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Um psicólogo afirma: a melhor fase da vida começa quando mudas a tua forma de pensar.

Pessoa escreve em caderno numa mesa com fotografia, chávena a fumegar, smartphone e tigela de laranjas.

Em vez de perseguir uma mítica idade de ouro, um psicólogo espanhol afirma que a verdadeira felicidade começa no dia em que mudamos a forma como pensamos sobre a nossa própria vida. Não quando somos jovens, ricos ou reformados, mas quando, de forma deliberada, alteramos a maneira como olhamos para as experiências do dia a dia.

Porque continuamos a acreditar que a felicidade vive no passado

Pergunte a amigos qual foi a melhor fase da vida deles e, normalmente, ouvirá as mesmas respostas. A infância. Os anos de estudante. Talvez o início da idade adulta, antes de chegarem as “verdadeiras” responsabilidades. A nostalgia faz esses períodos parecerem mais luminosos do que realmente foram.

Os psicólogos salientam que cada idade que idealizamos tem um custo muito real. A infância traz brincadeira e imaginação, mas também dependência total e quase nenhum controlo sobre as decisões. A adolescência parece intensa e entusiasmante, mas os dados sobre a saúde mental dos jovens mostram um peso considerável de ansiedade, dúvidas sobre si próprio e pressão para encaixar.

A vida mais tardia ganha, muitas vezes, a reputação de trazer sabedoria e uma perspetiva mais calma. Alguns estudos sugerem que muitos adultos mais velhos relatam maior estabilidade emocional do que pessoas mais novas. Mas não existe consenso científico de que uma única década seja, de forma objetiva, a mais feliz para toda a gente.

Muitos investigadores defendem hoje que a felicidade tem menos a ver com a idade e mais com a forma como interpretamos o que nos acontece.

Por outras palavras, as pessoas que insistem que os melhores dias já passaram podem não estar a descrever a realidade. Podem simplesmente estar a descrever a história que contam a si próprias sobre a sua vida.

O psicólogo que diz que a “melhor fase” é uma mudança mental

O psicólogo e autor espanhol Rafael Santandreu leva esta ideia ainda mais longe. Para ele, o ponto de viragem decisivo não é um aniversário, uma promoção ou um marco numa relação. É uma mudança de hábitos mentais.

“A melhor fase da vida de uma pessoa”, argumenta, “é aquela em que começa a pensar da forma certa, deixa de se queixar e começa a apreciar as coisas incríveis, quase mágicas, à sua volta, a cada momento.”

Segundo esta perspetiva, a fase mais feliz começa quando nos treinamos ativamente para prestar atenção ao que funciona, em vez do que falta. Isto não significa negar problemas. Significa recusar viver em modo de queixa permanente.

Santandreu descreve uma espécie de prática mental: escolher, vezes sem conta, reparar em pequenos bons momentos, confortos banais, lampejos de beleza - mesmo em dias difíceis. Quando esta mudança se torna consistente, diz ele, transforma a forma como a mente funciona.

Ele afirma que, quando as pessoas se comprometem com esta mudança com “intensidade e concentração”, começa uma etapa de vida diferente. Uma etapa que pode parecer mais rica e mais vívida do que a infância ou a adolescência, precisamente porque inclui consciência, perspetiva e escolha.

Como é, na prática, “pensar da forma certa”

A expressão “pensar da forma certa” pode soar vaga ou moralista, por isso os psicólogos costumam desdobrá-la em competências concretas. Muitas delas sobrepõem-se à terapia cognitivo-comportamental e à psicologia positiva.

Da queixa crónica para a atenção ativa

Queixar-se constantemente reforça uma sensação de impotência. O cérebro aprende a procurar o que está errado e a ignorar o que está aceitável - ou até agradável. Com o tempo, este viés molda o humor e a memória.

Afastar-se desse padrão não significa otimismo forçado. Significa alargar deliberadamente a lente. Um dia difícil também pode conter um bom café, um colega prestável, uma música que o anima durante três minutos.

  • Mentalidade de queixa: “Nada me corre bem.”
  • Mentalidade reflexiva: “Hoje foi duro, mas lidei com aquela reunião melhor do que da última vez.”
  • Mentalidade apreciativa: “Continuo com problemas, e também estou contente por ter feito aquela caminhada tranquila até casa.”

Cada versão descreve uma realidade semelhante, mas o resultado emocional é muito diferente.

Como a perceção reconfigura subtilmente o cérebro

A neurociência moderna apoia parte desta visão. O cérebro está constantemente a podar e a fortalecer ligações com base no que repetimos. Prestar atenção a ameaças e frustrações o dia todo torna esses circuitos mais eficientes. Treinar a atenção para momentos de calma ou gratidão fortalece outros.

Práticas como manter uma breve nota diária de gratidão, ou parar para nomear uma coisa que está a correr bem, parecem quase triviais. Ainda assim, vários estudos sugerem que, quando usadas com regularidade, podem reduzir sintomas depressivos e aumentar a satisfação no dia a dia.

A “melhor fase” pode não ser um período mágico em que os problemas desaparecem, mas um momento em que os seus hábitos mentais começam a trabalhar consigo, em vez de contra si.

Idade, felicidade e os mitos que continuamos a repetir

Grandes inquéritos em diferentes países mostram, por vezes, uma espécie de curva de felicidade em “U”: muitas pessoas relatam maior satisfação no início da idade adulta, uma queda na meia-idade e depois uma subida lenta novamente em idades mais avançadas. Ainda assim, as diferenças são muitas vezes modestas, e as histórias individuais variam enormemente.

Fase da vida Clichés comuns Contributos da psicologia
Infância Pura inocência e diversão Também dependência, falta de controlo, vulnerabilidade
Juventude Liberdade e potencial infinito Muita pressão, incerteza, conflitos de identidade
Idade adulta tardia Declínio e perda Muitas vezes mais equilíbrio emocional, mas riscos de saúde e sociais

Estas nuances importam. Se continuarmos a dizer a nós próprios que a felicidade pertence apenas às crianças, aos estudantes ou aos reformados, transformamos o presente numa desilusão permanente. Só essa crença pode, silenciosamente, drenar satisfação de dias que, de outra forma, seriam neutros.

Como iniciar esta “melhor fase” na vida real

Transformar um conceito psicológico numa prática diária pode parecer abstrato. Ainda assim, pequenos movimentos repetíveis tendem a funcionar melhor do que grandes mudanças de vida.

Três mudanças simples para testar esta semana

  • Limite o tempo de queixa: Dê a si próprio uma janela de 10 minutos por dia para desabafar. Fora desse período, escreva as irritações em vez de as repetir em voz alta.
  • Faça a experiência das “três coisas”: Todas as noites, durante uma semana, anote três coisas específicas que apreciou nesse dia, por mais pequenas que sejam.
  • Reformule um pensamento recorrente: Escolha uma frase negativa que repete frequentemente. Reescreva-a numa versão mais equilibrada e ensaie essa em vez da original.

Isto não são soluções rápidas para traumas profundos, dificuldades financeiras ou doença grave. Funcionam mais como um programa suave de treino da perceção. Muitos terapeutas usam exercícios semelhantes para ajudar os pacientes a aliviar o aperto de um pensamento rígido e pessimista.

O ponto de viragem costuma chegar de forma discreta: nota que recupera um pouco mais depressa, ou que nem todos os contratempos apagam o dia inteiro.

Quando o pensamento positivo se torna uma armadilha

Há um risco escondido em toda esta conversa sobre mentalidade. Algumas pessoas ouvem isto como “se sofre, a culpa é sua por não pensar corretamente”. Essa visão pode levar à vergonha e ao silêncio em vez de promover mudança.

Os psicólogos distinguem entre trabalho cognitivo construtivo e aquilo a que alguns chamam “positividade tóxica”. A segunda pressiona as pessoas a sorrir no meio da dor, a desvalorizar o luto ou a ignorar a injustiça. O verdadeiro crescimento psicológico permite o desconforto, valida emoções difíceis e, ainda assim, procura formas construtivas de responder.

Para quem lida com depressão clínica, ansiedade severa ou trauma, o apoio profissional é muitas vezes mais importante do que slogans de autoajuda. Medicação, terapia ou serviços sociais podem ter de vir antes de diários de gratidão. A mudança de pensamento que Santandreu descreve pode ainda assim ter um papel, mas normalmente como parte de um plano de cuidados mais amplo.

Porque esta mudança mental pode ser mais forte do que a nostalgia

A nostalgia pode parecer quente e reconfortante, mas tende a congelar o passado numa fantasia. A vida real nessa altura incluía confusão, tédio e discussões que a memória vai editando discretamente. Quando comparamos a realidade atual - sem filtros - com um vídeo de melhores momentos do passado, o presente parecerá sempre mais fraco.

Aprender a reparar nos momentos presentes com uma mente mais gentil e curiosa reduz esse viés. Em vez de perseguirem uma era que nunca pode voltar, as pessoas começam a encontrar significado em rotinas, relações e até compromissos que antes desprezavam como aborrecidos.

Os psicólogos falam, por vezes, de “flexibilidade psicológica” para descrever este ajustamento. Quanto mais flexível for o nosso pensamento, mais fácil se torna adaptar-nos a novos papéis, corpos em mudança ou carreiras em transição sem sentirmos que a vida está, automaticamente, a piorar.

Para quem se pergunta se os seus dias mais felizes já passaram, esta teoria oferece outro ângulo. Em vez de esperar que as circunstâncias mudem, a “melhor fase” pode começar numa terça-feira banal, com uma pequena escolha: queixar-se por defeito - ou começar a treinar a mente para ver a mesma vida com uma lente diferente.

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