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Nove hábitos intemporais que pessoas nos 60 e 70 mantêm, e porque lhes trazem mais felicidade do que aos jovens focados na tecnologia.

Casal idoso num jardim, a beber chá e a ler, com frutas e cartas na mesa. Um relógio ao lado marca nove horas.

O café estava cheio de portáteis e auriculares, mas, ao fundo, eram três pessoas na casa dos setenta que estavam realmente a fazer barulho. Sem ecrãs, só chávenas de café, gargalhadas que atravessavam a playlist de fundo, mãos a tocar nos ombros para sublinhar uma piada. Um rapaz na casa dos vinte levantou os olhos do TikTok por um segundo, meio divertido, meio curioso.

Do outro lado da sala, uma mulher por volta dos 65 abriu um jornal de papel tão largo que tapou o letreiro néon “Wi‑Fi grátis”. Sublinhou qualquer coisa com uma caneta a sério, fez uma pausa e depois limitou-se a ficar a olhar pela janela como se isso, por si só, fosse uma actividade. Sem multitarefa. Sem notificações.

Não estavam a “optimizar” o dia. Estavam simplesmente a vivê-lo.

Ao sair, apanhei o reflexo deles no vidro da porta e tive um pensamento desconfortável: talvez nós, os supostamente “ligados”, sejamos os que estão a perder mais.

Nove hábitos tranquilos que vencem o scroll infinito

Observe um grupo de pessoas nos 60 e 70 anos num parque e vai notar algo quase chocante em 2026: não têm pressa. Andam devagar, sentam-se nos bancos, falam com as mãos. Há uma suavidade na forma como ocupam o tempo que parece quase rebelde.

São as pessoas que ainda levam um livro para a sala de espera do médico, que falam com desconhecidos nas filas do supermercado, que sabem números de telefone de cor. Os seus dias estão pontuados por pequenos rituais: uma caminhada de manhã, a mesma caneca de café, o mesmo aceno ao vizinho.

Esses hábitos pequenos, quase aborrecidos, são exactamente aquilo que muitas pessoas jovens, hiperligadas, dizem desejar - mas nunca encontrar.

Pergunte-lhes pela rotina e ouvem-se padrões. Um homem de 72 anos em Lyon ainda engraxa os sapatos todos os domingos “porque a segunda-feira merece respeito”. Uma professora reformada que conheci em Brighton faz o mesmo passeio à beira-mar todas as noites, faça o tempo que fizer, e fá-lo há 25 anos.

A investigação continua a confirmar isto. Estudos de longo prazo sobre bem‑estar mostram que as pessoas com hábitos simples e estáveis referem maior satisfação com a vida do que as que perseguem novidade e estimulação constantes. A felicidade, ao que parece, muitas vezes esconde-se em actos repetidos, não na próxima grande coisa.

Para uma cultura jovem treinada para fazer swipe a tudo o que é familiar, isto soa quase radical.

A lógica é brutalmente simples. Os hábitos reduzem a fadiga de decisão, e menos ruído mental deixa mais espaço para momentos genuínos. Quando a manhã já tem uma estrutura suave, o cérebro não começa o dia em modo de emergência.

As pessoas mais velhas cresceram num mundo sem feeds infinitos. O seu sistema nervoso foi moldado pela lentidão, pelas pausas, pelo silêncio. Mantêm certos hábitos analógicos não por nostalgia, mas porque sentem como o corpo e a mente respondem muito melhor.

As gerações mais novas estão a afogar-se em opções e notificações. O excesso de escolha rouba-lhes a atenção e, com ela, a oportunidade de se sentirem enraizadas. As rotinas “aborrecidas” dos mais velhos protegem-nos discretamente dessa tempestade.

Os nove hábitos que protegem discretamente a alegria

Primeiro: caminham. Não como tendência de fitness, não para bater 10.000 passos, mas como uma forma básica de se moverem no mundo. Caminham para ir comprar pão, para limpar a cabeça, para “ir ver como está o rio hoje”, como me disse um homem de 69 anos.

Depois: conversam. Cara a cara. Por cima de cercas, nos patamares, nas paragens de autocarro. Uma conversa de cinco minutos sobre o tempo não é conversa fiada para eles; é cola social. Constrói sentido de lugar num mundo que vive sobretudo na nuvem.

Também mantêm alguns rituais teimosamente offline: álbuns de fotografias reais, listas escritas à mão, calendários de papel com aniversários assinalados. São âncoras. Prova física de que a vida é feita de dias, não apenas de dados.

Cozinham as mesmas receitas, vezes sem conta. Um guisado aprendido com a avó. Um bolo que abre sempre uma racha ao meio mas sabe sempre ao mesmo todos os domingos. Essa repetição não é preguiça. É segurança emocional.

Muitos têm um “dia de telefonema” fixo para a família ou velhos amigos. Todas as quintas-feiras às 20h, o telefone toca. Sem Doodle, sem app de planeamento, apenas uma promessa cumprida durante décadas. Sejamos honestos: ninguém faz isto mesmo todos os dias, mas quando faz, muda a textura da semana.

Tratam de plantas, mesmo que sejam só dois gerânios numa varanda. Ver algo crescer devagar aproxima o relógio interior da realidade, e não do ritmo maníaco das tendências.

Há também o hábito de ficar com uma coisa de cada vez. Ler sem a televisão ligada. Comer sem scroll. Ouvir música enquanto se ouve mesmo. Para muitos nos 60 e 70 anos, isto é apenas “como se fazem as coisas”. Para os mais novos, é quase um exercício de mindfulness.

Estes hábitos não são grandes projectos de auto‑aperfeiçoamento. São pequenas escolhas, repetidas. Cumprimentar o vizinho. Sentar-se no mesmo banco. Enviar o postal em vez do WhatsApp de última hora. Ao fim de anos, isso torna-se identidade: “Sou alguém que aparece.”

Quando o seu sentido de identidade assenta no que realmente faz, e não no que publica, não precisa de likes para se sentir real.

Como roubar o melhor do mundo deles sem abdicar do seu

Um movimento muito prático: crie uma “ilha sem tecnologia” no seu dia, mesmo que sejam só 20 minutos. Sem telemóvel, sem portátil, sem televisão. Sente-se com um café, dê uma volta ao quarteirão, dobre roupa devagar, leia três páginas de um livro. Ao início vai parecer estranho, como se se tivesse esquecido de qualquer coisa.

Os adultos mais velhos mais felizes quase sempre referem alguma forma deste bolso diário. Oração matinal, pequeno-almoço em silêncio, alongamentos enquanto o rádio faz um zumbido ao fundo. O conteúdo importa menos do que a repetição calma.

Escolha uma actividade banal e transforme-a num ritual. À mesma hora, no mesmo lugar, com o mesmo prazer simples. Deixe que seja aborrecido. O aborrecido é subestimado.

Uma armadilha comum para leitores mais novos é transformar estes hábitos numa lista de objectivos. “Vou caminhar 8.000 passos, meditar 12 minutos, ligar a três amigos.” Esse mindset mata a magia. O ponto não é gamificar a vida; é suavizá-la.

Outro erro frequente é copiar tudo de uma vez. Entrar em “modo avô/avó total” de segunda para terça-feira é receita para frustração. Comece com um hábito que pareça quase embaraçosamente pequeno. Uma chávena de chá de ervas à noite. Cinco minutos a olhar pela janela antes de dormir.

A nível humano, há também medo. Abrandar significa enfrentar pensamentos dos quais tem fugido com scroll constante. É normal. Não se resolve numa semana; aprende-se a sentar ao lado disso.

“Quando parei de verificar as notícias de hora a hora, percebi que a maior parte do meu stress não era meu, era emprestado”, disse-me uma antiga enfermeira de 71 anos. “Agora leio o jornal uma vez por dia e depois vou regar as roseiras. O mundo continua a andar sem o meu pânico.”

Os seniores mais assentes que conheci também mantêm uma pequena “lista de alegria” na cabeça ou em papel. Não fantasias de bucket list, mas coisas comuns que nunca desiludem: pão fresco, o cão do vizinho, um filme antigo às 21h.

  • Escolha um pequeno hábito para repetir diariamente (caminhada, telefonema, chá, caderno).
  • Proteja uma janela sem tecnologia, mesmo que seja só de 15 minutos.
  • Invista numa relação cara a cara, não em 300 “amigos” online.

Porque é que a lentidão deles pode ser o nosso melhor futuro

Há uma cena que se repete, vezes sem conta, se começar a prestar atenção: um adolescente num almoço de família, meio curvado sobre o telemóvel, e uma avó a observar, divertida e um pouco triste. Ela já viu anos suficientes para saber que as notificações não se vão lembrar de si. As pessoas à mesa vão.

Quando pessoas nos 60 e 70 anos protegem os seus hábitos antigos, não estão apenas a resistir à mudança. Estão a segurar a linha por todos os outros. Uma linha onde a atenção ainda é dada, não colhida. Onde conversas não precisam de ser gravadas para terem valor.

Gostamos de pensar que a felicidade é um produto das ferramentas mais recentes. Para muitos deles, ela continua a vir do ritmo, da repetição, da coragem de viver à velocidade humana.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Rituais diários simples Caminhada, café tranquilo, os mesmos pequenos gestos repetidos Oferecem um modelo concreto para acalmar a mente sem mudar tudo
Laços cara a cara Conversas espontâneas, encontros regulares, telefonemas fixos Mostra como recriar ligação real para além das redes sociais
Tempo sem ecrã Bolsos de silêncio, leitura em papel, observação do mundo Dá ideias práticas para recuperar atenção e calma

FAQ:

  • As pessoas mais velhas são mesmo mais felizes do que a juventude movida a tecnologia? Inquéritos de grande escala mostram frequentemente uma curva de felicidade em “U”: desce na meia‑idade e volta a subir depois dos 60, em parte por expectativas mais simples e rotinas mais fortes.
  • Tenho de deixar as redes sociais para beneficiar destes hábitos? Não. O objectivo não é ficar offline para sempre, mas criar bolsos protegidos de tempo em que o seu telemóvel não é a personagem principal.
  • Qual é um hábito que posso começar se estou esmagado e exausto? Comece com uma caminhada diária sem auriculares, mesmo que sejam só 10 minutos. Deixe os pensamentos vaguearem. É um botão de reset que muitos adultos mais velhos usam por instinto.
  • Como é que construo relações offline mais profundas, como as pessoas nos 70? Escolha uma pessoa e crie um momento recorrente: uma chamada semanal, um almoço mensal, uma caminhada partilhada. A regularidade constrói profundidade muito mais do que a intensidade.
  • Não é tarde demais para mudar as rotinas se já estou stressado e hiperligado? Pessoas nos 60 e 70 reinventam hábitos depois da reforma com frequência. Uma pequena mudança constante agora pode ter um impacto maior do que imagina.

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