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Um psicólogo diz que só serás feliz quando deixares de perseguir a felicidade e começares a procurar sentido na vida.

Homem escreve em caderno numa mesa com planta, caneca de café fumegante e saco com crachá.

Enchemos os nossos fins de semana de experiências supostamente destinadas a tornar a vida mais “uau”. E, no entanto, instala-se uma sensação estranha: quanto mais corremos atrás da felicidade, mais ela parece escapar-nos. Um pouco como uma notificação que desaparece no momento em que clicamos nela.

O psicólogo americano com quem falámos nesse dia observava a cena através do vidro de um café, junto a uma grande artéria londrina. À sua volta, passavam rostos cansados, telemóvel na mão, auscultadores nos ouvidos. Olhares vazios pregados em ecrãs cheios de tutoriais para “ser finalmente feliz antes dos 30”. Ele anotava em silêncio: “Toda a gente procura a mesma coisa… mas está a olhar para o sítio errado.”

Quando se virou, disse uma frase que soa a provocação na nossa época obcecada com o bem-estar: “No dia em que deixar de procurar a felicidade será provavelmente o primeiro dia em que terá uma hipótese de ser verdadeiramente feliz.”

E aí, o cenário muda por completo.

Parem de perseguir a felicidade: porque é que ela escapa quando a tentamos agarrar

A felicidade, como o psicólogo explicou, comporta-se muito como um gato. Se o agarramos, ele contorce-se e escapa-nos das mãos. Se ficamos quietos e vivemos a nossa vida, às vezes vem enrolar-se no nosso colo, sem aviso. Quanto mais tentamos “engenheirar” dias perfeitos, mais estranhamente planos eles parecem. Vamos riscando caixas; não nos sentimos vivos.

Ele chama-lhe “a armadilha do tapete rolante”. Corremos em direção ao próximo pequeno pico de alegria: uma promoção, uma viagem, um gosto, uma resposta a uma mensagem. Durante algumas horas, talvez alguns dias, há um entusiasmo. Depois, o nível de base volta. Um salário um pouco maior, o mesmo vazio. Um apartamento melhor, o mesmo pavor do domingo. A perseguição recomeça.

Todos conhecemos aquele momento em que voltamos de umas férias “incríveis” e, três dias depois, o nózinho no estômago está lá outra vez. Não é que a felicidade fosse falsa. É que nunca foi feita para durar.

Os psicólogos têm uma palavra para isto: adaptação hedónica. Os humanos habituam-se a quase tudo bastante depressa. Carro novo? Magia durante duas semanas. Telemóvel novo? Divertido durante um fim de semana. O volume emocional volta ao normal, como um termóstato. Por isso, quando tratamos a felicidade como um objetivo, estamos, na prática, a apontar a um alvo em movimento - que continua a deslizar para longe quanto mais perto chegamos.

A nossa cultura não ajuda. Apps, publicidade, até alguns influenciadores de “wellness” vendem a felicidade como um produto com entrega expresso. “Siga estes 5 passos”, “adote este ritual”, “manifeste a sua melhor vida”. O subtexto é duro: se não estás feliz, estás a viver mal. O psicólogo com quem falei formulou de outra forma: talvez não estejas avariado. Talvez te tenham vendido o prémio errado.

Faça sentido ou não, essa perseguição deixa muitas vezes as pessoas com um cocktail estranho de culpa e exaustão. Têm o que achavam que queriam e, mesmo assim, falta qualquer coisa. Esse “qualquer coisa” é o que ele chama sentido - e insiste que é um jogo completamente diferente.

Porque é que o sentido toca mais fundo do que a felicidade (e como encontrá-lo)

O sentido raramente parece glamoroso por fora. Normalmente está escondido em coisas lentas, repetitivas, por vezes aborrecidas. Criar um filho. Estar presente para um amigo em crise. Trabalhar num projeto durante meses sem garantia de que vai resultar. A felicidade grita; o sentido sussurra. Não te dá fogo-de-artifício. Dá-te uma direção.

O psicólogo resumiu-o numa frase direta: “A felicidade pergunta: como é que me sinto hoje? O sentido pergunta: o que é que estou a construir com a minha vida?” Não são inimigos, mas não funcionam da mesma maneira. A felicidade vive em momentos. O sentido estende-se por meses e anos. Se a felicidade é uma boa refeição, o sentido é aprender a cozinhar.

Pense na Sara, 36 anos, que deixou um emprego bem pago em marketing para se tornar enfermeira. No papel, os seus “indicadores de felicidade” levaram um golpe: mais horas, menos salário, mais stress. No entanto, quando os investigadores medem a satisfação com a vida a longo prazo entre profissionais de saúde, professores e cuidadores, estas pessoas relatam muitas vezes sentimentos de propósito mais fortes do que muitos trabalhadores de escritório mais bem pagos.

A Sara disse ao psicólogo algo que ele ouve frequentemente: “Os meus dias são mais duros. A minha vida faz mais sentido.” Chora no carro algumas noites. Ri com doentes às 3 da manhã. Há muito poucos dias “perfeitamente felizes”. Há muitos dias com sentido. Quando ele pergunta se se arrepende, ela responde depressa: não.

As estatísticas confirmam isto. Estudos sobre “bem-estar eudaimónico” - o tipo ligado a propósito, contributo e crescimento - mostram correlações mais fortes com saúde física, resiliência após contratempos e até longevidade do que as pontuações cruas de “quão feliz estás agora mesmo?”. É como se o corpo soubesse quando a vida tem uma história, não apenas destaques.

Isto não significa que tenha de despedir-se e salvar o mundo. O sentido nem sempre é dramático. Pode ser arranjar bicicletas velhas ao fim de semana porque isso o faz lembrar do seu avô. Pode ser orientar um adolescente da sua zona. O padrão-chave é este: o sentido costuma envolver três coisas - usar os seus pontos fortes, estar ligado a outras pessoas e servir algo maior do que o seu próprio conforto.

Quando as pessoas dizem que se sentem vazias, raramente querem dizer “não me diverti o suficiente esta semana”. Querem dizer “não sinto que os meus dias somem a algo que importe”. Quando se ouve a diferença, não dá para a deixar de ouvir.

De perseguir a felicidade a construir sentido: pequenos movimentos honestos

O psicólogo sugere uma prática enganadoramente simples: honestidade de poltrona. Uma vez por semana, sente-se num lugar tranquilo, sem ecrãs, e responda a esta pergunta por escrito: “O que fiz nos últimos sete dias que me pareceu com sentido?” Não o que ficou bem aos olhos dos outros. O que pareceu certo, mesmo que ninguém tenha reparado.

Na primeira vez, talvez fique a olhar para a folha. Depois, coisas pequenas reaparecem: cozinhar para alguém, terminar uma tarefa difícil, ligar à sua mãe, manter uma rotina quando não lhe apetecia. Circule uma ou duas e pergunte: “Que valores estão escondidos aqui?” Talvez lealdade. Criatividade. Coragem. Aprendizagem.

A partir daí, o método é simples: marque na agenda uma ação minúscula na semana seguinte que honre um desses valores. Dez minutos, não uma reviravolta na vida. Envie uma mensagem honesta. Faça um turno de voluntariado. Comece um documento para o livro que quer escrever. O sentido cresce pela repetição, não pela intensidade.

O que normalmente descarrila as pessoas não é falta de ferramentas; é a pressão silenciosa para “sentir-se feliz” o tempo todo. Engolimos a ideia de que uma boa vida é uma vida suave. Depois, quando o luto, o tédio ou a ansiedade batem à porta, entramos em pânico: “Há algo de errado comigo.” A visão do psicólogo é quase o oposto: essas arestas ásperas são muitas vezes onde o sentido começa.

Ele diz aos clientes: “Uma vida com sentido é emocionalmente cara.” Você importa-se, portanto dói. Investe, portanto arrisca perder. Isso não significa que adore sofrer. Significa apenas que está disposto a pagar esse preço por algo que acredita ter peso.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

A maioria das pessoas oscila violentamente entre anestesiar-se (scrolling, maratonas, fuga) e corrigir em excesso (“A partir de segunda-feira, torno-me um ser humano ultra-significativo”). O ponto ideal fica algures no meio: experiências suaves, pequenas promessas cumpridas a si próprio, compaixão quando escorrega.

Como ele disse com um meio sorriso:

“Pare de perguntar ‘Como posso ser feliz?’ e comece a perguntar ‘Por que é que vale a pena ficar infeliz?’ A segunda pergunta vai levá-lo muito mais longe.”

Se isto lhe parece pesado, reduza a uma checklist simples a que pode voltar quando a vida se parece com um feed desfocado:

  • Fiz hoje uma coisa que se alinha com os meus valores, e não com o meu humor?
  • Contribuí, por mínima que seja, para a vida de outra pessoa?
  • Cresci, nem que fosse um pouco - aprendi, enfrentei um medo, disse algo verdadeiro?
  • Protegi pelo menos um pequeno bloco de tempo do ruído e da distração?
  • Permiti-me sentir o que sinto, sem fingir?

Nada disto garante felicidade “a pedido”. Faz algo mais subtil: transforma os seus dias em capítulos de uma história que consegue respeitar. E muitas vezes, algures pelo caminho, percebe que está… não exatamente feliz, mas tranquilamente bem. Estável. Com os pés no chão. É geralmente aí que a felicidade, o gato, decide aparecer.

Deixar a felicidade seguir-te, em vez de a perseguires

O psicólogo gosta de terminar as sessões com um tipo estranho de trabalho de casa: viver a próxima semana como se a felicidade estivesse proibida na lista de tarefas. Claro que pode senti-la. Simplesmente não pode fazê-la o objetivo principal. A tarefa é diferente: procurar sentido, mesmo que seja pequeno, desajeitado, imperfeito.

Experimente uma vez e nota algo desconfortável: muito do que enchia a sua agenda estava lá para o distrair do desconforto, não para o mover na direção de algo com que realmente se importa. As horas extra de trabalho para evitar ficar sozinho com os seus pensamentos. Os eventos sociais de que não gosta assim tanto, mas a que vai na mesma porque “toda a gente vai”. A rotina que o mantém ocupado e estranhamente oco.

Por baixo desse ruído, há muitas vezes desejos silenciosos que tem adiado há anos. Aprender uma competência que não vai impressionar ninguém. Reparar uma relação danificada. Mudar de rumo profissional, mesmo que isso signifique voltar a ser principiante aos 40. Estas escolhas raramente maximizam a felicidade imediata. Quase sempre expandem a sensação de que a sua vida lhe pertence.

Há uma frase que o psicólogo repete, e que costuma ficar com as pessoas muito depois de a conversa terminar: “A felicidade é o que sente quando a sua vida faz sentido por um momento. O sentido é o que dá sentido à sua vida quando ela não parece feliz de todo.” Não é um slogan. É mais um contrato silencioso consigo próprio.

Provavelmente não vai acordar amanhã numa existência perfeitamente cheia de sentido. A vida real é caótica, cheia de contas, crianças a chorar, chefes duvidosos, noites em que o sono não vem. O sentido não é uma varinha mágica para nada disso. É a decisão de segurar o volante na mesma, de deixar de terceirizar a direção da sua vida para tendências, algoritmos e expectativas dos outros.

Talvez seja por isso que tantas pessoas que parecem felizes no ecrã confessam, quando a câmara se desliga, que se sentem estranhamente perdidas. E por que razão outras, que carregam cicatrizes visíveis, conseguem falar com uma calma quase palpável. Não porque sejam santos. Porque apostaram em algo que não desaparece quando a onda de dopamina rebenta.

O convite, no fim, é silencioso e radical ao mesmo tempo: deixe a felicidade ser um efeito secundário, não um destino. Diga sim às pequenas coisas com sentido que tem adiado. Diga não a algumas brilhantes e vazias. Diga a verdade um pouco mais vezes. Fique quieto tempo suficiente para ouvir o que a sua vida tem tentado dizer-lhe.

Depois veja, ao longo de semanas e meses, como a sua definição de “um bom dia” muda devagar. Não um dia em que se sentiu incrível do início ao fim. Um dia em que, cansado ou não, consegue olhar para trás e pensar: isto contou para alguma coisa. Isso, diria o psicólogo, é onde a felicidade começa a sentir-se, discretamente, em casa.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Diferença entre felicidade e sentido A felicidade é um estado emocional flutuante; o sentido é uma direção duradoura na vida Ajuda a compreender porque é que “ter tudo” não chega para nos sentirmos realizados
Tapete rolante hedónico Habituamo-nos rapidamente aos prazeres e às conquistas; o nível de bem-estar volta à linha de base Ajuda a sair da corrida sem fim rumo a “mais” e a procurar algo para além do próximo shot de prazer
Práticas concretas de sentido Honestidade de poltrona, pequenas ações alinhadas com valores, contributo regular Oferece gestos simples para construir uma vida mais coerente, sem virar tudo do avesso de uma só vez

FAQ:

  • É errado querer ser feliz?
    Não. A ideia do psicólogo não é demonizar a felicidade, mas deixar de a tratar como um objetivo direto. Quando se foca no sentido e nos valores, a felicidade tende a surgir como um subproduto, e não como um troféu.
  • Posso ter felicidade e sentido ao mesmo tempo?
    Sim, e muitas vezes sobrepõem-se. Momentos de ligação profunda, criatividade ou contributo podem ser simultaneamente significativos e alegres. A mudança é deixar o sentido liderar, em vez de perseguir sensações agradáveis a qualquer custo.
  • E se a minha vida me parecer demasiado comum para ter “sentido”?
    O sentido não está reservado para heróis. Pode viver em cuidar de um vizinho, criar filhos, fazer o seu trabalho com integridade ou mostrar bondade em pequenas interações. Comum não significa vazio.
  • Como é que começo se me sentir completamente perdido?
    Comece pequeno. Repare numa atividade esta semana que o deixe discretamente orgulhoso, em vez de apenas entretido. Repita-a. Escreva que valor ela toca (cuidado, coragem, curiosidade) e procure outra ação na mesma direção.
  • Procurar sentido torna a vida mais pesada?
    Pode torná-la mais intensa, porque você se importa mais. Ao mesmo tempo, muitas vezes reduz a ansiedade de fundo e a sensação de vazio. Pode ter mais dias difíceis, mas menos dias inúteis - e essa troca tende a ser estranhamente reconfortante.

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