A mulher em frente ao espelho fica imóvel, frasco de champô numa mão, a deslizar no telemóvel com a outra.
Um vídeo diz: “lava o cabelo todos os dias ou o couro cabeludo vai entupir”. O seguinte insiste: “só uma vez por semana, ou vais destruir os teus óleos naturais”. Ela suspira, pousa o frasco e volta a pegá-lo. Mesma batalha, manhã diferente.
Falamos de rotinas de skincare, treinos de ciclismo, jejum intermitente. Mas faz a alguém uma pergunta simples - “Com que frequência lavas o cabelo?” - e ouves culpa na resposta. Demasiado, de menos, não da forma “certa”. Entre o TikTok do cabelo encaracolado, os anúncios brilhantes de champô e os conselhos à antiga da tua mãe, o teu couro cabeludo não tem hipótese.
Por isso, uma dermatologista deu uma resposta direta. E não é “uma vez por semana” nem “dia sim, dia não”.
Com que frequência devemos mesmo lavar o cabelo?
A primeira coisa que os dermatologistas dizem quando lhes fazes esta pergunta: pára de procurar um número mágico. Lavar o cabelo tem menos a ver com um calendário exato e mais com um órgão vivo - o teu couro cabeludo - e com a forma como ele se comporta. Oleoso, repuxado, com comichão, a descamar, sem volume na raiz… esse é o teu calendário incorporado a falar.
Quando falei com a dermatologista Dr.ª Amrita Singh, sediada em Londres, ela não começou pelos dias da semana. Começou pelos sintomas. “Se o teu couro cabeludo se sente gorduroso, cheira mal, ou estás a coçar-te mais”, disse, “esse é o teu sinal, não a tua agenda”. A ideia de que toda a gente deve lavar à segunda, quarta e sexta? Isso é marketing, não medicina.
Num comboio cheio de gente às 8h30, consegues identificar de imediato quem lava em excesso. Cabelo fofo nas pontas mas colado ao couro cabeludo. Pessoas que se “sentem sujas” se não ensaboarem todos os dias e depois não percebem porque é que a raiz fica oleosa mais depressa. A Dr.ª Singh vê isto constantemente: “Treinaram o couro cabeludo para entrar em modo de pânico”.
Depois há a tribo oposta: os minimalistas de uma vez por semana. Como a Léa, 29 anos, que passou orgulhosamente oito dias sem lavar “porque o TikTok disse que isso reinicia os óleos”. Ao quinto dia, o couro cabeludo estava repuxado, a raiz sem vida e apareceram pequenas escamas ao longo da risca. Passou de confiante a desconfortável em menos de uma semana.
Os dermatologistas estão a ver este pêndulo da lavagem do cabelo a oscilar descontroladamente online. Um inquérito norte-americano a 1.000 pessoas concluiu que mais de um terço estava “confuso” sobre a frequência de lavagem. O mesmo estudo mostrou pessoas com cabelo oleoso a lavar com a mesma frequência que pessoas com cabelo seco, simplesmente a copiar o que viam nas redes sociais. Resultado: muitos couros cabeludos frustrados.
Do ponto de vista médico, o couro cabeludo é pele com cabelo preso, não um universo à parte. Produz sebo, elimina células mortas, alberga leveduras e bactérias, e reage à humidade, hormonas e stress. Lavar demasiado frequentemente com fórmulas agressivas retira a barreira cutânea, levando a pele a produzir mais óleo e inflamação. Esperar tempo demais permite que suor, poluição e acumulação de produtos se somem, alimentando irritação e uma descamação tipo caspa.
É por isso que a regra de “uma vez por semana” não se sustenta. E o mantra do “dia sim, dia não” também não. Um dermatologista vai olhar para o teu tipo de cabelo, o teu estilo de vida, até para a tua cidade. Um corredor de maratonas em Singapura e um trabalhador de escritório em Oslo não vão ter as mesmas necessidades no couro cabeludo. A única regra universal em que a Dr.ª Singh insiste? A tua frequência de lavagem deve corresponder à realidade do teu couro cabeludo, não à rotina de outra pessoa.
A rotina realista da dermatologista (que as pessoas realmente seguem)
Quando se insiste por uma orientação, a maioria dos dermatologistas acaba na mesma zona: duas a quatro vezes por semana para a maioria das pessoas. Não um horário rígido. Uma janela ajustável. Se o teu couro cabeludo fica oleoso 36 horas depois da lavagem, vais tender para o limite superior. Se ao fim de três dias ainda se sente limpo e confortável, o limite inferior pode servir-te.
A Dr.ª Singh resume isto de forma simples na consulta. Para cabelo fino e oleoso: aponta para lavar a cada 1–2 dias com um champô suave. Para cabelo espesso, encaracolado ou crespo: algures entre uma e duas vezes por semana, usando uma fórmula mais hidratante e concentrando-te no couro cabeludo, não nos comprimentos. Para pessoas com couro cabeludo sensível ou com descamação: um champô medicamentoso uma ou duas vezes por semana e um suave no resto do tempo.
Sejamos honestos: ninguém faz isto mesmo todos os dias.
Eis um caso real da prática dela. O Carlos, 34 anos, trabalhava numa cozinha de restaurante muito movimentada. Lavava o cabelo curto e escuro uma vez de manhã e outra depois do turno, convencido de que a gordura e o fumo o exigiam. O couro cabeludo começou a arder e a descamar, e ele achou que tinha “caspa da pior”. Na realidade, tinha removido a barreira cutânea tantas vezes que a pele se revoltou.
A Dr.ª Singh pediu-lhe para reduzir para uma lavagem suave por dia durante uma semana e depois para cinco vezes por semana, sobretudo nos dias de turno duplo. Trocou o champô forte “para cabelo oleoso” por um suave, sem perfume. Em três semanas, a “caspa” quase tinha desaparecido e a vermelhidão tinha diminuído. Ele ficou espantado. Menos champô, melhor couro cabeludo.
No extremo oposto, a Maya, 26 anos, com caracóis 3C, lavava orgulhosamente só ao domingo. À sexta-feira, o couro cabeludo tinha comichão e ela já se apanhava a coçar-se em reuniões no Zoom. As escamas caíam sobre a T-shirt preta. Em vez de lhe dizer para “lavar todos os dias”, a Dr.ª Singh sugeriu uma limpeza do couro cabeludo a meio da semana com um champô sem sulfatos, diluído, massajado suavemente apenas na raiz. Sem esfregar com força, sem unhas. Dois meses depois, os caracóis eram os mesmos, mas o couro cabeludo estava muito mais calmo.
Os dermatologistas observam padrões. Quem lava em excesso queixa-se frequentemente de comichão, repuxamento e de a oleosidade voltar depressa. Quem lava pouco fala de odor, peso e uma sensação vaga de estar “sujo”, mesmo que o cabelo não pareça visivelmente sujo. Ambos procuram uma sensação que raramente conseguem: leveza na raiz e conforto na pele.
A lógica é quase aborrecida pela sua simplicidade. O teu couro cabeludo prospera com equilíbrio. Lava o suficiente para remover suor, poluição e resíduos de produtos antes de se transformarem em irritação ou combustível para fungos. Mas não tanto que destruas o filme lipídico natural que protege a pele. E se usas muitos produtos de styling, treinas muito, ou vives numa cidade poluída, o teu “o suficiente” não vai ser igual ao do teu amigo. Uma rotina realista é pessoal, não aspiracional.
Como lavar o cabelo como um dermatologista gostaria que o fizesses
A forma como lavas importa quase tanto como a frequência. Os dermatologistas repetem a mesma instrução: champô é para o couro cabeludo, amaciador é para os comprimentos. Começa por molhar bem o cabelo com água morna, não escaldante. A água quente sabe bem, mas abre a cutícula e remove óleos mais depressa.
Depois usa cerca de uma colher de chá de champô para cabelo curto, uma quantidade do tamanho de uma moeda para médio, e um pouco mais para cabelo muito comprido. Emulsiona nas mãos antes de tocar na cabeça. Massaja com as polpas dos dedos em pequenos círculos, cobrindo todo o couro cabeludo, não apenas a frente. Enxagua muito bem e repete só se o cabelo estiver muito sujo ou carregado de produto. As pontas não precisam de champô direto - a espuma que escorre é suficiente.
O amaciador deve ser aplicado do meio até às pontas, onde o cabelo é mais velho, mais seco e mais danificado. Deixa atuar um ou dois minutos enquanto lavas o corpo e depois enxagua até o cabelo ficar macio mas não “escorregadio”. Quem tem cabelo fino ou que perde volume facilmente pode aplicar uma quantidade mínima de amaciador apenas no último terço do cabelo. Se o teu couro cabeludo é sensível ou propenso a acne, evita amaciadores pesados mesmo junto à raiz.
A um nível humano, há muita vergonha entranhada nos rituais do cabelo. As pessoas pedem desculpa ao dermatologista por lavarem “demasiado” ou “demasiado pouco”, como se houvesse valor moral no champô. Não há. Há consequências - e essas podem ser revertidas. Numa manhã difícil, em que está tudo atrasado e estás a encarar o duche, está tudo bem em ouvires o teu couro cabeludo em vez do teu calendário.
Erros comuns? Esfregar com as unhas como se estivesses a limpar uma frigideira. Juntar todo o cabelo no topo da cabeça num nó e criar embaraços. Deixar produtos de styling no couro cabeludo durante dias. Procurar aquela sensação de “a chiar”, de pele demasiado limpa. Se fizeste tudo isto, não estás sozinho. E, num plano mais emocional, todos já tivemos aquele momento em que um plano de última hora provoca uma crise do tipo: “Tenho mesmo de lavar o cabelo outra vez?” antes de sair de casa.
A Dr.ª Singh tem uma frase direta que gosta de dizer a doentes ansiosos:
“Não deves a ninguém um cabelo perfeitamente lavado. Deves conforto ao teu couro cabeludo. Escolhe a rotina que te dá isso e ignora o ruído.”
Eis como ela pede aos doentes para redefinirem a relação com a lavagem do cabelo:
- Observa o teu couro cabeludo durante uma semana: oleosidade, comichão, cheiro, escamas.
- Ajusta a lavagem para corresponder a esses sinais, não a um horário fixo.
- Usa fórmulas suaves e foca-te no couro cabeludo, não nos comprimentos.
- Introduz qualquer mudança gradualmente ao longo de 2–3 semanas.
- Procura aconselhamento médico se a comichão, dor ou descamação intensa persistirem.
Uma rotina que começa por ouvir, não por regras
Quando deixas de perguntar “Com que frequência deve uma pessoa lavar o cabelo?” e passas a perguntar “Com que frequência é que o meu couro cabeludo se sente bem?”, a conversa muda. A questão torna-se menos moral e mais prática. Há semanas em que transpiras mais, viajas mais, usas mais champô seco. Outras semanas passas a vida com um coque e quase não sais de casa. O teu horário pode mover-se contigo.
Há algo estranhamente libertador em perceber que não existe um número “certo” universal. Podes lavar mais vezes no verão e menos no inverno. Podes lavar antes de uma reunião importante só porque te sentes melhor com o cabelo fresco. Podes aguentar mais um dia se o teu couro cabeludo está bem e preferes dormir mais. Isso não te torna sujo nem obsessivo; torna-te humano.
Os dermatologistas não estão a tentar transformar os cuidados capilares noutra doutrina rígida de bem-estar. A mensagem, de forma discreta, é esta: o ponto ideal raramente é “nunca” e raramente é “sempre”. Vive no meio confuso, onde pessoas reais equilibram deslocações, sacos de ginásio, banhos das crianças e emails a altas horas. Onde um duche às 22h é, às vezes, o único momento de paz do dia.
Se isto te fizer querer fazer uma pequena experiência com o teu cabelo, talvez seja esse o melhor resultado. Adia a lavagem um dia e vê o que o teu couro cabeludo diz. Ou passa de uma vez por semana para duas e observa se a comichão alivia. Partilha com aquela amiga que se gaba de “treinar” o couro cabeludo mas, secretamente, detesta o peso que sente na raiz. A resposta real à pergunta “com que frequência devemos lavar o cabelo” está ali, silenciosa, acima da tua testa - só à espera de ser ouvida.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Frequência flexível | A maioria dos dermatologistas recomenda 2 a 4 lavagens por semana, ajustadas ao tipo de couro cabeludo. | Ajuda a sair das regras rígidas “todos os dias” ou “uma vez por semana”. |
| Couro cabeludo primeiro | O champô é para o couro cabeludo; o amaciador é para os comprimentos e pontas. | Reduz irritações, quebra e cabelo pesado/pegajoso na raiz. |
| Sinais a ouvir | Oleosidade, comichão, odor e escamas orientam a frequência certa. | Ajuda a construir uma rotina personalizada, realmente adaptada à vida real. |
FAQ:
- Quantas vezes por semana é que os dermatologistas dizem que devemos lavar o cabelo? A maioria dos dermatologistas aponta para 2–4 vezes por semana para a pessoa média e depois ajusta com base na oleosidade, textura do cabelo, estilo de vida e problemas do couro cabeludo.
- Faz mal lavar o cabelo todos os dias? Lavar diariamente com um champô agressivo pode secar e irritar o couro cabeludo, mas usar uma fórmula muito suave em couros cabeludos genuinamente oleosos ou que transpiram muito pode ser perfeitamente aceitável.
- Dá mesmo para “treinar” o couro cabeludo para ser menos oleoso lavando menos? As hormonas e a genética influenciam a produção de sebo mais do que o hábito, mas lavar em excesso pode agravar a oleosidade; reduzir gradualmente costuma ajudar.
- Como sei que não estou a lavar o cabelo o suficiente? Comichão persistente, odor, peso na raiz e escamas visíveis que melhoram logo após lavar são sinais fortes de que deves lavar mais frequentemente.
- E se eu usar muito champô seco entre lavagens? Usar champô seco ocasionalmente é ok, mas o uso frequente e pesado sem lavagens adequadas pode obstruir folículos e irritar o couro cabeludo - por isso mantém lavagens “a sério” na rotina.
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