim, por vezes ainda mais. Carros mais antigos muitas vezes já têm apoios do motor gastos, embraiagens cansadas e motores de arranque mais fracos, por isso cada arranque com carga bate mais forte. E quando a conta de reparação de repente chega a metade do valor do carro, a questão deixa de ser teoria - é se o carro vai para a sucata.
- Qual é um hábito simples que posso adoptar já amanhã? Use um pequeno mantra sempre que estaciona: “Ponto morto, travão de mão, depois chave.” Ponha a alavanca em ponto morto, puxe o travão de mão, tire o pé da embraiagem, deixe o motor respirar por um par de segundos e depois desligue. É fácil de memorizar e muda silenciosamente a forma como o seu motor envelhece ao longo dos anos.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário