Em letra pequena, alguém acrescentou “(Professor, a sério)”. O Brian ri-se quando as pessoas reparam, mas mantém o crachá posto a tarde inteira. Ali perto, uma mulher na banca dos bolos menciona descontraidamente que é “ex-NHS” três vezes em dez minutos. Ninguém perguntou pelos seus currículos. E, no entanto, os seus antigos empregos continuam a infiltrar-se na conversa, como fantasmas que ainda não perceberam bem que já morreram.
A música está alta, as bandeirolas são vistosas e, mesmo assim, a vida profissional passada zune baixinho em segundo plano. Estas pessoas não estão a fazer conversa de circunstância. Estão a afirmar quem são.
A questão é: porque é que essa identidade se recusa a picar o ponto?
Porque é que o seu emprego não acaba realmente no seu último dia
Ouça como as pessoas reformadas se apresentam em qualquer convívio de café ou grupo de caminhadas. Vai ouvir um padrão. “Sou a Jean, fui parteira.” “Sou o Colin, trabalhava em engenharia.” O verbo muda de tempo; a identidade quase não se mexe. O trabalho torna-se uma espécie de apelido que nunca adoptou legalmente, mas que continua a carregar.
Os sociólogos dizem que isto não é por acaso. O trabalho moderno não aluga apenas o seu tempo; molda a sua história. Ao longo de décadas, colegas, rotinas e responsabilidades escavam sulcos profundos na forma como fala, se veste e pensa. Quando os recibos de vencimento acabam, esses sulcos não desaparecem por magia.
A reforma, no papel, é um corte limpo. Na vida real, é mais como sair de uma festa muito depois de a música ficar presa na cabeça.
Veja-se o caso da Maria, 68 anos, que passou quarenta anos como enfermeira em Manchester. Oficialmente, reformou-se há três anos. Extraoficialmente, a identidade dela nunca saiu de serviço. No aniversário da neta, acaba a verificar pensos rápidos, a contar EpiPens e a varrer discretamente a sala à procura de riscos de engasgamento. Ninguém lhe pediu para estar de serviço. Ela simplesmente desliza de volta para o papel que o corpo conhece de cor.
Ainda acorda às 5h30 em algumas manhãs, convencida de que está atrasada para a enfermaria. O cordão com o crachá do hospital está pendurado num gancho no corredor. Diz a si própria que o guardou como lembrança, mas os dedos vão dar com ele quando se sente perdida. Quando os vizinhos a apresentam como “a nossa enfermeira”, os ombros endireitam-se um pouco.
Estatisticamente, ela não é caso raro. Estudos no Reino Unido e nos EUA mostram que uma grande parte das pessoas reformadas continua a definir-se sobretudo pelos antigos títulos profissionais, mesmo uma década depois de sair. O trabalho terminou. A identidade perdura.
Os sociólogos falam de “saída de papel” (role exit) - o processo de abandonar um grande papel social, como cônjuge, soldado ou médico. Raramente é uma despedida arrumada. Quando um papel estruturou os seus dias, as suas amizades, até a sua roupa, infiltra-se no seu sentido de eu. O trabalho dá três coisas poderosas: uma rotina, um estatuto e uma tribo. A reforma pode retirar as três de uma vez.
Esse espaço em branco repentino pode parecer entusiasmante ou aterrador. Algumas pessoas agarram-se ao antigo rótulo profissional como a um colete salva-vidas. Outras tentam reinventar-se de um dia para o outro e sentem-se estranhamente vazias. A parte difícil é que a sociedade continua a tratar “o que é que fazia?” como a principal forma de o situar. Por isso, o cérebro reformado aprende a responder no passado, mas a cablagem emocional ainda não actualizou o software.
Como reescrever a sua história sem apagar quem foi
Uma mudança prática que os sociólogos sugerem parece minúscula no papel: ajustar a sua resposta à pergunta clássica “Então, o que é que fazia?”. Em vez de largar o seu antigo emprego como uma peça de museu, pode ligá-lo a quem é agora. “Fui assistente social e agora ajudo a gerir uma horta comunitária.” Curto, simples, mas a gramática desloca-o discretamente de “terminado” para “em evolução”.
Algumas pessoas reformadas acham útil “dar nome” ao antigo eu profissional, quase como uma personagem. “Esse era o Eu Professor”, pode dizer, “ela era óptima com o caos. Agora estou a aprender a ser o Eu Avó/Avô, que é melhor com o silêncio.” Parece uma brincadeira, mas dá ao cérebro permissão para manter o que era bom, sem ficar preso à porta da sala de professores.
Rituais escritos também ajudam. Uma carta ao seu antigo eu do trabalho, a agradecer e a deixá-lo ir, pode parecer estranha e poderosa ao mesmo tempo.
Há uma vergonha silenciosa que muita gente carrega aqui. Dizem a si próprias que deviam estar radiantes por serem livres e, depois, sentem-se secretamente à deriva. O calendário esvazia-se, os emails diminuem até quase desaparecer, e o silêncio pode soar-lhe aos ouvidos. Num dia mau, até um cartão de desconto com a palavra “reformado” parece um autocolante que nunca pediu para usar.
Num dia bom, porém, esse mesmo vazio é espaço. Espaço para experimentar natação de manhã, pintura desajeitada, política local, mentoria, ou simplesmente perceber a que sabe o café quando não o bebe à secretária. Num dia mau, a tentação é preencher todas as horas para não ter de sentir a estranheza. E sim, é normalmente aí que o esgotamento volta a entrar, disfarçado de outra coisa.
Sejamos honestos: ninguém faz mesmo isto todos os dias.
“A identidade profissional não desaparece na reforma”, diz um sociólogo britânico. “Vai renegociando lentamente o seu lugar. O objectivo não é apagar o seu antigo eu, mas impedir que seja a única história que sabe contar.”
Algumas âncoras simples podem tornar essa renegociação menos brutal:
- Comece por se apresentar com algo não relacionado com trabalho: um hobby, um lugar de que gosta, um papel na sua família.
- Mantenha um ou dois hábitos antigos do trabalho que ainda lhe servem e abandone conscientemente o resto.
- Junte-se a pelo menos um grupo onde ninguém quer saber o que fazia antes.
- Aceite dias que se sentem confusos e sem identidade. Fazem parte do reinício.
- Fale com honestidade com amigos que também estejam reformados, não apenas em manchetes alegres.
Quando o uniforme sai, o que fica?
Um dia, o crachá, o cordão, o cartão de acesso ao escritório ou o capacete vão para uma gaveta. O uniforme sai, por vezes com um alívio tão físico que se sente nos ombros. E, no entanto, a postura, os reflexos, as expressões continuam a sair sem aviso. Anos depois, polícias reformados ainda se sentam de frente para a porta. Ex-gestores ainda formulam sugestões como “pontos de acção”. O trabalho sobrevive nos pequenos movimentos.
Falamos muitas vezes da reforma como uma falésia: a trabalhar / sem trabalhar, ligado / desligado. A vida real parece mais uma dissolução lenta. Funções a tempo parcial, voluntariado, cuidar de outros, até pequenos trabalhos paralelos entram e saem. A identidade profissional não desaparece; é diluída, esticada, discutida. Em alguns dias tem saudades ferozes. Noutros, pergunta-se como é que alguma vez viveu sob aquele peso.
Não há um guião universal aqui, o que talvez seja a parte mais inquietante. Recupera o tempo, mas não recebe as instruções.
O eu profissional que permanece não é automaticamente um problema. Pode ser uma fonte de competência, orgulho e ligação. O engenheiro reformado que agora arranja as caldeiras dos vizinhos de graça. O ex-chef que organiza um almoço comunitário caótico mas alegre uma vez por mês. A antiga gestora de RH que, em silêncio, ajuda amigos a escrever reclamações que finalmente obtêm resposta. Estas são formas de a velha identidade continuar a servir, não a mandar.
Ainda assim, há uma linha em que o apego se transforma em paralisia. Quando todas as histórias começam com “Na altura em que eu estava na empresa…”, muitas vezes é sinal de que o presente está demasiado vazio. É aí que os sociólogos empurram com delicadeza as pessoas para aquilo a que chamam “alargamento de identidade”: acrescentar novos capítulos sem arrancar os antigos.
No fim, a pergunta não é “Quem foi?”, mas “Em quem se está a tornar agora que a máquina de picar o ponto já não pode responder por si?”
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| A identidade profissional persiste | Os papéis anteriores continuam a moldar rotinas, linguagem e estatuto social muito depois da reforma | Ajuda-o a reconhecer porque ainda “se sente como” o seu antigo trabalho |
| A saída de papel é um processo | Sair do trabalho é uma renegociação gradual do eu, não uma única ruptura limpa | Normaliza as sensações confusas e intermédias do início da reforma |
| A identidade pode ser alargada | Ligar papéis passados a novas actividades constrói um sentido de eu mais rico e flexível | Oferece formas concretas de se sentir mais do que apenas “ex-alguma coisa” |
Perguntas frequentes
- Porque é que ainda me apresento pelo meu antigo emprego? Porque o seu cérebro aprendeu durante anos que o trabalho era o seu principal rótulo social e recorre a esse hábito mesmo quando o emprego já acabou.
- É pouco saudável ter tantas saudades da minha carreira? Ter saudades é normal; torna-se complicado apenas se a nostalgia o impedir de construir algo novo no presente.
- Quanto tempo demora a ajustar-me à reforma em termos de identidade? Estudos sugerem que muitas vezes demora um a três anos até um novo sentido de eu se sentir sólido, por vezes mais após carreiras muito intensas.
- Devo evitar falar do meu trabalho passado por completo? Não. O objectivo é equilíbrio: que seja um fio na sua história, não toda a tapeçaria.
- E se eu nunca tiver gostado muito do meu trabalho, mas mesmo assim ele me define? Acontece bastante. Pode usar essa tensão como combustível para explorar identidades que o trabalho espremeu para fora - como artista, cuidador, activista ou simplesmente vizinho.
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