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Para pagar a dívida, Milei propõe lei para usar dólares que argentinos guardam em casa.

Homem e mulher a contar dinheiro numa mesa com um smartphone, planta, chávena e caderno ao lado.

O país encontra-se agora numa encruzilhada familiar, onde a desconfiança nos bancos se cruza com uma necessidade desesperada de moeda estrangeira, e uma nova lei arrojada tenta fazer a ponte entre esses dois extremos.

Uma nação sentada sobre dólares enquanto o Estado fica a seco

Durante décadas, os argentinos trataram o dólar norte-americano como uma ferramenta de sobrevivência e não como uma simples moeda. Cada choque inflacionista, cada congelamento bancário, cada desvalorização levou as famílias a guardar mais notas de dólar em casa, em cofres, ou no estrangeiro. Esse hábito defensivo molda hoje toda a paisagem económica do país.

Segundo estimativas oficiais, os argentinos detêm cerca de 251 mil milhões de dólares em poupanças, na sua maioria em numerário ou em contas não declaradas. Esta montanha de riqueza privada contrasta fortemente com o frágil balanço do Estado. As reservas brutas do Banco Central rondam os 41 mil milhões de dólares, grande parte já comprometida ou onerada. O país é, na prática, rico em dólares nos bolsos privados e pobre em dólares ao nível institucional.

Os “dólares debaixo do colchão” equivaleriam a seis vezes as reservas brutas da Argentina, se entrassem no sistema formal.

Javier Milei, o economista libertário que venceu a presidência com uma plataforma radical pró-mercado, vê esses dólares escondidos como a peça em falta no seu plano de estabilização. Com reembolsos pesados a aproximarem-se em 2026, sobretudo ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e a detentores privados de obrigações, a sua equipa argumenta que a Argentina não pode depender apenas de ajuda externa. As poupanças internas têm de desempenhar um papel.

A lei da “presunção de inocência fiscal”: como funciona

A nova lei, apresentada como o diploma da “presunção de inocência fiscal”, procura alterar o cálculo risco–benefício de quem mantém moeda não declarada. Em vez de ameaçar com auditorias e penalizações, o governo quer tranquilizar e oferecer um caminho de regresso ao sistema bancário.

Limiares de depósito mais elevados com menos perguntas

Pelas regras existentes, os indivíduos que colocam grandes montantes de dólares no sistema financeiro formal têm, em geral, de justificar a origem dos fundos, enfrentando potenciais consequências fiscais e legais. O novo enquadramento eleva de forma acentuada o limiar anual - antes em torno de 70.000 dólares - abaixo do qual os depósitos podem ocorrer com documentação mínima.

  • Tetos mais elevados para depósitos sem verificação completa da origem
  • Monitorização menos intrusiva de variações no património declarado
  • Prazos de prescrição mais curtos para alegadas infrações financeiras
  • Um novo regime fiscal que favorece a regularização em vez da punição

A mensagem é clara: traga agora os seus dólares para o sistema bancário e o Estado fará menos perguntas. Para uma população com receio da autoridade fiscal e traumatizada por confiscos do passado, este tom mais suave representa uma mudança visível.

Controlos mais suaves, memórias mais curtas para infrações passadas

A lei também reduz o período durante o qual a autoridade tributária e os procuradores podem perseguir certos crimes financeiros. Essa alteração, na prática, traça uma linha sobre irregularidades mais antigas, dando aos aforradores maior conforto de que o comportamento de ontem não gerará automaticamente problemas amanhã se regularizarem hoje.

Ao mesmo tempo, a lei introduz um regime de monitorização mais leve sobre mudanças no património pessoal. Em vez de tratar cada aumento de ativos declarados como suspeito, cria uma escala mais flexível que deverá tornar a divulgação voluntária menos intimidadora.

O governo aposta que a clemência de hoje fará crescer a base tributária amanhã e, crucialmente, alimentará o Banco Central com dólares reais.

Prazos da dívida em 2026: porque é que o timing importa

A Argentina continua a ser o maior devedor do FMI e enfrenta um conjunto denso de datas de reembolso em 2026, incluindo obrigações a instituições multilaterais e a credores privados. Servir essa dívida exige moeda forte, não pesos, e as ferramentas habituais - novos programas do FMI, novas emissões obrigacionistas, empréstimos bilaterais - parecem frágeis ou politicamente dispendiosas.

Washington sinalizou apoio com uma proposta de assistência de 20 mil milhões de dólares destinada a ajudar a Argentina a cobrir parte do seu défice de financiamento externo e a aliviar a pressão sobre a economia. Esse apoio, se se materializar sob condições claras, não resolveria totalmente o problema. Funcionaria em paralelo com o esforço interno de Milei para mobilizar poupanças privadas e reconstruir credibilidade junto dos mercados.

Fonte de dólares Montante aproximado Nível de controlo
Poupanças das famílias e privadas (sobretudo numerário) 251 mil milhões USD Baixo – largamente informal
Reservas brutas do Banco Central 41 mil milhões USD Elevado – sob controlo do Estado
Potencial pacote de apoio dos EUA 20 mil milhões USD Condicional – associado a reformas

O contraste entre o entesouramento doméstico e a escassez oficial sustenta toda a estratégia: se apenas uma fração dos 251 mil milhões entrasse nos bancos, a Argentina poderia aliviar controlos cambiais, estabilizar o peso e enfrentar 2026 com maior margem de manobra.

Uma desconfiança profunda que nenhuma lei apaga de um dia para o outro

Ainda assim, o plano esbarra numa barreira psicológica. Muitos argentinos ainda se lembram do “corralito” de 2001–2002, quando os depósitos bancários foram congelados e parcialmente convertidos de dólares em pesos desvalorizados. Esse trauma deixou uma cicatriz profunda e criou uma cultura de autodefesa face ao sistema financeiro.

Sempre que um novo governo prometeu estabilidade, a inflação regressou. Cada tentativa de “consertar” o peso acabou por conduzir a nova desvalorização ou a controlos de capitais. As famílias responderam reforçando a aposta em dólares em numerário, muitas vezes literalmente debaixo dos colchões ou em cofres escondidos.

Convencer as pessoas a inverter esse comportamento exigirá mais do que ajustes legais. Exigirá tempo, regras previsíveis e provas de que esta administração não confiscará poupanças nem imporá restrições-surpresa quando a pressão aumentar.

Muitos agregados familiares confiam mais numa nota de dólar numa gaveta do que em qualquer garantia oficial escrita em papel.

Potenciais vantagens para os aforradores comuns

Para quem estiver disposto a dar o passo, a lei oferece benefícios tangíveis. Dólares depositados em bancos regulados podem render juros modestos, beneficiar de certas garantias de depósitos e permitir acesso mais fácil a pagamentos internacionais ou investimentos. Num ambiente de elevada criminalidade, retirar grandes somas do numerário físico também reduz riscos de segurança em casa.

Alguns argentinos poderão ver uma oportunidade para regularizar fundos a um custo fiscal relativamente baixo e depois diversificar em instrumentos ligados a ativos externos, imobiliário ou obrigações em dólares. Para eles, a lei pode funcionar como uma folha limpa, sobretudo se herdaram ou acumularam numerário durante anos de incerteza.

Riscos, lacunas e tensão política

Os críticos alertam que o novo regime pode servir não apenas pequenos aforradores, mas também agentes de maior dimensão que pretendam “branquear” fundos duvidosos. A elevação dos limiares e a redução dos prazos de prescrição poderiam, na sua perspetiva, enfraquecer o combate ao branqueamento de capitais e à evasão fiscal.

Líderes da oposição e alguns economistas também questionam se pessoas suficientes confiarão na experiência de Milei para produzir um impacto real. Se apenas uma parte limitada dos 251 mil milhões entrar nos bancos, o ganho em reservas do Estado pode manter-se modesto, enquanto o custo político de uma perceção de permissividade perante crimes financeiros pode ser elevado.

Num Congresso fragmentado, a medida encaixa num impulso mais amplo de Milei para desregular a economia, cortar despesa pública e abrir mercados. Essa agenda já alimenta protestos de rua e contestação judicial. Qualquer perceção de que o governo favorece aforradores ricos ou fundos offshore em detrimento dos trabalhadores pode intensificar a reação.

O que isto sinaliza aos investidores globais

Os mercados globais observam a Argentina à procura de sinais de que o país está, finalmente, a tentar alinhar o comportamento doméstico com as necessidades macroeconómicas. Uma transferência bem-sucedida de dólares para o sistema formal reforçaria os bancos, aprofundaria o mercado de capitais local e reduziria o medo constante de uma crise de balança de pagamentos.

Os investidores estrangeiros, no entanto, também avaliarão a consistência. Observarão como as autoridades fiscais aplicam as novas regras na prática, se o Banco Central mantém metas claras e como o governo gere a taxa de câmbio quando as reservas melhorarem. Qualquer reversão abrupta de políticas ou novo controlo poderá voltar a prejudicar a credibilidade.

Um conceito útil: “repressão financeira”

O caso argentino ilustra também um conceito mais amplo: repressão financeira. Quando os Estados limitam taxas de juro, impõem controlos de capitais rígidos ou dependem fortemente da inflação para reduzir dívida, as famílias procuram formas de proteger a sua riqueza fora do sistema formal. Entesourar moeda estrangeira, comprar ouro ou transferir poupanças para o estrangeiro são respostas típicas.

A lei de Milei tenta ir na direção oposta: aliviar constrangimentos, reduzir o medo e persuadir os aforradores a operarem dentro do sistema. Se essa mudança se consolidar dependerá de quão consistentemente o seu governo resiste à tentação de voltar a ferramentas antigas - conversões forçadas, impostos súbitos ou inflação encoberta - quando chegar o próximo choque.

Para leitores fora da Argentina, a situação oferece um exemplo concreto de como grandes poupanças “informais” podem coexistir com um Estado que tem dificuldade em pagar as suas contas. Mostra também por que razão a confiança, uma vez quebrada entre cidadãos e bancos, se torna uma das moedas mais raras em qualquer economia, muito mais difícil de reconstruir do que as reservas em moeda estrangeira.

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