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Pescadores furiosos acusam orcas de manipularem tubarões para atacarem violentamente o seu barco numa cena assustadora no mar.

Homem num barco observa duas orcas nadando ao lado, com sol poente e mar azul ao fundo.

Ao meio da tarde, o VHF estalava com meias-piadas sobre a «época das orcas» e cascos riscados - aquele humor negro que os pescadores usam quando, no fundo, estão inquietos. Depois, o primeiro tubarão embateu no barco como uma marreta a balançar, fazendo voar café, facas e impropérios pelo convés. Por cima do caos, barbatanas dorsais negras cortavam a água em círculos lentos, apenas o suficiente para ficarem fora de alcance. A tripulação jurou que as orcas estavam a conduzir os tubarões diretamente contra eles, usando os predadores como armas vivas. Um medo antigo encontrou um pesadelo muito moderno. E, de repente, o oceano pareceu ter mudado de lado.

«Usaram os tubarões contra nós»: um dia gelado no mar

A história começa com um som que nenhum pescador esquece: o estalido profundo, a bater nos ossos, de algo pesado a atingir o casco. A tripulação de um pequeno barco comercial ao largo da costa diz que o ouviu três vezes antes de perceber o que estava a acontecer. Não era um tronco. Não eram detritos. Era um tubarão, a atirar-se contra a embarcação com uma força violenta, quase rítmica. Ali mesmo ao lado, um par de orcas veio à superfície, expelindo jatos brancos e curtos, e voltou a afundar-se na água verde-escura como se estivesse à espera de uma reação.

No rádio, as vozes passaram das piadas para atualizações curtas e sem fôlego. Um capitão ali perto observou à distância o barco a baloiçar de forma brusca, a proa a rodar desajeitadamente na ondulação. Mais tarde, descreveu ter visto pelo menos três tubarões a cirandar apertado à volta do casco, enquanto duas orcas acompanhavam a cena num círculo mais amplo. Não era um frenesim de alimentação. Não havia sangue óbvio na água, nem aquela explosão de espuma à superfície. Em vez disso, parecia quase organizado, como se cada animal tivesse um papel. Os pescadores a bordo, encharcados e a tremer, sentiram-se menos como caçadores e mais como alvos na experiência de alguém.

Os especialistas em comportamento marinho são cautelosos com a palavra «experiência», mas admitem que algo invulgar está a acontecer. Nos últimos três anos, multiplicaram-se os relatos de orcas a interagir de forma agressiva com embarcações, sobretudo no Atlântico Norte e nos oceanos do hemisfério sul. Alguns encontros envolvem abalroamentos diretos por parte das orcas. Outros, como este, incluem tubarões a comportarem-se de maneira anormal enquanto as orcas permanecem por perto. Os cientistas sublinham que ainda há poucos dados sólidos e que a natureza não «conspira» no sentido humano. Ainda assim, as orcas são conhecidas por estratégias de caça criativas, transmitidas culturalmente entre grupos. Junte-se isso a populações de tubarões sob pressão e a temperaturas da água em mudança, e obtém-se um quadro selvagem e inquieto: predadores a adaptar-se mais depressa do que os humanos conseguem compreender.

Como os pescadores estão a mudar o comportamento no mar

Na manhã seguinte, no cais, o ambiente é parte raiva, parte recalibração silenciosa. O capitão cujo barco levou os embates agora faz exercícios de segurança que antes saltava. Os coletes salva-vidas ficam presos e à mão, não enterrados debaixo do equipamento. Os rádios são verificados duas vezes antes de largar do pontão. Ele também mudou as rotas, evitando zonas conhecidas por atividade de orcas e desníveis profundos onde os tubarões tendem a circular. Em dias calmos, essa escolha custa-lhe dinheiro. Em dias de mar grosso, diz que é a única opção sensata que resta.

Alguns barcos passaram a levar kits simples de dissuasão: tubos metálicos para bater no casco, colunas à prova de água que emitem ruído de baixa frequência para dentro do mar, até luzes estroboscópicas fortes para saídas noturnas. Nada disto é infalível, e toda a gente o sabe. Ainda assim, ter um plano é melhor do que esperar em silêncio por outro impacto invisível. As tripulações discutem cenários de «se acontecer isto, então fazemos aquilo» ao café: o que fazer se um tubarão danificar o leme, quão depressa emitir um mayday, quem fica no interior e quem vigia o convés. Não é uma mentalidade de pânico. É uma aceitação silenciosa, dura e conquistada - a de que as regras de envolvimento com o mar estão a mudar.

As autoridades marítimas recomendam uma mistura de marinharia à moda antiga e uma nova consciência situacional. Manter distância de qualquer grupo de orcas, mesmo que pareçam brincalhonas. Desligar o motor ou alterar o rumo se tubarões grandes começarem a circundar o casco repetidamente. Evitar lançar restos de peixe ao mar, onde os predadores possam associar barcos a refeições fáceis. Nenhuma destas medidas «controla» predadores selvagens. Inclinam as probabilidades. Num mundo em que as tempestades são mais fortes e as migrações menos previsíveis, esses pequenos empurrões contam mais do que nunca. Os pescadores que se adaptarem mais depressa talvez não sejam os mais valentes ou os mais audazes - apenas os que aceitam que o oceano está a reescrever o seu próprio manual.

Medo, raiva e o novo pacto inquieto com o oceano

Para muitas tripulações, o impacto emocional pesa mais do que os danos físicos. Alguns destes pescadores trabalharam nas mesmas águas durante trinta anos sem um único encontro perigoso com orcas. Agora, repetem na cabeça o estrondo dos tubarões no aço quando tentam adormecer. O seguro não paga isso. Nem paga o momento em que um adolescente no seu primeiro ano no mar agarra o corrimão com os nós dos dedos brancos e percebe que o barco não é a maior nem a mais dura coisa lá fora. Num pequeno cais, a palavra corre depressa, e cada história recontada fica um pouco mais afiada nas bordas.

Há uma culpa estranha misturada na fúria. Estes homens e mulheres vivem do oceano, mas também o amam com uma lealdade teimosa, quase irracional. Quando se queixam de orcas «armadas» ou de tubarões fora de controlo, não estão a pedir abates nem perseguições. Estão a perguntar por que razão o equilíbrio parece estar errado. Muitos suspeitam que a sobrepesca, o aquecimento das águas e a redução das presas estão a empurrar os predadores de topo para comportamentos mais arriscados e mais «experimentais». A nível humano, isso não torna uma saída noturna em mar grosso mais segura. Mas complica a vontade de ver os animais como vilões. E, num nível muito real, toda a gente ali fora está apenas a tentar não passar fome.

Um mestre veterano, mãos roídas por queimaduras de corda e óleo de motor, encolhe os ombros ao resumir:

«As orcas não são más, os tubarões não estão loucos. Estão com fome e são inteligentes. Nós é que mudámos as regras e esquecemo-nos de que o tínhamos feito.»

Por detrás dessa frase crua há um conjunto mais silencioso de verdades:

  • Os pescadores estão a repensar rotas e épocas, não por escolha, mas por necessidade.
  • Os cientistas correm para interpretar novos padrões com dados e financiamento limitados.
  • As comunidades costeiras sentem-se presas entre objetivos de conservação e sobrevivência.

A nível pessoal, a parte mais difícil é a espera: ver uma barbatana negra surgir ao longe sem saber se significa uma observação pacífica ou mais uma história que vai parar ao noticiário da noite. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem deixar pelo caminho um pedaço da sua tranquilidade.

O próximo movimento do oceano

Nessa manhã calma, pouco antes do primeiro embate, um membro da tripulação estava a filmar o horizonte com o telemóvel, apenas para matar o tempo. Vê-se o tédio na forma como a câmara vagueia, na conversa fiada, no bater suave das ondas na amurada. Depois, uma forma escura desliza sob a superfície, mal visível, como um fantasma a roçar a borda do enquadramento. Ele nem reparou no momento. Só mais tarde pausou o vídeo e sentiu o estômago cair. A linha entre a rotina e o caos tinha uns três segundos de espessura.

Histórias como esta espalham-se mais depressa do que artigos científicos. Moldam a forma como as pessoas sentem o mar, como as crianças imaginam orcas e tubarões, como as vilas costeiras falam de alterações climáticas sem nunca dizerem as palavras. Nas redes sociais, alguns espectadores aplaudem os animais, chamando-lhe «vingança da natureza». Outros ficam do lado das tripulações, furiosos com o que veem como um sistema que protege mais os predadores do que as pessoas. Ambas as reações perdem parte da nuance. Ainda assim, mostram como estes confrontos tocam fundo em algo antigo - aquela mistura de assombro, medo e curiosidade teimosa quando o oceano nos lembra quem é que realmente manda no mapa.

Ninguém sabe ao certo se as orcas estão a «manipular» tubarões de forma deliberada e estratégica, ou se estamos apenas a testemunhar comportamentos sobrepostos num ecossistema sob stress. O que é claro é que acabou o tempo de pensar no mar como um cenário estático. Ele move-se, «pensa», ajusta-se mesmo à nossa frente. Da próxima vez que um barco de pesca sair sob um amanhecer cor-de-rosa, a tripulação fará piadas, beberá café, praguejará contra o preço do combustível. Depois, alguém irá perscrutar a superfície durante mais tempo do que antes, os olhos à procura de uma barbatana escura a quebrar a luz. A questão não é se os predadores estão a observar. É como escolhemos viver com esse conhecimento.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Orcas e tubarões, um duo inesperado Testemunhos descrevem tubarões a embater em barcos enquanto orcas circulam em redor Compreender por que razão estas cenas chocantes se multiplicam ao longo das costas
Pescadores na linha da frente Rotas alteradas, novos reflexos de segurança, medo difuso a bordo Ver o impacto concreto na vida de quem vive verdadeiramente o mar
Um oceano que muda as regras Pressão sobre as presas, aquecimento, comportamentos predatórios mais audazes Refletir sobre como as nossas escolhas em terra se repercutem em pleno mar

FAQ

  • As orcas estão mesmo a usar tubarões como armas contra barcos? Não há prova sólida de uma estratégia deliberada de «arma», mas vários incidentes mostram tubarões a embater em barcos enquanto orcas circulam por perto, levantando questões sérias para os cientistas.
  • Onde estão a acontecer estes encontros agressivos? A maioria dos relatos recentes vem do Atlântico Norte e dos oceanos do hemisfério sul, especialmente ao largo da Europa, da África do Sul e de partes do Noroeste do Pacífico.
  • Estes ataques podem afundar um barco de pesca? Embarcações mais pequenas podem ficar gravemente danificadas, sobretudo no leme ou no casco, embora afundamentos completos continuem a ser raros e, em regra, envolvam uma cadeia de falhas.
  • O que estão os pescadores a fazer para se protegerem? Estão a mudar rotas, a fazer mais exercícios de segurança, a levar dissuasores de ruído e luz, e a evitar áreas com atividade repetida de orcas e tubarões.
  • Isto está ligado às alterações climáticas e à sobrepesca? Muitos especialistas suspeitam que sim: mudanças nas presas, águas mais quentes e stocks esgotados podem estar a empurrar os predadores de topo para novos comportamentos mais arriscados em torno de barcos.

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