Saltar para o conteúdo

O regresso inesperado dos doces tradicionais está a entusiasmar os verdadeiros amantes de comida.

Chef serve bandeja de pastéis de nata quentes numa cozinha tradicional com azulejos azuis.

Scarfs puxados para cima, telemóveis na mão, as pessoas aproximavam-se da porta, seguindo um cheiro com que cresceram e que, de alguma forma, tinham esquecido. No vidro, alguém tinha colado um aviso simples: “Os doces tradicionais estão de volta - fornada limitada.” Sem letreiros néon. Sem conversa de “fusão” ou “twist”. Apenas nomes antigos, numa caligrafia cuidada, e um tabuleiro que esgotou em menos de 20 minutos.

Um adolescente em roupa de rua filmou a primeira dentada num nó de canela pegajoso. Uma mulher na casa dos 60 observou-o e riu-se, murmurando que a avó costumava fazer exactamente o mesmo aos domingos. As mãos do padeiro moviam-se depressa, com o hábito e a memória a tomarem conta onde a previsão de tendências pára. Às 9:15, as prateleiras estavam vazias, mas o cheiro ficava no ar como uma promessa.

Há algo a acontecer nestas filas em frente a pequenos fornos.

O regresso discreto que nenhum algoritmo planeou realmente

À primeira vista, o regresso dos doces tradicionais parece apenas mais uma moda de “foodies”. É fácil publicar um cronut brilhante ou uma tarte com glaze galáctico e ir atrás de gostos. No entanto, os doces que estão a atrair multidões neste momento são teimosamente simples: pastéis de nata com o topo estaladiço e tostado, croissants de amêndoa tão carregados de recheio que se rasgam, kouign-amann de caramelo escuro que deixam os dedos pegajosos durante horas.

Esta tendência não é barulhenta. É lenta, cheira a manteiga e espalha-se mais depressa pelo passa-palavra do que por anúncios.

Em Lisboa, as lojas de pastel de nata voltam a reportar filas a dar a volta ao quarteirão - não apenas com turistas de guia na mão, mas com locais que “já não vinham há anos”. Em Paris, as velhas boulangeries de bairro começam subitamente a pôr avisos de esgotado nos seus mille-feuille folhados a meio da manhã. Uma padaria em Londres disse que o seu sticky bun clássico - discretamente encostado a um canto há uma década - duplicou as vendas desde 2022, sem uma única promoção.

As estatísticas acompanham as cenas. As pesquisas no Google por “receita de doce tradicional” subiram, e padarias de património na Europa e nos EUA reportam mais afluência do que antes da pandemia. O doce que antes parecia um mimo de domingo na casa da avó surge agora em secretárias de escritório, em espaços de co-working, em bancadas de cozinha à noite durante chamadas de Zoom. É comida de conforto, mas é também outra coisa: uma pequena âncora comestível num mundo que não pára de girar.

Há uma lógica por trás desta pressa emocional. Depois de anos de snacks ultra-processados, regras low-carb e sobremesas hiper-“instagramáveis”, as pessoas desejam algo reconhecível. Um doce clássico não precisa de explicação nem de uma nota de 10 linhas no menu. Olha-se para um rolo de canela ou uma fatia de creme e percebe-se logo o que ele quer de nós.

Os doces tradicionais também transportam histórias. Viajam por famílias, regiões, migrações. Um cannolo nunca é apenas creme dentro de uma casca; é a Sicília, mesas de casamento, cozinhas barulhentas. Um baklava é tanto camadas de história como camadas de massa filo. Numa era em que tudo pode ser “reinventado”, estes doces prometem, em silêncio, aquilo que sempre foram. Sem rebranding. Sem performance. Apenas é isto que eu sou.

E, pela primeira vez, o ciclo de tendências está a ouvir em vez de tentar reescrever a receita de um dia para o outro.

Como viver este regresso a sério (para lá de publicar uma fotografia)

Se quer sentir esta vaga em vez de apenas a observar, comece por um gesto simples: vá cedo. Os doces tradicionais, bem feitos, não ficam o dia inteiro sob vidro à espera de uma selfie ao fim da tarde. Os croissants mais folhados, a sfogliatella quebradiça e estaladiça, o brioche glaceado ainda ligeiramente morno no centro - tudo isto vive nessa janela curta após a abertura.

Pergunte ao padeiro o que saiu do forno na última hora. Ouça a resposta como ouviria um amigo a recomendar um livro.

Passo seguinte: escolha um doce e abrande. Dê a primeira dentada sem fazer scroll, sem o cortar em metades perfeitas “para a foto”. Repare no som da crosta, no peso do recheio, na forma como o açúcar fica na língua. Não está apenas a comer calorias; está a decifrar artesanato, dentada a dentada.

Muita gente sente-se intimidada ao entrar numa pastelaria tradicional. Preocupa-se em pronunciar mal nomes, em fazer perguntas “parvas” ou em parecer perdida por não saber a diferença entre uma banitsa e um börek. A verdade é esta: os padeiros que trabalham com receitas de tradição muitas vezes preferem clientes curiosos a snobs da pastelaria.

Diga: “O que é que faz que lhe lembre a sua infância?” e veja a expressão a mudar. Pergunte qual é o doce que vende mais a locais, não a turistas. É aqui que encontra o tabuleiro que nunca chega ao Instagram - aquele que os habituais agarram antes de esgotar às 10:00.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. A maioria das manhãs é apressada, cheia de emails e café meio bebido. Está tudo bem. Escolha um dia por mês, ou até uma viagem por ano, para criar espaço para esse encontro lento, quase à moda antiga, com uma pastelaria. O objectivo não é tornar-se especialista em doces. É recordar o que se sente quando a comida responde a algo para o qual não tinha palavras.

Um padeiro parisiense disse-o de forma simples:

“As pessoas entram a dizer que se estão a ‘mimar’, mas o que estão realmente a fazer é visitar uma memória que nunca souberam que lhes pertencia.”

Há uma carga emocional discreta em tudo isto. Numa semana má, um pecan bun perfeitamente pegajoso pode parecer um pequeno acto de resistência - uma forma de dizer: eu ainda posso desfrutar disto. Todos já tivemos aquele momento em que o cheiro de algo a cozer nos puxa de volta anos num só fôlego.

  • Procure primeiro padarias familiares ou casas antigas, não apenas espaços na moda.
  • Experimente pelo menos um doce com um nome que ainda não consegue pronunciar.
  • Coma-o ali perto, sem andar - deixe que o lugar faça parte do sabor.
  • Faça uma pergunta sobre como é feito, mesmo que não se lembre dos detalhes.

Estes pequenos rituais transformam um snack açucarado em algo como uma conversa - com o padeiro, com o passado, consigo.

Porque é que esta tendência “antiga” soa estranhamente nova

Há algo discretamente radical na forma como os doces tradicionais estão a regressar. Entram numa cultura alimentar obcecada pela novidade e dizem: nós já cá estávamos antes das hashtags e cá estaremos depois. Essa confiança é contagiosa. Dá às pessoas permissão para desfrutar de um prazer que não está “optimizado”, não é “clean” nem vem embalado como “sem culpa”. É apenas folhado, doce, talvez um pouco desarrumado - e é exactamente por isso que acerta tão fundo.

Parte da emoção vem do quão analógico é todo o processo. Não se consegue fazer streaming do cheiro da manteiga a alourar. Não se consegue acelerar a fermentação lenta da massa. Ver um tabuleiro de pães doces dourados sair do forno às 7:00 parece quase rebelde ao lado do instantâneo de tudo nos nossos ecrãs. O regresso inesperado destes doces tem menos a ver com nostalgia e mais com uma fome silenciosa por coisas que demoram tempo.

À distância, pode parecer só mais uma tendência alimentar, destinada a desaparecer quando a próxima grande estética “-core” aterrar no TikTok. De perto, sente-se diferente. Sente-se como pessoas a escolherem ficar ao frio por algo que não lhes vai mudar a vida, mas vai mudar a manhã. Sente-se como padeiros a tirarem o pó a receitas de família porque os clientes finalmente voltaram a pedir as “coisas antigas”. Sente-se, estranhamente, como esperança com a forma de um pão doce.

Não precisa de adorar doces para sentir a mudança. Talvez veja um amigo a rasgar um rolo de canela quente, repare nos ombros a descerem, ouça aquele “uau” baixo que não estava à espera. Talvez passe por uma pastelaria e perceba que, na verdade, não prova os clássicos locais há anos. Talvez apenas note como a sua cidade cheira diferente às 8:00 do que ao meio-dia.

A verdadeira história não é que os doces voltaram. É que as pessoas voltaram a estar dispostas a comover-se com algo tão simples como farinha, manteiga e açúcar, cozidos por mãos humanas.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Regresso dos doces tradicionais Receitas de património e clássicos de pastelaria estão em alta em cidades de todo o mundo Ajuda-o a identificar lugares autênticos que valem a visita, e não apenas sítios com hype
Como viver a tendência Ir cedo, fazer perguntas aos padeiros, comer no local, abrandar Transforma um simples mimo num momento memorável e sensorial
Valor emocional e cultural Os doces funcionam como portadores de memória, identidade e conforto discreto Convida-o a reconectar-se com a comida de forma mais profunda e pessoal

FAQ:

  • Os doces tradicionais são mesmo mais saudáveis, ou apenas mais nostálgicos?
    Não são automaticamente mais saudáveis; muitos são ricos em manteiga e açúcar. O que oferecem é transparência e menos atalhos ultra-processados, além de uma espécie de nutrição emocional que os snacks embalados raramente conseguem igualar.
  • Como posso perceber se uma pastelaria faz mesmo doces tradicionais e não apenas “branding” de estilo antigo?
    Procure etiquetas simples, actividade de fabrico visível e tabuleiros que esgotam depressa. Perguntar “Ao que é que os vossos habituais voltam sempre?” costuma ser mais revelador do que qualquer placa na porta.
  • Vale a pena acordar cedo só por um doce?
    Se procura a experiência completa - miolo morno, creme acabado de assentar, crosta ainda a estalar - então sim, pelo menos uma vez. Essa visita de manhã cedo muitas vezes sabe menos a “ir buscar um snack” e mais a um pequeno ritual.
  • E se não tiver padarias famosas na minha cidade?
    Procure lojas pequenas e antigas, mercearias de Leste europeu com forno próprio, ou cafés familiares. Alguns dos melhores doces tradicionais escondem-se à vista de todos, longe dos mapas turísticos.
  • Posso recriar esta sensação em casa sem passar horas a cozinhar?
    Pode. Comece com uma receita simples e indulgente - uma galette rústica de fruta, um rolo de canela básico - e faça-a num fim-de-semana calmo. O cheiro a encher a casa é metade da magia, mesmo que o resultado não fique perfeito como o de uma pastelaria.

Comentários (0)

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário