O telemóvel do motorista iluminou-se no escuro, como acontece sempre. Ping. Mais uma viagem. Sábado à noite, centro da cidade, tarifa dinâmica. Ele olhou para o ecrã, sorriu e carregou em “aceitar” quase por reflexo. Depois, de repente, surgiu um tipo diferente de notificação no painel: um anúncio a uma nova app, a prometer aos passageiros “mais barato do que a Uber” e aos motoristas “ganhos otimizados por IA”. O sorriso desapareceu. Já tinha ouvido rumores nos grupos de WhatsApp. Havia conversas no Reddit. Uma nova plataforma. Menos humanos. Mais algoritmos. E, algures no fundo da mente, lembrou-se dos velhos táxis amarelos na esquina, com os motoristas a ver os carros da Uber passar, num misto de raiva e incredulidade.
Havia qualquer coisa de brutalmente familiar na ideia de a roda voltar a girar.
Desta vez, o alvo era ele.
A nova vaga que vem atrás dos motoristas da Uber
Percorra fóruns de motoristas a altas horas da noite e sente-se isso.
Um zumbido baixo e constante de ansiedade de pessoas que passam os dias a levar outros de um lado para o outro na cidade.
Os motoristas da Uber que antes se chamavam a si próprios “o futuro” agora sussurram sobre outro futuro que vem aí para eles.
Não é apenas mais uma app a fazer exatamente o mesmo.
É algo mais frio, mais invisível: frotas autónomas, táxis robóticos e plataformas de transporte que mal precisam de humanos - se é que precisam.
Há uma ironia estranha em ver os disruptores a sentirem-se disruptados.
Quase se ouvem as mesmas piadas defensivas, a mesma fanfarronice que os táxis tinham há uma década.
Por baixo, o mesmo medo silencioso.
Veja-se São Francisco.
Os carros da Waymo, sem ninguém no banco da frente, já deslizam ao lado de Ubers nos semáforos vermelhos.
Um motorista publicou uma foto de três robotáxis em fila e escreveu: “Isto é o que se sentia ao ser taxista em 2014.”
Outro partilhou uma captura de ecrã: os ganhos da semana, cortados por uma vaga de promoções de uma nova app de viagens movida a IA.
Em Phoenix, alguns bairros já têm pessoas a pedir um carro sem motorista quase tão casualmente como pedem comida.
Crianças gravam TikToks no banco de trás de veículos sem condutor com quem conversar, sem ninguém a quem perguntar “Noite movimentada?”.
Para elas, isto é simplesmente… normal.
O choque está sobretudo do lado do motorista, atrás do para-brisas.
A lógica é brutalmente simples.
A Uber tornou o transporte mais barato e flexível ao contornar o sistema tradicional de licenças de táxi e ao usar tecnologia mais motoristas independentes.
Agora está a formar-se uma nova narrativa: cortar o motorista.
Sem baixas médicas. Sem tarifas divididas. Sem frustração quando a tarifa dinâmica desce.
Para investidores e planeadores urbanos, as frotas autónomas parecem uma folha de cálculo limpa: previsível, escalável, eficiente.
Para os motoristas, parecem um apagamento lento.
Sentem que as decisões sobre o seu sustento estão a ser tomadas em salas de reuniões que nunca verão.
E tal como os taxistas tradicionais a acenarem com cartazes impressos à porta das câmaras municipais há alguns anos, os motoristas da Uber começam a falar de greves, petições, novos sindicatos.
A roda volta a girar - só que mais depressa.
Como os motoristas podem reagir num mundo de algoritmos e robotáxis
Alguns motoristas da Uber já decidiram não esperar passivamente pela próxima disrupção.
Tratam a app como uma fase, não como um destino.
Os que dormem um pouco mais descansados fazem algo surpreendentemente simples: usam a Uber para financiar a sua saída.
Não numa fantasia dramática de “despeço-me amanhã”.
Mais como uma mudança discreta e metódica.
Acompanham as suas melhores horas, retiram uma percentagem das semanas mais lucrativas e colocam-na em algo que não dependa de uma única plataforma: um pequeno negócio local, entregas especializadas, serviços de motorista privado, rotas de shuttle de nicho, até criação de conteúdos sobre condução.
É menos glamoroso do que os anúncios de “seja o seu próprio patrão” - e muito mais real.
Há outro grupo que tenta uma estratégia diferente: apostar ainda mais no que os algoritmos não fazem bem.
Presença humana. Conhecimento local. Inteligência emocional.
Alguns motoristas constroem quase “micro-marcas” dentro da app.
O carro que tem sempre água e carregadores de telemóvel.
O motorista que conhece todos os atalhos à volta do estádio nas noites de jogo.
Aquele que se lembra de passageiros repetidos e pergunta como correu a entrevista de emprego.
Numa folha de cálculo, todos os motoristas parecem iguais.
Numa terça-feira chuvosa, depois de um dia mau no trabalho, a diferença humana pode ser enorme para o passageiro.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Mas quem o faz vezes suficientes deixa uma marca - e, por vezes, uma base fiel disposta a segui-los fora da plataforma.
Aqui está a verdade silenciosa que se ouve quando se fala com motoristas em off: a maioria nunca planeou um futuro para lá da app.
Entraram durante a corrida ao ouro.
Horários flexíveis, pagamentos diários, sem um chefe a respirar-lhes no pescoço.
Agora vem aí uma nova vaga, e os motoristas que se adaptam são os que aceitam que a Uber sempre foi uma ferramenta, não uma rede de segurança.
“Usei a Uber para comprar a minha liberdade”, disse-me um motorista de Londres. “Não para a alugar para sempre.”
À volta desta mudança, algumas medidas práticas repetem-se:
- Diversificar plataformas em vez de depender totalmente de uma única app.
- Usar conhecimento de picos de eventos (concertos, aeroportos, desporto) para criar listas privadas de clientes fora da app.
- Transformar passageiros repetidos em clientes diretos para viagens para o aeroporto ou deslocações regulares.
- Investir numa competência que não dependa do mesmo algoritmo - de contabilidade a programação ou detalhamento automóvel.
- Falar com outros motoristas presencialmente, não apenas em discussões zangadas online.
Isto não são balas de prata.
São pequenos passos humanos num sistema que muitas vezes parece mecânico.
Também enviam uma mensagem subtil: os motoristas são mais do que pontos num mapa.
O que esta mudança diz sobre todos nós
Quando vimos taxistas a protestar contra a Uber há alguns anos, muitos de nós encolhemos os ombros.
Sistema antigo, sistema novo.
É assim que o progresso funciona, certo?
Agora os motoristas da Uber começam a soar exatamente como esses mesmos táxis.
Concorrência desleal.
Corrida para o fundo.
Demasiado poder nas mãos de uma ou duas plataformas.
Numa noite calma, presos no trânsito, alguns admitem o pensamento desconfortável: se eu aplaudi a disrupção naquela altura, tenho mesmo direito de me queixar agora?
A pergunta fica suspensa entre o banco da frente e o de trás.
A chegada dos carros autónomos e das apps de viagens movidas a IA não é apenas uma história de tecnologia.
É um espelho.
Cada vez que tocamos em “pedir” e escolhemos a opção mais barata, mais rápida, sem fricção, votamos discretamente por um mundo com menos humanos no circuito.
No ecrã, isso parece conveniente.
Na vida real, corrói lentamente a camada humana - confusa, imperfeita, por vezes irritante - que dá textura às cidades.
Num dia mau, o motorista falador pode ser a única conversa verdadeira que alguns passageiros terão.
Tire isso e algo invisível desaparece, mesmo que a viagem continue a chegar a horas.
A um nível mais profundo, a saga Uber–táxi–robotáxi é apenas uma versão comprimida do que está a acontecer em dezenas de profissões.
Redatores a ver rascunhos de IA.
Caixas substituídos por self-checkout.
Apoio ao cliente transferido para bots.
Uma vaga substitui outra, e cada novo grupo diz: “Mas desta vez é diferente.”
Raramente é.
A questão não é se a disrupção vai parar.
É até que ponto estamos dispostos a proteger os humanos dentro dela - incluindo aqueles que só vemos durante 15 minutos, pelo espelho retrovisor.
Da próxima vez que o seu motorista olhar nervosamente para uma notificação estranha no ecrã, vai perceber um pouco melhor o que lhe passa pela cabeça.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| A nova vaga depois da Uber | Frotas autónomas e apps de viagens movidas a IA posicionam-se como “mais baratas, mais inteligentes do que a Uber”. | Ajuda a antecipar como as suas viagens - e as pessoas que o conduzem - podem mudar. |
| Estratégias dos motoristas | Alguns motoristas usam a Uber como trampolim: poupam, constroem carteira de clientes privados ou aprendem novas competências. | Oferece ideias práticas se o seu próprio emprego estiver no caminho da automação. |
| Impacto na sociedade | Cada clique em “mais barato, mais rápido” empurra o sistema para menos humanos e mais automação. | Convida-o a questionar as escolhas diárias e o futuro do trabalho na sua cidade. |
FAQ
- Quem está exatamente “a vir atrás” dos motoristas da Uber? Principalmente empresas de veículos autónomos e novas plataformas de mobilidade que dependem fortemente de IA para otimizar preços, rotas e utilização de frotas, com muito menos motoristas humanos a longo prazo.
- Os robotáxis são mesmo uma ameaça, ou é só hype? Hoje estão limitados a algumas cidades, mas cada piloto bem-sucedido dá mais confiança aos investidores e pressiona os reguladores a considerar uma implementação mais ampla.
- A própria Uber vai substituir os seus motoristas por carros autónomos? A Uber já fez experiências com autonomia e é provável que faça parcerias com - ou integre - frotas autónomas onde isso fizer sentido financeiro.
- O que podem os motoristas atuais fazer realisticamente agora? No curto prazo, podem diversificar apps, afinar o conhecimento local e construir relações diretas com clientes; no longo prazo, podem tratar a condução como uma ponte de financiamento para outra competência ou negócio.
- Como passageiro, as minhas escolhas importam mesmo? Sim: onde gasta o seu dinheiro empurra as plataformas para modelos centrados em humanos ou totalmente automatizados, sobretudo quando favorece ou evita certas opções de forma consistente.
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