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Pessoas que preferem alimentos amargos, como café preto e chocolate negro, têm maior probabilidade de apresentar traços de personalidade anti-social.

Pessoa segurando um café a fumegar numa mesa com bloco de notas e chocolate.

A fila junto à máquina de café serpenteia pela parede, e quase dá para organizar as pessoas por tipo de personalidade só pelo que têm na chávena. Latte de baunilha com bebida de aveia, macchiato de caramelo, cappuccino afogado em espuma… e depois há aquele colega. Aquele que tira um café preto como tinta, sem açúcar, sem leite, sem conversa. Fica um pouco afastado, a fazer scroll no telemóvel, olhar alerta, rosto indecifrável.

Ao almoço, o mesmo padrão. Enquanto a maioria vai buscar um brownie ou uma bolacha, ele pede discretamente chocolate negro com 85% de cacau. Diz que “odeia coisas doces” com um encolher de ombros curto e displicente. Alguém brinca: “Gostas do café tão escuro como a tua alma, hein?” Toda a gente ri. Ele não.

A ciência diz que essa piada pode não estar assim tão longe da verdade.

Porque é que o teu gosto pelo amargo pode dizer mais sobre ti do que pensas

Há anos que os psicólogos se interessam pelo paladar - não só porque a comida é divertida, mas porque revela aquilo que raramente dizemos em voz alta. O amargo é especial. Desde pequenos, estamos biologicamente programados para rejeitar sabores amargos, porque muitas plantas tóxicas sabem assim. Por isso, quando um adulto não só tolera o amargo como o procura ativamente, os investigadores veem aí um enigma que vale a pena decifrar.

É aqui que entram o café preto, a água tónica simples, as cervejas IPA e o chocolate negro. Estes alimentos não tentam seduzir ninguém. Sem açúcar, sem natas, sem disfarces. Quem diz “gosto forte e puro” muitas vezes está a plantar uma bandeira: quer intensidade, quer dureza, quer algo que faça os outros hesitar. Não é apenas um perfil de sabor. É uma pequena encenação de personalidade servida numa chávena.

Em vários estudos realizados na Áustria e nos Estados Unidos, os participantes avaliaram o quanto gostavam de diferentes sabores: doce, salgado, ácido e amargo. Também preencheram testes de personalidade para traços como empatia, agressividade, narcisismo e psicopatia. O padrão que surgiu foi inquietante. Quem mostrava uma forte preferência por itens amargos como café preto, tónica sem adoçar e chocolate negro com elevado teor de cacau tendia a pontuar mais alto no que os psicólogos chamam educadamente de “traços de personalidade antissociais”. Falamos de mais frieza, mais prazer em manipular os outros, mais agressividade verbal e até física.

Para ser claro: é correlação, não destino. O teu hábito de espresso não te transforma num vilão. Ainda assim, os investigadores verificaram que a ligação se mantinha mesmo controlando idade e género. As pessoas que se inclinavam para o amargo tinham maior probabilidade estatística de concordar com afirmações como “tendo a manipular os outros para conseguir o que quero” ou “gosto de ver os outros sofrerem um pouco”. Não é que fossem todas monstros. Apenas estavam um pouco mais à vontade com as margens mais sombrias do comportamento humano.

Porque é que o gosto pelo amargo se pode associar a estes traços? Uma explicação é evolutiva. Doce significava energia segura; amargo significava perigo. A maioria de nós ainda guarda esse reflexo. Assim, uma forte atração pelo amargo pode refletir maior tolerância ao risco, ao desconforto e até ao conflito interpessoal. Há também um lado social: beber café preto ou comer chocolate negro intenso tornou-se uma espécie de distintivo subtil de dureza. “Não preciso de açúcar, aguento isto.” Essa postura encaixa bem em personalidades que valorizam a dominância acima da harmonia.

Há ainda a questão do controlo. Os alimentos amargos são sabores adquiridos. É preciso ultrapassar o primeiro instinto de os cuspir. Quem gosta desse processo pode sentir-se mais confortável a sobrepor-se às próprias emoções. Num teste psicológico, isso pode parecer distanciamento emocional, baixa empatia ou tendência para ver os outros como ferramentas, não como parceiros. Não significa que toda a gente que bebe café preto seja secretamente cruel. Significa que a sobreposição não é aleatória.

Como ler os “sinais do amargo” sem virar um estereótipo ambulante

Se tens curiosidade sobre o que o teu prato diz sobre ti, começa pelo lugar mais honesto: o teu comportamento real. Da próxima vez que beberes café, repara no que pedes quando não estás a tentar impressionar ninguém. És do tipo duplo-espresso, direto ao assunto quando estás sozinho, e de repente “mais um fio extra de caramelo” em grupo? Ou o contrário? É nessa diferença entre gosto privado e gosto público que a verdade costuma morar.

Também podes fazer uma pequena experiência. Durante uma semana, mantém-te fiel às tuas preferências mais puras: café preto se gostas, chocolate negro se é a tua praia, ou o latte mais doce do menu se é isso que te faz feliz. Depois observa como tratas as pessoas em dias de stress. Respostas secas? Comentários sarcásticos um pouco demasiado cortantes? Ou fazes de tudo para manter a paz? A tua reação em conflito diz mais sobre traços antissociais do que qualquer chávena alguma vez dirá.

Muita gente escreve a psicólogos a perguntar: “Eu adoro café preto, sou uma má pessoa?” Esse medo mostra a rapidez com que os títulos transformam investigação em superstição. O paladar é apenas uma peça de um puzzle enorme. O contexto importa: alguém que bebe café preto porque os lacticínios lhe fazem mal ao estômago não está a fazer uma afirmação de personalidade. Outra pessoa pode obrigar-se a gostar do amargo porque parece “sério” ou “adulto”. Está a representar uma identidade em vez de revelar uma - e essa representação pode desaparecer assim que a tendência passar.

Num plano mais profundo, a autoconsciência importa mais do que o que está na tua chávena. Podes adorar uma IPA amarga e, ainda assim, ser profundamente gentil - se reparares quando a tua irritação sobe e assumires a tua parte. O problema começa quando alguém usa o gosto como medalha de superioridade, revirando os olhos a quem gosta de doces “infantis”, gabando-se de que nada o choca. Essa atitude, combinada com a procura de sabores duros, começa a ecoar as arestas frias que os investigadores estão a mapear.

“Gostar de café preto não te torna psicopata”, disse-me um psicólogo clínico com quem falei. “Mas se também gostas de humilhar pessoas em reuniões, desvalorizas qualquer conversa emocional como ‘drama’ e, no fundo, sentes prazer em ver os outros falhar, então já não estamos só a falar do teu hábito ao pequeno-almoço.”

Para navegar tudo isto sem enlouquecer com a pop-psicologia, ajuda ter um pequeno kit de ferramentas:

  • Olha para padrões, não para escolhas isoladas: gosto, estilo de conflito, empatia, comportamento a longo prazo.
  • Pergunta a pessoas de confiança como te vivem quando estás zangado ou sob pressão.
  • Desconfia de usar preferências alimentares como marca de personalidade ou como pedestal moral.
  • Lembra-te de que a investigação mostra tendências, não sentenças pessoais.
  • Usa curiosidade em vez de vergonha quando notares impulsos mais sombrios.

Todos já tivemos aquele momento em que nos apanhamos a gostar um pouco demais de uma piada maldosa. É aí que o trabalho verdadeiro começa. Sejamos honestos: ninguém faz realmente, todos os dias, esse trabalho de autoinspeção lúcida. Ainda assim, parar para perguntar “Porque é que eu gosto desta sensação de aresta?” é muito mais útil do que entrar em pânico por adorares 90% de cacau. O amargo, na chávena ou no caráter, é um sinal. O que fazes com esse sinal é a verdadeira história.

O que significa, no dia a dia, esta estranha ligação entre café e personalidade

Quando sabes da ligação com o amargo, começas a vê-la em todo o lado: o chefe que se gaba do triplo espresso, o amigo que recusa sobremesa e chama ao açúcar “fraqueza”, o encontro que pede o vinho tinto mais seco e adstringente possível. O reflexo é julgar depressa. É aí que podes escolher, silenciosamente, abrandar. Em vez de pensares “ui, psicopata”, trata-o como uma pista que convida a uma pergunta de seguimento, não a um veredito.

Se alguém se inclina muito para sabores amargos, observa como lida com a vulnerabilidade. Desvaloriza quem fala dos próprios sentimentos? Transforma qualquer conversa séria numa piada? Ou é capaz de, ao mesmo tempo, adorar café escuro e oferecer uma presença tranquila e gentil quando as coisas apertam? O segundo grupo pode simplesmente gostar de intensidade sem precisar de magoar ninguém. O primeiro grupo - com humor cortante e zero remorsos - aproxima-se mais do aspeto real dos traços antissociais fora do papel.

A nível pessoal, esta investigação pode ser, estranhamente, libertadora. Não tens de fingir que adoras um molho de salada cheio de açúcar só para parecer “suave”. Podes admitir que adoras café preto e, na mesma frase, admitir que estás a trabalhar para não interromper as pessoas ou para não desligar emocionalmente em casa. Essa mistura de aresta e ternura é muito mais humana do que fingir doçura total. E sim, algumas pessoas vão usar a ciência como arma para se sentirem superiores por terem “gostos de adulto”. Isso diz mais sobre o caráter delas do que sobre a língua.

Então, onde é que isto deixa o teu ritual da manhã? Idealmente, com um pouco mais de curiosidade e um pouco menos de medo. As tuas papilas gustativas não são uma bússola moral, mas são um eco subtil de quão confortável estás com extremos, desconforto e fricção social. Se esse eco te parece mais alto do que gostarias, podes suavizá-lo onde importa: na forma como pedes desculpa, como ouves, como falas das pessoas quando não estão na sala. O café pode continuar preto. A tua forma de estar não tem de continuar igual.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Sabor amargo e traços antissociais Preferência marcada por café preto, tónica simples ou chocolate muito negro associada, nos estudos, a mais traços agressivos ou manipuladores Compreender o que (de facto) revelam os seus hábitos alimentares
Correlação, não destino Estas ligações estatísticas não significam que todo o amante do amargo seja perigoso, mas que existe maior probabilidade de certos traços Evitar paranoia ou julgamentos precipitados sobre si e sobre os outros
Observar o comportamento global Conflitos, empatia e forma de gerir o stress contam muito mais do que o conteúdo da chávena Usar a investigação como ferramenta de introspeção, não como rótulo fixo

FAQ:

  • Gostar de café preto significa que sou psicopata?
    Não, por si só. Os estudos mostram uma ligação estatística entre preferências por sabores amargos e pontuações mais altas em traços antissociais, mas a personalidade é moldada por muitos fatores. O seu comportamento nas relações diz muito mais do que o pedido da bebida.
  • As pessoas que gostam de doces são automaticamente mais simpáticas?
    Não. Quem prefere sabores doces por vezes pontua ligeiramente mais alto em traços como amabilidade, mas comportamentos cruéis ou egoístas existem em todos os “campos” de sabor. A bondade não depende do açúcar.
  • Posso mudar o meu gosto por alimentos amargos?
    O paladar pode mudar com o tempo, sobretudo com exposição repetida a novos sabores. Essa mudança não apaga nem cria, por magia, tendências antissociais. Trabalhar empatia e comunicação é um processo separado e mais profundo.
  • Devo preocupar-me com um amigo obcecado por bebidas amargas?
    Olhe para além do copo. Se a pessoa humilha os outros com frequência, nunca pede desculpa e sente prazer em causar desconforto, o problema não é o espresso, é o padrão. Fale com ela, estabeleça limites ou procure apoio se se sentir inseguro.
  • Porque é que estes estudos recebem tanta atenção dos media?
    Porque transformam algo quotidiano e reconhecível - café, chocolate - numa janela para o nosso “eu” oculto. É apelativo e um pouco assustador, o que dá bons títulos, mesmo quando a ciência é mais nuanceada e cautelosa.

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