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Um psicólogo defende que a vida só melhora quando deixamos de procurar a felicidade e passamos a procurar o sentido.

Mulher escreve em caderno e usa smartphone, sentada à mesa com plantas, caneca e fotografia.

Salário decente, saídas ao fim de semana, séries à noite, notificações a piscar como uma árvore de Natal. Por fora, parece aquilo que nos venderam como felicidade. Por dentro, é mais difuso. Um pouco mole. Um pouco vazio.

Um psicólogo americano conta-me que vê desfilar as mesmas caras no consultório. Pessoas exaustas de “trabalhar” a felicidade como se trabalhassem os abdominais. Diário de gratidão, yoga, smoothies verdes, fins de semana em tiny houses. Assinalam todas as caixas e perguntam-se: porque é que isto não pega? Ele explica-me, com calma, que o problema não são elas. É o objetivo.

Ele jura que a viragem acontece no dia em que deixamos de correr atrás da felicidade e começamos a perseguir outra coisa, muito mais silenciosa. Uma coisa que nem sempre nos faz sorrir no momento. Mas que muda a forma como nos levantamos de manhã. E, às vezes, a forma como nos olhamos ao espelho.

Porque é que perseguir a felicidade continua a correr mal

O psicólogo começa sempre por fazer a mesma pergunta simples: “Quando é que sentes que deverias estar feliz?” As respostas saem sem hesitação. Sexta-feira à noite. Nos aniversários. Nas férias. Nas fotos do Instagram. Ele anota tudo, sem julgar. Depois puxa o fio e mostra como este “dever ser feliz” transforma cada momento num exame permanente.

Porque, quando a felicidade se torna uma performance, cada situação começa a cheirar a pressão. Um jantar banal transforma-se num teste: “Estou a divertir-me, aqui e agora, sim ou não?” Um fim de semana chuvoso vira um falhanço pessoal. Nada mudou objetivamente, exceto a forma como olhamos para a nossa vida. E, muitas vezes, é precisamente esta obsessão de medir a felicidade… que a sufoca.

Um estudo publicado no Journal of Positive Psychology acompanhou várias centenas de pessoas durante semanas. As que diziam atribuir um valor muito elevado à felicidade sentiam mais frustrações, mais emoções negativas e mais solidão no dia a dia. Não porque vivessem coisas piores do que as outras, mas porque vigiavam constantemente o seu estado interior, como quem verifica o saldo bancário.

O mesmo fenómeno aparece nas apps de meditação ou nos desafios “30 dias para ser mais feliz”. No início, a ferramenta alivia. Depois torna-se uma nova fonte de comparação interna: “Eu medito, aponto as minhas gratidões, porque é que isto não resulta comigo?” A distância entre a promessa e a realidade cresce. É aí que a vergonha se instala. E que algumas pessoas concluem que estão “estragadas”.

O psicólogo resume isto numa frase: quando a felicidade se torna um objetivo direto, transforma-se num alvo móvel. Por vezes tocamo-la, mas ela escapa assim que tentamos fixá-la. A alegria espontânea vira indicador de desempenho. A experiência em bruto passa para segundo plano. A obsessão de “sentir-me melhor” substitui a capacidade de simplesmente estar, mesmo quando custa um bocadinho.

O que acontece quando se muda para significado

Perante este muro, o psicólogo propõe uma mudança abrupta: “Pára de tentar ser feliz. Começa a tentar viver com significado.” Muitas vezes vê sobrancelhas franzidas. A palavra “significado” soa séria, quase pesada. No entanto, ele fala de coisas muito concretas: sentir que o que fazemos serve para alguma coisa, alinhar um pouco mais com aquilo que respeitamos, contribuir, mesmo em pequena escala.

No consultório, conta muitas vezes a história de uma enfermeira de turno da noite. Ela não descreve o dia a dia como “feliz”. Fala de cansaço, do cheiro a álcool às 4 da manhã, de famílias em lágrimas. Mas quando ele lhe pergunta se a vida dela tem significado, ela responde que sim, sem hesitar. O significado não apaga a dor. Torna-a suportável. Às vezes até preciosa.

A investigação da psicóloga americana Emily Esfahani Smith vai no mesmo sentido: as pessoas que dizem ter uma vida cheia de significado não são necessariamente mais “alegres” no dia a dia. Por vezes vivem mais stress, mais responsabilidades. Em contrapartida, descrevem mais coerência, mais ligações profundas, mais energia para atravessar períodos difíceis. A chave não é um conforto permanente. É uma direção.

O psicólogo explica que o cérebro humano não está programado para prazer contínuo, mas para resolver problemas que importam. Quando trabalha com doentes deprimidos, não lhes pergunta “O que te faria feliz?”, uma pergunta muitas vezes paralisante. Em vez disso começa por “O que valeria o esforço, mesmo num dia mau?” A simples ideia de “valer o esforço” muda o ângulo. Saímos da meteorologia emocional e entramos no compromisso.

Como deixar de perseguir a felicidade e começar a perseguir significado (a sério)

A primeira coisa que ele propõe é desconcertante: manter um pequeno “diário de significado” durante uma semana. Três minutos por dia, não mais. Anotam-se apenas duas coisas: um momento em que se sentiu um ligeiro sentido de contribuição ou coerência e um momento em que tudo pareceu desprovido de significado. Não é preciso grandes frases. “Ajudei a minha colega a acabar o dossier”, “Passei 2 horas a fazer scroll sem saber porquê”.

Ao fim de sete dias, ao reler essas linhas, costuma surgir um padrão. Algumas pessoas percebem que o significado aparece quando escutam mesmo alguém. Outras, quando constroem ou arranjam alguma coisa. Outras ainda, quando aprendem. Nada glamoroso. Nada perfeitamente instagramável. Mas começa a desenhar-se uma coluna vertebral. E com ela, a vontade de reorientar um pouco os dias.

A partir daí, o psicólogo propõe um gesto simples: acrescentar todos os dias um “micro-ato de significado” à agenda. Uma mensagem a uma pessoa que andamos a negligenciar. Um gesto concreto para avançar um projeto que importa. Um momento para transmitir algo, mesmo minúsculo. Não para sentir felicidade imediata, mas para aumentar a densidade do dia. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas quem o tenta com regularidade percebe que o humor se torna menos ditatorial.

A armadilha clássica é transformar o significado numa nova lista de tarefas esmagadora. Procurar A grande missão de vida, o grande projeto humanitário, a reconversão perfeita. Este perfeccionismo do significado paralisa ainda mais do que a caça à felicidade. O psicólogo convida, em vez disso, a pensar em milímetros. “Se o teu dia tivesse mais 1% de significado, como seria?” Um ajuste, não uma revolução.

Outro erro comum: confundir significado com sacrifício. Achar que se é obrigado a dar tudo, sempre, para merecer dizer que a vida tem significado. É a melhor forma de acabar vazio, amargo, em piloto automático. Uma vida com significado também contém pausas, brincadeira, parvoíces. Respira. Não precisa de ser digna a toda a hora para contar.

O psicólogo insiste num ponto: não se pode delegar a questão do significado em coaches, livros ou vídeos. Estas ferramentas podem inspirar, mas a matéria-prima está na forma muito pessoal como atravessamos os dias. E isso às vezes exige uma honestidade um pouco brutal connosco próprios, sobretudo quando descobrimos que uma parte da nossa vida “bem-sucedida” já não ressoa.

“A felicidade pergunta: ‘Gosto de como me sinto agora?’ O significado pergunta: ‘Respeito a forma como estou a viver a minha vida?’ A segunda pergunta é mais difícil. Também é a que, silenciosamente, muda tudo.” – Psicólogo clínico, 20 anos de prática

Para quem gosta de referências concretas, ele sugere muitas vezes um pequeno memorando simples, para guardar no telemóvel ou ter em cima da secretária.

  • Todos os dias: um micro-ato que ajuda alguém, sem esperar nada em troca.
  • Todas as semanas: uma hora dedicada a algo que queres ver crescer dentro de três anos.
  • Todos os meses: um momento em que dizes não a algo que te drena energia, mesmo que desiluda alguém.
  • Todos os trimestres: um balanço honesto: “Onde senti mais significado ultimamente? Onde encontrei menos?”

Este tipo de ritual não fabrica felicidade instantânea, mas cria um fio condutor que atravessa altos e baixos sem se partir.

Largar a felicidade como objetivo, mantê-la como convidada

Ao fim de algum tempo, acontece muitas vezes um fenómeno estranho. As pessoas que deixaram de organizar tudo em torno do seu humor descobrem que a alegria regressa… pela porta pequena. Talvez menos frequente. Mas mais nítida. Como um visitante a quem deixamos de pedir, insistentemente, que fique, e que acaba por se demorar naturalmente um pouco mais.

O psicólogo descreve isto como uma mudança de contrato interior. O objetivo deixa de ser: “Tenho de me sentir bem o mais vezes possível.” O objetivo passa a ser: “Quero viver uma vida que considero digna, mesmo nos dias em que não estou muito bem.” Esta frase não fica bem num poster motivacional. Mas tem um efeito discreto, quase físico, na forma de atravessar dias difíceis. Uma discussão, um falhanço, um cansaço deixam de ser suficientes para abalar todo o sentido da existência.

Quando deixamos de perseguir a felicidade, damos por nós a abrir um pouco mais os olhos para o que já está aqui. Uma conversa não perfeita mas verdadeira. Uma viagem de metro em que observamos os outros, em vez de fazer scroll. Uma noite de semana em que cozinhamos algo razoável, sem herdar a obrigação de tornar aquilo um momento “mágico”. Estes instantes não mudam o mundo. Mudam a textura do quotidiano.

E talvez a verdadeira viragem seja esta: aceitar que a felicidade já não é a luz principal, mas um reflexo. Que aparece às vezes quando estamos ocupados a fazer algo com significado e que desaparece sem que tudo desmorone. Deixar a felicidade voltar a ser aquilo que nunca deveria ter deixado de ser: um efeito secundário. Uma consequência. Uma convidada. Nem um objetivo profissional, nem um KPI de uma vida bem-sucedida.

Talvez, então, a pergunta para fazer esta noite não seja “Sou feliz?”, mas “O que é que, hoje, valeu mesmo a energia que lhe dediquei?” A resposta pode ser difusa, torta, incompleta. Não precisa de ser perfeita para começar a redesenhar alguma coisa. E, no fundo, é muitas vezes aí que a vida volta a ganhar relevo.

Ponto-chave Detalhes Porque importa aos leitores
Registar “momentos de significado” em vez do humor Passa uma semana a anotar, todos os dias, um momento que pareceu significativo e um momento que pareceu vazio. Procura padrões: pessoas, lugares ou atividades que surjam repetidamente na coluna do “significado”. Oferece uma forma concreta de ver onde a tua vida já contém sementes de significado, sem precisares de uma grande mudança de vida ou de introspeção vaga.
Adicionar um “micro-ato de significado” diário Escolhe uma ação pequena e específica todas as manhãs: ajudar uma pessoa, avançar um projeto de que gostas, ou aprender algo novo que apoie o teu “eu” futuro. Dá-te uma alavanca simples, mesmo em dias de pouca energia, para que o teu sentido de propósito não dependa de motivação ou de circunstâncias perfeitas.
Mudar a pergunta interior Substitui “Estou feliz agora?” por “Respeito a forma como estou a viver hoje?” Usa isto como um check-in mental discreto uma ou duas vezes por dia. Reduz a pressão de te sentires bem o tempo todo e constrói um auto-respeito mais estável, que a investigação associa a melhor bem-estar a longo prazo do que perseguir emoções positivas.

FAQ

  • Posso ter uma vida com significado se ainda não souber qual é o meu “propósito”? Não precisas de uma missão grandiosa para a vida inteira para viver com significado. Começa por pequenas áreas onde já te sentes um pouco mais vivo ou útil - ajudar um vizinho, orientar alguém no trabalho, criar algo em paralelo. Deixa o significado crescer a partir de ações repetidas, em vez de esperares por uma grande revelação.
  • E se o meu trabalho me parecer inútil, mas eu não puder sair? Procura significado em zonas mais estreitas: a forma como tratas colegas, a qualidade do teu trabalho, as competências que estás a construir para mais tarde. Depois, fora do trabalho, investe deliberadamente em projetos, relações ou causas que ressoem mais fundo, para que todo o teu sentido de propósito não dependa do teu emprego.
  • Perseguir significado significa que vou ter de sofrer mais? O significado inclui muitas vezes esforço, frustração e dúvida, mas não significa procurar dor. Significa estar disposto a tolerar desconforto quando algo te importa de verdade, em vez de o evitares a todo o custo. Muitas pessoas descrevem isto como um “bom cansaço” em vez de sofrimento puro.
  • Quanto tempo demora a sentir diferença quando me foco no significado? Algumas pessoas notam uma mudança em poucas semanas, simplesmente porque passam a olhar para os dias com outros olhos. A transformação mais profunda - sentir a vida mais coerente e com mais auto-respeito - tende a surgir ao longo de meses, à medida que pequenas ações repetidas constroem uma nova narrativa sobre quem és.
  • Ainda posso desfrutar da felicidade se deixar de a perseguir? Sim, e muitas vezes de forma mais plena. Quando deixas de tratar a felicidade como uma performance a manter, os momentos de alegria parecem menos um teste e mais um presente. Aparecem, ficam um pouco e depois vão-se embora, sem que sintas que falhaste quando o humor desce.

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