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Muitas pessoas fazem várias tarefas ao mesmo tempo e acabam por se atrasar sem perceber.

Pessoa a usar smartphone numa secretária com portátil, caderno, chávena e plantas ao fundo.

O ecrã do computador aberto em doze janelas, o telemóvel a vibrar, uma reunião por videochamada num canto, um email em rascunho no outro. Saltamos de uma coisa para a outra com a sensação estranha de estarmos ao mesmo tempo em todo o lado e em lado nenhum.

Numa terça-feira de manhã, num open space demasiado luminoso, uma mulher escreve uma mensagem no Slack, responde a um email urgente, acena com a cabeça numa reunião no Zoom e deita um olho ao telemóvel pousado ao lado do teclado. Pisca os olhos, respira fundo, bebe um gole de café frio e recomeça o mesmo bailado. Às 11h, tem a impressão de ter corrido uma maratona… sem ter realmente terminado coisa nenhuma.

Não é preguiça. É multitarefa. E é exatamente assim que muita gente se abranda sem dar por isso.

O falso superpoder da multitarefa

Nos escritórios, nos cafés de coworking, até ao volante num semáforo vermelho, vemos por todo o lado a mesma cena: pessoas a fazer malabarismo. Três conversas em paralelo, um olho nas notificações, outro numa folha de Excel, o ouvido num podcast de “produtividade”. Dá a impressão de um cérebro ultra-treinado, quase sobre-humano.

Na realidade, a maior parte das vezes, não estamos a fazer malabarismo. Estamos a deixar cair. Deixamos coisas cair sem nos apercebermos. O cérebro salta de uma tarefa para a outra como um interruptor a clicar sem parar. Contamos a nós próprios que estamos a ganhar tempo, quando, na verdade, estamos apenas a fragmentá-lo em pedacinhos inutilizáveis.

A ilusão é esta sensação de velocidade. A realidade é um travão de mão discreto puxado o tempo todo.

Olha para um estudante numa noite de exame. Revê um capítulo, espreita o TikTok, responde a uma mensagem, volta aos resumos, depois abre o Google para “só confirmar uma coisa”. Vinte minutos mais tarde, leu metade de uma página, mas também viu três vídeos de cães, respondeu a oito mensagens e esqueceu-se do que era suposto memorizar.

Os estudos confirmam aquilo que ele sente sem o conseguir formular. Investigadores da Universidade de Stanford mostraram que os grandes praticantes de multitarefa se concentram pior, memorizam menos e deixam-se distrair mais facilmente do que quem faz uma coisa de cada vez. Mesmo quando são testados em tarefas simples, o desempenho cai.

É como tentar fazer um puzzle em cima de uma mesa que abana a cada cinco segundos. As peças estão lá, a imagem é possível, mas passamos o tempo a apanhá-las do chão.

Do ponto de vista neurológico, a multitarefa quase não existe. O cérebro não executa duas tarefas cognitivas complexas em paralelo; alterna muito rapidamente. Este vaivém tem um custo: cada mudança de tarefa exige um recalibrar mental. Onde é que eu ia? O que é que estava a fazer? Porque é que este ficheiro está aberto? Este pequeno “tempo de reinício” repete-se a cada alternância e acaba por roer uma parte enorme do dia.

A isto chama-se switching cost (custo de alternância). Não se vê, mas sente-se: aquela fadiga estranha às 15h, quando, no entanto, não produziste grande coisa. E quanto mais diferentes forem as tarefas, maior é este custo. Passar de um documento criativo para um email administrativo, e depois para uma conversa no WhatsApp, é como mudar de língua a cada dois minutos.

A consequência é insidiosa. Acabamos o dia com a sensação de termos sido afogados pelo trabalho, quando, na verdade, fomos sobretudo afogados pelas interrupções.

A micro-monotarefa, o gesto discreto que muda tudo

Existe uma forma simples de retomar o controlo, quase simples demais para acreditarmos: a micro-monotarefa. A ideia não é tornar-se um monge zen desligado do mundo, mas criar bolhas de 10, 15, 25 minutos em que só existe uma coisa. Uma.

Escolher uma única ação clara: “Escrever a introdução do relatório”, “Responder aos emails de clientes”, “Rever a apresentação”. Pôr um temporizador. Fechar os outros separadores, virar o telemóvel ao contrário, desligar as notificações só durante esse período. Nesses minutos, tudo o resto pode esperar. Mesmo.

No fim do tempo, temos algo concreto à nossa frente. Um bloco de trabalho concluído. O cérebro adora isso.

Muita gente tenta “fazer multitarefa” com o telemóvel pousado na mesa, com o ecrã virado para cima. O simples facto de ver o ecrã acender já basta para dividir a concentração, mesmo que não se abra a notificação. É duro, mas está comprovado. Quando mantemos todas as portas abertas, deixamos de saber em que divisão é que vivemos.

Um gesto eficaz: programar janelas de notificações. Por exemplo, 10 minutos no início de cada hora para ver WhatsApp, Slack, emails, redes. No resto do tempo, tudo fica em silêncio. Não desligamos a vida social; apenas a colocamos em pontos específicos do dia.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias de forma perfeita. Às vezes cedemos, reabrimos o Instagram, vamos ver os alertas. Não faz mal. O objetivo não é a pureza; é o rácio. Um pouco mais de tempo concentrado, um pouco menos de dispersão. Isso já muda o ritmo do dia.

“A multitarefa é como tentar comer três refeições ao mesmo tempo: acabamos saciados, mas já não nos lembramos do que realmente saboreámos.”

Para tornar tudo isto concreto, pode ajudar um pequeno quadro visual. Não são necessárias ferramentas complicadas nem apps milagrosas. Um simples esquema mental, ou até um post-it na secretária, chega para recordar as regras do jogo:

  • 1 único objetivo claro para os próximos 20 minutos
  • Separadores fechados, exceto os que servem esse objetivo
  • Telemóvel fora de vista, não apenas em silêncio
  • Uma mini-pausa de 2 minutos entre blocos

Com o tempo, estes blocos tornam-se um ritmo de fundo. Uma espécie de respiração lenta no meio do ruído geral. É aí que a sensação de saturação começa a transformar-se numa fadiga mais saudável: a de ter realmente avançado.

E se parasses de ganhar tempo… para o recuperar?

Esta forma de fazer multitarefa, toda a gente a pratica um pouco, às vezes muito. Temos a impressão de estar a otimizar, de estar “por dentro”, de responder depressa, de não deixar nada pendente. Na realidade, fabricamos uma vida em mosaico, feita de pequenas migalhas de tempo espalhadas. Depois espantamo-nos por já não conseguirmos ler um livro, ver um filme sem um segundo ecrã, ou manter a atenção numa reunião por mais de dez minutos.

Mudar este modo de funcionamento não acontece num fim de semana. Não é uma app para instalar, nem uma nova rotina milagrosa. É uma série de micro-escolhas. A escolha de responder a essa mensagem mais tarde. A escolha de terminar este parágrafo antes de abrir um novo separador. A escolha de deixar o telemóvel noutra divisão durante 20 minutos. Escolhas minúsculas, mas repetidas, que reconfiguram o cérebro com suavidade.

A verdadeira pergunta talvez não seja: “Como ganhar tempo?”, mas “Como reencontrar um tempo que tenha forma, textura, continuidade?”. Fazer uma coisa de cada vez não é antiquado, nem lento. Às vezes, é a única maneira de levar realmente até ao fim aquilo que começamos. E de voltarmos a sentir-nos presentes no que fazemos, em vez de dispersos por dez janelas diferentes.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A multitarefa é um mito O cérebro alterna rapidamente entre tarefas, o que gera um custo de switching. Compreender melhor porque nos sentimos exaustos sem sermos realmente eficazes.
Bolhas de monotarefa Criar blocos de 10 a 25 minutos dedicados a uma única atividade. Avançar mais depressa no que importa, com menor fadiga mental.
Gerir notificações Agrupar estímulos (emails, mensagens, redes) em janelas dedicadas. Limitar interrupções invisíveis que fragmentam a concentração.

FAQ:

  • A multitarefa pode ser útil em alguns casos? Sim, para atividades verdadeiramente automáticas, como ouvir música enquanto se dobra a roupa. Assim que duas tarefas exigem pensar, o cérebro começa a perder eficácia.
  • Porque é que tenho a sensação de trabalhar melhor em multitarefa? Porque sentes a agitação, não o resultado real. O cérebro confunde muitas vezes “estar muito solicitado” com “ser produtivo”. Os números contam outra história.
  • Quanto tempo deve durar uma sessão de monotarefa? Podes começar com 10 ou 15 minutos. A ideia não é a performance, mas a regularidade. Quando te habituares, 25 minutos tornam-se surpreendentemente confortáveis.
  • É preciso desligar todas as notificações o tempo todo? Não. Podes decidir períodos de silêncio e períodos de resposta. Por exemplo, notificações ativas em certas janelas e silenciosas noutras.
  • E se o meu trabalho exigir responder muito depressa às mensagens? Podes trabalhar por ciclos curtos: 20 minutos concentrado, 10 minutos “disponível”. O importante é ter momentos reais sem interrupções, mesmo que breves.

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