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Onda de calor no Brasil bate recordes em dezembro.

Mulher caminha na rua com calor, segurando garrafa de água. Homem sentado com ventoinha elétrica ao lado.

A mais recente onda de calor transformou o final de dezembro num teste de stress às infraestruturas do Brasil, aos sistemas de saúde pública e às rotinas diárias, enquanto as estações meteorológicas registam discretamente valores que, há apenas uma década, teriam parecido impensáveis.

Temperaturas históricas viram o quotidiano do avesso

No domingo, várias capitais brasileiras registaram temperaturas e valores de “sensação térmica” raramente vistos nos registos nacionais. Dados oficiais do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do serviço privado Climatempo mostram um corredor de calor extremo a atravessar o centro-sul do país.

No Rio de Janeiro, a zona oeste da cidade voltou a destacar-se como foco de calor. O sistema de monitorização Alerta Rio mediu um índice de calor de 53,5 °C, enquanto a temperatura do ar atingiu um pico de 39,2 °C em Guaratiba. Moradores descreveram ruas ao fim da tarde que pareciam mais uma sauna do que uma metrópole à beira-mar.

Temperaturas acima de 40 °C combinadas com humidade muito elevada podem levar o corpo humano perto dos seus limites térmicos, mesmo em adultos saudáveis.

São Paulo, geralmente mais amena do que o Rio, também ultrapassou limites desconfortáveis. Na estação do Mirante de Santana, no norte da cidade, os termómetros chegaram aos 36,2 °C por volta das 15h, superando o anterior recorde de dezembro de 35,9 °C, registado no Dia de Natal. Pelo segundo dia consecutivo, a cidade assinalou um novo máximo para o mês.

Mais para o interior, Cuiabá, em Mato Grosso, apresentou algumas das condições mais castigadoras. As temperaturas subiram até aos 41,1 °C, com a sensação térmica a rondar os 50 °C. A humidade relativa desceu abaixo dos 20%, tornando o ar suficientemente seco para irritar olhos e vias respiratórias e fazendo qualquer atividade ao ar livre parecer atravessar um parque de estacionamento no deserto.

Alerta vermelho: oito estados sob aviso máximo de saúde

A dimensão do episódio atual vai muito além de algumas tardes abrasadoras. O Inmet emitiu um aviso de onda de calor de nível vermelho para oito estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Paraná, Mato Grosso do Sul e Tocantins. Esta categoria de alerta indica um risco sério para a saúde, especialmente quando o calor se prolonga por vários dias.

O aviso mantém-se, pelo menos, até terça-feira, com meteorologistas a admitirem já a possibilidade de extensão caso o padrão não se altere. Para milhões de residentes, isso significa mais dias de noites mal dormidas, ar pesado e planeamento cuidadoso em torno das horas mais quentes.

Um alerta vermelho de calor não se limita a apontar desconforto; sinaliza um aumento concreto de internamentos hospitalares e mortalidade, sobretudo entre grupos vulneráveis.

O “bloqueio” atmosférico que está a cozinhar o Brasil

Os meteorologistas atribuem o episódio ao que chamam um padrão de bloqueio atmosférico. Em termos simples, um sistema robusto de alta pressão instalou-se sobre uma grande parte do Brasil e recusa-se a deslocar. Esse sistema suprime a formação de nuvens, mantém o céu maioritariamente limpo e bloqueia a chegada de frentes mais frescas à região.

Com quase ausência de nuvens a filtrar a luz solar, a radiação atinge diretamente o solo. A terra aquece, o ar acima aquece também, e instala-se um ciclo de retroalimentação. As noites permanecem quentes, pelo que o dia seguinte começa a partir de um patamar mais elevado. Ao longo de vários dias, isto pode transformar-se numa onda de calor em grande escala.

Cientistas do clima sublinham que estes bloqueios sempre existiram, mas hoje ocorrem sobre um pano de fundo climático mais quente. Isso significa que o que antes seria um episódio forte de calor passa, com mais frequência, a território de recordes.

Riscos para a saúde aumentam à medida que o calor se intensifica

A combinação de temperaturas extremas, sol intenso e ar seco tem consequências médicas claras. Os serviços de saúde alertam para aumentos de:

  • Desidratação e exaustão pelo calor, especialmente em trabalhadores ao ar livre
  • Insolação (golpe de calor), que pode desenvolver-se rapidamente em idosos e crianças
  • Problemas respiratórios, já que o ar seco irrita as mucosas
  • Eventos cardiovasculares desencadeados pelo esforço adicional imposto ao organismo

As autoridades recomendam evitar exposição direta ao sol entre o fim da manhã e o início da tarde, beber água ao longo do dia e procurar sombra ou espaços com ar condicionado sempre que possível. Campanhas públicas pedem também que vizinhos verifiquem o estado de idosos que vivam sozinhos, pois muitas vezes subestimam os sintomas até estes se tornarem graves.

Mesmo pequenas mudanças, como beber mais um litro de água, adiar o exercício para depois do pôr do sol ou fechar estores ao meio-dia, podem reduzir o risco individual durante uma onda de calor.

Especialistas em medicina recomendam atenção a sinais precoces: dor de cabeça, tonturas, náuseas, fadiga excessiva e confusão não devem ser desvalorizadas como “apenas calor”. Trabalhadores da construção, entregas e atividades informais na rua enfrentam exposição particular, pois frequentemente têm acesso limitado a áreas frescas para descanso.

Quem enfrenta o risco mais elevado?

Nem todas as pessoas enfrentam o mesmo grau de perigo em temperaturas elevadas. Alguns grupos aparecem de forma consistente entre as hospitalizações relacionadas com o calor:

Grupo Porque o risco aumenta
Idosos Menor capacidade de regular a temperatura corporal e presença frequente de doenças crónicas.
Crianças e bebés Corpos mais pequenos aquecem mais depressa e dependem de adultos para gerir a hidratação.
Pessoas com doença cardíaca ou pulmonar O calor aumenta a carga sobre os sistemas cardiovascular e respiratório.
Trabalhadores ao ar livre Exposição prolongada ao sol, muitas vezes com descanso ou sombra limitados.
Residentes em habitação informal Telhados e paredes que retêm calor, com pouca isolação e sem arrefecimento.

As alterações climáticas tornam o calor extremo menos “excecional”

O Brasil está numa zona sensível do clima onde se cruzam humidade tropical, desflorestação e crescimento urbano. Nos últimos anos, investigadores associaram um número crescente de eventos de calor extremo na América do Sul ao aquecimento global impulsionado por emissões de gases com efeito de estufa.

Estudos mostram que ondas de calor que antes ocorriam talvez uma vez em várias décadas agora se repetem em poucos anos. A urbanização amplifica este fenómeno, pois asfalto, betão e metal armazenam calor no que se conhece como efeito de ilha de calor urbana. Bairros com poucas árvores podem registar temperaturas noturnas vários graus acima das zonas mais verdes.

Para cidades como São Paulo e Rio, isto cria camadas sobrepostas de risco: as alterações climáticas elevam a linha de base, enquanto o crescimento urbano rápido molda bolsas locais de calor extremo. Comunidades mais pobres, frequentemente empurradas para as áreas mais quentes e com menos sombra, suportam uma parte desproporcionada do impacto.

Cada vez mais, meteorologistas descrevem estes episódios não como acidentes raros, mas como uma antevisão de como poderão ser os verões a meio do século sem cortes mais profundos nas emissões.

Como as cidades estão a tentar adaptar-se

Embora grande parte da atenção continue focada nas previsões diárias, governos locais estão, lentamente, a construir planos de resposta ao calor. Algumas cidades começaram a:

  • Abrir edifícios públicos, como bibliotecas ou centros comunitários, como abrigos de arrefecimento
  • Reforçar programas de plantação de árvores ao longo de ruas e corredores de autocarros
  • Ajustar horários escolares ou atividades desportivas durante as horas de maior calor
  • Emitir alertas por SMS e rádio quando os valores do índice de calor sobem

Estas medidas podem parecer modestas, mas podem reduzir visitas hospitalares e mortes nos piores dias. Especialistas em saúde pública defendem que o calor deve ser tratado com a mesma seriedade que chuva intensa ou cheias, com protocolos claros e comunicação em tempo real.

O que a onda de calor atual significa para as escolhas do dia a dia

Para muitos brasileiros, a preocupação imediata é mais prática do que política: como atravessar os próximos dias com acesso limitado a ar condicionado, transportes públicos sobrelotados e contas de energia a subir. Estratégias simples podem fazer uma diferença mensurável ao nível das famílias.

Sombrear janelas com cortinas, manter luzes e aparelhos desnecessários desligados durante o dia, usar ventoinhas para movimentar o ar em vez de depender apenas de equipamentos de arrefecimento e planear tarefas ao ar livre para a manhã cedo ou fim da tarde ajuda a reduzir o esforço físico.

Os médicos também sublinham a importância de planear a hidratação. Esperar até sentir sede tende a ser tarde demais em calor extremo. Beber pequenos goles de água com regularidade, evitar consumo elevado de álcool e optar por refeições mais leves pode aliviar a carga sobre o organismo.

Esta onda de calor surge como mais um lembrete de que temperaturas extremas já não pertencem a cenários distantes em relatórios climáticos. Pelo contrário, moldam as escolhas que os brasileiros fazem sobre horários de trabalho, desenho de edifícios, sombra nas ruas das cidades e investimento em sistemas de alerta precoce. Cada episódio, incluindo este dezembro de recordes, acrescenta novos dados que irão influenciar a forma como o país tentará manter-se fresco nos próximos anos.

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