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Raúl, fabricante de churros: “Despedi 6 funcionários devido aos preços e impostos. Não tenho lucro.”

Homem a fritar churros numa banca de rua, com fumo a subir e mesa com moedas e caderno. Sinais de "closed" e "open".

Por detrás do aroma reconfortante de churros acabados de fazer e chocolate quente, muitos pequenos empresários enfrentam agora uma equação dura: mais horas, custos mais altos, margens mais apertadas e menos trabalhadores na folha de pagamentos.

A história de um churreiro sem margem de manobra

Raúl gere uma churrería em Móstoles, uma cidade-dormitório nos arredores de Madrid. Durante anos, o negócio da família alimentou vizinhos a caminho do trabalho, pais na rotina escolar e trabalhadores de turnos noturnos a regressar a casa. Hoje, o mesmo negócio mal se mantém de pé.

Diz que já despediu seis funcionários e fechou dois estabelecimentos nas localidades próximas de Humanes e Getafe. Os preços da farinha, do óleo, da eletricidade e da renda subiram. As taxas locais e os impostos nacionais continuam a chegar. O que antes era um ofício modestamente lucrativo parece agora mais um exercício de sobrevivência.

Raúl afirma que, entre o aumento dos preços dos produtos, as taxas locais e os impostos nacionais, manter a churrería aberta tornou-se “insustentável”.

O impacto dessas decisões é palpável. Antigos funcionários não são apenas números numa folha de cálculo. São pessoas que ele conhece, muitas vezes famílias com crianças. Cada despedimento reduz a massa salarial, mas também fere o tecido social do seu próprio bairro.

As churrerías como âncoras do bairro

Em muitas localidades espanholas, a churrería local conta tanto como espaço social quanto como ponto de venda de comida. As pessoas encontram-se, conversam, leem o jornal e aquecem as mãos numa chávena de chocolate espesso. Vizinhos idosos falam com empregados do balcão que conhecem há décadas. Trabalhadores pegam num cartucho de churros antes de começar o turno.

Estes locais ancoram a vida quotidiana em bairros que muitas vezes carecem de outros espaços de encontro. O seu papel vai além do pequeno-almoço:

  • Oferecem guloseimas acessíveis em zonas com baixo rendimento disponível.
  • Proporcionam redes informais de apoio onde se nota quem não aparece há algum tempo.
  • Mantêm as ruas movimentadas a horas muito cedo e muito tarde, acrescentando uma sensação de segurança.

Muitos destes negócios continuam a ser familiares. As receitas passam de pais para filhos; o saber-fazer operacional transmite-se de boca em boca, não por manuais de gestão. Essa tradição ajuda a manter os preços relativamente baixos, mas deixa pouca margem quando os custos disparam.

As churrerías misturam memória, sabor e proximidade, mas por detrás de cada balcão há turnos longos, desgaste físico e burocracia complexa.

Quando a tradição encontra o aumento dos custos

O negócio de Raúl mostra como os números podem virar rapidamente. Uma churrería típica usa grandes quantidades de óleo de girassol ou azeite, ambos afetados por preços internacionais voláteis. As faturas de eletricidade para alimentar fritadeiras, frigoríficos e aquecimento aumentaram acentuadamente nos últimos anos. A renda e as contribuições para a segurança social seguiram uma tendência semelhante de subida.

Do lado da receita, o preço de uma dose de churros não pode disparar de um dia para o outro. Os clientes notam imediatamente, sobretudo em bairros operários já pressionados pela inflação. Esse atraso deixa proprietários como Raúl espremidos entre fornecedores e clientes.

Segundo o seu relato na televisão regional, agora cobre três pontos de serviço com apenas dois trabalhadores por turno, quando antes tinha quatro. Essa mudança reduz a folha salarial, mas cria novo stress. A equipa tem de trabalhar mais depressa, as pausas encurtam, e qualquer doença ou férias deixa o horário exposto.

O peso dos impostos: “até 12 000 € por trimestre”

Para Raúl, uma das rubricas mais dolorosas é o IVA. Diz que, dependendo do volume de negócios, pode pagar entre 8 000 € e 12 000 € de IVA a cada trimestre. Esses pagamentos chegam mesmo quando o lucro já encolheu quase até nada.

Tipo de custo Exemplo de impacto numa pequena churrería
Ingredientes Preços mais altos da farinha, do óleo, do açúcar e do chocolate reduzem a margem bruta por dose.
Energia Fritadeiras e arcas congeladoras funcionam muitas horas, por isso picos na eletricidade atingem rapidamente o resultado final.
Mão de obra Salários, contribuições sociais e seguros acrescentam compromissos mensais fixos.
Impostos (incluindo IVA) Faturas trimestrais de IVA até 12 000 €, além de taxas municipais e outras cobranças.

Ao contrário das grandes cadeias, pequenos cafés e churrerías raramente têm contabilistas a tempo inteiro. Os proprietários têm de tratar de recibos, declarações fiscais e conformidade depois de terminarem os turnos. Muitos começam a trabalhar antes do amanhecer e fecham tarde.

Muito antes de os clientes chegarem, os comerciantes por conta própria já passaram horas a limpar, preparar e tratar de papelada que ninguém vê.

De seis postos de trabalho perdidos a uma escassez de mão de obra mais ampla

A Espanha, como muitos países europeus, fala frequentemente de escassez de mão de obra na hotelaria. Bares e restaurantes têm dificuldade em recrutar cozinheiros, empregados de mesa e pessoal de limpeza. No papel, uma churrería despedir seis trabalhadores pode parecer uma contradição.

A realidade é mais complexa. Muitos pequenos operadores dizem que não conseguem acompanhar as expectativas salariais dos mais jovens, sobretudo quando os horários começam às 5h ou se estendem por fins de semana e feriados. Ao mesmo tempo, quando os custos sobem e a procura abranda, proprietários como Raúl reduzem a equipa apenas para conseguir manter as portas abertas.

Esta tensão empurra o setor para um ciclo difícil:

  • Custos e impostos em alta corroem os lucros.
  • Os negócios cortam pessoal ou reduzem horários para sobreviver.
  • Os trabalhadores que ficam enfrentam horários mais exigentes, o que afasta novos candidatos.
  • Os proprietários trabalham mais horas, ficando com menos tempo para estratégia ou melhorias.

Com o tempo, alguns decidem fechar definitivamente. A retirada de pequenos empregadores locais reduz as opções de trabalho precisamente nos bairros que mais delas precisam.

O que o caso de Raúl diz sobre o risco nos pequenos negócios

Gerir uma churrería pode parecer simples por fora: fritar massa, servir café, fazer o fecho de caixa. A realidade financeira está mais próxima de uma avaliação constante de riscos. Alguns meses maus de meteorologia, uma máquina avariada ou um novo concorrente na zona podem mudar o equilíbrio de “ainda dá” para “fortemente no vermelho”.

Para muitos trabalhadores por conta própria na hotelaria espanhola, um mês típico combina vários riscos:

  • Sem rendimento garantido, apenas o que a caixa mostra ao fecho.
  • Contas fixas de renda, energia e segurança social, independentemente das vendas.
  • Compromissos de longo prazo com empréstimos de equipamento ou remodelações.
  • Forte dependência do movimento local e da confiança do consumidor.

A política fiscal interage com estes riscos de forma complexa. Uma elevada cobrança de IVA num trimestre forte pode esgotar reservas de tesouraria de que o negócio precisa quando a procura abranda. Pagamentos em atraso de fornecedores ou atrasos no processamento de cartões intensificam a pressão.

Poderão modelos diferentes manter vivos os cafés de bairro?

A luta de Raúl alimenta um debate mais amplo sobre como proteger pequenos negócios enraizados no território, que dão carácter a vilas e cidades. Algumas autarquias experimentam reduzir taxas municipais para ofícios tradicionais. Outras promovem esquemas de compras conjuntas para baixar o custo dos ingredientes.

Modelos cooperativos oferecem outro caminho. Grupos de proprietários de cafés ou bares podem partilhar serviços administrativos, negociar contratos de energia em conjunto ou juntar esforços de marketing. Estas soluções não eliminam o IVA nem a renda, mas podem reduzir a fricção que hoje recai sobre cada proprietário isoladamente.

Para os clientes, pequenas escolhas também contam. Um chocolate quente habitual na mesma loja do bairro dá receita previsível. Tomar o pequeno-almoço ao balcão em vez de apenas em casa evita que o balcão fique silencioso. Multiplicados por um bairro inteiro, esses hábitos podem atrasar ou até prevenir encerramentos como os que Raúl já enfrentou.

Churreiros, padeiros e proprietários de bares estão na interseção entre cultura, comunidade e economia. O seu destino raramente faz manchetes quando comparado com despedimentos em grandes empresas, mas o seu desaparecimento muda a vida quotidiana de forma direta: menos luzes acesas ao amanhecer, menos rostos familiares por detrás do balcão e menos um lugar onde uma cidade ainda se sente como uma vila.

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