That tiny mental twist doesn’t just shape awkward conversations. It silently drives how we care for friends, support partners, and respond to strangers in distress.
Como o nosso cérebro aumenta o volume dos sentimentos dos outros
A maioria de nós assume que a empatia funciona como um espelho limpo. Alguém sente algo, nós captamos, e pronto. A ciência diz agora que esse espelho está deformado numa direção específica: tendemos a achar que os outros sentem mais do que dizem sentir, sobretudo quando a emoção é dolorosa.
Uma série de experiências lideradas pelos psicólogos Shir Genzer e Anat Perry, da Universidade Hebraica de Jerusalém, publicada na Nature Communications, reuniu dados de mais de 2.800 pessoas. As interações variavam bastante: algumas eram trocas escritas, outras foram gravadas em vídeo, e outras aconteceram cara a cara. Algumas envolveram desconhecidos, outras parceiros de longa data.
Os nossos cérebros sobrestimam sistematicamente quão intensamente outras pessoas sentem emoções negativas como tristeza, raiva e ansiedade.
Em diferentes contextos, o padrão quase não se alterou. Quando uma pessoa partilhava uma experiência, quem ouvia tendia a classificar a intensidade emocional do orador como mais elevada do que a própria autoavaliação do orador. O efeito foi mais forte com experiências negativas. Uma frustração menor parecia sofrimento real. Uma tristeza gerível parecia mais próxima de um desgosto profundo.
E o efeito persistia. Quando os participantes eram questionados dias depois sobre quão perturbada a outra pessoa tinha estado, a memória continuava a inclinar-se para a amplificação. O enviesamento não desaparecia com o tempo, o que sugere que não se trata apenas de uma leitura rápida e errada de uma expressão facial. Reflete uma forma mais profunda e estável de processar os estados emocionais dos outros.
Para os investigadores, isto encaixa num padrão mais amplo: a perceção não foi concebida para ser neutra. A evolução tende a favorecer sistemas que se inclinam para a cautela. Tal como um ruído nos arbustos parece mais ameaçador do que normalmente é, também um sobrolho franzido, uma voz cansada ou uma mensagem seca muitas vezes soa mais pesada do que o remetente pretendia.
Quando a sobrestimação emocional alimenta a empatia em vez do conflito
Poder-se-ia esperar que este tipo de distorção arruinasse a vida social, enchendo conversas de mal-entendidos. Isso pode acontecer. No entanto, os dados apontam para outro efeito, mais construtivo: a exageração emocional muitas vezes empurra as pessoas para a bondade.
Ao longo de várias experiências com desconhecidos, a equipa de Genzer e Perry encontrou uma relação clara entre a intensidade emocional percecionada e a resposta empática. Quanto mais perturbados os participantes acreditavam que a outra pessoa estava, mais eles:
- ofereciam apoio emocional, como mensagens de conforto ou tranquilização
- prestavam mais atenção e faziam perguntas de seguimento
- ajustavam o seu comportamento para evitar piorar a situação
- relatavam sentir-se mais ligados à outra pessoa
Sobrestimar a dor de alguém funciona muitas vezes como um alarme interno que diz: “Faz alguma coisa, mesmo que ainda não te tenham pedido.”
Este padrão também se verificou em relações românticas, mas aí o ajuste precisava de maior precisão. Casais em que um parceiro sobrestimava ligeiramente os sentimentos negativos do outro tendiam a relatar maior satisfação na relação. Descreviam um sentido mais forte de proximidade emocional e de se sentirem cuidados.
Um pequeno desfasamento entre “o quão mal me sinto” e “o quão mal o meu parceiro acha que me sinto” pode fazer alguém parecer especialmente atento. O parceiro intervém cedo com conforto ou adaptações, o que pode reforçar uma sensação de segurança na relação.
Onde a empatia se transforma em pressão
O mesmo mecanismo pode sair pela culatra quando o desfasamento se torna demasiado grande. Se uma pessoa acredita repetidamente que o parceiro está devastado quando, na verdade, está apenas ligeiramente irritado, o ambiente pode tornar-se tenso. Os aborrecimentos do dia a dia começam a parecer crises.
Os investigadores descrevem uma relação “curva” entre sobrestimação e satisfação. Até certo ponto, sensibilidade extra ajuda. Para além desse ponto, o efeito inverte-se. O parceiro que é “sobreinterpretado” pode sentir-se incompreendido, sufocado ou subtilmente controlado. Pode pensar: “Eu disse que estava bem; porque é que estás a agir como se fosse um desastre?”
| Nível de sobrestimação emocional | Impacto típico nas relações |
|---|---|
| Baixo / nenhum | Risco de negligência emocional, sinais perdidos, apoio mais fraco |
| Moderado | Mais cuidado, apoio mais rápido, maior proximidade percecionada |
| Elevado | Mal-entendidos, fadiga emocional, tensão evitável |
Assim, o mesmo enviesamento que impulsiona a empatia pode, em forma extrema, criar uma panela de pressão. O desafio não é eliminar a distorção, mas mantê-la dentro de uma faixa útil.
Porque é que a evolução pode ter-nos “programado” para sentir demais pelos outros
De uma perspetiva evolutiva, um enviesamento que por vezes nos torna “demasiado cuidadosos” parece menos arriscado do que um que nos torna “pouco cuidadosos”. Numa savana perigosa, subestimar o medo de um companheiro ou ignorar sinais de raiva num rival podia custar vidas. Reagir em excesso, pelo contrário, geralmente tem um preço menor.
Quando o custo de falhar um problema real é maior do que o custo de reagir a um falso alarme, a mente tende a favorecer falsos alarmes.
Este tipo de “gestão do erro” aparece em vários comportamentos humanos. As pessoas frequentemente assumem que sons ambíguos à noite indicam uma ameaça. Condutores travam a fundo quando uma forma na berma pode ser uma criança. Na vida social, a mesma regra opera discretamente: é melhor assumir que um amigo está mais perturbado do que afirma do que ir embora e deixá-lo a lidar sozinho.
O estudo também destacou uma reviravolta psicológica marcante. Antes de participarem, muitos voluntários disseram acreditar que os outros normalmente minimizam as suas emoções, enquanto consideravam bastante precisa a sua própria leitura dos outros. A realidade medida em laboratório virou essa narrativa do avesso. Em média, as pessoas inflacionavam os sentimentos dos outros e subestimavam o quanto os seus próprios estados estavam a ser amplificados em retorno.
Este choque entre certeza subjetiva e dados objetivos mostra até que ponto a nossa vida social funciona com processos escondidos. Sentimo-nos precisos, mas as nossas ferramentas internas operam com atalhos rápidos e enviesados que servem mais a coesão do grupo do que a verdade estrita.
O que isto significa para a vida diária, dos grupos de chat ao escritório
Se as nossas mentes ampliam naturalmente os sentimentos dos outros, isso muda a forma como interpretamos sinais quotidianos. Pense na comunicação digital, por exemplo. O texto retira tom e linguagem corporal, o que já torna a interpretação mais difícil. Quando um colega envia uma mensagem curta, o seu cérebro pode não só preencher a lacuna; pode também aumentar a negatividade.
Esse hábito mental pode influenciar o comportamento de formas subtis:
- Gestores podem assumir que um funcionário está mais stressado ou zangado do que afirma, e “compensar” em excesso com reuniões adicionais ou supervisão.
- Adolescentes podem interpretar silêncios em grupos de chat como sinais de drama ou rejeição, quando os outros estão simplesmente ocupados ou distraídos.
- Amigos podem andar em bicos de pés em certos temas porque sobrestimam quão frágil alguém se sente após um revés.
Em alguns casos, essa cautela adicional protege relações. Noutros, alimenta ansiedade ou uma distância constrangedora. Reconhecer que a mente tende a “passar do ponto” pode ajudar a fazer uma pausa antes de interpretar silêncio, sarcasmo ou uma resposta atrasada como caos emocional.
Formas práticas de usar o enviesamento em vez de o combater
A investigação não defende que nos tornemos mais frios ou mais “racionais”. Em vez disso, sugere canalizar esta sobrestimação automática de modo construtivo. Alguns hábitos podem ajudar:
- Verifique a sua interpretação em voz alta: diga coisas como “Parece que isto te atingiu com força - é isso que estás a sentir?” Assim mantém o apoio, dando espaço para a outra pessoa corrigir a intensidade.
- Ajuste após feedback: se alguém diz frequentemente “Estou mesmo bem, não precisas de te preocupar tanto”, encare isso como um sinal para baixar o seu alarme interno, não como uma rejeição.
- Repare nos picos com emoções negativas: as pessoas tendem a sobrestimar tristeza, raiva e vergonha mais do que alegria ou orgulho. Quando detetar essas emoções nos outros, acrescente uma margem de erro mental.
Para terapeutas, professores e gestores, este enviesamento pode até servir como ferramenta. Partir do pressuposto de que os outros podem estar a sofrer um pouco mais do que mostram pode aumentar a bondade e a paciência. A chave está em combinar essa postura com comunicação direta, em vez de tratar primeiras impressões como factos.
Para além da empatia: conceitos relacionados e riscos invisíveis
Esta linha de investigação liga-se de perto à mentalização, a capacidade de pensar sobre as mentes dos outros. Pessoas com melhores competências de mentalização continuam a apresentar enviesamento, mas muitas vezes lidam melhor com o desfasamento, porque testam as suas suposições com mais frequência. Programas de treino que desenvolvem mentalização em escolas ou clínicas podem beneficiar desta investigação ao abordar abertamente a nossa tendência para exagerar emoções negativas.
Há também riscos quando este enviesamento colide com problemas de saúde mental. Alguém propenso a ansiedade crónica pode combinar sobrestimação emocional com pensamento catastrófico, transformando pequenos desacordos em imaginadas ruturas de relação. Por outro lado, pessoas que mascaram muito as emoções podem sentir-se invisíveis, mesmo quando outros estão, silenciosamente, a pensar que a sua dor é maior do que foi dita. O desencontro pode tornar-se uma fonte de solidão que nenhum dos lados compreende totalmente.
Para leitores que queiram ir mais longe, um exercício simples é manter um registo curto e privado durante uma semana. Anote brevemente situações em que adivinha a intensidade emocional de alguém - em casa, no trabalho, online. Quando possível, mais tarde pergunte à pessoa quão forte foi realmente para ela, numa escala de 1 a 10. Com o tempo, surgem padrões: algumas pessoas descobrem que classificam sempre a raiva dos outros três pontos acima; outras notam que inflacionam embaraço ou stress. Este tipo de “calibração” informal não elimina o enviesamento, mas pode domar os seus extremos.
Tudo isto aponta para uma ideia subtil: a precisão não é a única medida que molda a compreensão social. Sentir o que os outros sentem com intensidade um pouco maior muda a forma como nos comportamos à sua volta, e esse comportamento por vezes importa mais do que uma leitura perfeita. Os nossos cérebros podem preocupar-se menos em acertar no número e mais em garantir que aparecemos quando alguém pode precisar de nós.
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