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Os jardineiros cometem todos os anos o mesmo erro no outono com as folhas, e especialistas dizem que isso prejudica o solo mais do que se pensa.

Pessoa a jardinar, plantando flores coloridas num jardim com folhas de outono. Balde e ferramentas ao lado.

A ancinho range suavemente no caminho enquanto uma mulher de camisola vermelha puxa mais um monte de folhas estaladiças e douradas na direção de um grande saco preto.

Sente-se ao longe um leve cheiro a fumo: outra pessoa está a “arrumar” o jardim para o inverno. A relva parece mais limpa a cada passada. Arrumada. Nua. Quase um pouco orgulhosa.

Ela pára, limpa a testa e olha para as árvores, que continuam a deixar cair uma chuva lenta e silenciosa de folhas. Mais um fim de semana de trabalho. Mais alguns sacos a caminho do ecoponto. Parece a coisa certa a fazer, a coisa responsável. Um jardim limpo tem de ser um jardim saudável, certo?

O que ela não vê é o que está a acontecer a apenas alguns centímetros abaixo da superfície da sua relva perfeita. Ou melhor: o que já não está a acontecer.

Porque é que varrer tudo “a limpo” está, silenciosamente, a danificar o seu solo

Todos os outonos, jardins por toda a Grã-Bretanha e além repetem o mesmo ritual. Sacos de folhas acumulam-se nos passeios, os compostores transbordam e os centros de jardinagem vendem mais ancinhos do que quase qualquer outra ferramenta. É quase uma performance sazonal: as árvores largam, os humanos apagam.

Da rua, esses jardins impecáveis e “despidos” parecem “bem tratados”. O solo, por outro lado, acabou de perder o seu casaco de inverno. O que aos nossos olhos parece arrumação, para a vida lá em baixo soa mais a despejo. Minhocas, escaravelhos, fungos, bactérias - todos perdem, numa só varridela, o seu abrigo natural e a sua despensa.

A parte estranha? Muitos destes jardineiros passam o resto do ano a comprar melhoradores de solo e fertilizantes para corrigir precisamente os problemas que a limpeza de outono criou, discretamente.

Numa tarde chuvosa de novembro em Surrey, a ecóloga do solo Claire Harris percorre uma fila de jardins suburbanos. Dois relvados lado a lado contam uma história pequena e brutal. À esquerda: relva curta, quase sem folhas, bordos bem recortados. À direita: um tapete mais macio, um pouco desarrumado, de folhas juntadas nos cantos e por baixo de arbustos.

Claire ajoelha-se em cada relvado com uma pequena ferramenta metálica e levanta cuidadosamente uma fatia. Debaixo do relvado arrumado, a terra é pálida e um pouco compactada. Apenas uma minhoca se contorce no corte. Do lado “desarrumado”, o solo é mais escuro, esfarelado, cheio de raízes finas e vida a mexer. Ela conta nove minhocas na mesma área.

Num estudo informal nos EUA, jardins urbanos que deixavam alguma folhada tinham até 70% mais minhocas do que aqueles limpos de forma obsessiva. Isto não é apenas uma estatística simpática. As minhocas arrastam literalmente as folhas para dentro do solo, transformando resíduos em estrutura, poros de ar e nutrientes. Retire as folhas e estará a pôr a sua força de trabalho em fome.

Então o que está realmente a acontecer quando arrancamos até à última folha do relvado e dos canteiros? No nível mais simples, quebramos um ciclo que a natureza tem mantido há milhões de anos. As árvores retiram nutrientes do solo para crescerem folhas. Essas folhas caem, decompõem-se e, lentamente, alimentam o solo de novo. Nós interrompemos esse ciclo com um saco do lixo.

Sem esse gotejar lento e constante de matéria orgânica, o solo empobrece ano após ano. Retém menos água. Tem mais tendência a rachar no verão e a formar poças no inverno. As raízes lutam. Os micróbios que protegem as plantas de doenças têm menos para comer. Tendemos a culpar o “mau tempo” ou “plantas fracas”, quando o verdadeiro problema é uma fome de longo prazo no próprio chão.

Grande parte do que chamamos “boa jardinagem” baseia-se, na verdade, em manter tudo artificialmente nu.

A forma inteligente de lidar com as folhas: o que fazer em vez de deixar tudo a descoberto

Também não é esse o objetivo: deixar o jardim, até à primavera, coberto por uma manta completa, grossa e molhada de folhas sobre a relva. Há um meio-termo que mantém a relva e o solo satisfeitos. Pense menos em “deixar a confusão” e mais em reorganizar recursos gratuitos.

Comece por juntar as folhas do relvado principal - mas não as tire do jardim. Leve-as para as bases das árvores, para debaixo de sebes, ou para canteiros onde as plantas perenes secam todos os anos. Espalhe-as numa camada solta de 5–8 cm. Este edredão fino protege o solo, alimenta-o lentamente e ainda permite a circulação de ar.

O excedente pode ir para uma simples estrutura de folhada (leaf mould) feita com quatro estacas e alguma rede, ou com paletes velhas. Empilhe as folhas, deixe a chuva do inverno fazer o trabalho e, num ou dois anos, terá um material escuro e esfarelado que funciona como um composto suave, à maneira da floresta.

Há uma grande mudança mental que ajuda: pare de tratar cada folha como um problema a eliminar. Trate-as como uma moeda em que o seu jardim acabou de ser pago. No momento em que as ensaca e as deita fora, começa a pagar juros mais tarde em fertilizantes, composto e tempo.

As dúvidas comuns aparecem todos os outonos. “Não vão matar a relva?” “E as lesmas?” “Não fica com mau aspeto?” São preocupações reais, não são tontas - e a maioria tem respostas simples, humanas.

Uma camada grossa e compacta pode, de facto, sufocar a relva durante meses. Por isso faz sentido retirar a maior parte da folhada da área aberta do relvado. Mas uma leve dispersão não mata um relvado saudável. É como na natureza: os prados não desaparecem todos os outonos. Quanto às lesmas: elas gostam de esconderijos húmidos, mas o mesmo acontece com ouriços-cacheiros, escaravelhos e insetos úteis que comem pragas. O equilíbrio importa muito mais do que a eliminação total.

E a questão da “desarrumação” é profundamente emocional. Numa rua pequena, ninguém quer ser o vizinho com um jardim que parece abandonado. O truque é criar bolsos de “selvajaria intencional”. Mantenha bordos limpos ao longo dos caminhos, talvez uma faixa nítida à volta dos canteiros, e deixe mais folhas acumularem-se mais para dentro. Ordem nas margens, vida no meio.

O designer de jardins James Fuller diz-o sem rodeios:

“O solo não quer saber se o seu jardim fica bem no Instagram. Quer saber se é alimentado. As folhas são a refeição mais natural que lhe pode dar, e são gratuitas. Deitá-las fora é como deitar as compras ao lixo à porta de casa.”

Para quem gosta de uma lista prática, aqui fica uma forma simples de transformar as folhas deste ano num solo melhor no próximo:

  • Junte as folhas do relvado principal, dos caminhos e dos ralos, mas mantenha-as na sua propriedade, se puder.
  • Espalhe uma camada leve (5–8 cm) sob árvores, arbustos e em canteiros de horta vazios.
  • Triture algumas com o corta-relva para acelerar a decomposição e reduzir o aspeto “desarrumado”.
  • Monte uma estrutura básica para leaf mould e vá enchendo-a ao longo da estação.
  • Deixe pelo menos um canto tranquilo do jardim um pouco mais selvagem como habitat de inverno.

Uma pequena escolha de outono que molda, em silêncio, o futuro do seu jardim

Quando passa a ver as folhas como parte de um ciclo, em vez de lixo sazonal, todo o ritmo do outono muda. A primeira grande queda de cor não é o início de uma corrida para limpar: é o jardim a reabastecer a sua própria despensa. Começa a reparar que o solo fica mais escuro debaixo das sebes, que o musgo avança onde tudo foi raspado durante anos.

Num domingo frio, pode continuar a dar por si com um ancinho na mão, mas o objetivo muda. Já não está a “livrar-se” de nada. Está a mover. A redistribuir. A preparar o palco para que minhocas, fungos e raízes façam o seu trabalho silencioso de inverno enquanto você está dentro de casa com uma caneca de chá. Sejamos honestos: ninguém faz realmente isto todos os dias, e não faz mal.

Todos já tivemos aquele momento em que olhamos para o relvado impecável e nu de um vizinho e sentimos uma pontinha de culpa por ainda haver folhas a farfalhar nos nossos canteiros. E se essa culpa estiver ao contrário? E se o jardim ligeiramente salpicado de folhas estiver, discretamente, a construir resiliência, enquanto o limpo vive a crédito e a fertilizante comprado?

Mudar um hábito - não ensacar todas as folhas - não resolve todos os problemas do solo de um dia para o outro. Ainda assim, é uma daquelas mudanças de baixo esforço e grande impacto que ecoam durante anos. Solo mais rico significa raízes mais profundas, menos pânicos de rega no verão, menos compactação, melhor drenagem e plantas que aguentam um inverno duro sem drama.

Talvez neste outono, a verdadeira experiência não seja uma nova variedade de tulipa ou mais um canteiro elevado. Talvez seja apenas escolher deixar um pouco mais no chão, confiar que o seu jardim sabe o que fazer com a sua própria queda sazonal. A saúde do próximo ano está, neste momento, discretamente aos seus pés - seca, enrugada e fácil de ignorar.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Não retirar todas as folhas Manter uma camada leve sob árvores, sebes e canteiros Melhora a fertilidade do solo sem trabalho extra
Criar leaf mould Guardar as folhas num contentor ou jaula simples durante 1–2 anos Obter um corretivo gratuito e suave para o jardim
Aceitar uma “limpeza” diferente Jogar com bordos nítidos e zonas mais naturais Conciliar estética, biodiversidade e saúde do solo

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Devo deixar todas as folhas no relvado? Uma camada grossa e molhada pode sufocar a relva durante o inverno. Junte a maior parte das folhas do relvado aberto, mas reutilize-as debaixo de árvores, nos canteiros ou num monte para leaf mould.
  • As folhas não vão atrair mais lesmas? Criam, sim, esconderijos, mas também apoiam predadores como escaravelhos, rãs e ouriços-cacheiros. Um jardim equilibrado e cheio de vida costuma ter menos problemas graves com lesmas ao longo do tempo.
  • Quanto tempo demora até as folhas se transformarem em leaf mould utilizável? A maioria das folhas decompõe-se num material escuro e esfarelado em 12–24 meses, dependendo do tipo de folha, da humidade e de terem sido ou não trituradas.
  • Há tipos de folhas que fazem mal ao solo? Folhas mais espessas e cerosas (como as de loureiro) decompõem-se muito lentamente e é melhor triturá-las ou compostá-las à parte. A maioria das folhas comuns de árvores de jardim é perfeitamente adequada.
  • Os meus vizinhos ensacam as folhas. O meu pequeno jardim faz mesmo diferença? Sim. Cada metro quadrado de solo que mantém cobertura orgânica retém mais água, armazena mais carbono e sustenta mais vida. Pequenos jardins somam-se numa rua, numa cidade, numa região inteira.

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