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O hábito de passear à noite pode impedir que relaxes totalmente.

Homem amarra sapatilhas junto à porta, com chá e telemóvel no chão ao lado.

O pavimento ainda guardava o calor do dia quando ela saiu à rua, telemóvel na mão, ténis atados sem grande cuidado.

“Uma caminhada rápida ao fim da tarde”, disse para si, só para arejar a cabeça depois do trabalho. O céu estava cor-de-rosa, o ar mais calmo, os ruídos mais suaves. Podia ter sido um momento de paz.

Em vez disso, desbloqueou o ecrã antes da primeira esquina. Contador de passos, mensagens, uma olhadela rápida ao Instagram. Enquanto os pés avançavam, o cérebro continuava a fazer scroll. As notificações vibravam. Ditou uma nota de voz sobre um projeto. Verificou um e-mail, depois outro.

Quando chegou a casa, tecnicamente “tinha caminhado para relaxar”. Ainda assim, a mandíbula estava mais tensa, não mais solta. A mente continuava acelerada. A caminhada tinha acabado, mas o dia, na verdade, não tinha terminado.
Há qualquer coisa nesta imagem que está, em silêncio, a sabotar as suas noites.

A caminhada que parece relaxante… mas não é

Muitas pessoas juram que a caminhada ao fim da tarde é a sua tábua de salvação. Chamam-lhe “o meu tempo” ou “o único momento que tenho para mim”. No papel, soa ao ritual perfeito: ar fresco, movimento suave, uma almofada mental entre o dia e a noite.

Ainda assim, um número crescente regressa a casa estranhamente ligado à corrente. Caminharam uma boa distância. A app de fitness mostra tudo a verde. E, mesmo assim, não adormecem com facilidade, ou levam o escritório na cabeça até à cama.

O corpo finge que desacelera. A mente não acompanha.

Um inquérito recente no Reino Unido sobre hábitos de deslocação encontrou algo curioso: pessoas que misturam “pôr o trabalho e as mensagens em dia” com a caminhada de fim de dia relatam mais stress do que as que vão diretamente para casa de carro. À superfície, não faz sentido. Caminhar devia acalmar. O trânsito devia desgastar.

Mas, olhando melhor, surge um padrão. O carro é, muitas vezes, um corte brusco: conduz, chega, está em casa. Já a caminhada “relaxante” transformou-se discretamente numa lista de tarefas em movimento. As pessoas respondem a mensagens de voz, ensaiam mentalmente a reunião de amanhã, verificam o Slack, terminam uma chamada que não queriam atender mais cedo.

Num pequeno estudo italiano sobre atividade ao final do dia, participantes que caminharam com o telemóvel na mão apresentaram descidas mais lentas da frequência cardíaca e sono mais fragmentado do que aqueles que deixaram o telemóvel dentro de casa. O problema não era a caminhada. Era o multitasking.

O hábito escondido que estraga tudo é simples: usar a caminhada do fim do dia para prolongar o dia em vez de o fechar. Quando caminha e faz scroll, ou caminha e “só termina mais uma coisinha”, o seu cérebro entende que o dia de trabalho ainda está a decorrer. O sistema nervoso fica em modo “andar”, não em modo “abrandar”.

O relaxamento não começa quando os pés se mexem. Começa quando o cérebro deixa de esperar mais estímulos. Luz, notificações, conversas por resolver, até verificar quantos passos já deu - tudo isso mantém o sistema em alerta.

O resultado é uma divisão estranha. O corpo envia sinais de calma (movimento rítmico, luz suave, respiração estável). O telemóvel e os pensamentos enviam a mensagem oposta: mais dados, mais decisões, mais comparação social. Esse desfasamento é precisamente o que o deixa cansado, mas não verdadeiramente descansado.

Transformar a caminhada do fim da tarde num verdadeiro “interruptor”

Se quer que a caminhada ao fim da tarde o relaxe de facto, o primeiro passo é radical na sua simplicidade: transformá-la num momento de uma só tarefa. Uma missão apenas. Caminhar. Nada mais.

Para alguns, isso significa deixar o telemóvel em casa durante 15–20 minutos. Para outros, é colocá-lo em modo de avião e guardá-lo no bolso, só por segurança. O essencial é: nada de informação a entrar, nada de tarefas a sair.

Depois, dê trabalho aos sentidos. Repare no ritmo dos passos, na textura do ar, na cor do céu por trás dos edifícios. Escolha uma coisa para “seguir” com a atenção - como o som dos passos ou o baloiçar das árvores. Este pequeno foco funciona como uma âncora suave. Os pensamentos vão continuar a divagar, mas terão um lugar gentil para onde regressar.

A maior armadilha é dizer: “Vou só responder a uma mensagem enquanto caminho.” Já sabe como isso acaba. Uma mensagem desbloqueia mais três e, de repente, está a atravessar a rua enquanto redige uma resposta que, provavelmente, vai reescrever depois.

Por isso, defina uma regra antes de sair. Por exemplo: “mensagens e e-mails são para o sofá, não para a rua”. Ou: “só vejo os passos quando voltar, não durante a caminhada”. São limites pequenos, mas mudam por completo a sensação da noite.

E, sim, há dias tão cheios de pressão que acaba por usar a caminhada para reviver mentalmente uma discussão ou obsessivamente pensar num prazo. Isso é humano. Num dia difícil, o objetivo gentil pode ser apenas dar conta dessa espiral e dizer para si, quase em voz alta: “Agora não. Penso nisso quando estiver sentado à mesa.” Parece parvo. Funciona mais vezes do que imagina.

“O relaxamento não é só sobre o que o corpo está a fazer. É sobre o que permite - ou recusa - alimentar no cérebro nesses minutos frágeis antes da noite”, explica um especialista do sono de uma clínica em Londres. “Uma caminhada de dez minutos sem tecnologia baixa a ‘luminosidade mental’ muito melhor do que fazer scroll no sofá durante uma hora.”

  • Tire o ecrã do ritual – se precisar mesmo do telemóvel, leve-o no bolso em silêncio, não na mão.
  • Escolha um percurso simples que conheça de cor, para não estar a planear nem a navegar.
  • Use um pequeno sinal para “fechar” o dia ao sair, como trancar a porta e dizer mentalmente: O trabalho acabou por hoje.
  • Mantenha-a curta no início: 10–15 minutos de verdadeiro descanso mental valem mais do que 40 minutos de marcha distraída.
  • Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, e está tudo bem - o que importa é reparar quando a caminhada deixa de ser repousante e trazê-la, com suavidade, de volta ao que deve ser.

Repensar o que “relaxar” realmente se sente

Há algo discretamente poderoso em admitir que os seus hábitos atuais de “relaxamento” não estão a resultar. A caminhada ao fim da tarde com 3 podcasts, 12 mensagens e uma verificação de e-mail a meio não está estragada porque caminhar é errado. Está estragada porque nunca desliga de verdade.

Numa caminhada de descanso a sério, pode sentir tédio durante alguns minutos. Pode dar por si a notar emoções que tinha enterrado debaixo do ruído. Pode até perceber que não está tão cansado como pensava - apenas sobre-estimulado. Essa é a parte desconfortável que a maioria evita ao pegar no telemóvel.

Mas é exatamente nesse ligeiro desconforto que o sistema nervoso começa a recalibrar. Está a dar-lhe a hipótese de passar de reação constante para observação tranquila. É nessa mudança que começa o relaxamento genuíno, mesmo que não pareça tão “produtivo” como acrescentar mais 2.000 passos ao seu dia.

Se começar a tratar a caminhada do fim do dia como uma cerimónia de encerramento e não como um escritório móvel, outras partes da sua vida começam a mover-se subtilmente. As conversas ao jantar parecem menos apressadas. O sono chega com mais naturalidade. A vontade de verificar o telemóvel “só mais uma vez” antes de dormir suaviza, nem que seja um pouco.

Pode até notar outra coisa: as caminhadas deixam de ser mais um item na sua lista de autoaperfeiçoamento. Voltam a ser o que eram quando era criança a vaguear pelo bairro depois da escola: tempo que existe sem outra razão senão ser vivido. É aí que a sua hipótese de relaxar de verdade esteve escondida o tempo todo.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
O verdadeiro sabotador A mistura de caminhada ao fim do dia + telemóvel + tarefas mentais Perceber por que razão a caminhada não traz a calma esperada
Uma só tarefa Transformar a caminhada num momento sem notificações nem “pequenas” tarefas Voltar a sentir uma verdadeira sensação de corte após o dia
Ritual de encerramento Usar mini-regras e um percurso simples para sinalizar ao cérebro o fim do dia Melhorar o sono, o humor ao fim da tarde e a qualidade das relações em casa

FAQ:

  • É mau ouvir música ou um podcast na caminhada ao fim da tarde?
    Não necessariamente. Se isso o acalma de verdade e não o tenta a verificar mensagens ou apps de trabalho, pode fazer parte do seu ritual. O sinal de alerta é quando ouvir se transforma em multitasking e a sua mente fica mais ocupada depois.
  • Quanto tempo deve durar uma caminhada ao fim da tarde para me ajudar a relaxar?
    Muitos estudos apontam para 10–20 minutos de caminhada suave como suficientes para baixar marcadores de stress. Mais tempo não é automaticamente melhor. Uma caminhada curta, totalmente “desligada”, vence uma longa e distraída.
  • E se eu precisar do telemóvel por razões de segurança?
    Leve-o consigo, mas mude a forma como se relaciona com ele. Ponha-o em silêncio ou em modo de avião, não o leve na mão e defina uma regra clara como: “Só o uso se precisar de ajuda, não para ir ver coisas.”
  • Não consigo parar de pensar no trabalho enquanto caminho. O que posso fazer?
    Dê à mente uma tarefa simples: contar dez passos e recomeçar, reparar em três sons, ou nomear três cores à sua volta. Quando surgirem pensamentos de trabalho, rotule-os como “para mais tarde” e volte à tarefa simples.
  • Uma caminhada ao fim da tarde pode mesmo melhorar o meu sono?
    Para muitas pessoas, sim. Movimento suave, menos luz e uma descida da estimulação ajudam o corpo a entrar em modo noturno. O essencial é mantê-la calma e com pouca luz de ecrãs, e terminá-la pelo menos 30–60 minutos antes de deitar.

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